O que há com o diabo?

O jornal i não para de nos informar sobre o aumento de casos de “possessão demoníaca” e sobre o recrudescimento do exorcismo na frente católica, assim como sobre a reentrada do Diabo (com maiúscula) nas homilias do novo papa Francisco. Quase todos os dias há atualizações.

Para mim, que observo de fora, o Diabo faz todo o sentido e introduz a indispensável harmonia no edifício religioso – não se compreenderia que existisse um ser infinitamente bom e misericordioso, que nunca ninguém viu, mas alguns dizem sentir, e não existisse o seu contraponto, um ser mefistofélico que tudo faz para desviar os pobres homens da rota do paraíso. E que também nunca ninguém viu, mas cuja ação malévola, pelos vistos, alguns sentem. Ah, que seria do bem sem o mal? Da bonança sem a tempestade?

Mas somos também informados de que apenas podem ser exorcizadas as pessoas que não tenham doença física ou mental e de que a Igreja está a recrutar especialistas para a ajudarem a avaliar os diferentes casos. Empregos, portanto, boa notícia. Não li qualquer estudo sobre o perfil ou a origem das pessoas que atualmente se consideram possuídas, mas estou em crer que da América Latina não vêm apenas maçãs e uvas chilenas, carne argentina ou frutos tropicais para a Europa. Um papa para apascentar as almas que também aqui têm rumado também já veio. Faz sentido.

Os melhores tempos já chegaram

Vivemos o melhor tempo de sempre para cumprir o ideal democrático. Habitamos num Estado de direito, rodeados de países onde igualmente vigora o Estado de direito e a democracia está nestes regimes consolidada através de inúmeras associações de representação e defesa dos direitos de grupos, minorias e indivíduos. Existimos numa era e numa cultura onde a tecnologia permite a comunicação livre, múltipla e instantânea entre a enorme maioria dos cidadãos. Somos protegidos por sofisticados, complexos, robustos e ubíquos sistemas de alimentação, trânsito, saúde, higiene, educação, comunicação social, bombeiros, polícia e forças armadas.

Então, donde vem a pulsão contra os políticos e os partidos, a qual é concomitantemente uma pulsão contra a democracia? Virá da gravidade da crise económica, claro, mas também de duas decadências: a da direita portuguesa, que não tem passado de um clã de interesses oligárquicos e que cavalgou o populismo por não ter outro projecto eleitoral; a da esquerda portuguesa, a qual é sectária, inclusive dentro de parte do PS, preferindo substituir quem ousa governar ao centro até pela direita mais violenta com medo que se exponha a completa irrelevância e alucinação da sua superior ideologia. A unir estas duas decadências o mesmo conservadorismo, o mesmo provincianismo, a mesma irresponsabilidade.

A democracia não consiste em governarmos todos, nem em votarmos todas as leis. A democracia muito menos consistirá em estarmos de acordo a respeito do destino comum. Trata-se de outra coisa. Algo congénere às monarquias ou tiranias – usar o poder. Esse, num sentido antropológico, é o único problema político com que nos deparamos. Quem deve liderar? Nas democracias, experiência recentíssima no devir histórico, escolhemos esse chefe comunitariamente. Ora, a democracia será tão mais forte quão mais iguais ao líder forem aqueles que escolham entregar-lhe o poder. É por isso que estes são os melhores tempos para realizarmos o ideal democrático – que o mesmo é dizer, para nos realizarmos como seres voluntariamente políticos: reis do nosso destino, súbditos da nossa liberdade.

Big ódio

É o que sinto quando oiço estes dois novos bordões que infectam a fala de várias excelentes pessoas que me rodeiam quotidianamente:

by the way

whatever

De onde veio esta praga? Quem foi o “stupid bastard” que começou esta “fucking” moda? Que grande “asshole” és tu, pá.

¡No pasa nada!, afiança a SEDES

A SEDES é bem o espelho da decadência da direita portuguesa. De 2008 a 2011, esta associação de pândegos trabalhou afanosamente para o derrube dos socialistas e a entrega do poder ao PSD. Fizeram 4 Tomadas de Posição que foram outros tantos exercícios de difamação dos governantes ao tempo. Eis o que diziam de Portugal há 5 anos:

Sente-se hoje na sociedade portuguesa um mal-estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional.

[…]

O mal-estar e a degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento. E se essa espiral descendente continuar, emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever.

Fonte

Portantos, bá la ber, não se faz a brincadeira por menos: a coesão nacional está em risco, o regime está prestes a ir abaixo. Mas porquê? Que estaria a acontecer no final de 2007 e princípios de 2008 para levar a SEDES a declarar a iminência de uma guerra civil? Explicações não faltam, e vão todas dar ao reformado de Belém e aos casos finalmente descobertos de ilegalidades escabrosas e roubalheira à fartazana na banca do laranjal.

Será essa filiação que igualmente explicará o presente silêncio dos mesmos excelsos senhores numa altura em que a real degradação atingiu e contaminou todos os órgãos de soberania sem excepção. Aquilo a que assistimos no País nestes dias de passadismo não tem paralelo com nenhum outro período da nossa História em democracia, pois nunca antes tivéramos um primeiro-ministro completamente inepto para a função e moralmente indigno para o cargo, a que se junta uma coligação governativa onde a média da idade mental ronda os 12 anos, e ainda se acrescenta um Presidente da República conspirador, rancoroso, vingativo, soberbo, burro que nem uma porta e pírulas.

A verdade verdadinha é esta: a direita portuguesa não pode dar o que não tem – coragem.

Publicidade da casa

O nosso Vega9000 saltou hoje para toda uma página do DN pela mão da Fernanda Câncio. Com fotografia e tudo. Para quem não sabia, além de blogger, o Vega9000 tornou-se um famoso tuiteiro. A assunção da personalidade do Passos Coelho e do respetivo “pensamento” numa conta Twitter é o tema do artigo da Fernanda Câncio.

Malta mais cusca, se quiserem ver com os vossos olhos, toca a comprar o jornal, porque em linha não parece estar acessível. Mas deixo mesmo assim a transcrição do texto:

Desempregado de 39 anos, humorista amador, resolveu começar a ‘ imitar’ o PM. Já foi levado a sério até por um repórter do ‘ Wall Street Journal’.
Na quarta-feira, Edward Harrison, do site de especialistas em economia e finanças Credit Writedowns, citou, no seu Twitter, traduzindo-a para inglês, uma frase atribuída a @ Passos_ PM: “A economia contraiu 3,9% portanto vamos redobrar a austeridade e cortar mais”, imediatamente retuitada (citada) pelo repórter do Wall Street Journal Charles Forelle. Quatro minutos depois, uma seguidora portuguesa avisava-o: “Edward, não sei se sabe mas essa conta é satírica.” Resposta: “É muito satírica porque é muito verdadeira. :-).”

Nuno Salgueiro filiou-se no PS em 2002, depois de Ferro perder as legislativas para Durão. (foto)

Nuno Salgueiro, 39 anos, designer industrial no desemprego e atualmente estudante de Engenharia Mecânica no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, engasga-se a rir ao comentar a ocorrência. Não é a primeira vez que alguém assume que a sua conta satírica Pedro o PM (@ Passos_ PM), em cuja nota biográfica se lê “Oriento a minha vida pelos 5 pês: Pedro, Pai, Primeiro- ministro, Patriota e Pin. Também faço farófias” é mesmo do primeiro-ministro português – há mesmo, diz, quem o insulte pensando que está a insultar Passos Coelho na cara –, mas desde que foi criada, em dezembro de 2012, ainda não tinha sucedido com especialistas estrangeiros de finanças. Certo é que Nuno, que se assina @ Vega9000 no Twitter e no blogue Aspirina B, algumas vezes usa frases “verdadeiras” de Passos (assinalando-as com um asterisco nesse caso). E a ideia de base do seu exercício é mesmo a de ser difícil distinguir os seus tuites “a gozar” daquilo que o primeiro-ministro diz. “‘ Surgiu- me quando estava a ouvir um discurso de Passos e a comentá- lo no Twitter. Disse: ‘ Vou escrever dois ou três tuites em passês’, aquele tipo de discurso em que se começa a dizer uma coisa e se acaba a dizer outra completamente diferente. Aí lembrei-me de criar uma conta especificamente para isso. E é muito fácil de fazer, basta olhar para os discursos dele com olhos de ver. A ideia é desconstruir o que ele diz, que parece sério e pomposo mas é completamente sem sentido. E de vez em quando escrevo mesmo tal qual o que ele disse, assinalando com asterisco, e parece na mesma uma anedota.” A piada vai ao pormenor de a conta @ Passos_ PM só seguir outras duas: a de Merkel e a de Schäuble (o ministro das Finanças germânico).

Mantendo a sátira em balizas éticas – “Nunca uso família a não ser a Laura [ mulher de Passos], mas isso porque o próprio usa” –, Nuno, casado, com dois filhos ( um rapaz e uma rapariga) e militante do PS desde a derrota de Ferro Rodrigues contra Durão (“Eu e a minha namorada, hoje mulher, falávamos de nos inscrevermos e pensámos: ‘ Se há boa altura para o fazer é agora.’”), anota a diferença entre o discurso de ódio, pessoalizado, que existiu contra o Governo de Sócrates e a oposição atual. “Agora, que a situação do País é muito pior, não se vê isso. Ainda bem, mas é uma diferença muito curiosa.” Recorda por exemplo que o blogue onde escreve, o Aspirina B, chegou a ser acusado, até por Pacheco Pereira, de ser pago pelo Governo. “Olho para essas coisas que Pacheco Pereira disse e escreveu e penso ‘ que pena, que desperdício.’ É uma pessoa muito inteligente que se deixou levar para a coisa fácil, para os caminhos do ataque pessoal. É como ver um filósofo brilhante a discutir e a dizer ‘ A tua mãe é isto.”
A propósito de mães, o tweet até agora mais popular do Pedro o PM foi a elas alusivo: “Bom dia da mãe. Para celebrar, decretei q hoje o estacionamento no aeroporto é grátis. Demorem o tempo q quiserem a despedir-se dos filhos.” Mas o autor ficou surpreso com o sucesso de outro, muito mais elitista: “Boa tarde. Devido a uma embalagem suspeita evacuámos o ministério das finanças. Afinal era um livro de Keynes, por isso evacuámos outra vez.”

Tratando Paulo Portas como “o Terceiro” ( por Passos ter dito numa entrevista que o ministro dos Negócios Estrangeiros é a terceira figura do Governo) e usando de uma ironia tão subtil como arrasadora, de que o tweet “Bom dia. É falso que o governo esteja a negociar o segundo resgate. Quando vier, aceitaremos sem qualquer negociação” é um bom exemplo, Nuno Salgueiro pede meças aos humoristas profissionais que têm contas no Twitter. Além de, claro, ao primeiro- ministro.

Contradições do suicida de Notre-Dame

O ensaísta de extrema-direita que ontem se suicidou no altar da catedral de Notre-Dame em Paris tinha uma visão nacionalista e xenófoba da França. Era contra os imigrantes e contra o que chamava “o crime” da “grande substituição da população da França e da Europa”. Numa carta de despedida, lida numa rádio conotada com a direita, a Radio Courtoisie, escreveu:

«Je crois nécessaire de me sacrifier pour rompre la léthargie qui nous accable. J’ai choisi un lieu hautement symbolique que je respecte et admire. Mon geste incarne une éthique de la volonté, je me donne la mort pour réveiller les consciences assoupies. Alors que je défends l’identité de tous les peuples chez eux, je m’insurge contre le crime visant au remplacement de nos populations. Je demande pardon par avance à tous ceux que ma mort fera souffrir. Ils trouveront dans mes écrits récents la préfiguration et les explications de mon geste. »

Declarações grandiosas e intensas, sem dúvida.

Recentemente, e daí a importância mediática do seu gesto, vociferou e mobilizou-se contra o casamento dos homossexuais. Mas a mistura dos temas “nacionalismo identitário” e “homofobia” revela a grande confusão que iria na sua cabeça perturbada, eventualmente causa direta do suicídio:

«Le projet de mariage gay a été ressenti comme une atteinte insupportable à l’un des fondements sacrés de notre civilisation », écrit-il. Ce mardi matin, il postait un article intitulé « La manif du 26 mai et Heidegger », dans lequel on pouvait lire : « Il ne suffira pas d’organiser de gentilles manifestations de rue pour l’empêcher. […] Elle devrait permettre une reconquête de la mémoire identitaire française et européenne, dont le besoin n’est pas encore nettement perçu ».

Como se fossem os islamistas a aprovar o novo casamento. Pelo contrário. Estou em crer que muitos dos que engrossam as manifestações algo surpreendentes a que assistimos em França serão muçulmanos. Acontece que, se há “civilização” que facilmente considerará, quando porventura um dia for questionada, tal casamento “um atentado insuportável a um dos seus fundamentos sagrados” é a civilização islâmica no seu estado atual de radicalização: não só não reconhece qualquer direito aos homossexuais, como também não admite homossexuais. Um grande, gigantesco, ponto em comum, portanto, entre a civilização deste francês puro-sangue e a deles, a dos “afro-magrebinos”, que Dominique Venner se esqueceu de ter em conta.

Sem prejuízo do combate a religiões, leis e práticas retrógradas, um combate de todos os dias em França e noutros países, e que será sempre necessário enquanto houver pensamento e racionalidade, este é mais um a quem não faria mal estudar melhor a história e a geografia da humanidade e, sobretudo, a sua própria origem.

Demite-te, filho

O pai de Passos Coelho, fazendo eco da reclamação da oposição, aconselha o filho a demitir-se. A razão paternalmente invocada é “que isto não tem conserto”. Não é de agora, “há muitos anos” que isto não tem conserto ‒ esclarece. E revela que o filho “está morto por se ver livre disto”. Quando ele deixar o governo, o pai vai fazer uma festaça lá na terra que nem queiram saber. Mas logo desilude, garantindo que o filho não se demitirá. Por puro patriotismo. Se se fosse embora, vinha aí uma austeridade pior. A credibilidade internacional caía por terra “de um dia para o outro”. Tem pai que é cego, já dizia o Gordo.

A esquerda que derrota a esquerda

Ao contrário do que “pensa” muita cabecinha tola, formatada pela catequese marxista, leninista, ou trotskista (que a maoísta, essa, já debandou toda há muito para a extrema-direita…), José Sócrates, um “determinado” mas sem a dita catequese, seria o único líder capaz de tornar a Esquerda um projecto estratégicamente vencedor em Portugal, ainda que sob uma roupagem táctica de “Centro”, ou de Centro-esquerda.

O facto de a maioria dos mais consagrados fazedores de opinião da área da Esquerda, desde o dedicado, mas ingénuo, Daniel Oliveira, até às inutilidades e imbecilidades crónicas de um Henrique Neto, ou um Maria Carrilho, nunca terem compreendido, ou aceitado, esta realidade trivial consiste na maior tragédia histórica das forças progressistas em Portugal desde o 28 de Maio.

José Sócrates, não sendo própriamente de Esquerda, nem tendo o tal “pensamento ideológicamente estruturado” – falsamente tido por indispensável à acção, nas academias serôdias do esquerdismo nacional – em que basear a sua generosidade e enorme convicção, conseguiu fazer avançar mais este País, no sentido do Progresso económico e social nos seis anos em que nos governou, do que nos dez anos do cavaquismo e nos mesmos seis do guterrismo JUNTOS!

O tempo dos Governos de José Sócrates, tirando a Festa abrilista e a aventura gonçalvista – que apesar de tudo foram necessárias para repor Portugal no caminho do Futuro! -, foi o único período pós-Abril comparável aos primeiros e gloriosos anos da República, em que a Direita andou sempre a ranger os dentes e a roer as unhas e foi por isso, E SÓ POR ISSO, que assestou contra ele todas as suas baterias até o derrubar e, quase, liquidar!

O facto de as supostas élites da Esquerda não só não terem percebido esta evidência histórica – fazia-lhe muita confusão o facto de José Sócrates não ser “baptizado”… -, como sobretudo terem-se aproveitado da barragem de propaganda e contra-informação anti-Sócrates em proveito da sua narrativa “revolucionária”, “progressista”, ou “libertária”, e com intuitos oportunistas e eleitoralistas, é simplesmente IMPERDOÁVEL!

O Povo inculto tem desculpa. Os supostos intelectuais não têm perdão e vão levar para a tumba essa CULPA monstruosa e a responsabilidade pela criação do MOSTRENGO que é o Portugal atual – e que só tende a piorar na próximos cinco ou dez anos!

Uma geração completamente rasca, a tua, Daniel. Que vai deixar a dos meus filhos muito à rasca. E sabes bem (ou devias saber) o que acontece a um País em que os jovens não acreditam nos mais velhos. E os desprezam mesmo, sabes? Como eu te desprezo a ti, sim, e às palhaças e aos palhaços como tu.

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Oferta do nosso amigo A piolheira de D. Carlos

Afinal, estiveram a discutir o pós-Governo

Passadas sete horas, ficámos a saber que os senhores conselheiros querem ‘equilíbrio entre disciplina financeira, solidariedade e estímulo à economia’. Mas fiquei na dúvida. Tendo em conta a ordem de trabalhos da reunião, querem isso para já, ou pode esperar até a troika ir embora? E o conselho é para o Presidente, consta que estas reuniões servem para o aconselhar, ou é para o Governo? Se for para o Presidente, é estranho que precise de reunir o Conselho de Estado para ouvir o que já tanta gente disse. Se o conselho é para o Governo, não deve ser para este. Ninguém usaria as palavras ‘equilíbrio, solidariedade e estímulo’ estando a pensar em Passos, Gaspar e Portas.

Sondemos