Corromper a corrupção

Domingos Névoa tem todas as razões e mais alguma para dizer que se fez Justiça. Porque fez. A Justiça é esta actividade pela qual se interpretam postulados e se impõem as respectivas conclusões à comunidade. Sendo uma hermenêutica, e não um cálculo, habita a no man’s land entre o universal e o individual; ou seja, a Justiça é incontornavelmente particular – leia-se, é apenas uma parte de um intangível absoluto, da perfeição, do númeno. A Justiça não pode ser justa, pois, apenas tenta prevenir ou estancar a violência.

Não há nada de errado com o desfecho do caso, a menos que se demonstre erro jurídico no acórdão. Aliás, a absolvição do empresário ardilosamente apanhado pelos manos Sá Fernandes vem prestigiar a Justiça, porque é suposto que ela seja cega. Ai da Justiça que anda de olhos arregalados a meter o nariz onde não é chamada, armada em parva. Com romanos fora de Roma é que se culpa e absolve por aclamação.

Os discursos indignados, pesarosos, cínicos ou deprimidos, nascidos deste e doutros casos, são cúmplices da corrupção. Não passam de manifestações da impotência e da hipocrisia, o combustível da decadência. Se existem responsáveis políticos, ou autoridades cívicas, que estejam a combater a corrupção, estão necessariamente a educar os mais frágeis. É a educação que corrompe a corrupção, sempre foi e sempre será. Cidadãos moralmente autónomos e intelectualmente activos tornam-se incorruptíveis; sabem discernir entre o mau e o pior, o bom e o melhor. E o melhor é sempre a Cidade, esse mistério de sermos muitos e sermos livres. De precisarmos uns dos outros.

20 thoughts on “Corromper a corrupção”

  1. LOL, de ti podemos esperar tudo, até satisfação pelos actos praticados por figuras sinistras.

    Enfim.

  2. Como eu o compreendo, Valupi!
    É muito natural que, para algumas pessoas e na actual conjuntura político-judicial, seja bom que dos tribunais soprem estes “ventos de esperança”.
    Você até começa bem, quando tenta manter-se equidistante dos juízes e dos réus.
    A sua filosofia sobre a cegueira e a independência da Justiça também tem substância.
    Mas depois estragou tudo, ao escrever que “(…) a absolvição do empresário ardilosamente apanhado pelos manos Sá Fernandes vem prestigiar a Justiça, porque é suposto que ela seja cega”.
    A esta sua frase “Não há nada de errado com o desfecho do caso, a menos que se demonstre erro jurídico no acórdão” eu poderia responder que um bom árbitro é capaz de favorecer um determinado clube sem recorrer a erros técnicos, mas não o farei…

    Esclareça-me, por obséquio:
    – Foi o ardil dos “manos Sá Fernandes” que permitiu apanhar o empresário, ou este foi apanhado porque tentou corromper um dos ditos manos? Não haverá aqui um arzinho de calúnia? É que, ao que sei, foi dado como provado que o empresário tentou corromper um dos “manos Sá Fernandes”.
    – A Justiça é cega apenas porque ilibou o empresário? E se o tivesse condenado, passaria a ver tudo e com lentes progressivas? Posso concluir isso das suas palavras?
    – Diga-me também em que outras áreas não deve a Justiça “meter o nariz”.
    Casos que envolvam políticos?
    Situações em que administradores de empresas extravasem as suas competências em proveito próprio ou dos partidos que os lá colocaram?
    A Justiça só serve julgar e condenar os crimes cometidos pela “arraia-miúda”?

    “Os discursos indignados, pesarosos, cínicos ou deprimidos, nascidos deste e doutros casos, são cúmplices da corrupção”. É capaz de me traduzir esta frase, ou ela foi escrita num ambiente tal que os pressupostos que o levaram a escrevê-la não ficaram registados na sua memória? É que não consigo entender que alguém na posse das suas faculdades mentais escreva uma enormidade destas!

    Imagino a sua satisfação, ao verificar que os juízes não se limitam a autorizar a “espionagem política” mas que também sabem elevar bem alto o bom-nome da Justiça, mesmo que esta não seja justa…

  3. Escrevi alguma mentira, Valupi?
    Ou alguma calúnia?
    Você bebe tanto que escreve estas barbaridades e, não contente com isso, acusa os outros de terem o seu vício. Pois…
    Vá, mostre que consegue explicar o que escreve e não se esconda atrás do garrafão.

    …e eu é que sou caluniador e mentiroso!?

  4. Mário Pinto, escreveste tonteiras. Vamos começar por esta:

    – «Foi o ardil dos “manos Sá Fernandes” que permitiu apanhar o empresário, ou este foi apanhado porque tentou corromper um dos ditos manos? Não haverá aqui um arzinho de calúnia? É que, ao que sei, foi dado como provado que o empresário tentou corromper um dos “manos Sá Fernandes”.»

    Que o empresário tentou corromper o Zé, não há ninguém que duvide. E isso, precisamente, por causa do ardil que os manos fizeram, ao conseguirem gravações, provas indiscutíveis. Então, que raio de “arzinho de calúnia” é esse de que falas? Ou tens problemas quanto à semântica de “ardil”?

  5. Bolas, se isto é uma explicação vou ali e já venho…

    “Que o empresário tentou corromper o Zé, não há ninguém que duvide. E isso, precisamente, por causa do ardil que os manos fizeram, ao conseguirem gravações, provas indiscutíveis. Então, que raio de “arzinho de calúnia” é esse de que falas? Ou tens problemas quanto à semântica de “ardil”?”

    Então explique-me porque razão escreveu que “Não há nada de errado com o desfecho do caso, a menos que se demonstre erro jurídico no acórdão. Aliás, a absolvição do empresário ardilosamente apanhado pelos manos Sá Fernandes vem prestigiar a Justiça, porque é suposto que ela seja cega. Ai da Justiça que anda de olhos arregalados a meter o nariz onde não é chamada, armada em parva. Com romanos fora de Roma é que se culpa e absolve por aclamação”.
    Se os manos “Sá Fernandes” conseguiram as tais “provas indiscutíveis”??? Não me diga que estava a ser irónico…
    Segundo sei, o juiz não condenou o empresário por que José Sá Fernandes não tinha poder para conseguir aquilo que o empresário pretendia e não devido à natureza das provas. Estou errado?

    Já agora e porque me parece bem disposto, decifre lá este parágrafo se faz o favor:
    “Os discursos indignados, pesarosos, cínicos ou deprimidos, nascidos deste e doutros casos, são cúmplices da corrupção. Não passam de manifestações da impotência e da hipocrisia, o combustível da decadência. Se existem responsáveis políticos, ou autoridades cívicas, que estejam a combater a corrupção (…)”.

    Espero que não lhe tenha custado muito responder-me…

  6. O valupi já pensou em consultar um especialista do foro psicológico?
    Parece-me haver aí qualquer coisa desajustada,porque parvo você não é.
    Quando escasseiam os contra argumentos,chamar bêbado ao opositor é uma manifestação de impotência e de neurónios já corrompidos!!!

  7. Mário Pinto, eu escrevi acerca da duplicidade que todos constatam e que gerou a polémica: por um lado, há provas da tentativa de corrupção; por outro lado, o acórdão absolve Névoa no estrito respeito da Lei. O que me interessa realçar é a natureza mesma da Justiça nisso dela poder gerar injustiças, ou deixar uma das partes com prejuízo por causa do respeito pela legalidade. Estas contradições, ou até paradoxos, dão que pensar. E todos temos a ganhar em pensarmos mais na Justiça, tanto nos seus resultados como nos seus fundamentos.

    Quanto ao parágrafo a decifrar, apresento a ideia de que as manifestações de indignação contra a corrupção são inúteis ou prejudiciais, pois não levam a qualquer solução. Os que protestam fazem um banzé e depois não fazem mais nada. Adormecem até ao próximo caso. Assim, como esta postura não diminui a corrupção, concluo que a mantém ou aumenta. São cúmplices os que apenas entram num berreiro, para mim.

  8. Muito bem, Valupi

    Registo e agradeço a sua explicação.
    Não concordo com o parágrafo sobre os “discursos indignados”, apesar da sua tradução. Não entendo que quem protesta, ainda que de forma menos correcta, possa vir a ser cúmplice da corrupção, mas terei que aceitar a sua explicação.
    Quanto ao seu texto, na generalidade, estou como no princípio e, por isso mesmo, manteria a resposta que lhe dei. Tenho para mim que quem leia o seu texto dificilmente interpretará aquilo que agora me escreveu. Será a sua forma de escrever, concedo.

    Agradeço também que, numa próxima oportunidade, não se limite a mergulhar o meu texto num copo de vinho. Com certeza que não lhe respondo para lhe agradar mas tento sempre não o ofender.

  9. Mário Pinto, se o critério de escrita pública, mesmo num blogue privado como este, for o do entendimento universal por todos os leitores, então teremos de passar a comunicar apenas por símbolos matemáticos. Como é inevitável, e perante qualquer texto, alguns dirão que não perceberam nada do que leram, ou partes, ou isto ou aquilo.

    Também será inevitável que se discorde de ideias, pois somos diferentes, estamos em situações diferentes, precisamos de coisas diferentes e queremos atingir objectivos, metas e finalidades diferentes.

    O que me deixa preocupado é esse teu melindre com o vinho. Mas desde quando é que o vinho pode ofender?! Só quando é uma zurrapa…

  10. Valupi

    A mim preocupa mais que você atire com o vinho – por muito bom que ele seja – à cara das pessoas só porque não gosta daquilo que elas escrevem.
    Eu posso não concordar com as suas palavras, mas nunca cometeria o sacrilégio de estragar vinho consigo, nem que este fosse zurrapa…

  11. Foi o Valupi, lesto, que veio comentar o caso Névoa, agradado com a absolvição do indivíduo. Já agora, não quer comentar a declaração do senhor juiz do sindicato dos senhores juizes que, indignado com os acusadores de Domingos Névoa que se indignaram com a absolvição do mesmo, disse que se devia acabar com a ordem dos advogados?

  12. Manuel Loureiro, não sei que haja para dizer. Escreveste que eu fiquei agradado com a absolvição do Névoa, pelo que não faço ideia do que se possa dizer a seguir.

  13. Caro Valupi, desculpa-me o agrado que te atribui (se errei), mas aceita o meu desagrado ao silêncio sobre as declarações do juiz sindicalista.

  14. Manuel Loureiro, não falei acerca dessas declarações do sindicalista pela confluência de vários factores, o principal deles o ter sido tão ridícula a declaração que nem justificava especial atenção. Por todo o lado, nos blogues que frequento, esse disparate foi devidamente exposto. E o confronto com Ricardo Sá Fernandes, na SIC, selou o episódio com estrondo. Finalmente, também conta o andar sem tempo para escrever. Isso leva a um menor acompanhamento da actualidade.

    Quanto às variações na interpretação do que escrevemos, especialmente num texto que intencionava uma certa ambiguidade retórica e dialéctica como aquele que escrevi a respeito do acórdão que ilibou Névoa, é inevitável, normalíssimo.

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