Escuta com atenção

À medida que se vão conhecendo os factos, tomando como facto também as declarações e os silêncios dos intervenientes no caso, cresce a probabilidade de estarmos perante uma gigantesca conspiração, ligando Presidente da República, PSD e SONAE, pelo menos. É nessa linha que aponta a simultaneidade da utilização estratégica e retórica do tema da verdade a partir de 2008, tanto por Cavaco como pelo PSD de Ferreira Leite. E também o uso do Público como instrumento político da Presidência. Neste momento, há uma contradição insanável entre as declarações de José Manuel Fernandes, a garantir que deu uma notícia legítima e devidamente autorizada em Agosto, e o que se sabe do que o Presidente fez e não fez até hoje. Não havendo queixa às autoridades por parte da Presidência, há crime em Belém – independentemente da existência ou inexistência de escutas.


Entretanto, urge desmontar um elemento de intoxicação que está a ser repetido por todos os cabecilhas ou cúmplices da suspeição. Remete para o Procurador-Geral da República e uma sua declaração que incendiou o mês de Outubro de 2007:

Penso que tenho um telemóvel sob escuta. Às vezes faz uns barulhos esquisitos.

Por causa desta sonora imagem, teve de ir ao Parlamento explicar trrim-trrim por trrim-trrim que caralho andava a dizer aos jornais. Quando lá chegou, falou de chinesices à venda no Martim Moniz. Isto é, esclareceu que não estava preocupado com o seu telemóvel, queria era lançar a discussão relativa ao excesso de escutas legais e à facilidade tecnológica das ilegais. De caminho, lançou também a confusão, porque não se chegou a consenso hermenêutico. A declaração era demasiado esotérica, podia remeter para lutas dentro da Procuradoria, da Procuradoria com o sindicato dos magistrados, da Procuradoria com os juízes, da Procuradoria com a Judiciária, da Procuradoria com o Governo e até da Procuradoria com o Parlamento e sistema político. Uma só certeza: Pinto Monteiro tinha colocado a questão no foro da política do Ministério Público, não era uma questão que extravasasse para os domínios judicial, policial ou criminal. Tratava-se da gestão da sua agenda, tão-somente.

Agora, em 2009, o episódio é utilizado como intencional falácia, de modo a deturpar a opinião pública. Ao recordar as palavras de Pinto Monteiro sem as contextualizar, o objectivo é criar o máximo de insegurança e validar os temas da asfixia democrática, medo na sociedade, projecto pessoal de poder de Sócrates e escutas em Belém. Também se refere o caso do microfone colocado no gabinete de Cunha Rodrigues, entre 91 e 93, mas não se diz quem o fez e porquê, sequer quando. Igualmente, traz-se à liça Sampaio e as escutas registadas num ficheiro Excel da PT, porém sem perder tempo a comparar-se a sua imediata e impulsiva actuação com a inércia e inacreditável ambiguidade de Cavaco. O que se pretende, obviamente, é aumentar a desconfiança e dirigi-la para Sócrates e Governo, numa chocante falta de vergonha.

Veja-se este exemplo, onde Helena Matos alimenta a decadência da direita ranhosa repetindo o cinismo estéril que pretende defender o indefensável. E escuta com atenção a Filipa Martins, uma das muitas manifestações de um Portugal que vai vencer este momento negro em que o cavaquismo estrebucha e se revela em toda a sua maldade.

8 thoughts on “Escuta com atenção”

  1. Acho que esta caldeirada ainda vai a meio. Não acredito que o Público seja o unico veiculo de noticias de “fontes” presidenciais.A miseravel campanha negra parece ter a mesma inspiração. Se cavarem um pouco mais fundo poderá vir ao de cima muitas raizes entrelaçadas, jornalistas, operadores judiciais,etc…

    Gostei muito da Filipa Martins. Acho mesmo que merece um post dedicatoria do Confúcio Costa:))

  2. «uma das muitas manifestações de um Portugal que vai vencer este momento negro em que o cavaquismo estrebucha e se revela em toda a sua maldade.»,

    só me resta reiterar este voto. Não há palavras para qualificar o comportamento da direita vulgo ppd, ou melhor, há: os casos BPN e BPP et al.

  3. Já agora:

    Estou enganado, ou a data da “encomenda” do assessor situa-se nos limites temporais do rebentamento do caso BPN?

  4. O Cavaco Silva e a Ferreira Leite, ao falarem de medo e de asfixia democrática lançando suspeitas inacreditáveis sobre Sócrates e o Governo, estão a branquear o que se passou na ditadura. Exploram o facto de muitos eleitores não terem memória do que se passou nesse tempo. Só falta estes senhores dizerem-nos que o Salazar era um menino de coro comparado com Sócrates, e que no tempo dele é que se respirava a verdadeira liberdade.
    A Verdade é que esta coisa da democracia, eleições, liberdade de expressão, ainda não encaixou nas cabecinhas desta gente que vive das memórias dos bons velhos tempos. Podem viver do que quiserem, desde que não nos tentem impingir o seu sonho de regresso ao passado. Não são precisas escutas para perceber o bafio nesta Política de Verdade, basta vê-los e ouvi-los.

  5. este bando do ppd tem uma sobreposição estonteante com a adesão à guerra do Iraque, são co-responsáveis por muitos milhares de mortos inocentes, caia-lhes o peso em cima.

  6. A jornalista Helena Matos deve saber do que fala ao afirmar que, caso o PSD ganhe as eleições, no dia seguinte os jornalistas do DN colam-se ao poder e viram ferreiristas. Será que está a assumir que foi isso que fizeram ela e os colegas do Público com a eleição de Cavaco, tornaram-se cavaquistas?

  7. As nossas simpatias
    Gosto de azul sou sócio do Sport Clube Freamunde e simpatizante do Belenenses. No que toca a vestimenta é raro a usar, acho que não combina bem comigo. Faço esta referência porque acho que ninguém é neutro seja no que for. Pode ser menos fanático, saiba olhar para o seu umbigo, mas que tem preferências isso tem, se não fosse assim, eram uns irracionais.
    Vem isto a propósito de ao ouvir a entrevista na TVI, publicada no Aspirina B, “Veja-se este exemplo” onde Helena Matos o que diz vem confirmar aquilo que penso. Falou várias vezes que achou bem os jornais trazerem para a praça pública o caso do telemóvel sobre escuta do PGR; do Freeport; do caso Casa Pia; mas do BPN e outros nada disse. Como se sabe colabora no blogue Blasfémias, e o seu mentor é o “insuspeito” Carlos Abreu Amorim. A Filipa Martins também trabalha para o Corta-fitas, não sei a sua tendência, pela posição que tomou julgo afecto ao PS. Das duas, vou mais com a posição da Filipa Martins, porque fez um melhor retrato sobre a posição assumida pelo DN, e uma critica ao PR, que está sempre a leste quando lhe convém, mas como disse acima gosto do azul. Depois aquela resposta que dá à jornalista, “não sou ingénuo e a senhora também não o é?” Nunca ouvi ninguém dizer que Cavaco Silva era ou é ingénuo, sempre achei que usa segundas intenções para obter algo, em lugar disto devia ser mais frontal e usar os meios porque fez juramento, que é defender a Constituição da República e não fracções como de há muito vem demonstrando. Se assim fosse ou o governo era demitido, o seu assessor ou ele. O quarto poder “comunicação social” vem defender os seus interesses e de há muito tempo não se via tal ataque e maledicência a um órgão democraticamente eleito, chegando ao ponto de chamar ao 1º. Ministro, Presidente do Conselho, aldrabão, corrupto, sem provas fundadas e quando se defende, dizem que está a usar a asfixia democrática, se nada dissesse, diziam que quem cala consente, estas pessoas julgam que estão no 24 de Abril.
    Gosto da frontalidade, não defendo os travestidos que tudo fazem para enganar o povo. Um dia, na minha juventude fui a uma casa de prostitutas e entre muitas vi uma que me seduziu mais, bem vestida, bons atributos, um par de seios impecáveis, convidei-a para o quarto e quando nos estávamos a despir, verifico que tudo foi uma ilusão, chegando ao ponto de nem ganhar erecção e vir embora pagando sem a usar. Por tudo isto gosto de ver as pessoas despidas dos seus preconceitos antes de investir e julgo que de todos o que mais se despiu foi José Sócrates, mostrando o que fez de bom e o que fez de mal. O que vou fazer dia 27 é votar José Sócrates, porque prefiro burro que me carregue que égua que me derrube.

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