Cardoso Pires, de súbito, numa rua da Ericeira
Na pontuação destes dias de Setembro a espuma branca das ondas na Foz do Lizandro faz com que elas pareçam parágrafos e os rapazes estrangeiros, quando passam com as pranchas debaixo do braço a caminho do mar, parecem pontos de exclamação. É o fim das férias para quem trabalha e haver mesas com menos gente na esplanada é já um sinal. Os outros, desempregados de longa duração ou sujeitos a biscates ocasionais, não podem dizer que estão de férias. Pelo contrário; eles sabem que não há nada mais sem esperança do que um recibo verde. Terminado o meu dia de trabalho frente ao ginger ale e ao livro à espera de uma nota de leitura, despeço-me da praia do Lizandro trazendo nos ouvidos o som da rebentação e no nariz a força do iodo tão comum das praias do Oeste. De súbito Cardoso Pires aparece numa placa no nº 35 da Rua (salvo erro) Francisco Granate. São estas as palavras: «Nesta casa viveu José Cardoso Pires com os seus amigos. A sua escrita e a dignidade solidária de um dos maiores escritores do nosso tempo. Maio 1999». Esta rua não faz parte das minhas voltas diárias mais voltadas para o Parque de Santa Marta e para o Jogo da Bola, para a Biblioteca Municipal e para o simpático café em frente – o Paloma. Dei por mim a pensar numa história que JCP me contou na Estufa-fria numa mesa com Maria Ondina Braga e António Torrado. Um indivíduo pede boleia ao Cardoso Pires no Porto, mete conversa, julga-o conhecido da tropa e, em Coimbra, surge a polícia de trânsito. Excesso de velocidade dá multa. O da boleia tenta convencer o polícia a perdoar. Já em Lisboa o desconhecido pára nos Olivais e entrega a JCP não só a carta apreendida pela PVT mas também o caderno completo das multas. Era um profissional.
Nota final – esta crónica integra a antologia das crónicas jornalísticas do século XX de Fernando Venâncio para o Círculo de Leitores.


