Um livro por semana 180

«A arte de morrer longe» de Mário de Carvalho

O vigésimo título de Mário de Carvalho (n.1944) recupera alguma da geografia de livros anteriores – a Lagoa Moura, por exemplo. O ponto de partida é o jovem casal (Arnaldo e Bárbara) que vai inventariando a sua separação física e material antes do divórcio onde há «tapetes persas tão autênticos como os chineses de Arraiolos».

Mas o problema era a tartaruga; nenhum a queria: «A opção entre o Jardim da Estrela e o Parque deu discussão». A mãe de Arnaldo tem um namorado que lê a Wikipedia («muito apreciada por polícias ávidos de instrução e estudantes em apuros de véspera de exame») e quer arranjar a casa de campo: «Dez da manhã» quer dizer «meio-dia», «amanhã» quer dizer «para a semana», «para a semana» quer dizer «nunca mais», «com certeza» quer dizer «não», «garanto» quer dizer nunca», «compromisso» quer dizer «rábula» e «palavra de honra» quer dizer «Tá bem abelha, eu bem te lixo».

Só Mário de Carvalho se lembraria de uma canja de galinha típica da Figueira da Foz, terra de pescadores. Só Mário de Carvalho ligaria o jornal de Eça de Queirós e de Palma Cavalão («Corneta do Diabo») à actual Internet povoada de «piruetas de comentários soezes, chalaças, calúnias, mistificações e ordinarices». Só Mário de Carvalho para pontuar as histórias do casal às voltas com a tartaruga com citações de Eça, Galsworthy ou Gógol antes de a dita tartaruga ir morrer longe. E bem longe de Lisboa, da Lisboa de Mário de Carvalho, «bela e nunca por demais celebrada cidade de Lisboa, urbe das urbes». Sem esquecer que «o mestre-de-obras» não apareceu naquela manhã.

(Editora: Caminho, Capa: Rui Garrido, Colecção: O campo da palavra)

4 thoughts on “Um livro por semana 180”

  1. O casal tem uma tartaruga – outros preferem um pássaro. Eu tinha um peixinho vermelho e estava em processo caseiro de divórcio. Cada qual era igual a cada qual e faziamos vidas separadas debaixo do mesmo telhado, nas avenidas novas. Único elo euro-sobrevivente: o caraças do peixe que já não era bem vermelho, ia resvalando para o rosa pálido… Uma merda. Será que o Mário de Carvalho me colocou escutas? Se não, onde é que o gajo se inspirou?

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