O lugar do vento

Desde sempre quis saber porque razão se chama moinho a este pequeno navio.

As velas projectam a velocidade que não desloca o moinho mas, pelo contrário, interioriza essa velocidade e transforma-a em farinha de milho e de trigo.

Alguns teimosos ainda fazem pão verdadeiro

porque recusam o pão de plástico do hipermercado.

De vez em quando um cabo trava o movimento das velas

tal como a âncora que imobiliza o navio, no sossego da tarde, no tempo suspenso,

no lugar do vento onde se junta o sal do mar e a argila desta terra singular.

A terra de onde parti e aonde hei-de voltar um dia para descansar perto do lugar do vento, sem obter resposta para a minha dúvida de sempre:

saber porque razão se chama moinho a este pequeno navio.

Dar bandeira

Na verdade, nunca amámos a Bandeira, gostámos de cantar o Hino, soubemos de cor a História. Teve de ser um brasileiro, e por causa do futebol, a cobrir o País de rectângulos verde-rubros.

Logo, o pessoal de Valença, ao encher a terra com bandeiras de Espanha, só consegue irritar o Carlos Queiroz.

Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater

(para Cláudia Cardinale em Aconteceu no Oeste)

Não tive tempo para nada.

A trompete ajudou com as suas notas sincopadas a simular os meus soluços que ninguém ouviu. Nunca tinha visto um banquete de morte. Lá longe, em New Orleans, as mesas servem sempre para as refeições e para a alegria dos encontros. Aqui de nada serviu a recomendação de Brett à filha para cortar as fatias do pão muito maiores que o habitual.

Não tive tempo para nada.

Nem para as lágrimas que são a água salgada da revolta perante a injustiça da morte. Nem para perceber quem mandou matar uma família inteira. Nem para perceber porquê. Ainda era cedo. Sei agora a diferença entre a água doce do meu poço e o sal da água azul do Oceano Pacifico que está num quadro da parede da carruagem de luxo de Mr. Morton.

Não tive tempo para nada.

Afinal ainda é cedo para saber de um homem, moreno e triste, capaz de, como quem cumpre uma sentença, matar vários assassinos depois de tocar uma melodia vagarosa numa harmónica velha, presa ao pescoço por uma corda muito mais pequena e estreita do que a outra, a utilizada para enforcar o seu irmão mais velho numa infância já distante.

Não tive tempo para nada.

Aos poucos percebi como é possível construir um sonho em miniatura. A madeira está paga, os barris cheios de pregos estão à espera. É só contar os passos e marcar o perímetro das primeiras casas de Sweetwater. A Estação e a Igreja, o Banco e o Hotel, as primeiras lojas. O sonho de Brett McBain não pode ficar adiado. A roldana do poço espera por mim. Os primeiros operários do caminho-de-ferro acabam de chegar e estão mortos de sede.

Os olhos de Afonso

Tinham água e fogo mas também sangue pisado

Os olhos de Afonso depois do golo em Alvalade

Ele regressou do Inferno, foi traído e humilhado

Mas marcar este golo foi escrever uma verdade

Poderia ter sido a explosão da revolta ou o grito

Mas foi mais do que isso; foi a festa e foi o golo

Ele foi o pastor de um rebanho perdido e aflito

No campo da amargura sem luz e sem consolo

Foi um livre marcado por um homem renascido

Regressado de uma morte civil mal decretada

Hoje é livre o jogador que andou como perdido

Os autores do seu martírio, esses não são nada

Minutos depois numa conferência de imprensa

Os olhos tinham água, fogo, sangue e alegria

Ele soube vencer toda a força da indiferença

Ganhou o pão da esperança à espera deste dia

Asfixia Alvar

Quando é que os 30 castiços que foram para a Assembleia da República sacrificar a sua querida hora de almoço voltam a reunir-se para decidirem novas manifestações de força e patriótica indignação face às revelações na Comissão de Ética? Afinal, já se descobriu quem deu cabo do magnífico Governo santanista!

Se estiverem com falta de ideias, aqui vai uma: enfiem-se numa estação de Metro e parem as carruagens em nome da liberdade de expressão e contra o plano do Governo para calar Moura Guedes via PT. Basta esticarem o bracinho ou, para os mais compungidos, não sair do lugar.

Alegretes

Seguro e Ana Gomes, atacando Mexia e Sócrates, fazem bem ao PS e à politica nacional, mas não pelas razões que imaginam possuir em seu favor, antes pelas contrárias.

Onde Seguro vê um escândalo com o dinheiro que este ano Mexia vai receber, eu vejo escândalo com a incapacidade de Seguro para explicar os milhares de milhões que os trabalhadores não vão receber. Falo das ideias para o desenvolvimento económico de Portugal, que não conheço uma que tenha nascido naquela cabeça tão subitamente preocupada com uma empresa e um indivíduo nela.

Onde Ana Gomes encontra desgosto em casas e cartas, eu encontro desgosto na estética da burrice e da deslealdade. Causticar casas rurais pelo seu aparato arquitectónico é uma exibição de superioridade intelectual típica do elitista marxismo, mas que todo o mal fosse esse. O pior é o desprezo pelos cidadãos que optaram por ter aquelas casas e que talvez nem conseguissem traduzir o paleio snobe da Ana Gomes. E, para cúmulo, atacar a carta de Sócrates é um caso de castigo à vítima. A intenção da carta é responder a uma manobra de difamação, e nela encontra-se uma postura descontraída, simples e frontal. Tudo características que Ana Gomes diria de si própria se convidada a descrever-se mas que não admite ao Primeiro-Ministro. Como uma vez escreveu o Miguel Sousa Tavares, e ele tem pinta de saber do que fala, as mulheres são volúveis.

Coincidência

Uma das características mais surpreendentes do ciclo Sócrates está a ser a natureza moralizadora da sua governação. Em 2005 – depois de Santana, Barroso, Guterres e Cavaco, os quais se igualaram e ultrapassaram em conivências com o dissoluto alheamento cívico – a sociedade estava no ponto mais baixo do respeito moral por si mesma. Fugir aos impostos, cultivar as cunhas e os compadrios, burlar empresas e particulares, ter o cinismo e o oportunismo como mapa e bússola, não eram apenas práticas correntes e transversais a todas as classes, eram também atitudes e comportamentos celebrados como normativos e doadores de estatuto. Era o tempo em que passava por otário quem não enganava a TV Cabo, recolhia facturas falsas nos restaurantes, pagava sem factura qualquer serviço onde pudesse poupar uns tostões, tentava subornar polícias e soldados da GNR para evitar multas, arranjava atestados médicos falsos para toda a família e ocasiões, arranjava receitas falsas, preferia artigos de contrabando e sei lá que mais que não tenho pachorra para lembrar. Ser mitra era desígnio nacional. No topo da sociedade reinava o deboche: o jet set da tanga e obscenamente chunga, a ética napolitana do cavaquismo onde nasciam ricalhaços de BMW a cada esquina dos fundos europeus, o capitalismo do cartão de crédito de Guterres, o desprezo de Barroso pelo eleitorado a quem pedinchou o cargo de primeiro-ministro, a inépcia e farsa de Santana e sua malta. Em 2004 e começos de 2005 quase ninguém acreditava que fosse possível dar à volta à situação.
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Vinte Linhas 472

Portugal – O piquete e o cabo de dia ou A sarjeta no altar

Parece de propósito. Quando há dias coloquei no «aspirinab» o texto sobre o livro do Raul Brandão (1867-1920) com a citação da página 111 de «Vida e morte de Gomes Freire» houve quem não gostasse e me criticasse asperamente por fazer esta citação onde se podia ler: «É a vaza, é o costume secular, é a infâmia que sobe do fundo do charco e tolda tudo, suja tudo. Umas são reles, outras simplesmente ridículas.»

Parece de propósito. Poucos dias depois lá veio de novo Sócrates, a cegarrega dos projectos assinados, dos mamarrachos, das incompatibilidades, das suspeitas, das denúncias. Desta vez foi num jornal mas podia ter sido numa televisão. Claro que eu sei (tenho a obrigação de saber) que o pessoal de piquete e o cabo de dia não estavam à espera do que saiu no «aspirinab» mas dá que pensar. Parece que foi um reflexo.

Na minha terra existe uma expressão muito curiosa e muito apropriada ao caso que é esta: «Fulano sempre cavou com a mesma enxada». Quando um indivíduo teimava em manter a sua ideia, mesmo errada e com erro confirmado pela comunidade, as pessoas diziam: «Deixa lá que ele sempre cavou com a mesma enxada.»

Esta trapalhada do jornal da SONAE (podia ser da televisão, não vem ao caso) é mesmo de quem só cava com uma enxada. Quando se apagarem os foguetes deste «caso» lá virá a carta «anónima» do caso Freeport. E se for necessário, repete-se e voltam a ser distribuídas as cartas do baralho já velho, na velha taberna do velho país.

Parece de propósito. Esta gente não percebe que assim está a confundir tudo, a salpicar de lodo o jardim de todos, a enfim colocar uma sarjeta num altar. O seu altar.

Ela bem avisou

O silêncio que a Comissão de Ética causou nesta terça-feira, onde se chegou ao ponto de ver a oposição recusar-se fazer perguntas a Emídio Rangel (!!), é a prova provada da existência de uma asfixia democrática em Portugal capaz de dominar as consciências e acabar com a liberdade de expressão.

Altura para recordar as sinceras e seríssimas palavras de Ferreira Leite em 5 de Fevereiro, aquando da justificação desta tão proveitosa iniciativa parlamentar:

Eu durante meses falei sobre esse assunto e, portanto, neste momento nada tenho a comentar, a não ser a certeza de que já falei nisso há muito tempo e que ninguém, provavelmente, levou a sério.

O Miguel faz o resumo.

Ondas na Rede

Provando que o Correio da Manhã tem acesso aos melhores segredos que se guardam em Portugal, Paulo Querido tem lá um armazém de novidades acerca da vanguardista e feérica cultura digital.

O Paulo não se limita a ser um jornalista, um divulgador e um entusiasta, é também alguém que ousa fazer, empreender e inovar. Caso único.

Vinte Linhas 471

URBAN MAN – Profética não é provecta nem táxi tem a ver com tacho

No passado dia 2 de Abril fui ver o Sporting-Rio Ave e, para além dos cinco golos «leoninos», da expulsão envenenada de Izmailov e da não-expulsão do jogador do Rio Ave que derrubou Yannick à entrada da sua grande – área quando seguia isolado em direcção à baliza, houve outra coisa que aconteceu no jogo: a oferta de um exemplar da revista portuguesa para homens com o nome bem inglês de Urban Man.

Na página 41 da dita revista surge um texto sobre Silva Lopes: «Será que estamos tão mal de gestores que temos sempre de recorrer aos suspeitos do costume, mesmo quando já têm a profética idade de 77 anos?» Ora bem. A idade de quem tem 77 anos de vida não é profética mas sim provecta que vem do latim provectu e significa avançada ou adiantada em anos. Profético é outra coisa – tem a ver com predizer o futuro ou fazer profecias. Mais abaixo surge um outro texto sobre Maria de Lurdes Rodrigues a propósito da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento: «os taxistas são sempre os mesmos». Ora bem. Tacho como significado de ter um emprego chorudo (ter um bom tacho) nada tem a ver com táxi ou com taxímetro nem com taxista, profissional do volante. Tacho não tem a ver com táxi.

Na terceira coluna da página refere-se Francisco Loução como autor de artigos de economia e de física teórica. Aqui já é mais uma dúvida. De economia sabemos da economia política e da economia social mas de física só sabemos da física atónica e da física nuclear mas será que existe mesmo uma física teórica e que Francisco Louçã é especialistas mesma sem a gente saber? E fazemos figura de urso?

O troféu mais cobiçado

Nem tudo o que tem influência política tem origem política. Muitos dos ataques a Sócrates, num fenómeno a merecer investigação académica, são gerados por despeito, inveja, ferruncho. Apenas tal vazio moral explica o que se passou ontem na edição digital do Público, por exemplo, onde o passado profissional de Sócrates foi 1º destaque o dia todo.

A magnitude da campanha contra o engenheiro transformou-se numa caçada febril. Ele é o troféu mais cobiçado para alguns inimigos políticos, alguns empresários, alguns jornalistas. Enquanto uns vão endoidecendo debaixo dos holofotes na sua fúria, como o Pacheco, outros acumulam munição para disparar a partir dos telhados, como o Cerejo. E quando se junta um accionista, um jornal e uma redacção em uníssono odioso, temos terrorismo mediático, gás tóxico lançado para o meio da populaça. Os gaseados fazem o resto, estrebucham e desvairam.

Entretanto, os snobes de esquerda e direita estão com a pança cheia de riso porque descobriram a realidade arquitectónica da paisagem rural da Guarda nos idos de 80. Não perdoam a Sócrates o triste espectáculo que fere as meninas dos seus olhos. Se fossem eles os artistas, só teriam vendido projectos capazes de concorrerem ao Pritzker. E ai dos bimbos que quisessem as coisas lá à moda da terrinha.

Os snobes de esquerda e direita, quando toca à arquitectura, querem tudo em grande, espaçoso e bonito. São velhos hábitos.