Geografia da traição

O ministro das Finanças aproveitou o momento para repetir uma ideia que tem sublinhado, a de que este Governo conseguiu em dois anos dissociar Portugal da Grécia e aproximar-se da Irlanda.

7 de Junho de 2013

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Na semana passada, Vítor Gaspar atingiu o cúmulo da sua provocação às instituições e aos políticos portugueses. Algo que tem vindo a fazer continuadamente desde que resolveu cortar 50% no subsídio de Natal, naquela que foi a sua primeira medida no Governo logo em Junho de 2011, só para chegar ao fim do ano com um défice de 4,2%; muito abaixo da meta acordada com a Troika de 5,9% e muito além do Memorando que a tal não obrigava – portanto, tendo causado inutilmente um desfalque na classe média e no consumo interno que iria ter imediatas e fundas repercussões nas contas do Estado. Começava assim um ciclo de fanática destruição da economia ao arrepio de todas as cautelas e evidências, o qual nem agora com a guerra aberta entre o FMI e a Europa a respeito da matemática da austeridade dá sinal de ir parar por iniciativa deste Governo de mentirosos e incompetentes.

A chuva de Gaspar causou uma inundação de gargalhadas na última sexta-feira, a qual se estendeu até uma comissão parlamentar dias depois, para galhofa debochada do Álvaro. Foi apenas o mais recente episódio de um crescendo onde o procônsul da Troika se permite exibir em jeito de bravata ultra-sonsa o seu asco pelos representantes eleitos. Também nessa sexta admitiu que se tinha enganado nas ordens dadas ao tipo que lhe puseram ao lado para brincar aos primeiros-ministros. Parece que fez exactamente o contrário do que deveria ter feito, mas ’tá-se bem e não há cá desculpas e muito menos demissões, os portugueses aguentam tudo e mais alguma coisa. Somos as cobaias perfeitas.

Ao que ninguém deu atenção foi à frase em epígrafe, onde Gaspar despeja um sofisma que ilustra o que fizeram e estão a fazer a Portugal. Para o compreendermos na sua eficácia e consequências temos de recuar a Outubro de 2010, data em que António Borges é escolhido para dirigir o Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional. Este cargo era posto nas mãos de um português numa altura em que se apostava que Portugal não conseguiria resistir à pressão dos mercados, indo recorrer à ajuda externa algures em 2011. Borges ficava assim com o poder de elaborar as exigências do FMI nessa eventualidade. Bastaria a abertura de uma crise política para a situação periclitante do País não dar para qualquer outra solução a não ser a rendição aos credores. Foi exactamente o que se passou logo após a reeleição de Cavaco e chegando o plano a afrontar Merkel que pretendia dar a Sócrates a possibilidade de evitar o resgate. Para a Europa teria sido melhor seguir pela via das alterações ao PEC, dessa forma evitando que mais uma peça do dominó caísse, logo aquela colada a Espanha, e para Portugal estava em causa manter a plena soberania de modo a conseguir o ajustamento financeiro imposto pelos parceiros europeus com o menor dano económico possível. Esta realidade de Março de 2011 reúne neste momento um quase consenso nacional, pois contra factos não há argumentos, só sofismas.

Gaspar diz que com a sua educação caríssima e amor à pátria made in Bruxelas conseguiu livrar-nos dos horrores gregos e pôr-nos a caminho da verdejante Irlanda. O que Gaspar não diz, nem há quem lhe pergunte, é a razão de estar a gozar connosco num Governo que nasceu de nos terem afastado à canzana da Espanha e da Itália – países que têm acesso aos mesmo apoios que nós recebemos de uma Europa perdida no seu labirinto, mas que não aceitaram a demência de verem um conjunto de malucos a tratar os seus cidadãos como bandidos que têm de ser castigados ferozmente.

7 thoughts on “Geografia da traição”

  1. O esbatimento ideológica Esquerda/Direita há muito que vem sendo experimentado entre nós. Deveríamos por isso debater a desastrosa diluição da Esquerda tradicional, que em diversos aspectos deixou de constituir alternativa responsável a uma Direita em progressiva ascensão.

    Parece-me estarem hoje em queda as ideologias tradicionais, substituídas por uma ideologia única, sem corpo, sem rosto, e apenas episódicamente representada por burocratas de uma qualquer troika. Essa ideologia, o ECONOMICISMO (economia + “ismo”), materializa-se obviamente através dos chamados “mercados” e do “consumo” que os alimenta.

    A nós portugueses calhou-nos em desgraça uma colagem da Direita PSD+CDS aos pressupostos do economicismo experimentalista, em versão perigosamente radical, do qual temos sido mansas, indefesas e ingénuas cobaias.

    No entanto, a meu ver, há um novo factor neste quadro ideológico: a existência de alguns rostos visíveis, identificáveis. Um deles, Gaspar, com o seu semblante carregado e voz monocórdica é, sem dúvida, um dos representantes mais sinistros do economicismo europeu.

    Enquanto a Esquerda não produzir pensamento alternativo (e, consequentemente, acção alternativa), dificilmente escaparemos às garras dos senhores a quem este Gaspar presta serviço.

  2. Quero clarificar que ao referir a “diluição da Esquerda tradicional” não manifesto nostalgia, apenas decepção pela incapacidade das várias esquerdas assumirem responsabilidades históricas, que passam naturalmente pela capacidades de renovação e produção de pensamento novo.

  3. Gabo-lhe o esforço Val, por tão cedo começar a selecionar a “roupa suja” com que estes senhores do governo se vestem e nos querem vestir a nós.

    Obrigada

  4. Vítor Gaspar é um louco fanático. Um perigoso sociopata.

    E vive numa realidade paralela. Deve ser ràpidamente internado.

    Toda a gente sabe que Portugal não tinha que ser uma segunda Grécia. E muito em breve toda a gente vai saber que Portugal não tem feito outra coisa, desde 2011, que não seja, não digo aproximar-se, mas SEGUIR NO ENCALÇO da Grécia, o que é muito pior – pois a Grécia não pára! E ainda agora a sua procissão vai no adro…

    Para Gaspar, que percebe tanto desta Geografia como um borrego percebe de Urologia, dizer que Portugal se “afastou” da Grécia e se “aproximou” da Irlanda é como um mantra, ou uma avé maria, que o protege das tentações de usar a cabeça e pensar acima das crenças que lhe inocularam e da fé com que o atemorizaram. Ele não ousa pensar, não ousa abrir os olhos e, até àquele momento mágico em que os anjos se estatelam no soalho imundo duma qualquer casa-de-banho, há-de ir em frente na sua fantasia e, se o deixarem, arrastar o País para dentro do écran da mórbida televisão em que a sua mente sonha e vegeta.

    Não o acordem a tempo, não, e espetamo-nos todos com ele.

  5. Isso de afastar da Grécia e aproximar da Irlanda, desde a viagem do Fernando Magalhães que não quer dizer nada.

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