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Apesar de Martim Avillez ser o responsável máximo pela filha-de-putice que o labrego do Mascarenhas fez contra o Jumento, esta carta desperta simpatia e empatia.

Quanto ao mais, é curioso como os investidores na comunicação social não se dão conta da evidência: há um público maioritário que quer jornalismo, não quer o Zé Manel de Belém, as campanhas contra o engenheiro, a derrota do Estado de direito, o vale tudo dos ranhosos e dos imbecis. Porque o jornalismo, quando tem a coragem e os meios para ser idealista, dá sentido ao mundo. Retira-o quando se torna partigiano.

O gato de Fernanda – nove fragmentos

Atento, discreto, pacato. No perímetro da luz, olha a dona. O gato.

No lume aceso com a lenha do barracão antigo, as sombras são afastadas até ao sótão da infância. Aos gatos, sua paisagem, seu povoamento.

Que força empurra o gato frente ao sol no castanho-luz do telhado?

Teu gato a quem a chuva proíbe telhados e terraços. Veio do Egipto num navio de Veneza. No Cacém, sorri à dona portuguesa.

Terra trazida. Pequenas partículas de chuva nos limões e nas maçãs, invisíveis memórias de uma terra trazida. Minha terra, perto do teu gato.

Vejo intervalos de sol nos telhados do bairro, humidade permanente a respirar nas telhas como se o prédio fosse um corpo cansado, humano. O gato espreita.

Roubar alguns cabelos teus para fazer cordas de uma guitarra. Suave melodia, frente ao gato.

Há no teu olhar telhados infinitos, memória de paquetes brancos no rio e de sardinheiras vermelhas na varanda ao lado. Luz e calor. Gatos e sorrisos.

Há na tua voz um som que incorpora os sinos de Lisboa. De São Roque à Sé, da Conceição Velha à Madre de Deus. Toda a geografia de um afecto assim reproduzido, junto ao gato na janela.

Why Atheists Are More Intelligent than the Religious

É o que anda a tentar demonstrar Satoshi Kanazawa, um psicólogo evolucionista.

A tese é esta: acreditar em Deus, ou deuses, é natural, ser ateísta não é natural; logo, a inteligência que se adapta ao natural é menos inteligente do que a inteligência que se adapta ao que não é natural. O argumento invoca a evolução e sua constante novidade.

Para mim, esta tese é simplista e falaciosa, até ignorante. A crença no divino não se resume a ser um salto antropológico que se confunde com a própria identificação de uma consciência humana, tem sido também uma força que levou à filosofia e à ciência. A religião em nada se opõe ao intelecto, é precisamente ao contrário. Outra questão é a da moralidade e da política, as quais podem remeter para a religião na sua vontade de poder ou retórica. Contudo, é preciso nada saber do que é o Ocidente para justificar a abolição do poder religioso em nome do progresso científico.

Que pensas deste assunto?

Balada para Carlota e Collandre

(Rua da Misericórdia, 30)

Carlota, mulher menina

Ao lado de Marta, mãe

Vê o Chiado na esquina

Cais do Sodré mais além

Num eléctrico amarelo

Entre a Estrela e a Graça

Passam sombras do castelo

Nos carris por onde passa

Alecrim, rua da ilusão

A olhar para os telhados

Os cacilheiros já estão

Nestas telhas atracados

Martim Moniz – Prazeres

Quando muda a bandeira

Ouço a voz das mulheres

Trazem as flores da Ribeira

«Anúncio de Primavera»

É quadro em exposição

Collandre mulher sincera

Pinta sempre com razão

A traço firme e seguro

Máscara de fantasia

A palavra que procuro

Nunca me dirá todavia

Esplendor do imaginário

Nestas pautas musicais

Que desenham o contrário

Das paisagens essenciais

Que Carlota vai levar

No sorriso fim de dia

Já Marta fecha o lugar

Onde a luz se refugia

Marketing do escudo

Encontro, fora de Lisboa, anúncios em bombas de gasolina onde se comunica em escudos e não em euros. E faz todo o sentido. Entre Desconto de 9 cêntimos e Desconto de 18 escudos, os nossos neurónios preguiçam e respondem ao estímulo imediato: o número maior.

Hei-de sugerir a um gasolineiro a experiência de comunicar o desconto em reais. Vai ter uma enchente.

Educated guess

As notícias do caso Figo/Taguspark, a confirmarem-se, são boas tanto judicial como politicamente. No plano da Justiça, é um alívio ver um processo com esta importância política chegar a resultados preliminares com rapidez. Politicamente, vai permitir testar uma hipótese sociológica acerca do PS.

Obviamente, os acusados estão inocentes. Só deixarão de estar se forem considerados culpados pelo Tribunal. Todavia, e visto de fora, é impossível escaparem ao julgamento popular que não deixa margem para dúvidas – as informações publicadas pela comunicação social indiciam acto corrupto. O que leva a questão para Figo, o único que detém a chave da situação se não existirem provas concludentes. Porque a acusação deixa de fazer sentido se Figo não foi cúmplice de nenhum artifício ilícito, antes de livre vontade apoiou o PS na campanha eleitoral para as Legislativas, como tem alegado desde que o caso rebentou.
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Balada de Mateus Queimado em 1913

Meu tio, juiz de Direito

Comarca da ilha de Goa

Veio reformado a preceito

Era a bondade em pessoa

Da Índia eu nada sabia

Com tigres e palmares

Na Ilha era outra alegria

Touros em vários lugares

Na venda do Cambadinho

Cravo, pimenta e canela

Faço um recado sozinho

Espero o meu tio à janela

Entre lágrimas da mãe

Um suspiro mal abafado

Saímos mas não a bem

Despejados no mandado

Uma loiça de tons quentes

Foi sair duns caixotões

Eram colchas diferentes

Estampas, leques, cadeirões

No Mandovi ele insistia

Nós só tínhamos ribeiras

Um caudal só de um dia

Com lamas amareleiras

Um telegrama cifrado

Meio da aula de francês

De Lausanne enviado

Levou meu tio de vez

Pediu-lhe ajuda a filha

Para a fúria da mulher

Ele disse adeus à Ilha

São Francisco Xavier

Conversa interrompida

Do meu tio aposentado

Assim Goa saiu da vida

Do moço Mateus Queimado

Génio de Carvalhal

A última coisa que o Sporting pretende é que o Benfica deixa escapar o título. A visão de um cenário onde até o Braga ganha campeonatos é pesadelo que não deixa dormir ninguém em Alvalade, sonâmbulos incluídos. Carvalhal, um génio capaz de alterar o futuro a partir do passado, tratou logo de garantir a Bettencourt que sabia bem o que fazer. Para começar, excluir Vuk dos convocados. O seu agente tinha declarado há uns dias que mais valia mandarem o rapaz embora se não o queriam a jogar, pelo que as dúvidas terão desaparecido. Este foi o 1º sinal de que a equipa estava disposta a aceitar qualquer sacrifício para ajudar os lampiões, até a perder o seu jogador mais criativo. O 2º sinal veio com um toque de génio só ao alcance do génio de Carvalhal, isso de meter no meio-campo dois médios defensivos e um defesa. Esta fórmula destina-se a criar uma barreira intransponível para o ataque leonino. E resulta sempre.

Exposição

Mané do Café na Fabula Urbis

Jorge Carlos Amaral de Oliveira (n. 1952) é mais conhecido como Mané do Café e tem até 30 de Abril uma exposição de pintura na Livraria Fabula Urbis (Rua Augusto Rosa 27) ali atrás da Sé.

O título – Lisboa em Café – diz quase tudo sobre os trabalhos em exposição: Fernando Pessoa, Santo António, Alfredo Marceneiro, Carlos Seixas, Fernando Maurício, Amália Rodrigues. Além dos eléctricos, das guitarras e dos recantos da cidade.

Português do coração, Mané explica-se num poema: «Sou mais português / Que seu Manel motorista / que torcia pelo Flamengo / Eu sou do Vasco da Gama».

Vale a pena dar um salto ali à Sé de Lisboa ou ver aqui.

Dessocratização em curso

Paulo Rangel queria dessocratizar Portugal através de um verrinoso e maníaco plebiscito à idoneidade de Sócrates como cidadão e sujeito psicológico; tendo como arma de destruição cognitiva, infelizmente nada secreta, a sua estridente e esganiçada voz de bácoro em dia de festa. Seria a continuação do hercúleo trabalho do Pacheco, o qual assumiu a tarefa desde Agosto de 2008, logo a seguir ao tiro de canhão dado por Belém em direcção aos Açores. Pacheco foi notável nesse serviço, identificou-se com a personagem com todas as células do seu organismo e enlouqueceu pelo caminho. Deixou de ser a Anita Ekberg assobiada pelo Menezes para se tornar na Romy Schneider esquecida pelo partido, só o loiro é o mesmo.

Passos Coelho, durante a campanha, prometeu varrer o Governo e a Procuradoria do mapa, mas era tesão do mijo. Logo no noite da vitória, apresentou-se murcho e a precisar de dormir. No congresso, garantiu ser um bom rapaz, Cavaco podia contar com ele para que nada atrapalhasse a caricata recandidatura. Pelo que o actual PSD tem só uma figura de interesse neste momento: António Nogueira Leite. Este texto, entre outros, tenta explicar aos ranhosos que uma direita vencedora não se deixa acobardar e desvairar, nem mesmo perante um formidável adversário como Sócrates. Foi o medo que levou à obsessão com o engenheiro, para gáudio de um PS que é neste momento o único partido com cultura de governação. A estupidez, como tão rigorosamente frisa Nogueira Leite, da estratégia de Cavaco, Manela e Pacheco só conseguiu reforçar a credibilidade do PS – o qual tem diversas soluções na manga para substituir Sócrates e garantir tranquilamente mais um ciclo de Poder quando for necessário. Só cagões cagados é que não o perceberam, não o entendem e talvez nunca o compreendam.

Entretanto, Sócrates é mesmo formidável – são os seus inimigos que o dizem, e mostram, desde 2005. Eis uma das mais interessantes questões para os próximos 20 anos na política nacional, essa de saber o que vai acontecer ao seu legado e à qualidade governativa das figuras que congregou à sua volta. Mas, para já, venham mais tentativas de assassinato de carácter, mais instabilidade parlamentar, mais boicotes e agendas sindicais. Temos de beber o cálice até ao fim.

Pub

Chama-se Criticus e um dos seus sócios-gerentes, Miguel Oliveira, soube apresentar o pedido para ter aqui na casa um momento de publicidade às camisolas que criam. Como esta:

Para Braga, os meus votos de boa sorte e bom humor.

Um livro por semana 178

«Barbershop» de Júlio Conrado

«Barbershop» é o capítulo da página 138 que passa para título deste 26º livro de Júlio Conrado (n.1936). Embora na barbearia se cruzem o poeta F.F. e o crítico literário Porfírio Inverno, enquanto se defrontam tipos de poesia – Pedro Homem de Melo e Herberto Hélder – este é um romance de costumes. Há um triângulo amoroso (Diamantino, Bordalo e Guilhermina) com duas brasileiras para atrapalhar: «Guilhermina era a sua namorada oficial quando Bordalo lha roubou para casar com ela». Se «Guilhermina é uma mulher fria, calculista, secreta» a «Bordalo falta traquejo na arte do engano». O autor propõe a chave no livro que a mulher lê: Sentada num maple, lia. Cartas Portuguesas de Mariana Alcoforado? Não! Arte de Furtar? Também não! As palavras poupadas de Maria Judite de Carvalho? Podia ser, mas não! O Triunfo da Morte de Abelaira? Qual! Guilhermina relia D. Casmurro e recordava, com a ajuda de Capitu, a arte da dissimulação». Os conflitos surgem sempre em campos distintos: duas livrarias (Aristides e Galileu) duas barbearias (A Brilhante e Ao Corte Superior) e dois lugares em oposição – o Algarve («Para mim o Algarve é Setembro») e Cascais («Caminharam entre um renque de palmeiras-anãs e o baixo muro de protecção do que os locais chamam a muralha»). É aqui que o embaixador sueco fica à espera enquanto o agente literário diz a F.F. na manhã do Nobel: «O teu nome e a tua obra são mais importantes do que tu.» Fica o retrato dum tempo anterior: «vivera a condição de puto de bairro popular que, acabada a instrução primária, entrava para marçano na mercearia mais próxima, aprendiz de talhante, moço de farmácia ou para paquete de escritório; com um pouco de sorte e uma cunha de peso era-se recrutado para groom de um jornal, de um banco ou de uma companhia de seguros».

(Editora: Presença, Capa: Catarina Gaeiras, Foto: Jean-Claude Martinez)

Esta direita está torta

Os programas de debate político, televisivos ou radiofónicos, são espaços que prometem análise e reflexão; mas que raramente ultrapassam o nível primeiro, e primário, do entretenimento. Fenómeno que não tem mal algum, the show must go on e quem quiser que se informe e pense pela sua cabecinha. Pessoalmente, só lamento não saber quanto é que os bacanos ganham. Que pena não termos acesso a uma tabela comparativa, descobrir se a SIC paga mais do que a TVI ou se num mesmo programa há quem ganhe mais do que o colega. Como estamos perante uma indústria da opinião, já era tempo de se tornar público o pilim envolvido, pode despertar vocações.

A característica mais irritante nalguns deles é o amiguismo compulsivo e ostensivo, isso de não se controlar a excitação de estar ali a debitar sentenças para a populaça. Desatam a mandar piadinhas uns aos outros, felizes da vida por poderem festejar os seus laços de ternura em palco. Neste particular, talvez não exista programa mais insuportável do que o Governo Sombra, na TSF, de si já um híbrido falhado entre a política e o humor. O Eixo do Mal é outro que tal, mas o que me interessa agora destacar é o A Torto e a Direito.
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O bode da viúva

Escondem entre as pernas o bode da viúva

Bem longe do balcão da sombria taberna

Seus gritos são iguais às bátegas de chuva

Da água maldita que não entra na cisterna

Nem mata a sede neste Verão de fornalha

Que queima as gargantas de quem passa

Nas ruas mais apertadas onde se espalha

Toda a pobreza da aldeia toda a desgraça

Cisterna, único lugar da casa bem fechado

Mais que roupa ou louça, arca ou armário

Riqueza fechada no segredo dum cadeado

Mata a sede de quem chega ao contrário

Da vida que se vai projectando no ecran

E que termina a dois numa dança ritual

A chuva da noite vai repetir-se de manhã

Nas ruas onde o ar sabe a mar e sabe a sal

Sinistra

O sucesso do PCP é estritamente do foro religioso, uma crença acrítica e messiânica, daí o conservadorismo do partido – mudar é morrer. O sucesso do BE é estritamente do foro do marketing, o apelo conjuntural e corporativo, daí a plasticidade do partido – mudar é viver. Estas forças não admitem ser parte de nenhuma solução governativa que inclua um PS democrático, só com um PS que ceda à tirania ideológica que professam admitem partilhar responsabilidades e trabalhar em conjunto. E não se vislumbra alteração no fanático marasmo.

Como é que se sai deste desperdício de votos? É preciso ter em conta que a imbecilidade da esquerda imbecil leva a que nada de fundamental tenham alterado, ou influenciado, no modo como os poderes fácticos operam. Portugal não é menos corrupto, mais justo ou mais produtivo por qualquer acção ou proposta que associemos directa ou exclusivamente ao PCP e BE. O desfasamento entre as exigências grandiloquentes e a recusa em negociar desvela uma lógica de barricada e boicote. Pelo seu ideário, PCP e BE olham para um regime democrático como uma anomalia histórica a ser superada. Eles não admitem misturas com o inimigo.

Portanto, voltemos à puta da pergunta: como é que podemos sair desta funesta inércia à esquerda? Paradoxalmente, a solução passaria por um muito maior conhecimento das doutrinas, dirigentes e activistas do PCP e BE. O Bloco até nem se pode queixar, pois tem sido levado ao colo pelo capital que domina a comunicação social, mas só conhecemos enlatados para consumo fora de casa. Sem a coesão garantida pela vedeta mor, rapidamente o partido se fragmentaria em querelas fratricidas em tudo iguais à que existe entre BE e PCP. Quanto ao PCP, é uma reserva de dinossauros cada vez mais básicos, como se pode ver pelas novas caras que vão aparecendo. Quando o Bernardino tomar conta daquilo, até G-3 voltarão a ser armazenadas pelos camaradas. Estudar o programa do PCP, ouvir as suas figuras mais importantes, detalhar o mundo que se sonha e ambiciona no partido comunista mais ortodoxo da Europa, são actividades que ajudariam decisivamente a alterar o mapa eleitoral.

O discurso destes dois partidos esconde uma postura que diminui o real poder daqueles que alegam representar e defender: os mais fracos, os mais pobres, os trabalhadores. Acontece que os mais fracos, os mais pobres e os trabalhadores não querem diabolizar Sócrates, derrotar o PS e dar o coiro pela revolução. Quem ocupa o seu calendário com esses jogos é a imbecil elite partidária, e por esta ancestral razão: tem tempo para isso.