Disputatio

Portas foi o primeiro a falar quando era a sua vez de estar calado. Portas foi o primeiro a ultrapassar o tempo de cada intervenção. Portas foi quem não respeitou a divisão por temas, repescando um tema passado. Portas foi quem apenas tinha clichés demagógicos para repetir. Portas foi quem esteve à defesa, repetindo as expressões usadas por Sócrates para as redireccionar. Portas foi quem revelou, pela linguagem não verbal, sentir-se atemorizado. Portas foi quem manifestou descontrolo emocional. Portas foi quem raiou a peixeirada, em vários momentos tendo sido acintoso. E mais importante do que o resto, Portas foi quem usou a pindérica expressão à séria. Estes são elementos objectivos, podem ser constatados.


Os estudos de psicologia validam o que cada um já sabe no mais fundo de si: encontramos as razões que melhor se adequam ao nosso afecto, temos filtros racionais para proteger a filigrana emocional. Por isso, cada um só vê o que pode ver, não o todo que está à vista. A subjectividade constrói a experiência destacando uns elementos e anulando outros. Cada comentador dirá que o debate foi isto ou aquilo, que este venceu ou perdeu, consoante o desejo, não a justiça. Haverá excepções, mas raras. O maior desafio para a comunicação política não é do foro ideológico, é do cognitivo. É por isso que observar o estilo banha-da-cobra de Portas, posto a nu por Sócrates que levou estratégia ganhadora ao lembrar o seu percurso, pode ser um valioso contributo para a compreensão do que está em causa no dia 27 de Setembro.

Quanto ao modelo do debate, é um falhanço. Tem de se chegar a um modelo misto, onde haja temas fixos, autonomia do jornalista e período de diálogo livre, sem regras que inibam a espontaneidade. O factor tempo também poderia ser mais profícuo, atribuindo-se um pacote de minutos e deixando a cada interlocutor a sua gestão em cada ocasião. Quando acabasse o tempo respectivo, o microfone seria desligado, esse interveniente não mais poderia falar livremente. Só falaria se o adversário cedesse algum do seu tempo. Finalmente, as nossas televisões são provincianas e paroquiais. Em vez de se ir escutar o povo, reúnem-se os magarefes do costume para ficarem a ruminar as suas enfadadas vaidades. É mau, é estúpido. A democracia portuguesa merecia uma comunicação social que fosse mesmo um 4º poder, não um quarto do poder.

Constança Cunha e Sá não conseguiu disfarçar a neurose. E dizer que Sócrates tinha medo dos debates, medo de certos assuntos melindrosos, pessoais ou governativos, e que tentou defender-se impondo regras draconianas, é algo que todos reconhecemos como fazendo imbatível sentido: Sócrates é famoso por ter acabado com os debates quinzenais no Parlamento, por ter perdido todos os confrontos com os líderes que lhe apareceram à frente nestes 4 anos e meio e por ser incapaz de apresentar informação rigorosa, extensa e concatenada em argumentos fogosos. Sim, Sócrates é demasiado tímido e medroso para esta implacável oposição.

29 thoughts on “Disputatio”

  1. E o mandar fazer perguntas “aos seus camaradas”, assim como quem quer dizer “vá aquela parte” , também não é próprio de um democrata.
    O Eng., todavia, já o vi em melhor forma. Com o Xico da Louçã vai ser bonito.

  2. Estas coisas valem o que valem…

    o apresentar de “factos – obra”

    é o que mais força dá a JS

    e o que mais irrita os Portas Louçãs,
    verso e reverso da mesma “boa moeda”,
    desta praça trincheira reaccionária

    nem falo da inestimável senhora

    que por si só

    é o mais forte argumento a favor de JS

    abraço!

  3. E a demagogia sobre a Segurança, para amedrontar o povo.
    A estatistica, os números podem ser tantas facetas.

  4. Não vi o debate entre Sócrates e Paulo Portas. Depois de jantar, fui descansar um pouco para o sofá, com o intuito de assistir ao mesmo e adormeci. Quando acordei, passei pelo canal RPTN, assisti um pouco e ouvi o que dizia um comentador não me lembro o nome e o Rui Moreira, deste sei o nome, vejo-o constantemente nos ecrãs da televisão. Não compreendo como este senhor está em todas, é no futebol, é na política, temos outro Marcelo, ainda bem, só espero que quando responder a alguma pergunta não troque a politica com o futebol ou vice-versa. Senão faz-me lembrar os tempos de escola em que o professor pergunta ao aluno quem é o homem mais falado em Portugal e ele responde-lhe, Jesus Correia. Diz-lhe o professor há seu burro, então não sabes que é Salazar? Responde-lhe o aluno só se jogar nas reservas – nesse tempo antes dos jogos das primeiras categorias jogavam as reservas. Ainda tive tempo de ouvir o Joaquim Aguiar e a este é que não passo bola, em pouco demonstra ao que anda. Passei pela Sic Noticias e o mesmo espanto, os comentadores são os mesmos, Ricardo Costa, Luís Delgado – este além de ser de direita é o mais coerente – e um que julgo se chamar Costa Pinto, moderado por essa sumidade que é o Crespo. Aqui era tal o ataque a Sócrates que resolvi passar para o canal MGM, aqui costuma dar filmes hardcore e como é quase a mesma coisa antes prefiro ver mulheres a homens.
    Não compreendo como com tanta gente sábia, ande-se a gastar dinheiro com eleições e não se promova estes senhores para a escolha do governo. Se o governo escolhido por estes senhores não correspondesse às nossas aspirações, pedíamos-lhes responsabilidades. Agora dar palpites e não soluções é fácil. Estes fazem-me lembrar os opinadores de futebol, depois do jogo acabado há solução para tudo, se antes for perguntado ninguém responde. Por estas e por outras não vou em conversas de comentadores, o meu voto é bastante valioso e por isso dou-o a quem neste momento me dá mais garantias, e quem me dá mais garantias, é José Sócrates.

  5. finalmente o sócrates começou a fazer aquilo que eu preconizo há muito: comparação entre a presente governação e a governação anterior ppd/cds. e fez essa comparação com estrondo “sei o que fizeste no verão passado”. o paulinho habituado à retórica populista e aos soundbytes demagógicos tem agora de defender a sua acção governativa, que é muito má, e claro queixa-se do regresso ao passado. quanto ao tipo de debate, sendo curto porporciona apenas tempo aos demagogos de lançar a sua verborreia sem que haja tempo de os confrontar com números e factos. o paulinho fez o que bem lhe apeteceu (saiu para temas não agendados, violou constantemente o seu tempo de intervenção) tudo sob a complacência da cunha sá, lacaia do portas desde os tempos do independente e participante activa na intoxicação anti-sócrates.
    o debate que eu vou gostar de ver será o jerónimo-louçã para ver se os comunistas verdadeiros finalmente acusam os falsos comunistas (ok, pronto trotskistas maoistas ou lá o qué) de parasitarem as suas acções com o objectivo de recolherem os louros dos protestos.

  6. “Por isso, cada um só vê o que pode ver, não o todo que está à vista.”

    “Cada comentador dirá que o debate foi isto ou aquilo, que este venceu ou perdeu, consoante o desejo, não a justiça”

    o restante post é o q se esperava, mas pelo menos admite q assim é e pq.

    saudações leoninas, Val.

  7. Confesso que não vi o debate (para quê?), que fugiria de ouvir os “comentaristas” e que só hoje me pareceu ter captado qualquer coisa sobre o mesmo, que considero aliás o ponto essencial para esta dupla: terá ficado definitivamente POSTA DE PARTE a hipótese, para mim obscena, de um eventual “acordo de incidência parlamentar” (para lamentar…) entre ambos para a formação do próximo Governo!

    Se é verdade ou não, alguém que me elucide. Se sim, BRAVO, já não era sem tempo que ficasse tudo bem claro, aos olhos da generalidade dos eleitores. Se ainda não foi desta, pois que seja realidade até 27 de Setembro. Pela sua suma importância, masis valerá tarde do que manter-se esta dúvida negra a pairar sobre os votantes no Partido Socialista…

  8. A tua argumentação é gira, sobretudo quando desculpas os socrates de quebras as regras só porque o portas também o fez. Que rica desculpa sim senhor!

    Quando usamos os mais exemplos para justificar más práticas temos muito pouco para descer, não te parece.

    Quanto ao debate em si, achei o trio muito fraquito e nervoso.
    Mas é hilariante o socrates tentar puxar o Portas para o passado, até parece que ele próprio apareceu hoje, conforme o PP lembrou e a meu ver bem, nos últimos 14 anos o socrates está há 11 (onze no governo) quatro e meio dos quais como primeiro ministro.

  9. o portas não esteve mal, mas aquela expressão “à séria” realmente contextualizou-o.

    eu já estava deixar-me levar pelo político moderno, bem preparado e sem temores, quando de repente, parecia que estava a ouvir o pessoal analfabeto da linha de sintra.

    foi triste…

  10. Que particularidade tem o pessoal analfabeto da linha de Sintra? Há para aí uma confusão qualquer entre analfabetismo e cultura, não?

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