Vinte Linhas 402

A vida é simplesmente um mau quarto de hora feito de momentos esquisitos

Dou um passeio pela Baixa e sou solicitado no Rossio a dar indicações a dois jovens estrangeiros sobre onde fica o Largo do Carmo. Tudo bem. Falamos do «25 de Abril» cuja cena principal foi aqui com Salgueiro Maia e Marcelo Caetano nos papéis principais. No Largo da Misericórdia sou abordado por um simpático casal de holandeses que procura o Príncipe Real. Aproveito para lhes mostrar o miradouro de São Pedro de Alcântara e o jardim anexo que foi recentemente recuperado. Adoram o local de prometem voltar amanhã. Perguntam-me se sou professor, respondo que não sou mas mudo de conversa e digo que já estive no seu país em 1977 – Amsterdam, Delft, Rotterdam, Alkmar, Scheveningen, Den Hague e não só.

Estou quase a terminar a minha caminhada nocturna depois da digestão mas, de repente, descubro uma figura humana minha conhecida dos jornais desde 1988. Apanhámos muita chuva e muito sol juntos em jogos de futebol dos chamados escalões jovens. Tenho o roteiro completo do país desportivo a esse nível. Chamo-lhe «sobrevivente» e volta-se de imediato. Ele estava no Brasil no dia daquele voo da Air France e esteve quase a mudar o seu voo (anterior ao voo da morte) para estar mais algum tempo na praia. Ainda bem que não cedeu a essa tentação. Teria desaparecido no oceano como os outros. Dou-lhe um abraço. Circula alguma emoção entre nós. Pouco falamos e pouco temos para dizer. A vida é muito complicada. Schopenhauer disse um dia que «A vida é um sonho e a morte o despertar» mas penso mais em Óscar Wilde – «A vida é simplesmente um mau quarto de hora feito de momentos esquisitos». Ou isso.

3 thoughts on “Vinte Linhas 402”

  1. JCF
    Que bem sabe fazermos de cicerones e matar saudades. Às vezes acontece comigo e relembro pessoas. Mas estamos a caminhar para uma idade que serão outros a lembrarem-se de nós.

  2. Obrigado amigos – valeu a pena escrever este post para ter os vossos comentários. Há ali um erro – duas vezes a palavra «principais» no mesmo período quando se fala de Marcelo Caetano e Salgueiro Maia. Só agora me apercebi. No calor da escrita não dá paar entender. Ninguém é escritor e copy desk ao mesmo tempo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.