No caso das eventuais escutas em Belém, José Manuel Fernandes é uma peça-chave. Desde que saiu a notícia, e em estrito acordo com o lançamento da bomba, ele tem sugerido que Cavaco aprovou a acção. Essa possibilidade ficou reforçada com o conhecimento do email revelado pelo DN, por um lado, e pelos silêncios e declarações crípticas de Cavaco, pelo outro. Acresce que o Zé Manel já avisou ter uma vasta investigação em curso cujo alvo é o Governo e os serviços de informação, assim reforçando a densidade da suspeita e, na prática, tomando partido pela validade da mesma. Neste cenário, os que estão cegos pelo seu ódio a Sócrates esperam que, mais cedo do que mais tarde, as provas apareçam e o Engenheiro seja derrubado pelo Professor. Os restantes, estão banzos com o inacreditável comportamento do Presidente, o qual está a arrastar o País para uma crise institucional absolutamente imprevisível – e que poderá ainda estar envolvido em crimes ou ter assessores passíveis de responsabilização criminal.
Assim, estes 13.52 minutos são fundamentais para vermos (ou imaginarmos) uma luz ao fundo do túnel neste inusitado imbróglio. Marcelo é conselheiro de Estado, para além de residir nele um prestígio senatorial que lhe dá uma especial autoridade numa crise com esta gravidade. Marcelo é uma figura que pode substituir Ferreira Leite e Cavaco a qualquer altura, com óbvios ganhos, é a mais valiosa referência simbólica do PSD agora que Cavaco caiu em desgraça. Pois bem, este mestre da intriga palaciana tomou o partido da sanidade mental e da ética: é mentira que alguma vez Cavaco tenha suspeitado da existência de escutas ou vigilâncias posto que nunca as denunciou a quem de direito durante 17 meses. Este será o único desfecho que salva a face do Presidente da República, porque a alternativa, a existência de suspeitas e até de escutas, arrastaria Cavaco na enxurrada pois teria faltado à sua responsabilidade, pelo menos.
Marcelo adjectiva o caso de ridículo e decreta um puxão de orelhas ao assessor da Presidência que será o solitário culpado. Isto equivale a dizer: já chega de loucura, atinem, por favor. Especialmente caricato foi o modo como comentou o desmentido do Estado-Maior General das Forças Armadas à notícia do CM que trazia declarações de fontes anónimas da Presidência a referir uma investigação das secretas militares em Belém. Para Marcelo, impaciente, tal confusão não passa de mais um equívoco fruto do nervosismo eleitoral.
Aqui chegados, temos de nos perguntar o que diria Marcelo numa situação similar onde o Presidente da República em causa tivesse sido candidato pelo PS. E não é difícil. Marcelo diria que se estava a viver o impensável, o maior escândalo do regime desde o 25 de Abril, e que todos os sinais apontavam para uma situação caótica em Belém, onde o Presidente não tinha qualquer mão sobre a sua Casa Civil ou era cúmplice, quiçá mentor, dos seus desmandos. Terminaria com uma graça, de graça duvidosa, dizendo que só faltava que essas pessoas que estão a largar notícias conspirativas em período eleitoral pegassem em caçadeiras e fossem para o alto dos muros do Palácio de Belém disparar contra quem passa.
Felizmente, o Presidente é do PSD e Marcelo pode resolver a coisa com esta limpeza e contenção de danos.