O Expresso e o lobo

A manchete do Expresso do último sábado sobre o corte de salários da Função Pública provocou grande polémica e uma mão-cheia de reações precipitadas e preguiçosas. A polémica é natural, mas as reações precipitadas são infelizes. Na manhã de sábado, líderes políticos da oposição e sindicalistas, entre outros, acusaram o Governo de “plantar” notícias para espalhar o pânico. A acusação não surge por acaso, já que o Governo tem tido essa prática. Acontece que, neste caso, a notícia decorreu de contas feitas pelo Expresso, e que o Governo se limitou a confirmar, como o nosso artigo explicava. Mais grave, as nossas contas estavam ao alcance de todos, pois foram feitas a partir de documentos públicos pelo Governo e entregues pelo Governo aos parceiros sociais.

Os jornalistas do Expresso cobrem áreas, relacionam-se com fontes e tentam obter informações das fontes em primeira mão. Mas também trabalham sobre dados públicos e que estão à vista de todos. Muitas vezes uma notícia está no resultado de uma conta que ninguém se lembrou de fazer.

Editorial do Expresso (sem link)

Curiosamente, nesse sábado, partidos de oposição e centrais sindicais acusaram o Governo de “plantar” notícias para aterrorizar os portugueses e para testar as suas próprias políticas. E todo o debate se fez à volta desta pretensa malfeitoria do Governo.

Qual é a verdade? A verdade é que, sendo certo que muitas notícias já foram “plantadas” por este e outros Governos, foi um jornalista (João Silvestre) que chegou àquela conclusão. E chegou, porque sendo licenciado em Economia, sabendo fazer contas e tendo acesso a todos os documentos que todos os partidos e centrais tinham, porque eram públicos, fez o seu trabalho. E concluiu que o corte é de 4%. Ou seja, o jornalista fez o trabalho que partidos e sindicatos poderiam e deveriam ter feito e não fizeram.

(…)

Em caso de dúvida, tratam jornais e jornalistas como meros moços de recados (que também os há, sublinho que não faço defesas corporativas)

(…)

Chega a ser ridículo que um jornalista sozinho faça o que as máquinas dos partidos e dos Governos deviam fazer e não fazem, mas acima de tudo é triste.

Henrique Monteiro

Estes dois textos (bolds meus) simbolizam tanto do que, a meu ver, está errado no nosso jornalismo que tenho até alguma dificuldade em saber por onde começar. Vou tentar fazer um resumo do que dizem: há um trabalho de investigação feito por um jornalista. Esse trabalho é acusado de ser uma mera notícia plantada por várias pessoas e organizações. O Expresso lamenta essas reacções, porque embora haja muitas notícias colocadas nos jornais, presume-se que no Expresso também, esta notícia, neste caso, não é uma delas. Neste caso, até é um trabalho sério. E sendo assim, as críticas são injustas, porque antes de se acusar um jornal que considera, pelos vistos, perfeitamente normal publicar notícias plantadas pelo governo, convinha verificar se a notícia é um trabalho sério, porque em alguns casos, como este, até pode ser. E neste caso é simples, os dados são públicos, façam o favor de fazer vocês a investigação, e as contas, para verificar se o trabalho é sério. Porque é, mas podia não ser.

Depois, há este conceito, a meu ver espantoso, implícito no editorial e explicito no texto do Henrique Monteiro: que é uma tristeza que tenham que ser jornalistas a investigar e verificar factos, a fazer as contas e apresentar conclusões. Ora, não sou jornalista e posso por isso estar enganado, mas isso não se chama, como dizer, “jornalismo”? O Henrique está a queixar-se de quê, exactamente? Que as organizações e sindicatos não tenham feito as contas para as apresentar, papinha feita, aos jornalistas? Que de seguida fariam o quê, publicariam sem verificar? Isso não é o que se chama “plantar uma notícia”?

Bom, no meio desta confusão, deixem-me então fazer uma sugestão ao Expresso e ao Henrique Monteiro. Para evitar estas situações desagradáveis e injustas no futuro, e ajudar os vossos leitores a distinguir entre um trabalho sério e uma notícia plantada pelo governo, uma vez que pelos visto é perfeitamente normal que estas convivam juntas no mesmo jornal, que tal inserir um símbolo, antes de um qualquer trabalho jornalístico, para nos indicar se estamos a ler um trabalho sério ou uma notícia plantada? Uma espécie de selo que qualidade que ateste que o trabalho jornalístico apresentado foi feito de maneira séria, segundo regras deontológicas precisas, baseado em factos, e alvo de revisão ou verificação antes de ser publicado. Algumas organizações noticiosas internacionais já usam este selo de qualidade. Por exemplo, este é o selo de qualidade que o New York Times utiliza para garantir a seriedade das histórias que publica:

Selo de qualidade

Mas, enfim, é uma mera sugestão disparatada de alguém que não é jornalista. Apenas um leitor que acha por vezes difícil distinguir um trabalho sério de uma história plantada, porque são muito parecidos. E por isso, presume que todas, pelo menos, podem ser plantadas. Pelos vistos,  no Expresso, concordam.

12 thoughts on “O Expresso e o lobo”

  1. Excelente exercício mas vai parar a saco roto, they can’t see the wood for the trees ou, já que dás como exemplo um jornal americano, they can’t see the forest for the trees.

  2. Já não há pachorra para o Expresso. Muitos dos seus jornalistas têm
    posições geralmente próximas do poder. É um direito? Mas então porquê
    a indignação?
    Nas páginas do Expresso, fica bem algum jornalismo de opinião fazer o
    contraditório daqueles que vivem embevecidos com Passos e Gaspar,
    mas agora menos, e embevecidos com Cavaco, mas agora menos, e
    embevecidos com a Alemanha, mas agora menos.
    Apesar das evidências do desastre, insistem nas suas posições, porque
    o jornalismo, como a idiologia, pode servir interesses, e eles sabem tudo
    sobre o assunto.

  3. henrique monteiro é um “xulo da politica” que anda a cuspir no prato que comeu durante anos na assembleia de republica.não tem ideias e limita-se a pegar nas deixas de terceiros nos debates onde aparece, sem nada que o justifique!a direita comanda-os, por vezes faz umas derivas, mas só para fazer o papel de lobi.subscrevo o aparecimento de um jornal de esquerda democratica que saia pelo menos uma vez por semana.valupi,reuna com os camaradas de outros blogues e cheguem a um acordo a bem da deçencia. não faltarão textos com qualidade como se pode verificar e de borla.

  4. eheheheheh…”é pá, de facto há notícias plantadas mas esta por acaso não foi”. estes jornalistas incompetentes, colados ao militantismo partidário, de que o monteiro é um bom exemplo, estão a acabar com o jornalismo em portugal. hoje em dia qualquer pessoa desconfia do que vem nos jornais (embora ainda confie no que ouve e vê na tv). os alcoviteiros em que se transformaram a maior parte dos jornalistas, aliados à incompetência e desconhecimento que grassa no meio, estão a levar o jornalismo ao caixão.

  5. é incrível como o que tu escreveste é uma deturpação completa tanto do que diz o jornal como o que diz o cronista. em um artigo que se pretende realçar a investigação em detrimento do informar através de fontes, no entanto ambos jornalismo, tu vais buscar uma interpretação esquizofrénica só para justificar o mau jornalismo que se pratica – nem sempre, felizmente. e a garantia da qualidade tem – e deve – de ser feita, neste caso, pelo consumidor em jeito de selecção e não pelo selo do jornal já que serão os jornalistas a precisarem de certificação. e a certificação de pessoas, já se sabe, não é para qualquer um.

  6. Olinda, o que eles querem dizer sei eu bem. Aqui exploro o que eles não querem dizer, mas está dito. Daí os sublinhados.
    Quanto à garantia de qualidade ser feita pelo consumidor, discordo. Agora, o consumidor vota com os pés, ou seja, não compra os jornais caso não confie neles. É o meu caso, e de certeza o de muita gente. Mas é fraco consolo, e não substitui de certeza a garantia de qualidade que se exige antes de chegarem ao consumidor. Isso é exclusiva responsabilidade de quem os faz.

  7. e foi nos teus sublinhados, interpretação minha tão diferente da tua, que me foquei . às tantas, vale-me a ingenuidade. de quaquer forma, os jornais – tal como os canais de televisão – são uma oportunidade excelente, nesta altura, pela tal garantia de qualidade que faz falta , para os consumidores se tornarem selectivos e fazerem a revolução, a tal, a necessária – a da evolução pela reflexão, que parte sempre do particular para o geral, e que não depende, de todo, de quem manda.

    (defendo o justo mesmo que o justo esteja por dentro do injusto. e considero a tua análise injusta. pronto.)

  8. foda-se! esta gaja deve escrever os discursos do coelho, tudo espremido diz nada e ainda insulta a inteligência de quem lê.

  9. ignatz,

    o mais abstruso é a criatura explicar-nos como se faz a revolução: os consumidores tornam-se inteligentemente selectivos, mas a selecção dela, não a do preconceituoso vega ,e dá-se a dita revolution. Perfeitamente dentro dos novos bafientos tempos que (re)ocorrem, sobretudo para os sem memória e cultura histórica. Agora estupidez e incultura chama-se ingenuidade and rules.

    Ora lê lá esta ,mas à luz de portugal falando para o Brasiu. Tanta trabalheira e cá estamos nos 3 Fs : Fado, Fátima e Futebol…Foda-se!(4Fs, pronto)
    http://letras.mus.br/chico-buarque/7584/

  10. O Expresso, agora, dedica-se à adivinhação?! Será que pretende rivalizar com o Correio da Manhã?

    Se for verdade o que nos diz o Expresso (que eu duvido), deveria aquele jornal ter obtido confirmação — junto de fonte credível — antes de publicar uma extrapolação a partir dos discursos desencontrados, e com incoerências várias, dos diferentes membros do Governo.

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