Errou a profissão, mas ainda vai muito a tempo de refazer a carreira

No final do jogo com o Brondby, Paulo Bento II disse estar satisfeito com o facto de os assobios à equipa só terem vindo após o apito final. Ele entendeu como manifestação de apoio a crescente apatia que tomou conta dos adeptos durante a 2ª parte.

Calhando o Sporting ter um presidente, nesta segunda-feira, logo pela fresca, estaria reunido com este senhor para lhe oferecer um novo emprego: cheerleader.

Na veia

João Pinto e Castro recomenda este superlativo espectáculo de inteligência oferecido por Nicholas Christakis.

Aproveito para indicar duas curtidas infografias descritivas das redes sociais na Internet, seu poder e mudanças constantes: 2007 versus 2010
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Fernanda Câncio continua a desembrulhar o novelo de pulhices contra Sócrates que tem medrado no Público desde que o accionista jurou vingança e o Zé Manel se dedicou, celerado, à sua execução. Os efeitos continuam a sentir-se, porque pouco mudou naquela casa onde manda o mesmo senhor.

Um livro por semana 197

«Histórias de poucas palavras» de Maria Eulália de Macedo

A autora deste livro publicou também «As moradas terrestres» e inscreve-se numa certa linhagem literária (Raul Brandão, Irene Lisboa, Agustina, Ondina Braga) cujas referências são o contrário da cidade: «AMARANTE Uma terra de poucos turistas, sem notícias nos jornais, sem ranchos de folclore, sem arte regional. Não há Casa do Povo e muitas vezes o povo não tem casa». A propósito do quadro de Amadeo O homem da guerra de 14 a autora adverte («Tinham-se perdido os que morreram. E os que não morreram tinham perdido abrigos e certezas») para concluir: «Quem não acreditar na perenidade do efémero e nas flores de água no pensamento, não venha nunca a Amarante nem venha ver os quadros de Amadeo». Em Amarante era possível um «graxa» dizer a um juiz: «Eu pertenço à família de Pascoaes». Havia de um lado as mulheres: «Nós, mulheres é que tudo sabemos da vida e da morte. Uma imensa, uma invencível força sustenta os nossos ombros onde a cabeça de cada homem descansa e adormece». Do outro lado os homens: «As mulheres só gostam de conversar e ver dinheiro na mão». No meio a solução: «O único remédio é amar. Amar as coisas e amara as pessoas, amar as cores, as mutações da hora, o ciclo das estações, amar o tempo de ser, de lembrar, de colher.»

Depois das viagens na Europa (Milão, Madrid, Roma, Granada, Galiza) e no país (Porto, Praia da Torreira, Viana do Castelo) o livro volta à origem, à terra e à poesia: «Para mim a Poesia é estar atento e aberto ao que somos e nos ultrapassa. É uma espécie de fugidio sacramento, a exigente voz das coisas que são verdade – para além da verdade das coisas.»

(Editora: Ática, Apresentação: Jacinto do Prado Coelho)

Sportings

Grande vitória do Braga. E o segundo golo esteve por um triz. Mas o que mais me agradou, porque os resultados nascem da sorte, foi ver os jogadores do Paciência a pensar antes de passar a bola. Não sempre, nem sempre bem, todavia como manifestação do treino. Sem craques e pernas, é esse o máximo da competência a que pode chegar uma qualquer equipa: a inteligência do passe, a qual pede a geométrica inteligência da posição e do movimento para se realizar. Confiança e humildade, dar e receber. O passe vence a solidão.

Estás a prestar atenção, Paulo Bento II?

Bloqueados

Lembro-me bem de ter votado PSR e Bloco de Esquerda. Não só por causa de Louçã e da sua alegria política nesses tempos, mas ainda mais pela abertura aos independentes e às independências. Durante a segunda metade da década de 80, e ao longo de todo o Cavaquismo, esta esquerda ágil e leve (na aparência) era um balão de oxigénio para quem se iniciava nas lides da cidadania ou dela tinha uma amarga experiência. Complementavam a oferta disponível à esquerda, o cinzentismo bélico e granítico do PCP e as ambiguidades generalistas do PS, com uma promessa anti-sistema que sugeria credibilidade e relevância. Conseguiram vencer o folclore dos partidos da extrema-esquerda, pardieiros de românticos e lunáticos. Para aderir às suas principais causas bastava estar sintonizado com os anseios de crescimento e libertação da sociedade, não carecia de aparato ideológico para se consumir o excelente marketing do PSR e BE.

Com o crescimento eleitoral veio a diminuição da inocência na comunicação. O horizonte já não era o de serem ouvidos, estarem no Parlamento, dominarem o nicho dos comentaristas políticos mais apaparicados da comunicação social. A luta tinha de continuar, the show must go on, e Louçã ia ficando cada vez mais ambicioso – ou ia revelando cada vez mais o pleno da sua ambição. Gradualmente, em especial com a instrumentalização dos professores e de Alegre, a meta declarada passou a ser a fractura do PS, primeiro, e o domínio eleitoral de toda a esquerda, por fim. A este plano correspondia o pináculo do azudeme nas intervenções de Louçã, entregue em desvario a um duelo de galos com Sócrates. A procura de novidade estava morta, ficava um general obcecado pelas visões da sua coroação.
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Um livro por semana 196

«Memórias vivas do Jornalismo» de Fernando Correia e Carla Baptista

As 17 entrevistas com gente dos jornais dão-nos, neste livro de 423 páginas, uma aproximação ao um tempo que acabou. Homero Serpa recorda a passagem do chumbo para o offset: «Foi um salto muito grande, os operários deixaram de engolir diariamente aqueles quilos de chumbo que matou muitos.» Tempo de alguns jornalistas se sentirem marginalizados: «O jornalismo desportivo não era considerado bem jornalismo, nós não éramos do Sindicato dos Jornalistas.» Problemas também para os fotógrafos, como Eduardo Gageiro: «Você não acha que dá uma má imagem de Portugal? Há paisagens tão bonitas, porque é que você não fotografa paisagens?».

Tempo de mudanças, também. As técnicas: «O offset praticamente acabou com os tipógrafos. Houve uma oposição muito forte.» As políticas: «O chefe de redacção no dia 25 de Abril nunca deixou de enviar os textos do Diário Popular à Censura até que o estafeta disse: «Ó Sr. Dr. já não está lá ninguém!». As humanas: «No caso de A Capital havia uma certa desconfiança, alguns olhavam de esguelha para os mais jovens: «Estes miúdos das universidades com a mania de que sabem tudo…».

Duas memórias curiosas: os sinaleiros («O trânsito parava para deixar passar o carro do Popular») e a Volta a Portugal: «Ainda há pouco tempo, nas voltas a Portugal, e eu fiz dezasseis, nós encontrávamos bandeiras do Benfica, do Sporting e do Porto e a verdade é que nenhum deles tinha equipas a correr».

(Editora: Caminho, Fotos: Alexandra Silva excepto Acácio Barradas, Capa: Rui Garrido)

Vinte Linhas 526

Que turismo entre cães e moscas?

A urina dos cães queima a borracha dos pneus e os latidos em escala alteram a paz da aldeia. As moscas saltitam do pão para o queijo e do queijo para os copos na mesa. Aos cães respondem os galos e as cabras nos respectivos currais das casas das terras da Beira Baixa. Ao lado há uma aldeia do circuito das chamadas «aldeias de xisto» mas a sua loja, simpática embora, vende «T-Shirts» a quinze euros. Claro que não vende porque toda a gente sabe o preço real de uma «T-Shirt» e quinze euros é uma barbaridade porque nada tem a ver com o preço real do produto.

Numa das casas mais bonitas desta aldeia, oferecem-me café e um cálice de medronho (fabrico particular) mas, de repente, surge o focinho de um cão vadio a centímetros dos bolos secos feitos do belíssimo mel daqui. Os donos dos cães não os controlam nos seus próprios espaços, suas casas, seus quintais e adegas. Qualquer porta aberta é um convite a entrar e a levar para sua casa um sapato, uma luva de jardinagem, uma peça de roupa.

Esta noite desapareceu a malinha de um emigrante português (Paris) em férias anuais. Essas malas de trazer junto ao cinto no Verão são ideais para quem não gosta de usar casaco à caçador mas uma distracção fê-lo ficar sem nada (dinheiro, livro de cheques, cartões de crédito, carta de condução) e já a pensar em telefonemas para França.

Não se pode esperar turismo num espaço onde os cães circulam como reis e senhores, entram na casa de qualquer um e levam na boca tudo o que calha. E onde as moscas fazem exercícios de aviação nas mesas da cozinha. Por acaso a bolsa apareceu. Alguém se lembrou de seguir o rasto do cão e chegou ao lugar onde brinca com outro cão.

Sim, o inglês faz muita falta

Same-Sex Marriage Debate Has Roots Going Back Centuries

People Who Are Trusting Are Better At Detecting Liars

Painkiller Eases Emotional Pain Too

The internet: is it changing the way we think?

Happy Employees May Be the Key to Success for Organizations

Tropical Glaciers in Indonesia May Disappear by the End of the Decade

Surviving Domestic Abuse

Only children not so lonely

Men more likely to cheat on women with bigger paychecks, study says

Poll: Women Would Give Up Sex to Not Gain Weight

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Entre o visível e o invisível passa uma linha divisória. Uma sequência de pontos, prontos. Mónadas. E dentro de cada mónada está um carrinho de supermercado encostado à parede. Aquela. Como? Se calhar, ainda não calhou. Ainda não o viste, andas com os olhinhos no ar. Confundiste bolhas de sabão com mónadas, sua cabeça de sabonete. Hã? Claro que tens boa desculpa, essa de não haver duas mónadas iguais. Se houvesse, lá se ia a linha para o galheiro. O visível e o invisível perderiam a compostura, misturavam-se, era uma salgalhada. Péssimo para a tensão, mas favorável à tença. Mesmo assim, ali está o carrinho de supermercado. Suportando a realidade sem se queixar. Ali naquela mónada. Presta atenção.

Imitar o visível é fácil, expressar o invisível é comum. Andamos a fazê-lo há dezenas de milhares de anos nos locais mais esconsos e insalubres, incluindo livros e salões de talha dourada. Chega. Já. Precisamos do que não é visível nem invisível, essa ausência de espaço onde moram todos os infinitos e ainda sobram lugares à mesa para as visitas. Com os infinitos, é inevitável: o aborrecimento não tem fim. São as visitas que animam o banquete, porque estão de passagem. E porque trazem carrinhos de supermercado. Cheios.

Aquela fotografia tem um objecto visível escondido atrás de seres invisíveis — disse eu. Disse-lhe mais — Não é ausência o que retratas. É o fulgurante momento em que estamos a chegar. O eco da nossa esperança. O ribombar do tempo.

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Para o meu amigo Tomaz Hipólito

David Blanco

Para além de ser um craque, para além de ser galego, para além de ter igualado Marco Chagas em vitórias na Volta a Portugal, é de uma simpatia e humildade que já não se usam e até baralham o espectador. Este anti-herói justifica que se volte a sentir aquela alegria parva que encantou os nossos pais e avós, e tantos outros que são hoje avós e pais, quando largavam tudo para irem a correr ver passar os ciclistas.

Não é que esses tempos fossem melhores, mas havia gente com mais pedalada.

A melhor equipa do Mundo

«Tenho a melhor equipa do Mundo já hoje. Temos um grupo com qualidade acima da média no nosso campeonato», afirmou Paulo Sérgio em conferência de imprensa, numa análise à Liga e à questão de saber se sente que tem as mesmas armas dos rivais.

Fonte

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Estas declarações de Paulo Sérgio não são exageradas. Não resultam de perturbação emocional causada por um animado almoço ou por ter visto um ovni encarnado a sobrevoar Alcochete em direcção à Academia. Nada disso. O que se passa é muito mais simples: ele pensa mesmo que está a treinar a melhor equipa do Mundo. Estamos perante um tipo honesto.

Daí a necessidade de tirar conclusões da derrota com o Paços de Ferreira. Se o Sporting exibe um futebol de merda depois de meses de treinos e jogos, se aquilo que se vê não passa de um tratado de estupidez colectiva e individual, então uma de duas coisas há a fazer nos próximos dias, sem esperar pela segunda jornada:

Contratar Rui Vitória, treinador do Paços. Ganhou à melhor equipa do Mundo com uma equipa de meio da tabela, os lugares estão trocados. Que Paulo Sérgio vá treinar para a Mata Real, uma toponímia adequada à sua auto-estima e objectividade. Ainda por cima, Rui Vitória passou 4 épocas no Fátima, o que significa que é o único treinador nacional com mística suficiente para enfrentar Jesus. E já regista um milagre no currículo: eliminou o Porto na Taça em 2007. Levar os jogadores leoninos a perceberem como se desloca uma bola até à baliza adversária parece possível com este homem cujo nome é um destino de grandezas.

Despedir Paulo Sérgio e não contratar novo treinador. Os treinos passariam a ser dirigidos pelos adeptos. Quem quisesse, inscrevia-se e passava a poder treinar a equipa durante a semana. Se ganhasse, continuava a treinar para o próximo jogo. Se perdesse, saía e dava o lugar ao adepto seguinte na lista de inscrição. No caso de empate, seria decidida a sua permanência através de moeda ao ar.

Qualquer destas soluções não irá prejudicar o actual estado da equipa. Podemos bater o recorde da chicotada psicológica mais rápida sem correr o risco de voltar a perder o 1º jogo deste campeonato. As melhores equipas do Mundo, e daí a sua qualidade e classe, têm níveis mínimos que não se permitem ultrapassar.

Vinte Linhas 525

Os campinos não usavam telemóvel

A fotografia sem autor sugere a data de 1961. Ou talvez 1962, quando o Tóino vinha de quinze em quinze dias da Lezíria receber o avio da mãe e deixar a roupa para lavar no poço da casa no Bairro do Bom Retiro. A água desse poço era salobra como a da fonte do bairro do Mártir Santo e os irmãos (Manel e Marcolina) iam com os vizinhos buscar água para beber nas bilhas de barro à fonte de Santa Sofia.

Nesse ano Salazar tinha gritado «Para Angola rapidamente e em força!» depois de antes ter agradecido «Obrigado portugueses, temos o Santa Maria connosco!», isto em pleno esforço repressivo com o quadrado da infâmia: Aljube, Caxias, Peniche, Tarrafal.

No Bairro os homens faziam horas frente à televisão no café do senhor Jorge a ver o Benfica e o Sporting nas vitórias europeias – Berna, Amesterdão, Antuérpia. Outros jogavam à malha no terreno anexo, havia sempre espectadores no primeiro balcão. As mulheres, por sua vez, já pensavam na chamada guerra do Ultramar, começada em 1961. Mostravam o exemplo dos campinos e dos rapazes do Parque de Alverca, o outro nome das OGMA. Quem tivesse um sargento conhecido podia aspirar a uma cunha para um filho entrar no Parque. Podia ser um cabo desde que tivesse influência. Diziam entre si, as mulheres do Bairro: «Quem não tem padrinhos morre moiro!». Hoje os campinos usam telemóvel para avisarem da descoberta de um toiro tresmalhado nos confins da Lezíria. Se em 1961 nos viessem dizer, ao Tóino e aos miúdos do Bom Retiro que uma caixinha de plástico nos punha a falar com o Mundo, todos nós teríamos dito: «Pode lá ser!». Mas afinal podia ser. Em 1961 os campinos não usavam telemóvel.

Peças do puzzle

O Miguel disponibiliza um texto de António Pinto Ribeiro que elabora sobre a decadência do Pacheco. Novidade? Não, mas mais uma peça do puzzle da falência da direita portuguesa, a qual tem estado entregue ao refugo dos arrivistas, aos narcisistas de feira, aos megalómanos pançudos, aos biltres engravatados e aos catastrofistas que andaram na escola primária com o Matusalém. O fel que esguicham é directamente proporcional à impotência onde se afogam.

Vinte Linhas 524

TURISMO – A antiguidade e a relativa importância das coisas

Este mapa do concelho de Caldas da Rainha tem uma particularidade: ainda está em distribuição. Há um simpático espaço da Associação de Artesãos no antigo posto da Polícia de Viação e Trânsito à saída das Caldas para Lisboa pela estrada velha (Sancheira, Cercal, Alenquer) onde outro dia me ofereceram um exemplar.

A curiosidade está na comparação que fiz de imediato com o conteúdo de um CD (ou DVD?) editado pela Câmara Municipal sob o mesmo tema: locais a visitar fora da cidade. O copy wright do CD (ou DVD?) é de 2007 e presume-se que o outro documento é anterior. Pois nos locais a visitar fora da cidade só aparece a Ermida de São Jacinto no Coto e as igrejas Paroquial e da Misericórdia de Alvorninha. Digo só aparece porque no anterior documento do Turismo caldense surgem as Dunas e as Ruínas da Alfândega de Salir do Porto, o moinho de madeira do Zambujal, o Paúl de Tornada, a igreja e o cemitério dos ingleses na Serra do Bouro, Almofala (Alvorninha), o castro do Cabeço Castelo e a igreja paroquial de Santa Catarina.

Ora se o castro e a igreja paroquial de Santa Catarina figuravam no folheto só pode ser pela sua antiguidade. Basta saber que a igreja foi construída pelos fregueses em 1428 em litígio com o abade de Cister e com apoio do arcebispo de Lisboa D. Miguel de Castro que foi arcebispo entre 1586-1625 e chegou a ser vice-rei de Portugal.

Se do folheto para o CD (ou DVD?) passaram anos e tecnologias não percebo como é que a antiguidade que recomendava uma coisa relativamente importante passou de repente e determinar a sua eliminação. Isto é tudo relativo, claro. Mas custa.