Speak inglês? Nesse caso, peçam lá desculpa ao Marocas e aos vossos leitores.
Já agora, gozem também com isto e mais isto. Como estão embalados na tonteira, não será difícil.
Speak inglês? Nesse caso, peçam lá desculpa ao Marocas e aos vossos leitores.
Já agora, gozem também com isto e mais isto. Como estão embalados na tonteira, não será difícil.

O título desta Revista nasce na frase de Óscar Wilde: «Podemos perdoar um homem que faça uma coisa útil desde que não a admire. A única desculpa para fazer uma coisa inútil é ser objecto de intensa admiração».
São três os directores (Maria Quintans, Ana Lacerda e João Concha) e este número de Abril de 2010 foi lançado na «nova» Buchholz na Duque de Palmela. Está tudo diferente menos o piano. Não é uma revista só de jovens poetas; há um equilíbrio entre novíssimos e veteranos. Por exemplo: lemos aqui poemas de Amadeu Baptista, Vítor Oliveira Mateus, Nuno Júdice, Joaquim Cardoso Dias, Casimiro de Brito e José Luís Peixoto. Dois excertos dos novos como convite à leitura do todo da Revista.
De Catarina Nunes de Almeida: «Passei toda a manhã debruçada sobre a moldura / agora tem um pequeno terreiro e cresce por lá de toda a fruta / até aves e o teu cabelo está mais tenro mansinho / dentro da luxúria do vidro. / O sol mastigou-te como as estátuas.»
De Rui Almeida: «Os dedos, as coisas / As ruas e tudo o que nelas passa / As paredes dos quartos / Os animais, as árvores / São quase tempo. / Os segredos e os minutos de espera / Ocupam espaço. / Vou dormir em vez de falar do tempo / Dizer dos barcos o contorno no / Breve oceano onde se movem. Vou / Respeitar os mortos enquanto me doer».
Além do interesse dos poemas há um evidente bom gosto gráfico nesta nova Revista.
Carlos Enes afirmou numa comissão de inquérito parlamentar que o Governo queria afastar Manuela Moura Guedes em 2005. 2005. Sim, 2005. Contaram-lhe. Pessoas amigas, do PS, num jantar. E que fez este bravo com a informação? Poucochinho. Contou à Moura Guedes, mas sem se ter chibado com os nomes dos amigos, que também não quis revelar aos deputados.
Noutro passo das declarações, partilhou a sua opinião relativa à existência de documentos na TVI com que se poderia fazer uma notícia sobre o Freeport. Porém, recusou informar os deputados acerca do conteúdo dos mesmos. Pelo que poderá ser qualquer coisa. Talvez um cálculo probabilístico quanto à marca dos tais envelopes dados a Sócrates em cafés foleiros e tascos manhosos. A pista é a cor, castanho. A partir daqui, é possível fazer um levantamento dos fabricantes que distribuem envelopes castanhos na Margem Sul. Pode ser pouco, mas dá uma notícia segundo os critérios do saudoso J6. Ou talvez tenham entrevistado pessoas que sonharam com Sócrates. Pessoas que garantem tê-lo visto, nesses sonhos, a entregar dinheiro a um mafioso, com a cara do Diogo Infante, para lhe comprar uma casa de luxo algures em Lisboa. Isto também daria uma notícia para a equipa da Moura Guedes.
Um dos elementos característicos da pulhice é a sua incapacidade em fornecer prova. Esta osteoporose ética provoca rachas e fracturas na dignidade dos materiais sujeitos à torção das evidências: a calúnia é um vórtice que arrasta os mais frágeis para uma irremediável perdição cognitiva. Aqueles que assim envenenam as relações comunitárias são o atrito da liberdade.
Mário Nogueira quer um regime de excepção para os professores, onde eles não tenham de ser avaliados para progredirem na carreira. Não só a racionalidade do sistema estatal ficaria posta em causa como a própria legalidade seria violada. Os professores, pelo seu lado, farão qualquer tipo de manipulação e chantagem para aguentarem a barricada. Na anterior legislatura, esta reacção corporativa contou com o apoio de toda a oposição, enquanto o bigodes anunciava que as manifestações dos professores eram instrumentais para retirar a maioria ao PS.
Pois a maioria desapareceu, os professores foram a correr votar no Louçã, e agora? Agora, a luta continua. Só falta que os encarregados de educação se alistem para defenderem o que é seu: o direito a terem professores que não fujam do mérito.
A nossa amiga Ana Paula Fitas, com quem muito irei discordar aquando das Presidenciais, incluiu o Aspirina B numa das suas Leituras Cruzadas…, um magazine de boas leituras que recomendo. Ora, a honra é a dobrar, porque na mesma resenha a Ana inclui esta sempre actual, e preciosa, memória de Osvaldo Castro, protagonista do que relata e celebra.
Aproveito para perguntar: é ou não é encaralhante, para todas as gerações, o deserto ficcional – seja na literatura, cinema ou televisão – acerca deste período? Não se consegue contar uma história que nos leve para esses sonhos e essa coragem, tão apaixonados e tão apaixonante? Portugal, dito país de poetas e escritores, não é seguramente país de argumentistas. E não havendo ficção, perde-se a realidade; como avisa Homero já há uns aninhos.

Os pingos de chuva são uma oração ao contrário, lágrimas de Deus em direcção à terra.
Nos telhados da grande cidade a água perde-se e entra, minutos depois, nas sarjetas do fim das ruas. Ou travessas. Ou praças. Ou avenidas.
Nas velhas províncias, nos barracões e nas adegas, entre fumo e frio, a água multiplica-se nos pátios interiores, nos regatos, nas ribeiras e, por fim, nos rios maiores a caminho do mar.
As gaivotas aparecem no telhado do prédio em frente. Fácil de explicar: o Tejo está apenas a mil e cem metros de distância. Chegam tarde para anunciar a tempestade que já se instalou nos telhados da Travessa André Valente.
No pormenor do óleo de Estrela Faria (datado de 1934) surge o esplendor da cor da cidade, arco-íris de telhados onde a chuva que não pára se assemelha a um óleo capaz de eternizar a força do momento e o mistério do quadro – pequena superfície que aspira a registar para sempre um lugar e as suas cores felizes.
A situação política nacional caracteriza-se por uma desconcertante simplicidade; ao contrário do que dizem os comentadores, para quem a resolução dos problemas corresponderia ao fim da mama. A simplicidade consiste nisto de a oposição estar muito agastada por ser oposição, coisa tramada que qualquer um entende. Como não pode aceitar que a causa de tão desgraçada condição resida nela, numa eventual falta de propostas ou porcaria das mesmas, hipótese que provocaria um curto-circuito de consequências imprevisíveis se tivesse de ser pensada, a oposição responsabiliza o Governo e o PS pelos danos sofridos em resultado de não estar no Poder. Isto é simples.
É por isso que os deputados da oposição estão sempre zangados. Eles sentem-se roubados, sabem que o Governo lhes devia ser entregue sem necessidade de passar pelas eleições, pois são eles que têm as melhores ideias, e as melhores pessoas, para mandar no País e pôr isto tudo nos eixos. Resultado? Comissões parlamentares para tudo, visto estar tudo mal, tudo errado. Neste reino de Pacheco é a suspeita que dá sentido à realidade. Como confiar em governantes que apenas estão no poleiro por causa de votos, e que, ainda por cima, nem sequer têm a decência de adoptar os programas da oposição, os quais são muito superiores à merda do programa do Governo?
A era das comissões parlamentares tem dado azo a revelações que vão moldando a História, desde a recordação do que foi a asfixia democrática no tempo de Santana e Sarmento até à denúncia de existirem provas do Freeport escondidas na TVI, passando pela picaresca imagem do Crespo a dormir agarrado à camisola. Agora, finda a audição com Mário Lino nesta segunda-feira, e constatando a miséria factual e argumentativa com que foi confrontado, podemos reconhecer a importância do Canal Parlamento e suas sessões contínuas. Quem quiser contemplar a simplicidade com que se faz política em Portugal só tem de ouvir os básicos da oposição a debitarem sentenças. Ainda os trabalhos se estão a iniciar e eles já chegaram a conclusões, processo sumário cujo desfecho é lavrado pelos seus actos.
Voltemos ao Satoshi Kanazawa, psicólogo evolucionista, agora vendendo o peixe de que os liberais são mais inteligentes do que os conservadores. Mutatis mutandis, aplica-se a sua tese à diferença entre a direita e a esquerda europeias. E vai assim:
– Os conservadores só querem desviar recursos para aqueles da sua família e círculo de amigos e interesses. Nisto, reproduzem as formas ancestrais de socialização e criação de riqueza, pois durante 99% do tempo da sua existência a Humanidade viveu espartilhada em grupos muito pequenos, assim tendo cristalizado este comportamento tribal.
– Os liberais querem desviar recursos para o maior número de indivíduos que conseguirem, portanto abdicando do critério do conhecimento e interesse pessoal ou particular para doarem bens a terceiros. Este comportamento leva à defesa do Estado social e respectivos impostos.
– Em conclusão, os conservadores são primários, vivendo ainda no passado, enquanto os liberais são sofisticados, estando já adaptados aos novos mega-aglomerados humanos nas cidades e respectivas novas necessidades.
É, mais uma vez, um simplismo de arrebimbomalho. Porque o apoio social pode gerar inércias que diminuem a inteligência. A propósito, não deixa de ser sugestiva a lembrança da redução de inteligência que se constata nas espécies animais domesticadas, as quais atrofiam o seu leque de respostas ao meio dadas as condições de segurança proporcionadas pelos humanos. E é também um simplismo porque o desvio de recursos para o seu grupo de vivência e poder pode levar a um aumento das condições que facilitam o desenvolvimento da inteligência: por exemplo, o ensino privado de luxo será melhor do que o ensino público mediano ou medíocre; ou o maior consumo de bens e experiências aumenta o fosso de competências e oportunidades entre os privilegiados face aos remediados e pobres.
Seja como for, a questão aplica-se como uma luva a Portugal: quem é mais inteligente, a esquerda ou a direita?

Viola-da-terra, menina
Nas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção
Na Rua dos Navegantes
Como na Horta, cidade
São as coisas importantes
Que criam maior saudade
Entre igrejas e conventos
Entre ermidas e mercados
Ficam no pó dos momentos
Os teus passos registados
Nas janelas dos solares
Na Ribeira da Conceição
Nos mais diversos lugares
Angústias em construção
Viola-da-terra, menina
Mas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção
Das Angústias, freguesia
Pode nascer um compasso
Com palavras de alegria
É esta canção que faço
Jardim Florêncio Terra
Num coreto silenciado
Uma voz em pé de guerra
Procura por todo o lado
Qual é o exacto lugar
Onde fica a sua canção
Será na Rua do Mar
Ou na Rua de S. João
Viola-da-terra, menina
Nas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção
Começam nesta segunda-feira as audições na Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar ao caso PT/TVI, a qual vai esclarecer os portugueses acerca das grandes questões que mais importam a quem se importa:
1º. Saber se – para acabar com um espaço pseudo-informativo completamente desacreditado, e desvairadamente burlesco, onde se criavam notícias (nunca desmentidas, repetiram até à exaustão os trafulhas!) acerca da inevitável prisão de Sócrates pelo James Bond – era preciso emporcalhar a carreira do melhor CEO da Europa na área de serviços de telecomunicações.
2º. Saber se Sócrates, enquanto petiscava num dos seus conspirativos e espalhafatosos buffets em hotéis da alta sociedade, terá usado os acrónimos “PT” e “TVI” na mesma frase.
Continuar a lerParoxismo do paradoxo
«O grande livro dos cães» de José Correia Tavares
Nas quadras ao gosto popular também se pode fazer a gramática do Mundo. O autor (n.1938) começa por escrever na primeira das suas 540 quadras o louvor da própria quadra: «Para guardar meu rebanho / cão e flauta pouco mais / num mundo deste tamanho / só coisas essenciais».
A seguir refere-se a si: «Também aos meus calcanhares / mas um homem não recua / José Correia Tavares / ladram mabecos de rua».
Noutra quadra aparece a cidade onde o autor se insere: «Quando alguém por dignidade / não aguenta aquele troço / logo vinte na cidade / são como cães a um osso».
O tempo destas quadras oscila entre o passado («Há velhos cães no Restelo / precisando dois carolos / levam couro e mais cabelo / depois comem-nos por tolos») e o futuro: «Fora da nossa retina / antes de Abril nestas praças / era um cão em cada esquina / sumiram grandes reaças».
As quadras do livro tanto criticam Salazar («A um tronco de oliveira / me lembrando Salazar / é que eu velho cão da Beira / prefiro sempre mijar«) como aplaudem Sophia de Melo Breyner Andresen: «Com o Cristo a que Sophia / em livro chamou cigano / tem cachorro analogia / não é insulto profano».
Não se fechando no horizonte lusitano, as quadras falam também de Beethoven («Quando a Ode à alegria / van Beethoven escreveu / se calhar também já via / o mundo-cão como eu») e de Picasso: «A Guernica de Picasso / já não apanhou os cães / pois retornavam ao espaço / os seus caças alemães».
(Editora: Húmus, Prefácio. Mário Cláudio, Apoio: Câmara Municipal de Castelo Branco)
Há dias, num café, ouvi duas senhoras a louvarem o Facebook. Porque descobriam esquecidos colegas de faculdade. Viam fotografias. Matavam saudades. Encantavam-se as duas com os encontros subitamente possíveis entre antigos amigos ou conhecidos. Uma delas disse que passava muito tempo lá a jogar um qualquer jogo cujo nome não apanhei; bem mais tempo do que o marido, acrescentou com orgulho. As senhoras estavam na casa dos 50 anos, classe média.
Achas benéfica ou prejudicial a crescente digitalização da vida social?
Grupo Desportivo de Chaves – um lugar na história do Desporto
A dupla vitória sobre a Naval que deu o acesso à final da Taça de Portugal em futebol a disputar contra o F. C. Porto, veio colocar de novo a equipa do G. D. Chaves nas bocas do Mundo. A grande curiosidade é que o meu mais recente livro (As palavras em jogo) inclui duas entrevistas com dois flavienses apaixonados – Eduardo Guerra Carneiro e Francisco José Viegas. O primeiro explica como nasceu o Clube: «O Grupo Desportivo de Chaves foi criado em 27 de Setembro de 1949 por fusão do Flávia e do Atlético. O Flávia era mais elitista. O Atlético era mais popular. O Flávia tinha a cor azul e no Atlético havia o vermelho da Cruz de Cristo de «Os Belenenses» (e eu não sei se não havia lá no fundo qualquer conotação política…). O Presidente da direcção do Flávia era o dr. Edgar Carneiro e no Atlético pontificava o dr. João Morais. Julgo que só o prestígio dos dois conseguiu a fusão e a criação do Desportivo. Ninguém a consegue nos Bombeiros, nos Clubes Sociais e até nas Bandas de Música. Agora só há uma, a dos Pardais porque a dos Canários perdeu o pio…»
Francisco José Viegas afirmou: «Vivi em Chaves entre 1968 e 1980. O estádio do Chaves era ao lado da minha casa e era o clube local – passaram por lá futebolistas muito diferentes dos de hoje: mais entusiastas, mais aguerridos, capazes de correr a sério por uma bola que fosse, um golo, uma grande jogada. E o Chaves não era só um clube de futebol – era (e é ainda) uma frente de combate de toda uma região afastada e isolada do mundo, das cidades que tinham grandes clubes e grandes dinheiros».
Nota final – a fonte da imagem da equipa flaviense é dos cadernos de A BOLA.
Há uns meses, Louçã disse que Sócrates, ele próprio, tinha oferecido à Joana Amaral Dias cargos e benesses caso ela aceitasse ser deputada pelo PS. Andou uns dias histérico a berrar contra a traficância socrática, até que foi desmentido. Foi a sua forma de tentar apoucar, mesmo difamar, a liberdade do Miguel Vale de Almeida.
Para Louçã, o PS é um partido de corruptos onde só se salvam os que se deixam manipular pela agenda e estratégia do Bloco. Seja quem for que tenha exercido cargos de responsabilidade política pelo PS, PSD ou CDS, e independentemente do que fez, passa a ser corrupto para todo o sempre e independentemente do que venha a fazer. É esta mensagem que Louçã transmite com fervor, ele é um santo no Inferno.
Pelo que a grande conclusão reza assim: quão mais mansos ficarem os socialistas mais alegres ficarão os bloquistas.
Cavaco esteve bem, no rescaldo do episódio humorístico com Václav Klaus, ao lembrar que prevemos ficar com um défice mais baixo do que o da República Checa em 2013, de acordo com o nosso PEC aprovado pela Comissão Europeia sem alterações, e que tal desfecho não tinha sido referido pelo seu anfitrião.
Entretanto, aqueles que fingem ser de direita soltam a franga sempre que aparece um estrangeiro a tentar afundar este jardim à beira-mar desflorado. Ficam num frenesim catastrofista que mal esconde o letal cinismo da sua política de terra queimada. Sendo o patriotismo um valor axial da direita às direitas, estes tipos mais não conseguem do que mostrar os pantomineiros que são. Vá lá, não se perde tudo.