Vinte Linhas 475

Óbidos – «Theatron» na Galeria nova Ogiva

Pedro Valdez Cardoso (n. 1974) expõe regularmente desde 2005 e apresenta em Óbidos (Galeria nova Ogiva) uma exposição (Theatron) patente ao público até 16-5-2010. Trata-se de um conjunto de peças executadas com materiais de uso quotidiano e perecível como tecidos, alumínios, cartão, papel, cordão, adesivo, arame ou atacadores. Com elas o autor questiona o Homem entre o precário da vida e o inevitável da morte. Ou, nas palavras do próprio autor a Hugo Dinis, autor da apresentação do livro-catálogo: «No caso de Óbidos a minha preocupação foi seleccionar peças que pudessem jogar com o contexto da vila medieval de estrutura militar. Interessava-me ter peças que se relacionassem com essa imagética e que jogassem com possíveis leituras historicistas.»

A galeria nova Ogiva merece só por si uma visita: em 1970 na sua inauguração José Aurélio trouxe obras de 35 artistas: Alberto Carneiro, Ângelo de Sousa, António Sena, Armando Alves, Artur Rosa, Aurélio, Carlos Calvet, Charrua, Conduto, Costa Pinheiro, Eduardo Luís, Eduardo Nery, Escada, Espiga, Helena Almeida, João Abel Manta, João Cutileiro, João Vieira, Joaquim Rodrigo, Joaquim Vieira, Jorge Martins, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Lourdes Castro, Manuel Baptista, Maria Velez, Menez, Noronha da Costa, Nuno de Siqueira, Palolo, René Bertholo, Rogério Ribeiro, Sá Nogueira, Vespeira e Zulmiro. Óbidos está muito perto de Lisboa, tem a auto-estrada à porta e a responsável pela organização (Ana Calçada) tem o bom gosto de colocar nos diversos espaços museológicos de Óbidos meninas bonitas, competentes e simpáticas.

Problemas graves no Público

O Público deixou passar esta notícia, revelando graves falhas de controlo editorial. Ainda por cima, a peça saiu sem a devida explicação complementar do Pacheco Pereira, o qual não teria o menor problema em listar as centenas de fraudes e roubalheiras que o Governo está a fazer a coberto desta retenção de cérebros. Também se estranha a ausência de Louçã a denunciar a traficância de Sócrates, o qual anda a prometer emprego e carreiras a doutorados.

Para se atestar melhor da magnitude da falha no jornal que o Zé Manel destruiu, o Miguel refresca-nos a memória.

Génio de Carvalhal

Carvalhal tem um plano que, a ser cumprido, será o monumento supremo ao seu génio. Trata-se de conseguir ficar a 30 ou mais pontos do 1º lugar, em concomitância com a descida de uma posição na tabela. Dessa forma, mostrará ao mundo que domina na perfeição a arte de colocar uma equipa de 5ª categoria no seu verdadeiro lugar.

Intermitência

“É tempo, creio, de definir, de uma vez por todas, em que pé está a nossa situação”, diz-me, circunspecção e seriedade, N. “Sim, tens toda a razão”, aquiesço. E, com força e determinação, pontapeio-a na boca. “Nunca fui bom nestas coisas dos lados, mas parece-me que é o direito”, pormenorizo, obediente.

Um livro por semana 180

«A arte de morrer longe» de Mário de Carvalho

O vigésimo título de Mário de Carvalho (n.1944) recupera alguma da geografia de livros anteriores – a Lagoa Moura, por exemplo. O ponto de partida é o jovem casal (Arnaldo e Bárbara) que vai inventariando a sua separação física e material antes do divórcio onde há «tapetes persas tão autênticos como os chineses de Arraiolos».

Mas o problema era a tartaruga; nenhum a queria: «A opção entre o Jardim da Estrela e o Parque deu discussão». A mãe de Arnaldo tem um namorado que lê a Wikipedia («muito apreciada por polícias ávidos de instrução e estudantes em apuros de véspera de exame») e quer arranjar a casa de campo: «Dez da manhã» quer dizer «meio-dia», «amanhã» quer dizer «para a semana», «para a semana» quer dizer «nunca mais», «com certeza» quer dizer «não», «garanto» quer dizer nunca», «compromisso» quer dizer «rábula» e «palavra de honra» quer dizer «Tá bem abelha, eu bem te lixo».

Só Mário de Carvalho se lembraria de uma canja de galinha típica da Figueira da Foz, terra de pescadores. Só Mário de Carvalho ligaria o jornal de Eça de Queirós e de Palma Cavalão («Corneta do Diabo») à actual Internet povoada de «piruetas de comentários soezes, chalaças, calúnias, mistificações e ordinarices». Só Mário de Carvalho para pontuar as histórias do casal às voltas com a tartaruga com citações de Eça, Galsworthy ou Gógol antes de a dita tartaruga ir morrer longe. E bem longe de Lisboa, da Lisboa de Mário de Carvalho, «bela e nunca por demais celebrada cidade de Lisboa, urbe das urbes». Sem esquecer que «o mestre-de-obras» não apareceu naquela manhã.

(Editora: Caminho, Capa: Rui Garrido, Colecção: O campo da palavra)

Apenas se percebe

O juiz de instrução criminal de Aveiro enviou uma carta à comissão onde diz – segundo revela um requerimento do PSD – que a tentativa de compra da TVI pela PT “apenas se percebe” com a análise de escutas entre Armando Vara e Penedos. Recorde-se que os magistrados informaram a comissão que enviariam as escutas apenas sob fortes garantias de confidencialidade. O presidente da CPI já os questionou sobre que tipo de garantias são necessárias para os deputados terem acesso aos documentos.

DN

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PSD e BE querem explorar até à última gota a espionagem política feita em Aveiro. Porém, o que Vara e Penedos tenham dito – e seja lá o que for – não pode substituir a realidade. Na realidade, a intenção da PT entrar na TVI era um facto público há anos, em nada se relacionando com a linha editorial da mesma, como o Jornal de Sexta, com a tentativa de afastar o casal Moniz, com planos de Sócrates, Governo ou PS. Os absurdos que a mera hipótese de existência de tal plano levanta são tão flagrantes, dado o número de intervenientes que requer e as inúmeras ocasiões de falhanço em tragédia da operação, que a oposição devia era lamentar não passar de uma fantasia. Os decisores de todas as partes envolvidas têm confirmado o quadro de uma negociação normal, legítima e apenas abortada pela pressão política do PSD, CDS e Presidente da República. E os que não o confirmam, como Moniz e Moura Guedes, ou soltam grotescas e delirantes patranhas ou são desmentidos e ficam-se.

Num tempo em que a Justiça portuguesa finalmente começa a ser obrigada a descer do pedestal para se regenerar, contar com a interpretação desautorizada de diálogos ao telefone por parte de uns magistrados em Aveiro, para assim levar a cabo a enésima tentativa de assassinato de carácter contra Sócrates, é capaz de fazer com que o tiro saia pela culatra.

O meu 25 de Abril

Sonhei que a Joana Amaral Dias e a Rita Rato, alegando suspeitarem que Sócrates foi informador da PIDE durante os anos em que frequentou a Escola Secundária Frei Heitor Pinto, aliciaram a Francisca Almeida para um encontro no parque de estacionamento do Freeport. Assim que a Francisca entrou na Ford Transit conduzida pela Joana, a carrinha arrancou em alta velocidade.

O sonho saltou para o interior de um quarto. A Francisca estava amarrada pelos braços e pernas a uma cama. A Joana e a Rita torturavam-na recorrendo a estranhos instrumentos, pressão corporal e vernáculo de carroceiro. Tentavam que a social-democrata admitisse a superioridade do movimento das forças amadas e respectivo processo revolucionário em cama. Nisto, ouve-se um estrondo e entra pela janela a Carolina Patrocínio. Diz que vem numa missão de sacrifício para resgatar a sofredora. As raptoras dizem-lhe que só libertam a refém se a Carolina estiver disposta a um desgoverno de coligação. Ela concorda, junta-se à Francisca e rapidamente assumem a posição de bloco central rotativo. Quando as quatro se preparavam para uma conferência de líderes, acordei.

É este o meu 25 de Abril. De sonho.

Vinte Linhas 474

Herman José – há 44 anos o seu pai fez parte do meu mundo

Ouvi Herman José na TV a falar sobre o seu regresso às lides. Num dado momento referiu como o dia mais triste da sua vida o da morte do pai em que, passadas algumas horas no velório, teve que arrancar para um espectáculo onde tinha que fazer rir o auditório. Em 1966 trabalhava eu no Departamento Operacional de Estrangeiro no BPA na Rua do Ouro 110 em Lisboa conhecia muito bem o seu pai, o senhor Kriphal. Aparecia no nosso balcão acompanhado por um ou outro cliente para ajudar a traduzir os créditos documentários do Deutsche Aussenhandelsbank da RDA, país que curiosamente era tratado como «Alemanha – Zona de Ocupação Soviética» nas licenças de exportação, os boletins amarelos da Direcção Geral de Comércio.

As empresas que exportavam para a RDA eram (entre outras) o E.S. Brito, o I. Granadeiro, o Torres Pinto, a Socorquex, a Corticeira Estrela, a Liscor e o José Maria Jorge. A todos o senhor Kriphal ajudava com o seu lápis. Ele usava o lápis para traduzir em directo sobre o próprio documento no balcão do Banco. Depois no respectivo escritório eles passavam a tradução para uma folha e era com essa folha que os documentos eram preparados para negociação no nosso Banco.

Passaram 44 anos. Como bancário fiz o meu percurso nos créditos documentários e ao longo desses anos várias pessoas me ajudaram e me ensinaram. Convivi com clientes e despachantes, com o pai do Herman e com correctores de seguros, com Almeida Costa e com Carlos Esteves, o seu delfim. O crédito documentário é das operações mais complexas e fascinantes. Deixo aqui a imagem de um conhecimento de embarque.

Paulo Rangel, o bom amigo dos mercados internacionais

É fundamental que alguém diga aos portugueses que foi o Governo português, com o seu comportamento nestes quinze dias, com ameaças veladas de demissões, que contribuiu para que a nossa situação se agravasse profundamente nos mercados internacionais.

Nós chegámos a uma situação extrema, uma situação que internacionalmente é insustentável, que põe Portugal em termos económicos e financeiros numa situação muito complicada, semelhante à da Grécia, e que se deve à total falta de sentido de Estado e à total irresponsabilidade do Governo português.

Rangel, paladino da Política de Verdade, apareceu cedo a informar os mercados internacionais de estar ao serviço dos especuladores rapaces. Se falasse hoje como Presidente do PSD, diria que a agitação dos mercados resultava do caso das viagens de Inês de Medeiros. Uma tema que não pode ser mais internacional, nem mais especulativo.

Tens visto este bicharoco?

Algumas pessoas deparam-se com esta página quando tentam entrar aqui no blogue. Geralmente, desaparece pouco tempo depois. Noutros casos, aparece com frequência.

Se te continua a surgir, peço o favor que tais dificuldades, ou outras, sejam comunicadas através do email do Aspirina B.

Muito obrigado.

Corromper a corrupção

Domingos Névoa tem todas as razões e mais alguma para dizer que se fez Justiça. Porque fez. A Justiça é esta actividade pela qual se interpretam postulados e se impõem as respectivas conclusões à comunidade. Sendo uma hermenêutica, e não um cálculo, habita a no man’s land entre o universal e o individual; ou seja, a Justiça é incontornavelmente particular – leia-se, é apenas uma parte de um intangível absoluto, da perfeição, do númeno. A Justiça não pode ser justa, pois, apenas tenta prevenir ou estancar a violência.

Não há nada de errado com o desfecho do caso, a menos que se demonstre erro jurídico no acórdão. Aliás, a absolvição do empresário ardilosamente apanhado pelos manos Sá Fernandes vem prestigiar a Justiça, porque é suposto que ela seja cega. Ai da Justiça que anda de olhos arregalados a meter o nariz onde não é chamada, armada em parva. Com romanos fora de Roma é que se culpa e absolve por aclamação.

Os discursos indignados, pesarosos, cínicos ou deprimidos, nascidos deste e doutros casos, são cúmplices da corrupção. Não passam de manifestações da impotência e da hipocrisia, o combustível da decadência. Se existem responsáveis políticos, ou autoridades cívicas, que estejam a combater a corrupção, estão necessariamente a educar os mais frágeis. É a educação que corrompe a corrupção, sempre foi e sempre será. Cidadãos moralmente autónomos e intelectualmente activos tornam-se incorruptíveis; sabem discernir entre o mau e o pior, o bom e o melhor. E o melhor é sempre a Cidade, esse mistério de sermos muitos e sermos livres. De precisarmos uns dos outros.

Galiza, irmã

Quando é um galego a pedir a portugueses para retirarem as bandeiras de Espanha da via pública, cai sobre Valença um manto de vergonha que entristece, por igual, Portugal e Galiza.

Povo doente esse que se deixa ofender na sua própria terra. Não há Serviço de Atendimento Permanente algum que lhe possa valer.

MEMÓRIAS PORTUGUESAS DO SÉCULO XX

Nasceu um novo blogue que necessita do contributo e da interacção de todos para se manter vivo e segregar luz sobre a história recente do nosso país, “Memórias Portuguesas do Século XX”.

Não permitamos que as memórias do antigo regime se apaguem. Temos a possibilidade de narrar, de expor e de nos interrogarmos acerca desse passado cujos contornos e conteúdo se encontram ainda por estudar. Há épocas em que nada se pode expressar, sob pena de sermos perseguidos e até aniquilados. Hoje, podemos debruçarmo-nos sobre um vasto período de história do século XX e tentar colher frutos esclarecedores, os quais possibilitarão desbravar caminhos às gerações pós-revolucionárias. Sem passado, podemos caminhar, mas desorientados, encharcados num etilismo falacioso, consequência de uma erosão mnésica do passado vintesco e do atordoamento feérico da sociedade de consumo, a nova máquina devoradora de consciências.
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Todos pelo silêncio

A Comissão de Ética, dedicada à temática do Exercício da liberdade de expressão em Portugal, concluiu nesta quarta-feira as suas audições no meio do mais absoluto silêncio por parte dos asfixiados branquelas. Tudo começou a 5 de Fevereiro, data em que Ferreira Leite anunciou ter sido feito o requerimento ao Parlamento para ver:

em que situação está a liberdade de expressão em Portugal

Nada de mais apropriado, tendo em conta que nesse mesmo dia o Sol fazia esta capa. Perante uma óbvia operação de espionagem política, em que Aveiro recolhe informações e as distribui a jornalistas para atacarem adversários e aumentarem as receitas, torna-se curial e urgente a intervenção da Assembleia da República, a sede da democracia. Contudo, a Manela tinha um entendimento rigorosamente contrário à defesa do Estado de direito que acabava de ser vilipendiado em frente aos seus olhinhos, tendo chegado a declarar-se pioneira na calúnia e difamação:

Eu durante meses falei sobre esse assunto e, portanto, neste momento nada tenho a comentar, a não ser a certeza de que já falei nisso há muito tempo e que ninguém, provavelmente, levou a sério.

O assunto era o plano de Sócrates para afastar Moura Guedes e Moniz da TVI através da PT. Um assunto falado durante meses pela Presidente do PSD, o maior partido da oposição e aquele que se reclama com vocação governativa por excelência. O que leva à seguinte conclusão, se excluirmos poderes divinatórios ou proféticos que a senhora possa ter: o PSD foi servido primeiro do que o Sol pelos mesmos documentos com que se faziam tão apelativas capas.

Não admira, pois, que neste ambiente de comoção nacional se tenham reunido os patrícios mais puros, os quais foram capazes de assinar um manifesto onde se pode ler esta obscenidade:

A recente publicação de despachos judiciais, proferidos no âmbito do processo Face Oculta, que transcrevem diversas escutas telefónicas implicando directamente o primeiro-ministro numa alegada estratégia de condicionamento da liberdade de imprensa em Portugal, dão uma nova e mais grave dimensão à actuação do primeiro-ministro.

Tradução: um cidadão que calhe ocupar o cargo de primeiro-ministro, desde que seja do PS, perde direitos e passa a culpado através dos jornais. Polícias, investigação, provas, magistrados, advogados, processo judicial? Inutilidades que se dispensam quando há jornalistas aptos para todo o serviço.

Maneiras que os defensores intransigentes da liberdade devem ter espantosas revelações para transmitir à Pátria depois de tantos, e tão prolixos, depoimentos na Comissão de Ética. Mas o facto de há muito se terem calado, e agora nem piarem, deixa-me apreensivo – terão eles sérias dificuldades em lidar com a diferença de opinião?