Disputatio

Portas foi o primeiro a falar quando era a sua vez de estar calado. Portas foi o primeiro a ultrapassar o tempo de cada intervenção. Portas foi quem não respeitou a divisão por temas, repescando um tema passado. Portas foi quem apenas tinha clichés demagógicos para repetir. Portas foi quem esteve à defesa, repetindo as expressões usadas por Sócrates para as redireccionar. Portas foi quem revelou, pela linguagem não verbal, sentir-se atemorizado. Portas foi quem manifestou descontrolo emocional. Portas foi quem raiou a peixeirada, em vários momentos tendo sido acintoso. E mais importante do que o resto, Portas foi quem usou a pindérica expressão à séria. Estes são elementos objectivos, podem ser constatados.

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Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

“Filho, vai dizer ao teu pai para vir aqui à cozinha”, pede a mulher de avental. Passos apressados da criança traquina. Na sala, um homem de comando na mão, televisor pela frente. “Onde vais, filho”, pergunta, curiosidade que se cheira, ao menino que se prepara para abandonar a casa. “Vou dizer ao senhor Fonseca dos electrodomésticos para vir ter com a mãe à cozinha”, explica o petiz. E sai, decidido, na direcção da rua.

Crise de vocações

A direita vive uma crise de vocações que remonta ao cavaquismo. No CDS, a entrada de Monteiro e Portas acabou com a vitalidade do partido. O modo como estes dois comparsas se antagonizaram, e o destino de cada um até hoje, é uma fotonovela que expõe em vinhetas o material de que eram feitos: arrivismo. Neste momento, Portas é uma das figuras mais castiças da política nacional. O partido é para ele não mais do que o seu emprego. A retórica da conquista do poder desapareceu, juntamente com qualquer manifestação de paixão pela política. Cumpre-se como dandy, a sua mais íntima vocação. As mordomias da função de deputado e a exposição mediática chegam-lhe para o narcisismo que sempre foi a sua dama. No PSD, a fuga de Barroso deixou o partido sem liderança, apesar de já ir no 4º presidente desde o triste Verão de 2004. Quem poderá salvar este partido? Essa pergunta tem agora uma forte resposta: Paulo Rangel. Marcelo quer ser Presidente da República, Rui Rio não sabe o que quer e Passos Coelho borrou a pintura nas Europeias. Só que Rangel é um produto que pode apenas prolongar a vida ao moribundo, não curar a maleita. Ele é mais um arrivista, um cínico. E só.

Um elemento sociologicamente enigmático diz respeito à rarefacção de novos talentos políticos à direita. Não há estrelas. O que é estranho, dadas as condições de vantagem educativa, formativa e experiencial. Para onde foram, porque não aparecem? A minha explicação favorita remete para condomínios fechados e viagens ao estrangeiro. A geração cujos pais enriqueceram no cavaquismo, ou que aumentaram aí as suas fortunas, cresceu sem precisar da política. Os seus pais tratavam do assunto, tinham tudo controlado. Para eles, filhotes, estava guardado o remanso e a luxúria. Havia bens para usufruir, dinheiro para gastar, tempo para celebrar. E novas cisões cavavam o fosso: as crianças estavam nos melhores colégios, iam para as melhores universidades, tinham os melhores empregos, queriam ter as melhores famílias. A rede social garantia a segurança máxima para a manutenção do conforto e do estatuto. A última coisa que esta geração pensaria em fazer era política. Tomava-os uma aversão radical, de classe, ao rol de ignomínias inevitáveis: convívio com o povo, intimidade com a escória, exposição à devassa pública. E o cansaço, o risco de humilhações, o medo de perder. Acima de tudo, o já não ter nada para ganhar.

Quão melhor o condomínio fechado, símbolo perfeito do cavaquismo. E as viagens ao estrangeiro, fugindo da pocilga. É por isso que continuam a citar Eça, os muros são altos lá onde sobrevivem.

Zé Manel manda combater em cada esquina, em cada janela

PS tentou impor as suas regras, mas os temas ficam nas mãos das televisões

Este é o título escolhido para noticiar as negociações relativas aos debates televisivos. Como em muitos outros títulos do Público onde se fala do PS e do Governo, há uma distorção que intenta deixar a sugestão de um ilícito ou falha moral. Neste caso, o PS teria feito algo censurável. Algo do domínio da imposição. Uma imposição de regras. Regras suas. Ou seja, o PS queria dominar, manipular, asfixiar.

Quando se lê a notícia, as senhoras que a assinam, Margarida Gomes e Filomena Fontes, têm menos engenho e arte e estatelam-se ao comprido. Afinal, a reunião onde se chegou a um consenso foi espectacularmente curta. A tenebrosa tentativa de imposição não passou de um aspecto em discussão, o qual não tinha especial relevância. Do que os outros partidos e televisões pretendiam nada se sabe lendo a peça. E os pueris considerandos subjectivos, que sugerem uma atitude censurável por parte do PS, ficam como exibição suprema da decadência do jornalismo feito actualmente no Público.

O mais assustador, contudo, é pensar que possa haver jornalistas que não entendam o que é a democracia e a lógica mesma de qualquer negociação. Espera, vou refazer: o mais assustador é pensar que possa haver jornalistas que queiram agradar ao Zé Manel.

Vinte Linhas 401

Um tal Mr. Jason Cowley do jornal «Observer»

Em Julho de 2007 há um texto meu no «aspirinab» sobre a casa de Charles Gounod, casa essa que fica muito perto do local onde todos os dias o meu neto Thomas Francisco anda de bicicleta até se cansar e pedir o ursinho para fazer óó. Foi «As raposas de Charles Gounod». No dia 29-7-2207 às 22,39 horas eu enviei ao editor do suplemento desportivo do «Observer», o tal Mr. Jason Cowley, um texto no qual discordava de modo claro (embora respeitosamente) do seu artigo sobre Lasse Viren.

Numa perspectiva estúpida, nacionalista e errada, ele referiu-se aos «rivais» do polícia finlandês mas ficou-se pelos nomes de Brendan Foster, Dick Quax, Yfter e Rod Dixon esquecendo de modo imperdoável o mais importante rival de LasseViren – Carlos Lopes. Tão importante e tão rival que foi medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1976 e medalha de ouro em 1984. Esqueceu também de modo ostensivo e estúpido a figura de Fernando Mamede, recordista europeu e mundial dessa época.

O grande problema para esse Mr. Jason Cowley era simples – nem Carlos Lopes nem Fernando Mamede são dos países da Commonwealth. Ora a sua capacidade de raciocínio estava limitada aos países que usam o inglês como língua e a libra como moeda – seja ela de transacções correntes ou de referência para câmbios arbitrados. É uma tristeza cujas raízes não são apenas a ignorância mas também o orgulho estúpido de quem não percebe que o Mundo é maior do que parece. Ou como escreveu José Régio de modo magistral – «há mais mundos». Ao deitar para o lixo o mail que escrevi em inglês nesse dia de 2007 aqui compartilho convosco esta chamada de atenção. Dois anos depois, ainda a tempo.

Lembretes

– A situação do Presidente da República não se explica recorrendo apenas a uma análise política, há factores culturais e psicológicos a influenciar o errático curso dos acontecimentos. Cavaco está rodeado de bajuladores e alucinados, destituídos do mínimo discernimento. Daí o confrangedor e aviltante episódio da suspeita de escutas em Belém. Mas o próprio Cavaco não pode escapar ao juízo mais severo: o seu enriquecimento no BPN e a escolha de Dias Loureiro para conselheiro de Estado são manchas que não têm limpeza possível.

– Quando se calunia o Governo em matérias de comunicação social, acaba-se a falar de um ou dois telefonemas que Sócrates fez a directores de jornais ou de cronómetro na mão a contar os segundos no Jornal da Tarde na RTP 1. Ou seja, não existe qualquer condicionamento do Governo, qualquer. Existe é um mercado, onde o Governo joga de acordo com as regras desse mercado. É a esta dimensão que se resume o papel das agências de comunicação, as quais fazem relações públicas dentro de códigos profissionais. Outra é a história na oposição. O caso mais sórdido é o do Público, bem pior do que o da TVI, porque mais dissimulado, esconso. Este jornal escolheu a via do assassinato de carácter e da cumplicidade com a Presidência, acabando a protagonizar um dos episódios mais degradantes para o prestígio de um Presidente da República Portuguesa de que há memória. Provavelmente, esta aliança de métodos não é um acaso.

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Benfica prejudica PSD

O Pacheco, esse intelecto superior, descobriu nestas férias a origem do mal português: optimismo. Ter esperança é uma relassa fraqueza, uma bonacheirice, que se opõe à Disciplina e à Ordem, afiança o sábio da Marmeleira apoiando-se em Fradique Mendes e Madame de Jouarre. Diz mais. Que os portugueses se deixam manter numa espécie de estupor cívico. Que os portugueses são crédulos. Que os portugueses são basbaques. Que os portugueses são irresponsáveis. Que os portugueses, enfim, são irrecuperáveis. E que Eça já anunciava ser o Engenheiro um grande mentiroso.

Entretanto, ontem, o Benfica encheu de optimismo e esperança alguns milhões destes portugueses que não prestam. Ou seja, o Benfica está a contribuir para o sucesso do PS e para os acidentes nas falésias, se bem entendi o argumento do Pacheco. E aproveito para avisar os estrategas sociais-democratas do perigo que Hélder Barbosa representa. Este amigo, aos 91 minutos de jogo, marcou o golo do Setúbal. E que fez logo a seguir? Desatou a correr para a baliza, nem celebrou. Pegou na bola e ala para o meio-campo que ainda havia alguns segundos para jogar e o resultado estava nuns emocionantes e feéricos 8-1. Se este gajo não for o mais desvairado optimista à solta em Portugal, pelo menos será um bonacheirão que ameaça seriamente a Disciplina e a Ordem.

Silly season – prolongamento

Quando o Daniel Oliveira concorda com a Helena Matos, o disparate é grosso e tem varizes. Este par já está com as tochas acesas e os chicotes na mão, o passo seguinte é saírem à rua naquela que será a primeira milícia semântica em Portugal. Disseste que Sócrates era futurista mas não te estavas a referir a um movimento artístico que se designa com a mesma palavra? 10 chicotadas. Achas que a propaganda do BE é moderna mas não tens 9 meses para explicar o sentido preciso desse termo? 20 chicotadas. O discurso de Manuela Ferreira Leite parece-te surreal? 30 chicotadas, seguidas de 40 pontapés e 50 impropérios a castigar a fuga de informação.

Re-Intermitência

 

 


“E deste, gostas”, pergunta-me, entusiasmada e viva, F., ao mesmo tempo em que aponta para a zona dos seios. “Sim, fica muito bem. Ainda melhor do que o modelo anterior”, respondo. “Óptimo. É maravilhoso saber que, ao contrário de todos os outros homens, não achas que o meu peito é demasiado grande”, confessa-me, feliz e aliviada. “Porque haveria de pensar isso”, pergunto-lhe, surpreso. E, alegres e de braço dado, abandonamos a loja de pára-quedas.