Metafísica comuna

Sobre o nosso País pesam a influência negativa decorrente da natureza do capitalismo, dos objectivos e rumo da União Europeia após quase 25 anos de integração e de 34 anos de política de direita e abdicação nacional realizada por sucessivos governos, em desrespeito da Constituição da República Portuguesa, com o apoio ou cumplicidade da Presidência da República.

As consequências estão à vista. Portugal é hoje um país mais injusto, mais desigual e mais dependente. O desemprego, a precariedade, a exploração, a pobreza e as dificuldades de muitos milhões de portugueses contrastam com a corrupção, a acumulação de riqueza e a opulência de alguns. É um país marcado por um processo de declínio nacional, de descaracterização do regime democrático e de amputação da soberania e independência nacionais.

Francisco Lopes

*

O PCP quer Portugal fora da União Europeia, fora da Nato, com aumentos de salários, com aumentos de pensões, com crescimento do sector público, com leis laborais ainda mais fortes na exclusão do despedimento, com tudo para todos em muito e já: escolas, hospitais, fábricas, redes de pesca, alfaias agrícolas. É o que nos diz o seu candidato presidencial, num discurso que é o clássico exercício demagógico e reaccionário para fiéis alienados. E que termina assim:

No início da segunda década do século XXI, aqui estamos, com a convicção de sempre, com a determinação correspondente às exigências actuais e com uma inabalável confiança no futuro. Um futuro melhor para o povo português, para Portugal.

Este futuro melhor é, exactamente, aquele que estabeleceram como convicção de sempre. Daí a inabalável confiança, já imune à própria História.

Canção no Quiosque do Sr. Oliveira

Quando fechou livraria
Numa tarde de tristeza
E Fernanda nada dizia
Sobre o café desta mesa

Foi a triste despedida
Dum mundo a acabar
Mais de metade da vida
Com os livros num lugar

Lá as manhãs eram frias
E as tardes eram quentes
No balcão de tantos dias
Não iguais mas diferentes

E a caminho da estação
Do Rossio, suas escadas
Leva no olhar a canção
De lágrimas recuperadas

Adeus Líbano

Os bacanos do PSD e arredores são especialistas em espiões. Já foram espiados em jantares na Madeira, foram espiados nos jardins do Palácio de Belém, foram espiados nos computadores do Público, vão espiando em Aveiro e espiolham a blogosfera à procura dos celebérrimos assessores anónimos que assinam o que escrevem. Com base nesta vasta experiência, sabem bem o que está em causa nas declarações de Santos Silva: arriscamo-nos a perder o Líbano.

A existência de um serviço de informações militares era segrego guardado com juras de sangue e ameaças de aumento de impostos; até lhe chamavam a secreta militar, assim indicando que se devia falar baixinho do assunto. Agora, tal vantagem desapareceu graças à incúria do Ministro da Defesa. A partir deste momento, todos os nossos inimigos no Líbano já receberem telefonemas, faxes e pombos-correio de familiares com a revelação avassaladora: Portugal tem espiões!

O perigo não pode ser maior, como é óbvio, até porque são conhecidas as dificuldades orçamentais dos serviços secretos, o que só aumenta a sua lenda heróica. Para o Hezbollah, saber que Portugal pode enviar dois ou três agentes até ao Líbano para tirarem fotografias à arquitectura local e ficarem à coca nas esquinas a galar as moçoilas é fonte de terror. Eles não vão tolerar tamanha ameaça ao seu modo de vida regido por estritos códigos de conduta antidesportiva. É que se adivinha o que irá acontecer, sem margem para dúvidas: assim que a população perceber que está frente a um espião português, começará logo a fazer perguntas acerca do vernáculo queiroziano, da invisível e indolor lesão do Nani, do método de treino do Paulo Sérgio ou falta dele, das formas de empandeirar o Roberto e de tantos outros assuntos queridos dos libaneses. Isto seria o caos, levando milhares ao abandono do combate militar contra Israel só para ficarem a ouvir as infindáveis histórias do futebol lusitano.

Conceda-se, pois, razão às brilhantes inteligências sociais-democratas: o Líbano vai ficar a ferro e fogo para impedir a chegada dos nossos coscuvilheiros e bigodudos espiões. E a culpa é do estouvado Santos Silva.

Balada do mapa de Alfama

Na Rua Augusto Rosa
Vinte e sete, rés-do-chão
Uma ideia generosa
Teve a sua conclusão
Design de Sara Gama
Gravura Telmo Alcobia
O Bairro e quem o ama
Na porta da Livraria
Na janela da cidade
Entre guitarra e piano
O mapa diz a verdade
Todos os dias do ano

Nas suas cartografias
Inclui o Bairro inteiro
Chafarizes, Livrarias
O Castelo, o Mosteiro
Revelando os tesouros
Do Bairro medieval
Farmácias, Miradouros
Os Museus e a Catedral
Para quem quer ser feliz
Em Eléctrico e Autocarro
Segue as linhas dos carris
E o fumo dum cigarro

Levado na força da brisa
Entre Esquadras e Igrejas
Onde quem escreve precisa
Dos Marcos cor de cerejas
Parques de estacionamento
Multibanco, seus cartões
Completa-se o documento
No Metro com as estações
Da Feira da Ladra ao Tejo
Do Terreiro do Paço à Graça
Este mapa traz um beijo
Ao olhar de quem passa

Não, a direita não pode ser isto

Que misteriosos infortúnios levaram Francisco José Viegas a juntar-se ao coro de indigentes cognitivos que escolheu esta segunda-feira para provar, pela bilionésima vez, que a direita portuguesa abalou para parte incerta, décadas atrás, e deixou no seu lugar uma confraria de zerinhos? Atacar Santos Silva por fazer inócua e normal referência a operações dos serviços de informação militar começa por dar vontade de rir. Rapidamente, porém, o riso fica nervoso e acaba-se aterrado: uma parte da suposta elite portuguesa não sabe o que fazem os serviços de informação. Estes desassombrados conterrâneos imaginam que os Talibã acabaram de ler a entrevista do Ministro da Defesa e foram a correr afiar navalhas para preparar a recepção aos temidos operacionais portugueses que vão a caminho de Cabul com as suas barbas postiças. É estúpido de mais, inacreditável. -> Ler o Miguel.

A confraria dos zerinhos também se entusiasmou com a possibilidade de chamar mentiroso a Sócrates, esse ritual quotidiano de manutenção do contacto com os outros à sua volta. Se passa um dia sem espetarem uma agulha no boneco, acaba-se o vodu e entram num estado catatónico. -> Ler a Isabel.

Consta que Pinto Monteiro quer esclarecer o que se passou no Ministério Público com o processo Freeport e seu desfecho irregular. Consta que esta decisão já vem de Fevereiro. E consta que ela era previsível desde finais 2008, quando o caso voltou à cena e todos se perguntaram a respeito do que se tinha passado com o andamento da investigação. Finalmente, consta que a confraria dos zerinhos não está interessada no normal funcionamento da Procuradoria, só naquelas partes que cabem nos títulos porno-sensacionais do Sol e do Correio da Manhã.

O Zé Manel, que alguns garantem ter sido director de um outrora jornal de referência, serve-se da literatura nazi para emitir opinião acerca da política nacional. Que pena não ter começado a escrever em blogues há 5 ou 6 anos, não se teria gastado tanto tempo com um caso perdido.

Não, a direita não pode ser isto, esta confraria de zerinhos.

Segredos das pirâmides

Conheces de ginjeira a pirâmide de Maslow (se não conheces, cala-te e finge). Tem sido abundantemente divulgada desde meados do século passado, tendo invadido tudo o que é manual de psicologia, relações públicas, marketing, publicidade. Para além de corresponder a um marco histórico na Psicologia – sendo uma das principais fontes da corrente humanista que centrou a abordagem terapêutica na compreensão do sujeito enquanto sujeito – o escalonamento que se dirige para a auto-realização individual, esse zénite e ómega do humano, estava de acordo com o zeitgeist existencialista e fenomenológico de um mundo em profunda transformação económica, política, científica e tecnológica. As ciências, naturais e humanas, ligam-se aos movimentos filosóficos e literários, culturais e sociais – e vice-versa – gerando a dinâmica criativa que explica a sucessão de inovações e divergências teóricas que constituem a civilização ocidental secular. Assim, nada mais lógico do que ver a Psicologia a validar um mundo fragmentado e atomizado, no qual Deus tinha morrido, Marx estava moribundo e Freud muito combalido. Que restava? A heróica realização pessoal, a terra prometida da eterna liberdade, e imarcescível maná, nos espaços interiores de cada ser humano.

(sim, este parágrafo é um mimo de simplismo e indulgência, segura lá o cavalo)

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Vinte Linhas 528

Memórias da Terra Nova na Manteigaria da rua D. Antão de Almada

Por uma conversa de acaso com Fausto Bordalo Dias («Por este rio acima») descobri o local onde o autor-intérprete se abastece de bacalhau e fiz uma aquisição de experiência. Gostei e repeti pois este bacalhau recorda-me o sabor antigo do bacalhau da minha infância. Vinha ele em fardos de Alcobaça numa camioneta do armazenista Sebastião dos Santos Vazão. A estrada era de macadame: pó no Verão, lama branca no Inverno. Não digo que seja melhor do que os outros (Noruega, Suécia) mas os bacalhau da Islândia é «diferente» e nisto de sabores o reencontro com a infância é uma coisa especial, um valor acrescentado. Naquele tempo (anos 50) os homens da camioneta contavam histórias espantosas de quem na Terra Nova o pescava para nós. A campanha do bacalhau durava vinte meses e as jovens mulheres desses homens dormiam no chão por promessa ao São Paio dos Pescadores e vestiam de luto fechado com brincos de pano negro nas orelhas. Na Terra Nova os homens aguentavam, sem saber como, sete dias e sete noites no seu pequeno barco. Quando regressavam ao barco-armazém para pesar o peixe, abrir e salgar, dormiam dois dias e duas noites. Acordados, comiam mas não falavam durante horas. Era preciso que os outros lhe tirassem as botas e os despissem. Pouco depois voltavam para o nevoeiro e para a imensidão do mar.

Quando vinham de férias não tinham descanso porque iam trabalhar para o moliço, sempre a pensar no pão dos filhos e na vida triste da mulher a quem pouca atenção davam. Hoje nada é assim mas nos anos 50 eram estas as histórias que os homens da camioneta traziam pela estrada de Alcobaça entre pó e lama.

(foto David de Abreu)

Brincar aos treinadores

Vendo a dificuldade do Sporting em casa com o Marítimo, simpática equipa que não queria ganhar e quase marcava um golo sem querer, ficou claro que o clube deve cerrar fileiras para defender o 4º lugar como grande meta para esta época. É que vai ser muito mais difícil lá chegar, desta vez.

A não ser, claro, que alguém com alguma autoridade no clube, pode até ser o roupeiro, convença o Paulo Bento II a fazer contas de somar. Ele que comece a somar o número de remates, passes e movimentações ofensivas de Vuckcevic ao número de assobios que a sua substituição provocou. Depois, olhando para o resultado, só tem de o deixar jogar ao lado de Liedson para a conta ficar fechada. E como não há dois sem três, que meta o Matías Fernández atrás desta dupla de habilidosos; inventando-se o triângulo atacante que apagará as memórias penosas do losango defensivo. O que acontecer abaixo da linha avançada desta troika é indiferente, vale tudo, incluindo ir rodando o Carriço pelas variadas posições do meio-campo.

Paulo Bento II pode continuar a brincar aos treinadores desde que vá tendo explicações de aritmética.

Mestre Alves

Medina Carreira, Mário Crespo, Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Campos e Cunha, et alii, que se ponham a pau: já têm séria concorrência. Este é o verdadeiro senhor do oculto, do qual as figuras gradas da inteligência social-democrata não passam de trapalhonas aprendizes.

Infelizmente, só temos uma parte das suas revelações. O PSD terá de reunir-se com o mestre para descobrir o que fazer até ao fim do ano.

Até sei quem o pode substituir

Quando Queiroz, no lounge VIP do aeroporto de Lisboa, a caminho do sorteio da fase de apuramento do Europeu de 2012 – portanto, ao serviço da Federação Portuguesa de Futebol; isto é, em representação do Estado – desatou ao soco a Jorge Baptista, jornalista e delegado da UEFA, não estávamos em condições de entender o problema na sua extensão e gravidade. Perder a cabeça pode acontecer a qualquer um, por inúmeras razões. Mas o episódio foi a 6 de Fevereiro, há perto de 7 meses. O que se passou entretanto obriga a voltar atrás com um novo olhar, levando à inevitável conclusão: Queiroz é chanfrado dos cornos.

Em todas as situações escandalosas e disfuncionais que protagoniza encontramos um padrão: nega a sua ilicitude ou imoralidade, declara a sua irresponsabilidade e mente. Ainda se acrescenta outra cena só dele, que nunca se viu a mais ninguém naquele cargo: as suas declarações públicas, acerca de dirigentes e jogadores, parecem de alguém que perdeu a capacidade de se avaliar e conter, largando bacoradas inacreditáveis.

Mesmo que tivéssemos vindo da África do Sul campeões do Mundo, seria urgente restituir a dignidade à Selecção Nacional. E aproveito para sugerir um substituto que não fará pior, o qual está pronto para pegar ao serviço já neste mês de Agosto: Paulo Sérgio, actual assalariado do Sporting Clube de Portugal.

Vinte Linhas 527

De como um menino de quatro anos «lê» José Escada

O «Círculo de Poesia» foi uma colecção da Moraes Editores cujo arranque em 1958 teve livros de Jorge de Sena, Pedro Támen, José Terra, Murillo Mendes, Cristovam Pavia, Vitorino Nemésio, João Maia, António Ramos Rosa, João Rui de Sousa e José Blanc de Portugal.

A capa dos livros era uma reprodução de um desenho de José Escada; variava de cor de livro para livro. Esta que se publica corresponde ao volume nº 111 da colecção e foi impresso sob plano gráfico de Edviges Espada em Maio de 1983. Teve um prefácio do malogrado poeta J. O. Travanca-Rego. Este «Universário» foi a azul mas o primeiro foi a verde. Chama-se «Iniciais».

O desenho que se publica ao lado é de uma criança de quatro anos e corresponde a uma interpretação (bem livre…) do sol de José Escada. O Thomas está a descobrir o fascínio das cores. Ofereci-lhe uma caixa de lápis de cor da «Viarco». Agradeceu mas prefere as canetas de feltro.

O Thomas chegou tarde a tudo. Começou a andar tarde mas em segurança. Já tinha dois anos mas foi radical na mudança; nunca mais gatinhou. Agora com a descoberta do prazer do desenho aí o temos a fazer em Londres interpretações de um desenho clássico em Portugal. Vê-se que não gosta de coisas abstractas e por isso assina sempre os seus desenhos. Responde pelas suas «obras» e desenha com um ar muito sério. Só as crianças levam as brincadeiras a sério porque brincar é a coisa mais importante da vida quando se tem quatro anos de idade. Para ele, «imitar» José Escada não é atrevimento.

«Da cidade, do campo, dos sorrisos» de Margarida Gama de Oliveira

«A poesia não tem presente; ou é esperança ou saudade». Estas palavras de Camilo Castelo Branco, que também foi poeta embora mais conhecido como polemista irascível e novelista apaixonado, aplicam-se ao livro de poemas que hoje nos cabe apresentar. Margarida Gama de Oliveira sabe que todo o poema digno desse nome aspira a ser a grande ponte entre dois mundos separados pelo tempo, pela distância e pela morte.

O poema, tal como a oração, liga de novo o que a erosão da vida se encarregou de separar. O poeta é o sacerdote desta estranha liturgia celebrada numa folha branca de papel (qual altar) com uma caneta, qual hissope com lágrimas no lugar da água benta.
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Fernanda em 22-8-1992

A luz do teu olhar ficou aqui suspensa
No preto e branco em frente à estante
Linha serena a desligar a indiferença
E a projectar o esplendor do instante

Que tu agitas no mundo do teu ofício
Com o rumor das mãos em movimento
Construindo em cada pausa um edifício
Projectando a cada frase um sentimento

O ouro nos teus brincos é uma riqueza
Não está lá o sorriso em esboço ainda
Que o momento só prevê a tua beleza
E não regista a frescura que não finda

Tal como na fonte ou no rio pequeno
Se projecta o teu olhar que continua
Anos depois do retrato o olhar sereno
Enche de luz este lado da minha rua

Qual é o trunfo?

“Os portugueses precisam de políticos que falem com verdade”, acrescentou, lembrando que quando foi necessário “o PSD deu as mãos aos portugueses” e apoiou medidas difíceis exigidas por Bruxelas. “Ou o PS começa a governar ou então deixe outros governar”, desafiou Passos Coelho, em declarações aos jornalistas já depois dos discurso.

Fonte

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A crise do PSD, a confrangedora incapacidade de se apresentar como alternativa desejada, nasce da inanidade intelectual dos seus quadros, a qual é o fruto da decadência cívica do seu tecido sociológico. Não há talento nem amor nos sociais-democratas, por isso são os primeiros a detestarem o que representam: a provinciana gula material e honorífica. As alianças entre eles são sanguíneas ou volúveis e cínicas, desasadas. Nenhum ideal os une, tão-só o calculismo e oportunismo. A existir quem pudesse recuperar a credibilidade deste partido, não estão à vista. Talvez prefiram os confortos profissionais e privilégios sociais sem exposição pública, talvez não acreditem na possibilidade de regeneração partidária. O que vemos, nos dirigentes e publicistas, e independentemente da idade das figuras, é velho e relho.

Tome-se o exemplo supra. A estupidez de Passos Coelho é mastodôntica. Da asinina cassete da verdade que volta ao baile, passando pela patética recolha de louros por se ter dado as mãos aos portugueses em caso de necessidade (pasmai com a misericórdia que nos salvou, ó gentes!), até à declaração de impotência para derrubar o Governo e ter, portanto, de esperar que o PS decida quando vai a eleições, não é possível disparatar mais em tão curto espaço de tempo. Fica a clara ideia de que ninguém pensa no que lhes aconteceu, acontece e poderá acontecer com a persistência numa oposição de bravata à doidivanas.

A política feita por estes melros tem a sofisticação de uma jogatana de sueca, mas eles não contam as vazas e há fundadas suspeitas de que nem sabem qual é o trunfo.