Um livro por semana 179

«O grande livro dos cães» de José Correia Tavares

Nas quadras ao gosto popular também se pode fazer a gramática do Mundo. O autor (n.1938) começa por escrever na primeira das suas 540 quadras o louvor da própria quadra: «Para guardar meu rebanho / cão e flauta pouco mais / num mundo deste tamanho / só coisas essenciais».

A seguir refere-se a si: «Também aos meus calcanhares / mas um homem não recua / José Correia Tavares / ladram mabecos de rua».

Noutra quadra aparece a cidade onde o autor se insere: «Quando alguém por dignidade / não aguenta aquele troço / logo vinte na cidade / são como cães a um osso».

O tempo destas quadras oscila entre o passado («Há velhos cães no Restelo / precisando dois carolos / levam couro e mais cabelo / depois comem-nos por tolos») e o futuro: «Fora da nossa retina / antes de Abril nestas praças / era um cão em cada esquina / sumiram grandes reaças».

As quadras do livro tanto criticam Salazar («A um tronco de oliveira / me lembrando Salazar / é que eu velho cão da Beira / prefiro sempre mijar«) como aplaudem Sophia de Melo Breyner Andresen: «Com o Cristo a que Sophia / em livro chamou cigano / tem cachorro analogia / não é insulto profano».

Não se fechando no horizonte lusitano, as quadras falam também de Beethoven («Quando a Ode à alegria / van Beethoven escreveu / se calhar também já via / o mundo-cão como eu») e de Picasso: «A Guernica de Picasso / já não apanhou os cães / pois retornavam ao espaço / os seus caças alemães».

(Editora: Húmus, Prefácio. Mário Cláudio, Apoio: Câmara Municipal de Castelo Branco)

9 thoughts on “Um livro por semana 179”

  1. Meu Caro José do Carmo Francisco:

    São 540 cães, um em cada quadra ?
    Se assim fôr, Zé Correia precisa de 77 ossos para não defraudar o rifão (nem o cão) dos “7 cães a 1 osso ” .
    Se for o mesmo, também se pode dizer que são rimas a mais para tão pouco cão !
    Que me desculpe o quadrista, mas esta é a minha vingança contra os cães de quem tenho medo desde puto.
    Prefiro o seu “pequeno livro dos gatos” em qualquer telhado da periferia !
    Um abraço
    Jnascimento

  2. Sinhã e Joaquim: o acaso não existe mas isto foi mesmo por acaso. JUntar um gato e um cão quase de seguida no «aspirinab» foi mesmo por acaso.

  3. Aos cães e aos ossos, Sinhã !
    E com isto fiquei sem saber se são sete cães a um osso ou cem cães a um osso, o que ainda é pior.
    Boa tarde
    Jnascimento

  4. Pequena correção que não retira sentido: é bem na quadra final «retornavam no espaço / em seus caças alemães» em vez de «retornavam ao espaço / nos seus caças alemães». Erro meu. Sophia é bem de «Mello» e não de Melo. Erro meu.

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