Centro, democrático e social

Numa entrevista à Sábado, 30 de Outubro a 5 de Novembro de 2008, Freitas do Amaral revela-se um ser exótico na política nacional. Selecciono três passagens:

Numa fase de desalento, no Caldas, em que já quer sair, Helena Roseta pede para ser recebida. Chorou. Ao longo da sua carreira política teve outros momentos em que tivesse chorado?

Nunca. Foi o único momento. Tive uma catarse, que não tinha tido antes, e veio tudo cá para fora. E foi um choro franco e aberto, não foi uma coisa contida. Mas consegui repor-me rapidamente. E o que ela disse ajudou-me, muito.

Mas quando apelou ao voto no PS em 2005 houve familiares que deixaram de lhe falar.

Sim. Há mais intolerância hoje do que nos primeiros anos do regime democrático em Portugal. Não se aceita que as pessoas se desviem do carimbo que lhes puseram. O Freitas é de direita, não pode estar num Governo PS.

Nunca lhe causou embaraço o facto de o seu filho Domingos dirigir uma revista masculina?

Não. Também já foi director da Maxmen, que era muito mais ousada em termos de fotografias de mulheres e eu nunca… Eu sou muito liberal. E não tenho nada a ver com isso. Fiquei foi muito chocado quando num tribunal, por causa de um processo por causa do nome da revista, um magistrado lhe perguntou: “O que é que o seu pai acha de você dirigir uma revista de mulheres nuas?” E ele respondeu: “Não sei, ele nunca mo disse e eu nunca lho perguntei.” Sigo com muito orgulho o percurso de todos os meus filhos.


Freitas foi visto, durante mais de 20 anos, como um facho pela retórica comuna. Isso acabou quando ele regressou à notoriedade política após a aclamada passagem pela Assembleia Geral da ONU. Os comunas continuavam a pensar que Freitas era facho, apenas já não tinham lata para o dizer. Depois, Freitas disparou num crescendo de activismo congénere com algumas causas da esquerda, opondo-se a Bush e à Guerra do Iraque, até que aceitou fazer parte de um Governo socialista. O facho estava muito mudado; ou não?

Na agitação que se seguiu ao 25 de Abril, o CDS cumpriu vários papéis, um deles o de ter sido estanque de uma revolta da extrema-direita. Nesse tempo, Freitas puxou ao centro o que tenderia a radicalizar-se em violência. Agora, ao ter aparecido ao lado de Sócrates, nada de essencial mudou. O centro continua a ser o lugar do encontro. Isto é, o lugar da liberdade em comum, contrariando essoutra liberdade contra o bem comum. Vendo o seu percurso desde o marcelismo, com 68 anos, o exemplo é paradigmático do que é um liberal: a independência suprema. Tão livre tem sido o caminho de Freitas que até ficou marcado pelo castigo nas famílias, na de sangue e na partidária.

Acaso o CDS estivesse neste momento a concorrer com Freitas do Amaral na sua liderança, o PSD corria o risco de ficar atrás. É abismal a diferença de cultura ética, política e filosófica entre Freitas e qualquer uma das figuras gradas do PSD. É que não há ninguém que seja comparável em integridade, dever à Pátria e civilização. Se Freitas estivesse em campanha, iria encontrar um País finalmente amadurecido para o compreender. Uma política para um centro democrático e social é, nem mais nem menos, o sinónimo da boa governação. Porque estar ao centro implica ser-se democrático e social.

Ainda continuamos a pagar uma disfunção nascida da Revolução, onde se passou de um extremo para outro extremo. O PCP não queria o centro, porque não queria a democracia. Continuou a considerar inimigo quem não fosse aliado, e o inimigo permanecia o mesmo: o fascismo. Assim, o PS era fascista, o centro era fascista. Sim, o mundo cria menos dificuldades ao pensamento e à vontade quando nos barricamos no maniqueísmo. É uma fuga que se torna impossível ao centro, pois nesse lugar, nessa ágora, impera a lei que a todos concede iguais direitos. É por ser o lugar mais difícil que é também o mais belo.

Como português e cidadão, orgulho-me de Freitas do Amaral. Que falta nos faz.

6 thoughts on “Centro, democrático e social”

  1. enquanto cidadão envolvido em política activa, a vitória de Soares sobre o Freitas foi uma das mais saborosa vivências.
    isso não me impede de te dar toda a razão. o Freitas há muito que sabe bem o que quer: ser digno.

    e não é que a tarefa parece tão simples?

  2. nas eleições de domingo também vai ser julgada a guerra do Iraque e a participação portuguesa com a bula do ok da cimeira das Lajes. Portugal, projecto templário, dragão, poeta do Mundo, cabeça de império, fodilhão maior por aí ao fora, com saudades de casa e de canja de galinha, romântico incurável e safado, mas amigo leal, dava o ok a uma invasão ocidental de um país islamico independente, em nome de uma mentira, quando a razão principal continuava a ser o controlo do preço do petróleo em dólares e a influência militar na região.

    claro que se a economia é baseada na confiança o preço de uma mentira institucional mundial é a derrocada financeira, ora que tão esforçada conclusão!

    Portugal deu o ok, não, ou seja a maioria do povo estava contra. O primeiro ministro de então e este lóbi, sim.

    Felizmente o Freitas esteve inegavelmente contra a invasão do Iraque de 2003. Bem haja por isso.

  3. ah, já me esquecia, isto tudo para dizer que o que se vê aí do ppd, ferrugento, e suas manobras é tudo gente que apoiou a invasão do iraque e têm nas mãos o peso do sangue de muitos inocentes, quer se queira quer não. Quem votar neles está a sujar-se com isso, seu direito, mas fica o aviso.

  4. Ai sim, Valupi? E em quem votaste nas presidenciais de 1986? No Soares, que acusou o Freitas de ser apoiado pelos fascistas, ou no tal Freitas, do «centro» (o que é isso em termos ideológicos?), «democrático» (não somos todos?) e «social» (não será antes individual?)? E esse Freitas que sempre foi do centro, também o era quando era o «afilhado» do Marcelo Caetano? Mas dizes bem: o Freitas que aparece ao lado do Pinto de Sousa continua a ser o mesmo; tal como o Júdice, que apoia e declara ir votar no PS, continua a ser o mesmo. E o que isso revela é que o PS é hoje o lugar «natural» dos que ideologicamente sempre se identificaram com o liberalismo. Mas então porque continua esse partido a dizer-se «socialista», do «socialismo democrático» ou mesmo «social-democrata»? Porque não se assume como o novo, mas o mesmo de sempre, PPD\PSD?
    E será que não és tu que sofres da visão maniqueísta de que acusas os outros? É que daquilo que tu dizes o que se conclui é que para ti o bom e «belo» é o centro; o resto é constituido pelos maus, ou pelos «feios, porcos e maus», que na tua linguagem «complexa» e «pouco» maniqueista costumam ser «ranhosos» e «imbecis». Mas isto é compreensivel da tua parte, pois quando se eliminam categorias ideológicas do discurso, restam apenas categorias psicológicas e simplórias para «classificar» «politicamente» os outros.
    Agora, a tua ideia de que o «centro» é o lugar mais difícil é um disparate, porque esse centro é o lugar da indefinição ideológica por excelência, é o lugar do oportunismo, é o lugar do que vai estando na moda, do que vai dominando: é portanto o lugar mais fácil, próprio de quem troca convicções e princípios por lugares no poder. Não estou a falar do Freitas que hoje (com o (neo)liberalismo a impôr as suas regras) é do centro, mas que antes não era (quando o liberalismo tinha oposição). Estou a falar do Pinto de Sousa que, este sim, sempre foi desse tal centro sem identidade, e que por isso tanto podia estar no PSD (e já esteve, como sabemos) como no PS, tanto podia ser «socialista» como «neoliberal». Depende do vai sendo o tal «centro», não é?
    Enfim, se o Freitas é a grande referência do centro, tão do agrado do Valupi e dos socretinos, então só se pode concluir que o 25 de Abril era desnecessário, pois, antes deste, todos esses notáveis e dignos centristas já tinham uma carreira política ao serviço do país e do tal «bem comum» (outra palavra pouco definida)… E a verdade é que se não fosse a guerra colonial seria isso mesmo que teria acontecido, e esses «centristas» teriam visto esse seu trabalho ser reconhecido. Como é agora, pelo valupi e demais «centristas», do antes e pós-25 de Abril…

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