Paroxismo do paradoxo

Começam nesta segunda-feira as audições na Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar ao caso PT/TVI, a qual vai esclarecer os portugueses acerca das grandes questões que mais importam a quem se importa:

1º. Saber se – para acabar com um espaço pseudo-informativo completamente desacreditado, e desvairadamente burlesco, onde se criavam notícias (nunca desmentidas, repetiram até à exaustão os trafulhas!) acerca da inevitável prisão de Sócrates pelo James Bond – era preciso emporcalhar a carreira do melhor CEO da Europa na área de serviços de telecomunicações.

2º. Saber se Sócrates, enquanto petiscava num dos seus conspirativos e espalhafatosos buffets em hotéis da alta sociedade, terá usado os acrónimos “PT” e “TVI” na mesma frase.

Esta comissão é tão ridícula que fica como um paradoxo ambulante: a sua existência desmente o objecto de inquérito. A ideia de que Ministros, Secretários de Estado, administradores, executivos, accionistas, e até a minha vizinha do 4º andar, iriam satisfazer o capricho ao engenheiro e comprar a TVI para calar Moura Guedes é apenas metade da alucinação. Caso a PT entrasse na Media Capital, todos os holofotes ficariam apontados à TVI. A menor corrente de ar que atingisse o casal Moniz daria origem a um imediato escarcéu vindo dos próprios, da oposição, da comunicação social no seu conjunto. A tal ponto que, se o critério fosse o do interesse do PS e de Sócrates, a pior situação – eleitoral ou governativa – seria a de ter a PT ligada à TVI. Aliás, basta ver como o fim do Jornal de Sexta, a poucas semanas das eleições Legislativas, foi inscrito na campanha negra como mais uma manobra de asfixia democrática e apagamento das vozes incómodas. Segundo disse quem sabe da poda, e perante um órgão de soberania, Sócrates terá telefonado ao Rei de Espanha e encomendou o servicinho. Outros garantem que o bandido falou directamente com Deus em oração e lá sacou o milagre a troco da tolerância de ponto aquando da visita do Papa. O mesmo para a saída do Zé Manel, o qual continuou a ser invocado como vítima de Sócrates mesmo depois do próprio Belmiro explicar, com todas as letras, que o pastel de Belém tinha sido destituído por já estar fora do prazo.

É fascinante constatar que o PSD poderá ter tido acesso às informações que se iam coligido em Aveiro com as escutas ilegais e demais investigações. É essa suspeita que recai tanto sobre as declarações da Manela, logo em Junho, como do Pacheco, ao longo de muitos meses; e, particularmente, num acto de pura vingança raivosa, quando a inventona de Belém foi desmontada pelo DN. Igualmente fértil em indícios é a resenha das opções do PSD ao longo do tempo. Em Junho, ficaram-se pelo berraria e chamaram mentiroso a Sócrates com a fúria e desprezo desafiador de quem se sente protegido por trunfos na manga e segredos fatais. O caso demorou no Procuradoria e entrou em cena o espião da Madeira. Só depois das eleições voltámos à recuperação do plano para aniquilar a liberdade de expressão, agora para fazer números no Parlamento contra Pinto Monteiro que não tinha sido amiguinho dos golpistas. Por estas alturas, curiosamente, o PSD dizia que não se justificava uma comissão de inquérito – talvez por já saberem que não daria nada nesse tipo de levantamento rigoroso e objectivo? Foi só com as pulhices do Sol que o PSD se abraçou ao BE, primeiro com uma Comissão de Ética circense e confrangedora, e depois com esta fantochada que ninguém sabe neste momento para que serve – assim se revelando que os crimes contra o Estado de direito compensam quando há políticos para quem vale tudo.

O facto do Pacheco estar na comissão de inquérito, e de ser o maior e mais desavergonhado caluniador da política nacional, confirma que se atingiu na Assembleia da República o paroxismo do paradoxo: quem faz o mal, faz a caramunha.

5 thoughts on “Paroxismo do paradoxo”

  1. Em cheio! Só faltou realçar que esta comissão de inquérito é a prova que faltava ao povo para continuar a murmurar por tudo quanto é cantinho de Portugal: para que servem, afinal, duas centenas e meia de deputados? E respodem: para comentar noticias dos jornais. E alguns, mais bem informados, acrescentam: para alinhar com os criminosos que espiam e exibem, triunfalmente, o produto do crime!
    De facto, aquilo a que assistimos com estas comissões, não é a fiscalização dos actos governativos mas dar voz, até ao paroxismo, das pulhices da nossa justiça entregue a jogos de política, em vez de cuidar da dita. E temos na AR duas centenas de deputados a incentivá-los, criando estas comissões: sigam em frente, valentes magistrados! Forniquem esta merda toda!
    E o ordenado, gordo, pinga certinho no fim do mês. E ganham-no a fazer esta merda!
    Não poderão ser avaliados? De facto são: classificam-se todos, uns aos outros, com «excelente» e por isso são intocáveis. Ficará tudo como está, tanto para magistrados como para deputados.
    Mas, como dizia a minha mãe, «Deus não dorme». Acredito que desta “merda” vai sair uma democracia melhor. Nesse sentido, é, literalmente, o estrume da futura colheita. E cheira mal comó raio!

  2. O Pacheco na dita comissão da AR é o caso típico do pirómano que finge ajudar os bombeiros a apagar o fogo. Não há vergonha deles nem há pachorra de nós. Safa!

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