wall 01

Entre o visível e o invisível passa uma linha divisória. Uma sequência de pontos, prontos. Mónadas. E dentro de cada mónada está um carrinho de supermercado encostado à parede. Aquela. Como? Se calhar, ainda não calhou. Ainda não o viste, andas com os olhinhos no ar. Confundiste bolhas de sabão com mónadas, sua cabeça de sabonete. Hã? Claro que tens boa desculpa, essa de não haver duas mónadas iguais. Se houvesse, lá se ia a linha para o galheiro. O visível e o invisível perderiam a compostura, misturavam-se, era uma salgalhada. Péssimo para a tensão, mas favorável à tença. Mesmo assim, ali está o carrinho de supermercado. Suportando a realidade sem se queixar. Ali naquela mónada. Presta atenção.

Imitar o visível é fácil, expressar o invisível é comum. Andamos a fazê-lo há dezenas de milhares de anos nos locais mais esconsos e insalubres, incluindo livros e salões de talha dourada. Chega. Já. Precisamos do que não é visível nem invisível, essa ausência de espaço onde moram todos os infinitos e ainda sobram lugares à mesa para as visitas. Com os infinitos, é inevitável: o aborrecimento não tem fim. São as visitas que animam o banquete, porque estão de passagem. E porque trazem carrinhos de supermercado. Cheios.

Aquela fotografia tem um objecto visível escondido atrás de seres invisíveis — disse eu. Disse-lhe mais — Não é ausência o que retratas. É o fulgurante momento em que estamos a chegar. O eco da nossa esperança. O ribombar do tempo.

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Para o meu amigo Tomaz Hipólito

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