Semiótica de uma conspiração

Um dos mais caricatos aspectos das suspeitas de escutas e vigilâncias a Cavaco, seja por quem for, diz respeito a um singelo aspecto que ninguém refere: o Presidente da República Portuguesa é a pessoa que goza do mais forte e sofisticado sistema de segurança em Portugal. E não se trata só das equipas que estão, elas sim, em permanente vigilância contra as mais desvairadas ameaças. Trata-se também de todos os recursos policiais que o Presidente pode convocar a qualquer momento, incluindo a máquina militar. A ideia que os conspiradores querem passar, contudo, é a de que Cavaco é um senhor muito distinto e solitário, coitadinho, que vive num casarão em Belém onde a segurança é confiada ao jardineiro vesgo e ao podengo brincalhão.


Outro ponto vexante diz respeito ao primarismo da motivação. Aparentemente, os conspiradores acham que vamos comprar a possibilidade de Sócrates, e vasta equipa, ter tanto interesse em conhecer os pensamentos secretos de Cavaco e Casa Civil que arriscaria o seu futuro político, ou até a prisão, num estouvado acto de vigilância, escutas ou qualquer forma de coerção policial. Ora, o contrário é que parece verosímil: Cavaco e corte imaginarem-se tão importantes que precisariam dessa fantasia como prova de serem eles o verdadeiro poder em Portugal. Isso seria condizente com a sua prática, desde a engenharia das lideranças partidárias no PSD à liderança factual da oposição ao ponto de se definir a estratégia do partido em Belém, entre outras maroscas.

Finalmente, os conspiradores esperam que ignoremos a impossibilidade sociológica de tal operação, pois inevitavelmente acabaria por ser conhecida por inúmeras pessoas, a informação circularia pelos meandros apertados de um pequeníssimo país. A ideia do Governo chegar a um serviço de informação e anunciar que quer escutas e vigilantes em Belém é de um absurdo já esquizóide. Os serviços de informação estão enquadrados por rigorosa legislação e são eles próprios controlados. Há pessoas do PSD em todos esses órgãos de segurança, mas nem tal circunstância é relevante. A tese da instrumentalização dos serviços de informação, e logo para um ataque à mais alta das instituições nacionais, implica conceber esses organismos à imagem e semelhança dos que proferem a acusação: sem um pingo de carácter.

Entretanto, os eventos obrigam a uma releitura do comportamento e atitudes de Cavaco desde o período contemplado pelo email. É especialmente interessante a análise da linguagem não verbal, onde se notou um crescendo de sinais psicossomáticos de mal contida hostilidade. Cruzando com a leitura política, onde se registou a intenção de criar alarmismo social, Cavaco não parece ter salvação. Por exemplo, aquilo que ficou apenas como bizarrice, a referência a uma sondagem que revelava preferência por eleições simultâneas, e que afinal não passava de um inquérito online do Correio da Manhã – portanto, até passível de ter sido falsificado pelo jornal para servir de arma de arremesso – pode agora ser visto como um episódio típico da estratégia de distorção sistemática dos cenários políticos. Ao tempo, ninguém deu muita importância ao assunto, tratou-se como fenómeno psicológico, picardia inconsequente. Agora, tal intervenção não parece distinta da que Cavaco teve no caso da PT-TVI, onde fez um poderoso e pérfido ataque contra o Governo. Da estupefacção ao jipe, passando pelo discurso da verdade, Cavaco foi exibindo uma postura bélica de quem se sente acossado e com um objectivo secreto a atingir.

E, aqui entre nós, o ser que escolheu Dias Loureiro para conselheiro de Estado, e tudo fez para o proteger ao ponto de ter relegado para segundo plano os interesses nacionais, talvez tenha mesmo muito para contar – como antecipa o Pacheco.

11 thoughts on “Semiótica de uma conspiração”

  1. não vejo escapatória possível à tese de que Cavaco alimentou uma suspeição de escutas deliberadamente, por forma a incidir no processo eleitoral, violando o seu dever de neutralidade e isenção de forma inaceitável.

  2. Peço desculpapor isto não ter nada a ver com o tema do post, mas não resisto a este desvio. Jerónimo de Sousa ontem lançou o mais erótico-pornográfico-hilariante ataque a Sócrates que eu me lembre. A nota de rodapé na televisão ficou deliciosa:
    “Sócrates parece uma donzela purificada a sacudir o bicho…”
    Está decidido. Mais outra destas e voto CDU

  3. Ainda no outro dia (num qualquer telejornal) se referia o muito interessante facto de que, não satisfeito com o costumeiro rastreio anual, o Cavaco pediu aos Serviços de Segurança que inspeccionassem a residência oficial 4 vezes só em 2008. Speaking of paranoia…

  4. Sim, basta! Toda esta escumalha pérfida e sem pingo de vergonha tem de ser corrida quanto antes dos lugares cimeiros do Estado onde se alapou e a Presidência da República rápida e eficazmente desinfectada e higienizada.

    O lugar dos bácoros é na pocilga e o dos parasitas é na sarjeta, junto das ratazanas. Onde isto chegou!

  5. Caro Val,

    “Há pessoas do PSD em todos esses órgãos de segurança, mas nem tal circunstância é relevante”. Absoluta razão, seria estultícia conciderar doutra forma.

    Por muita dor de corno que tal possa solicitar,(?) a minha opinião é a de que o meu caro está muito mais “maduro” nos seus comentários mas, tenha em atenção que os recursos argumentativos são repetitivos e já não escandalizam nimguém. São a normalidade.

    Pode desenvolver a frase acima se souber o nome dos respectivos membros, ai verá que são gente à parte, os nomes podem ser iguais aos dos pais dos avós e por aí andamos.

    Há lugares no regime onde não está quem quer ou quem é competente. Ver a última eleição na Assembleia da República onde foi necessária a participação do PSD. Ainda se lembram de quem foi o eleito?

    Um abraço e diga se visitou o blogue que lhe recomendei.

  6. Pai, porque me abandonas?
    Eu que sempre fiz o que me mandaste.
    Eu que me sujeitei a esta trapalhada.
    Eu que me prontifiquei a salvar-te a honra.
    Eu que fiz das tripas coração.
    Eu que devia estar à beira dos meus netos, ou num lar de terceira idade.
    Eu que tinha uma vida um pouco secreta, tirando a passagem pela Educação e Finanças.
    Eu que agora sou esmiuçada por tudo e todos.
    Eu que não tenho queda para lidar com multidões.
    Eu que não suporto entrevistas.
    Eu que já me basta a minha reforma e outras mordomias.
    Eu que nunca devia de aceitar o António Preto e a Helena.
    Eu que nunca acreditei no Pacheco Pereira e Santana Lopes.
    Eu que me prometeram total apoio do Público, Expresso, Correio da Manhã e do Sol.
    Eu que sempre confiei na asfixia democrática.
    Eu que sempre confiei nas escutas.
    Eu que fui atraiçoada por estas mesmas escutas.
    Eu que sempre confiei na minha verdadeira eleição e agora sei que tudo foi comprado.
    Eu que fui atraiçoada por todos, excepto Passos Coelho, Moita Flores e meus adversários.
    Eu que julgava que liderava um partido, afinal lidero um partido, todo partido.
    Eu que menosprezei as qualidades de José Sócrates.
    Eu que confiei que todas as noticias, Freeport, Engenheiro, TVI, Público e seu Director eram verdadeiras.
    Eu que me via como 1ª. Ministra de Portugal ao que cheguei.
    Pai porque me fizeste tudo isto, se sabias que me ias abandonar.
    Pai espero que te aconteça o mesmo.

  7. ARMANDO, também pode acontecer que sejas tu quem está “mais maduro” na análise. Mas seja lá o que for, lembro que duas pessoas podem concordar acerca de um assunto e discordar acerca de outro, e a maturidade ser a mesma em ambos os casos.

    Quanto à oportuna sugestão, informo que convivo com o Adelino Maltez desde os tempos de faculdade. E amiúde concordo com ele. Mas ele não é profeta, atenção.

  8. Val, possivelmente estamos os dois de acordo absoluto nas duas esferas, vale?

    O Maltez não é profeta concordo, os geniais são sempre complexos e raramente submissos ao poder, é uma “cabeça” muito interessante, como muito poucas.
    Possivelmente também deve estar mais maduro desde os teus tempos de Fac?
    A propósito de Fac. o Maltez não andou pela Católica ou estarei enganado?

    Segunda-feira o pano só vai dar para um fato simples? Com ou sem colete?
    A famosa sabedoria do povo finalmente madura será revelada, e a partir daí vou ver como oriento o meu barquito, amarro ao cais ou faço-me ao largo.

    Mal meu, sou mais velho (pouco) que o Maltez, e ele é de facto o único catedrático em C.P.. Como só se pode ser amigo se houver partilha, temos a história Pátria
    sempre presente, rica em detalhes como sabes, como fonte e inspiração com gosto no saber.

    Grande abraço, e não esqueças os interesses cruzados de alguma rapaziada que por aí anda à sombra da bananeira. Outros andam à procura dos milhões que voaram.

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