De um especialista em diálogo democrático

O que me preocupa, para além do episódio Miguel Sousa Tavares, é que para as instituições é muito mau quando o Presidente da República se encontra num contexto em que é possível que as pessoas lhe chamem nomes que não são mero ataque político, não é apenas a discrepância política, é uma coisa que é insultuosa. Porque depois, de repente, o diálogo democrático torna-se praticamente impossível.

Maio de 2013

Marcelo tem toda a razão: quando o Presidente da República passa a ser objecto de insultos generalizados algo está podre do reino da Dinamarca ao reino da Madeira. Mas, e não por acaso, foi preciso elegermos a figura mais importante da direita para vermos a Presidência da República conspurcada ética e politicamente para além do que pudéssemos imaginar nas eleições de 2006 e 2011. Acresce que o titular do cargo é um activo agente de suporte a um Governo que faz do empobrecimento fanático e do crescimento da miséria o seu programa político, pelo que ver a revolta popular a apontar impropérios na sua direcção será tão fatal como ver os rios a correrem para o mar.

Descontemos a situação e fiquemos pelo porta-voz da moralidade apregoada. Marcelo é um dos mais poderosos influenciadores da opinião pública, correspondendo esse poder a uma posição sem paralelo onde faz semanal, ou diária, propaganda ao serviço dos interesses do PSD e da oligarquia. Será que este passarão exige de si a decência que reclama ao povoléu? É ler:

Ele teve sorte e tirou proveito disso. É o que se chama o chico esperto. Fez um curso mais facilmente que o comum dos mortais e na casa comprou a mesma casa, que os outros compraram mais cara, mais barata.

Fevereiro de 2009

Marcelo Rebelo de Sousa considera que José Sócrates tem “uma relação difícil com a verdade”.

O antigo líder social-democrata disse ontem, na RTP, que “é muito difícil manter um mentiroso como primeiro-ministro, mas a situação do país impõe-no”, sublinhando que “está tudo mal explicado” na história de José Sócrates.

Fevereiro de 2010

Sócrates é daqueles cães que filam as canelas.

Dezembro de 2010

Corrupto, mentiroso e cão raivoso. Eis o que a prédica domingueira lhe permite dizer de um primeiro-ministro em funções, sem que se apanhe a contas com berbicachos no Ministério Público ou veja reduzido o cheque milionário com que se faz cobrar como super-vedeta da política-espectáculo.

Tenho especial admiração pelo topete de usar o insulto canino. Estamos perante um picanço daqueles que estão a chamar imediata resposta a punho e pontapé na falta de bengalas por perto. É que enquanto o vocábulo “palhaço” contém uma bonomia que, ao limite, ainda mantém uma ligação simpática, ou até empática, com o alvo, já “cão” transporta uma herança ancestral de absoluto desprezo que vem das profundezas da Idade Média e da mourama. Marcelo conseguiu assim dizer, para milhões de espectadores, que Sócrates era um filho da puta da pior espécie – ou seja, um cão que fila as canelas.

Marcelo, é o seu trabalhinho, nunca se inibiu ao longo do tempo em que Sócrates governou de explicar que a posição do Presidente da República era sui generis pois podia atacar o Executivo e o PS sem temer represálias, dada a punição popular usual para quem respondesse na mesma moeda ao Chefe de Estado, símbolo impoluto da unidade nacional. Isto era dito com um sorriso rasgado e constituía-se como público apelo para que Cavaco liderasse a oposição. Cavaco nunca se fez rogado, nem de tal motivação precisaria, tendo merecido o aplauso de Marcelo aquando do comício da tomada de posse em 2011, passando Marcelo a louvar-lhe o empurrão decisivo para derrubar Sócrates. Contudo, ainda mais obsceno é o branqueamento do Professor ao outro Professor, ocorrido no momento em que a Inventona das Escutas tinha sido desmascarada e havia que rapidamente conter os danos e salvar a face a Cavaco. Foi assim, fica como ex-líbris da palhaçada que é a direita portuguesa:

Marcelo Rebelo de Sousa considera que o caso das alegadas escutas do Governo a Belém não passa de um «equívoco» que se resolve com um «puxão de orelhas» ao assessor, que terá sido a fonte da notícia.

Fonte

Gaspar deve ir embora, se não quer prestar contas aos portugueses

Vítor Gaspar admitiu hoje que, segundo as novas regras europeias, Portugal poderá ser beneficiado com novas flexibilizações nas metas do défice público, mas considerou que perguntas que vão no sentido de saber se o Governo já está a trabalhar nisso são de “uma enorme deselegância”.

Deselegância? Há enormes problemas com Vítor Gaspar e dispenso-me de enumerar os académicos e técnicos. Mas esta veneração, este temor doentio de suscitar a ira dos “deuses” da Europa ultrapassa todas as marcas.

O Expresso e o lobo

A manchete do Expresso do último sábado sobre o corte de salários da Função Pública provocou grande polémica e uma mão-cheia de reações precipitadas e preguiçosas. A polémica é natural, mas as reações precipitadas são infelizes. Na manhã de sábado, líderes políticos da oposição e sindicalistas, entre outros, acusaram o Governo de “plantar” notícias para espalhar o pânico. A acusação não surge por acaso, já que o Governo tem tido essa prática. Acontece que, neste caso, a notícia decorreu de contas feitas pelo Expresso, e que o Governo se limitou a confirmar, como o nosso artigo explicava. Mais grave, as nossas contas estavam ao alcance de todos, pois foram feitas a partir de documentos públicos pelo Governo e entregues pelo Governo aos parceiros sociais.

Os jornalistas do Expresso cobrem áreas, relacionam-se com fontes e tentam obter informações das fontes em primeira mão. Mas também trabalham sobre dados públicos e que estão à vista de todos. Muitas vezes uma notícia está no resultado de uma conta que ninguém se lembrou de fazer.

Editorial do Expresso (sem link)

Curiosamente, nesse sábado, partidos de oposição e centrais sindicais acusaram o Governo de “plantar” notícias para aterrorizar os portugueses e para testar as suas próprias políticas. E todo o debate se fez à volta desta pretensa malfeitoria do Governo.

Qual é a verdade? A verdade é que, sendo certo que muitas notícias já foram “plantadas” por este e outros Governos, foi um jornalista (João Silvestre) que chegou àquela conclusão. E chegou, porque sendo licenciado em Economia, sabendo fazer contas e tendo acesso a todos os documentos que todos os partidos e centrais tinham, porque eram públicos, fez o seu trabalho. E concluiu que o corte é de 4%. Ou seja, o jornalista fez o trabalho que partidos e sindicatos poderiam e deveriam ter feito e não fizeram.

(…)

Em caso de dúvida, tratam jornais e jornalistas como meros moços de recados (que também os há, sublinho que não faço defesas corporativas)

(…)

Chega a ser ridículo que um jornalista sozinho faça o que as máquinas dos partidos e dos Governos deviam fazer e não fazem, mas acima de tudo é triste.

Henrique Monteiro

Estes dois textos (bolds meus) simbolizam tanto do que, a meu ver, está errado no nosso jornalismo que tenho até alguma dificuldade em saber por onde começar. Vou tentar fazer um resumo do que dizem: há um trabalho de investigação feito por um jornalista. Esse trabalho é acusado de ser uma mera notícia plantada por várias pessoas e organizações. O Expresso lamenta essas reacções, porque embora haja muitas notícias colocadas nos jornais, presume-se que no Expresso também, esta notícia, neste caso, não é uma delas. Neste caso, até é um trabalho sério. E sendo assim, as críticas são injustas, porque antes de se acusar um jornal que considera, pelos vistos, perfeitamente normal publicar notícias plantadas pelo governo, convinha verificar se a notícia é um trabalho sério, porque em alguns casos, como este, até pode ser. E neste caso é simples, os dados são públicos, façam o favor de fazer vocês a investigação, e as contas, para verificar se o trabalho é sério. Porque é, mas podia não ser.

Depois, há este conceito, a meu ver espantoso, implícito no editorial e explicito no texto do Henrique Monteiro: que é uma tristeza que tenham que ser jornalistas a investigar e verificar factos, a fazer as contas e apresentar conclusões. Ora, não sou jornalista e posso por isso estar enganado, mas isso não se chama, como dizer, “jornalismo”? O Henrique está a queixar-se de quê, exactamente? Que as organizações e sindicatos não tenham feito as contas para as apresentar, papinha feita, aos jornalistas? Que de seguida fariam o quê, publicariam sem verificar? Isso não é o que se chama “plantar uma notícia”?

Bom, no meio desta confusão, deixem-me então fazer uma sugestão ao Expresso e ao Henrique Monteiro. Para evitar estas situações desagradáveis e injustas no futuro, e ajudar os vossos leitores a distinguir entre um trabalho sério e uma notícia plantada pelo governo, uma vez que pelos visto é perfeitamente normal que estas convivam juntas no mesmo jornal, que tal inserir um símbolo, antes de um qualquer trabalho jornalístico, para nos indicar se estamos a ler um trabalho sério ou uma notícia plantada? Uma espécie de selo que qualidade que ateste que o trabalho jornalístico apresentado foi feito de maneira séria, segundo regras deontológicas precisas, baseado em factos, e alvo de revisão ou verificação antes de ser publicado. Algumas organizações noticiosas internacionais já usam este selo de qualidade. Por exemplo, este é o selo de qualidade que o New York Times utiliza para garantir a seriedade das histórias que publica:

Selo de qualidade

Mas, enfim, é uma mera sugestão disparatada de alguém que não é jornalista. Apenas um leitor que acha por vezes difícil distinguir um trabalho sério de uma história plantada, porque são muito parecidos. E por isso, presume que todas, pelo menos, podem ser plantadas. Pelos vistos,  no Expresso, concordam.

Siga o circo porquê?

Neste país de opereta em que o primeiro-ministro não existe, não se percebe se Vítor Gaspar e Cavaco Silva fazem ambos parte de um mesmo Governo, se de repente se concertaram e reina a harmonia ou se olimpicamente se ignoram e agem em total autonomia e eventualmente em divergência.

Vítor Gaspar parece não se desviar um milímetro da postura que assumiu quando aqui chegou: subserviência para com os credores e zelo muito superior ao admissível e ao que lhe era exigido, aplicação rigorosa de um modelo austeritário que idolatrava baseado em teorias neoliberais que pretendem reduzir as funções do Estado ao mínimo dos mínimos, empobrecer os trabalhadores para tornar as empresas competitivas face à Europa de Leste, à Índia e à China e aumentar o desemprego quase sem limites como forma de exercer pressão sobre os salários. Toda a sua política piorou o que já de si seria mau. É nessa linha que o vemos a prestar contas e pedir ajuda a Schäuble, o seu grande protetor, e a repetir de forma patética que o “ajustamento” está a ser bonito, a correr muito bem e que estamos prontos para o investimento, enquanto impõe mais 4800 milhões de euros de cortes e, com eles, dá nova machadada na procura e na economia. Mas continua em funções. Porquê, não se sabe.

Ao mesmo tempo, porém, Cavaco resolveu assumir algumas iniciativas que parecem interferir na esfera do executivo. Não contente com a convocação do Conselho de Estado para discutir a política pós-Troika (não esquecer que este órgão meramente aconselha o Presidente), como se lhe competisse a ele, decidiu também, segundo se lê no Expresso, reunir, em Julho, economistas “de vários quadrantes” (imaginamos quais são) para continuar a discutir o mesmo tema, dir-se-ia que na mira de construir uma solução para os problemas da economia, mostrando não ter qualquer confiança em Vítor Gaspar e pensando que o orienta de alguma maneira.

Tudo isto é preocupante. Das duas, uma. Ou Cavaco, aborrecido na Presidência, arranjou forma de se divertir (já que enfrentar na rua o povo hostil está fora de questão) brincando aos primeiros-ministros como antigamente, quando era feliz (e Gaspar, cínico, deixa-o brincar), ou anda a querer mostrar a Gaspar que há alternativas ao seu rumo ou falta dele. Mas há ainda uma terceira hipótese: manobras de diversão enquanto Gaspar faz o trabalhinho, com o qual Cavaco passou a concordar inopinada e incondicionalmente, o que demonstra um grau supremo e nunca visto de cooperação e comprometimento. O que nos leva a perguntar o que terá mudado desde o discurso da espiral recessiva, agora já não um receio, mas uma trágica realidade.

Toda esta estranheza de papéis e a nebulosa que reina nos dois principais órgãos de soberania é ao mesmo tempo causa e sintoma da podridão da nossa democracia. Um governo incompetente e desmotivado, mas obrigado a arrastar o espetáculo, um ministro das Finanças que tudo falha mas se atém obstinadamente ao seu modelo, buscando a proteção de uma potência estrangeira com interesses divergentes dos nossos, e obrigado também a números circences como conferências a elogiar o modelo falhado ou discursos otimistas sobre novas etapas radiosas, proferidos sobre canhões. Em cena também, o artista convidado Paulo Portas, a quem a vida não corria mal, mais fita menos fita, mas cujos passos maiores que a perna o podem levar, entretanto, a fazer umas contas mais sérias. Introduz suspense. Ousará romper?

O agora oficialmente “palhaço” de Belém optou por se juntar a esta tropa fandanga, para ainda maior descrédito de todos. Mais dois anos disto, ó Paulo Portas?

Comunicado do Sindicato dos Palhaços

O Sindicato Nacional dos Palhaços, Histriões, Jograis, Bobos, Profissionais de Stand-up Comedy e Afins do Sul e Ilhas divulgou hoje um comunicado, que abaixo reproduzimos com a devida vénia e cambalhota:

O SNPHJBPSCASI, reunido de emergência este sábado para apreciar várias notícias que nos últimos dias têm sido divulgadas sobre as declarações do sr. Sousa Tavares acerca do sr. Cavaco Silva e sobre a abertura de um inquérito às mesmas pela Procuradoria-Geral da República, vem tornar público o seu mais veemente repúdio pelas palavras do sr. Sousa Tavares, que considera altamente ofensivas e baixamente lesivas do bom nome da classe que este sindicato representa, dada a comparação degradante que essas palavras estabelecem entre os genuínos profissionais da indústria espirituosa e o referido sr. Cavaco Silva, que não é nem nunca foi palhaço, não é membro do sindicato, não tem carteira profissional nem consta que jamais tenha feito alguém esboçar o mais leve sorriso.

Como é do conhecimento geral, o sr. Cavaco Silva é um indivíduo que desconhece totalmente o que seja humor, graça ou espírito, razão pela qual carece em absoluto de habilitações para poder trabalhar na nossa indústria. Trata-se de uma pessoa carrancuda, mesquinha, bisonha, tristonha e enfadonha, logo completamente desqualificada e imprópria para consumo do público. Chamar palhaço ao sr. Cavaco Silva é tentar descaradamente fazer passar gato por lebre e, como tal, um atentado à saúde mental pública, facto para o qual o nosso sindicato não deixará de chamar a atenção da ASAE.

O SNPHJBPSCASI aplaude as diligências encetadas pelo Ministério Público, na esperança de que esta grave ofensa à imagem, reputação e goodwill da nobre actividade histriónica dê origem a um processo contra o sr. Sousa Tavares, tanto mais que este senhor, em lugar de se retractar devidamente e apresentar um claro pedido de desculpas à nossa classe, apenas se desculpou pifiamente, ao declarar que foi “excessivo” chamar palhaço ao sr. Cavaco Silva. Ora o ambíguo e eufemístico termo “excessivo” fica muito aquém da justiça que nos é publicamente devida, pois o sr. Sousa Tavares deveria ter reconhecido que foi não “excessivamente”, mas sim tremenda e escandalosamente benevolente ao conceder o cobiçado título de palhaço ao deprimente, desinteressante e enfadonho sr. Cavaco Silva.

Jamais apanharão Seguro a caminho de Damasco, por causa das coisas

A recente conversão de Lobo Xavier à objectividade histórica, declarando que a entrega de Portugal à Troika foi obra do PSD e do CDS, chega com dois anos de atraso. Mas chegou, honra lhe seja feita. É o equivalente, para os direitolas, à queda de Saulo a caminho de Damasco. Porque, a haver módica coerência, Lobo Xavier deveria a partir de agora arrepender-se da sistemática perseguição que fez ao Governo minoritário de então, tendo alegremente contribuído para os assassinatos de carácter dirigidos a Sócrates e a qualquer um que estivesse ao seu lado. E não só. Teria igualmente de completar a análise, avaliando e qualificando a acção dos agentes que podendo ter protegido a população portuguesa das piores condições possíveis numa período de crise internacional inaudita e colossal não o fizeram, antes se aproveitaram das fragilidades sistémicas e conjunturais da nossa pertença à União Europeia e à Zona Euro para se vingarem e conquistarem o poder. O preço é desastroso, duplamente catastrófico: não só estamos sujeitos a constrangimentos muito mais penosos e difíceis de alcançar como temos na governação os mais ineptos e ainda os mais fanáticos da destruição económica e do sofrimento como castigo moral.

Contudo, não deixa de ser ridículo ver aqueles que tratam Lobo Xavier como alguém que acabou de descobrir a pólvora, quando ele é apenas um tipo que passou dois anos a apoiar o vizinho que batia na mulher, dizendo-lhe que ela era uma puta reles, só para de repente mudar o bico ao prego por razões não explicadas. E não deixa de ser patético – ou melhor: trágico – constatar que dois anos depois um passarão do calibre e tipologia de voos como Lobo Xavier é capaz de verbalizar aquilo que nunca até hoje ouvimos ao secretário-geral do PS, o dito líder da suposta oposição.

Os que estão contra a co-adoção, não por causa do superior interesse da criança, que também defendem, tal como, dizem, defendem a democracia laica, não deviam reagir a textos destes?

“A votação de hoje na assembleia da república que aprovou a “co-adopção” por parte de sodomitas sofregamente sobrepostos, macaqueando, em frenesins lascivos e invertidos, o casamento, é, para quem ainda tivesse dúvidas, a prova definitiva da entrega, ou “consagração”, de todos os partidos do parlamento, a Lúcifer.
A fuga cobarde e hipócrita de deputados do psd do hemiciclo, a hedionda votação favorável de 16 deles, a dolosa abstenção de três, que se somaram a outros tantos fingidos do cds, indica clarissimamente a cumplicidade activa destes dois partidos no resultado ignóbil da votação. Já o facto, de não terem posição enquanto partidos e de concederem “liberdade” de voto em mais uma questão inegociável e essencial para o Bem-comum, meta de toda a acção política, revelava claramente a infame cooperação com o mal que se preparava.
Sejamos cristalinos: Não só é totalmente impossível estar de bem com Deus e com o Diabo; mas também o é estar de bem com o valor transcendente da pessoa humana (e, ainda, com os bens da sociedade e da nação) e com o Maligno. Pelo que concluo que actualmente não existe nenhum partido político com assento parlamentar no qual um cristão possa votar ou com o qual possa cooperar. Quando a circunstância que nos é imposta nos quer forçar a escolher entre Mao Tsé-Tung e Estaline a única resposta legítima é a insurreição evangélica (o que se tem passado em França é um exemplo a considerar atentamente). A continuarmos nas estratégias de colaboração com alguns partidos, em nome do mal menor, temos vindo a escavar alegremente a vala comum, à beira da qual seremos eliminados e na qual seremos sepultados, caso não cessemos, de imediato, essas cretinices”.
Padre Nuno Serras Pereira
 
Continuar a ler a prosa que ofende a democracia, o parlamento, o psd, o cds e todos os restantes partidos sob o título “Quando Santanás domina os partidos do poder”
 
Por exemplo, o Abel Matos Santos, que tem por boa companhia de escrita o Padre Nuno Serras Pereira, o tal que já chamou todos os nomes imaginários aos “sodomitas”, não refuta o texto que aqui reproduzi?
Não. Porque há gente que até sabe que entre arrancar um filho à sua mãe e a institucionalização da criança é logicamente preferível a primeira opção, mas o que não aguenta, não aguenta, é que a mãe seja lésbica.
Há gente, ai, pois há, que entre a sua homofobia absoluta e o superior interesse da criança escolha a primeira.
E as crianças?
Azar..

E enquanto o teletransporte não passa de desejo

Esta ideia de substituir o asfalto por painéis solares, embora não concretizável em dois dias, parece-me genial.

The idea is as simple as it is ingenious. Wherever roads are laid, solar panels could go instead. They would generate electricity, which would in turn be fed into the grid. Thus, oil is conserved twice: Electric cars could be charged with the energy produced by the panels, and the panels would replace the use of asphalt, the production of which requires petroleum.

(ler mais na Der Spiegel)

Despesismo, por favor, regressa. Estávamos tão certos!

Eh, Valente!

Cavaco está completamente isolado, a presidência faliu e, por consequência, o regime deixou de existir. Isto segundo Vasco Pulido Valente, ontem no Público, não se precipitem os caros leitores.

Disparando atestados de incompetência a tudo o que mexe em Portugal e deplorando que ninguém tenha ainda percebido a urgência de uma “reforma radical do Estado”, VPV apontou generosamente o meio de salvar a pátria do caos:

um governo francamente presidencial, escolhido pelo povo e que, da administração local à economia, arrume a casa”.

Passo a explicitar o que VPV não detalhou nesta bocarra, certamente por falta de tempo

Cavaco acorda às 3h da manhã no meio de uma visão apocalíptica: está completamente isolado, até a Maria se pirou. Depois de beber uma água das pedras e fazer chichi, Cavaco decide dar de imediato posse a um governo francamente presidencial, sem sequer avisar o Coelho. Convoca de urgência VPV a Belém, nomeia-o chefe da Casa Arrumada e pede-lhe nomes para o elenco messiânico, que Cavaco quer chefiado pela Ferreira Leite. VPV concorda com a escolha francamente presidencial e sugere-lhe dez nomes para subsecretários. Assentam os dois em que não haverá ministros nem secretários de Estado, para impor mais respeito ao executivo. Haverá também dois lugares de subcomissários do povo, a preencher pelo PCP, se estiver nessa. Constança Cunha e Sá não responde a dezoito chamadas do telemóvel, mas Cavaco indigita-a mesmo assim para a propaganda nacional. VPV aceita com a condição de ele próprio ficar com o pelouro da contra-propaganda. O governo toma posse secretamente às 6h 37, depois de plebiscitado pelo pessoal de serviço ao palácio, em pijama, simbolizando o povo soberano a acordar de um profundo sono de décadas. Para comemorar, Cavaco e VPV vão acabar a noitada no bar Good Ol’Days, em Cascais, de onde são evacuados por uma ambulância às 8h45, que os deposita na secção de intoxicados de S. Francisco Xavier.

Perguntas simples

O circo montado no Palácio de Belém desde 2006 deixou de ter palhaço? Como não há dinheiro, é por isso que não pode haver palhaço? O palhaço rico já não admite palhaçadas aos palhaços pobres? A Inventona das Escutas não foi um número que exigiu a reunião e coordenação de vários palhaços? A palhaçada dos discursos na Assembleia da República, feitos por um famoso palhaço na sua tomada de posse em 2011 e no 25 de Abril de 2013, era para rir ou para chorar?

Afastar malta jovem do estudo da Constituição: um novo desígnio da direita

Nem todos tiveram a oportunidade de assistir ao debate, há uns dias, sobre uma proposta de resolução dos Verdes que recomendava ao Governo o acesso à Constituição (CRP) por todos os alunos e a inserção do ensino da mesma nos programas curriculares.

Naturalmente, caberia ao Governo a concretização da recomendação. Não se tratava de pedir a alunos de 15 anos que estudassem a lei das leis como a mesma é estudada numa disciplina de direito constitucional no curso de Direito.

O que estava, e bem, em causa era permitir que os estudantes concluíssem a sua escolaridade com uma capacidade de cidadania acrescida. Saberem o que é a CRP; conhecerem os seus princípios básicos, como o da igualdade; conhecerem os (seus) direitos e deveres fundamentais; perceberem o sistema político no qual estão integrados, desde logo pelo direito ao voto; nesse sentido, por exemplo, ser-lhes facultado o estudo dos órgãos de soberania e das respetivas competências fundamentais; enfim, isto.

Para surpresa de toda a esquerda, a direita levantou-se como um equinócio contra a proposta. Como se a CRP fosse esquerdista ou ideológica ou rígida e aleijasse menores.

Sendo a CRP naturalmente de todos e tendo a direita votado favoravelmente todas as revisões constitucionais, desde logo ao lado do PS, a argumentação no debate foi um embaraço.

Um Deputado do PSD explicou como, noutras disciplinas – como a de história – se ensina a evolução constitucional portuguesa desde 1822. Sim, dizia, os alunos sabem que depois houve a Carta de 1826 e – pasme-se – também estudaram a primeira Constituição republicana, a de “1933”. O Deputado, provavelmente escutado por jovens, não sabia que deu-se o caso de uma revolução republicana em 1910 e de uma consequente e primeira Constituição republicana, a de 1911. Parece que o republicanismo constitucional se iniciou, então, com uma Constituição fascista.

Dir-se-á que erros acontecem, mas os Deputados escolhidos para intervir devem ser os mais preparados na matéria em questão.

Sendo evidente para todos que têm filhos na escola que não existe qualquer conhecimento do conteúdo da nossa CRP, por quê furtar aos jovens um estudo para a cidadania que passe pelo que referi acima?

Mais extraordinário foi ouvir um Deputado do BE contar que resistira – como ação antifascista – a que lhe ensinassem ao que quer que fosse da Constituição de 1933, escrita pela pena de Salazar.

Ainda não tinha concluído a sua intervenção a favor do ensino da CRP (democrática) quando lhe foi apontada a “contradição” (???) que é ter resistido ao ensino da Constituição de 1933 e querer agora que os estudantes tenham acesso ao conteúdo da atual.

Não sei o que se passa. Nunca tinha assistido a um divórcio litigioso entre a direita eleita com base na CRP e a própria CRP.

Sei que, aqui, quem pagou esse divórcio foram os estudantes do nosso sistema de ensino.