Todos pelo silêncio

A Comissão de Ética, dedicada à temática do Exercício da liberdade de expressão em Portugal, concluiu nesta quarta-feira as suas audições no meio do mais absoluto silêncio por parte dos asfixiados branquelas. Tudo começou a 5 de Fevereiro, data em que Ferreira Leite anunciou ter sido feito o requerimento ao Parlamento para ver:

em que situação está a liberdade de expressão em Portugal

Nada de mais apropriado, tendo em conta que nesse mesmo dia o Sol fazia esta capa. Perante uma óbvia operação de espionagem política, em que Aveiro recolhe informações e as distribui a jornalistas para atacarem adversários e aumentarem as receitas, torna-se curial e urgente a intervenção da Assembleia da República, a sede da democracia. Contudo, a Manela tinha um entendimento rigorosamente contrário à defesa do Estado de direito que acabava de ser vilipendiado em frente aos seus olhinhos, tendo chegado a declarar-se pioneira na calúnia e difamação:

Eu durante meses falei sobre esse assunto e, portanto, neste momento nada tenho a comentar, a não ser a certeza de que já falei nisso há muito tempo e que ninguém, provavelmente, levou a sério.

O assunto era o plano de Sócrates para afastar Moura Guedes e Moniz da TVI através da PT. Um assunto falado durante meses pela Presidente do PSD, o maior partido da oposição e aquele que se reclama com vocação governativa por excelência. O que leva à seguinte conclusão, se excluirmos poderes divinatórios ou proféticos que a senhora possa ter: o PSD foi servido primeiro do que o Sol pelos mesmos documentos com que se faziam tão apelativas capas.

Não admira, pois, que neste ambiente de comoção nacional se tenham reunido os patrícios mais puros, os quais foram capazes de assinar um manifesto onde se pode ler esta obscenidade:

A recente publicação de despachos judiciais, proferidos no âmbito do processo Face Oculta, que transcrevem diversas escutas telefónicas implicando directamente o primeiro-ministro numa alegada estratégia de condicionamento da liberdade de imprensa em Portugal, dão uma nova e mais grave dimensão à actuação do primeiro-ministro.

Tradução: um cidadão que calhe ocupar o cargo de primeiro-ministro, desde que seja do PS, perde direitos e passa a culpado através dos jornais. Polícias, investigação, provas, magistrados, advogados, processo judicial? Inutilidades que se dispensam quando há jornalistas aptos para todo o serviço.

Maneiras que os defensores intransigentes da liberdade devem ter espantosas revelações para transmitir à Pátria depois de tantos, e tão prolixos, depoimentos na Comissão de Ética. Mas o facto de há muito se terem calado, e agora nem piarem, deixa-me apreensivo – terão eles sérias dificuldades em lidar com a diferença de opinião?

12 thoughts on “Todos pelo silêncio”

  1. Na comissão de inquérito PT/TVI é um misto de horror e espanto assistir à sanha persecutória revelada pelo pacto germano-soviético, estão lá todos os tiques dos totalitarismos que fizeram aquelas cabeças. A humilhação, as ameaças, o tom inquisidor, a obsessão, os fantasmas etc… fazem lembrar moscovo, berlim, lisboa de outras decadas. Hoje o gozo foi interrompido pela recusa em responder de um dos depoentes, e o que é uma das maiores garantias do estado democratico transformou-se para estes espiritos mesquinhos e totalitarios uma coisa impossivel de ser compreendida. Mas não faz mal, mais logo na televisão, já devidamente recompostos, falarão da democracia e dos direitos de todos e mais alguns como se fossem o unico pensamento que têm em mente.Aterrador.

  2. 1 – Mário Soares e António Guterres ocuparam o cargo de primeiro-ministro.
    2 – Foram eleitos pelo PS.
    3 – Não perderam direitos nem passaram a culpados através dos jornais.

    Tradução:
    1 – Não se meteram em (tantas) alhadas como José Sócrates.
    2 – Escolheram melhor os boys que colocaram em local de destaque, nas empresas ou na política.
    3 – Os políticos tinham mais respeito pelos lugares que ocupavam.
    4 – Os jornalistas de hoje não diferem dos jornalistas de há anos atrás. Basta recordar o Independente.
    5 – No tempo de Mário Soares e/ou de António Guterres não existia o blog Aspirina B, cujo único propósito é o de branquear as atrocidades, políticas e outras, cometidas pelo actual PS. Mas nessa altura não havia tanto assim para “lavar”, não é Valupi?

    Por falar em comissões, o silêncio de Rui Pedro Soares na Comissão de Inquérito ao caso PT/TVI é deveras interessante.
    Faz lembrar aquelas pessoas que só na hora das desgraças é que se lembram que existe Deus.
    Tradução: Rui Pedro Soares terá (atenção Vaupi, eu escrevi “terá”. Esta bem assim?) passado ao lado da Lei enquanto administrador da PT e da Taguspark mas quando se sentiu apertado escudou-se nela para não responder aos deputados.

    É de político/administrador, pois claro!
    Este episódio servirá, no mínimo, para demonstrar que José Sócrates está a fazer escola no PS e que este não ficará órfão no dia em que o PM saia, seja para a União Europeia ou para alguma empresa privada. Até pode ser uma das que não aceitou diminuir os prémios aos seus gestores…

  3. Ah, Mário Pinto. Se bem percebi, Sócrates, quando sair, não deve, sob pena de ferir susceptibilidades:
    – Ir para a União Europeia continuar uma carreira de serviço público.
    – Ir para o sector privado depois de uma carreira de serviço público.
    – Se, apesar das objecções do Mário Pinto, for para uma empresa privada, seria preferível ser daquelas que pagam mal. Não queremos cá pessoas a enriquecer com o seu trabalho.

    Resumindo, as únicas opções para si aceitáveis seriam então:
    – Mosteiro
    – ONG, sem remuneração.

    Estou esclarecido.

  4. O Sócrates “esqueceu-se” de fazer os acordos de cavalheiros que os os seus antecessores fizeram e que consistem basicamente em comprar a paz podre em troca da distribuição de cargos e favores aos boys da oposição.

    Com isto, eles não se conformam e nunca se calarão…Pudera, foram-lhes ao bolso.

  5. Vega

    Esse papel de suposto anjinho fica-lhe mal.
    Você sabe, ou deveria saber, que essas “translações político-económicas” têm custos e, da mesma forma que não há pequenos-almoços grátis, muito menos haverá bons lugares sem contrapartidas.
    Presumo que não precise de exemplos do que atrás escrevo.

    Mas o importante – para mim e agora – tem que ver com a forma de estar de José Pedro Soares, a quem enalteço as juras de amor eterno que fez ao Futebol Clube do Porto.
    Essas sim, foram declarações importantes e plenas de significado político!
    Pelo menos deu para entender que nada tem que ver com o processo “Apito Dourado”…

    P.S.: Você é que se auto esclareceu. Que culpa tenho eu que você tire conclusões erradas porque lhe dão jeito?

  6. Valupi

    Que sorte a minha, em ter um mestre como você. Mas tenha cuidado!
    É que me dá a impressão que você, quanto mais ensina aos outros, menos fica a saber…

  7. Caro Mário Pinto, para ficar-mos com uma ideia mais completa, o ponto 1 deveria ser antecedido, do ponto 0.

    “Tradução:
    1 – Não se meteram em (tantas) alhadas como José Sócrates.”

    Este:
    0 – Nunca houve um Primeiro Ministro com “tomates quanto baste” para mexer em tantos interesses instalados (saúde, educação, justiça…) como José Sócrates.

    É evidente que os restantes pontos são uma consequência deste.

  8. Caro VM

    Permita que lhe faça duas perguntas:
    1ª – José Sócrates meteu-se em alhadas porque teve “tomates quanto baste” para mexer em tantos interesses instalados (saúde, educação, justiça…)”?
    2ª – Ou José Sócrates meteu-se em alhadas porque tem “tomates quanto baste”, apenas e só?

    É evidente que se alguém tem “tomates quanto baste” para se meter com aquela gente mais os seus interesses, não é o facto de os ter que o impede de se meter em alhadas.
    Concorda com a minha conclusão?
    Eu sei que fiz uma pergunta desnecessária…

  9. Concordo, VM.

    Acho que nunca tivemos um Primeiro-Ministro com a força suficiente para colocar (ou, no mínimo, tentar colocar) as coisas na ordem. É um processo, é verdade. E ainda há muito a fazer.

    Mas anda aí muita gente com o rabinho bem sentado e que são os primeiros a gritar pelos seus direitos. Avaliação? Não! Justiça social? Para nós, claro. Os outros que se lixem!

    Mas será que têm só direitos ou também terão deveres? Será que são os únicos que têm direitos? Não haverá aí uma infinidade de gente sem “voz” para reivindicar que está farto de ser sempre o prejudicado quando muitas corporações (em melhores condições) berram e batem o pé pelo que dizem ser os seus direitos?…

    Para viver numa sociedade saudável é preciso olhar para (e ter em conta) também os que vivem ao nosso lado nessa mesma sociedade. É necessário um “bocadinho” mais de responsabilidade social.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.