Crise de vocações

A direita vive uma crise de vocações que remonta ao cavaquismo. No CDS, a entrada de Monteiro e Portas acabou com a vitalidade do partido. O modo como estes dois comparsas se antagonizaram, e o destino de cada um até hoje, é uma fotonovela que expõe em vinhetas o material de que eram feitos: arrivismo. Neste momento, Portas é uma das figuras mais castiças da política nacional. O partido é para ele não mais do que o seu emprego. A retórica da conquista do poder desapareceu, juntamente com qualquer manifestação de paixão pela política. Cumpre-se como dandy, a sua mais íntima vocação. As mordomias da função de deputado e a exposição mediática chegam-lhe para o narcisismo que sempre foi a sua dama. No PSD, a fuga de Barroso deixou o partido sem liderança, apesar de já ir no 4º presidente desde o triste Verão de 2004. Quem poderá salvar este partido? Essa pergunta tem agora uma forte resposta: Paulo Rangel. Marcelo quer ser Presidente da República, Rui Rio não sabe o que quer e Passos Coelho borrou a pintura nas Europeias. Só que Rangel é um produto que pode apenas prolongar a vida ao moribundo, não curar a maleita. Ele é mais um arrivista, um cínico. E só.

Um elemento sociologicamente enigmático diz respeito à rarefacção de novos talentos políticos à direita. Não há estrelas. O que é estranho, dadas as condições de vantagem educativa, formativa e experiencial. Para onde foram, porque não aparecem? A minha explicação favorita remete para condomínios fechados e viagens ao estrangeiro. A geração cujos pais enriqueceram no cavaquismo, ou que aumentaram aí as suas fortunas, cresceu sem precisar da política. Os seus pais tratavam do assunto, tinham tudo controlado. Para eles, filhotes, estava guardado o remanso e a luxúria. Havia bens para usufruir, dinheiro para gastar, tempo para celebrar. E novas cisões cavavam o fosso: as crianças estavam nos melhores colégios, iam para as melhores universidades, tinham os melhores empregos, queriam ter as melhores famílias. A rede social garantia a segurança máxima para a manutenção do conforto e do estatuto. A última coisa que esta geração pensaria em fazer era política. Tomava-os uma aversão radical, de classe, ao rol de ignomínias inevitáveis: convívio com o povo, intimidade com a escória, exposição à devassa pública. E o cansaço, o risco de humilhações, o medo de perder. Acima de tudo, o já não ter nada para ganhar.

Quão melhor o condomínio fechado, símbolo perfeito do cavaquismo. E as viagens ao estrangeiro, fugindo da pocilga. É por isso que continuam a citar Eça, os muros são altos lá onde sobrevivem.

23 thoughts on “Crise de vocações”

  1. A herança do Cavaco só é ultrapassada em magnificência pelo obra de construção do mito de estadista, uma das maravilhas da política portuguesa. No meu último post falo de ética no PSD e também falo dos tempos dele.

  2. Os filhos e netos do cavaquismo vivem em condomínios fechados e viajam pelo mundo: vivem à grande, pensam.
    Actualmente, alguns bisnetos deserdados, olham para esses antepassados presentes e dedicam-se à política para os imitar à letra.

  3. E porque não hás-de ser tu a votar no Jerónimo? Mas eu não me importo que digas que a culpa é minha.
    Podes esperar descansado. Não ando nem nunca andei à procura de algo. Não tenho a vocação do Pina Moura, do Magalhães. do Castro da Marinha Grande, para quem o PS foi um Ambrósio. O Vital é que nunca pediu cartonito.

  4. Não posso estar mais de acordo contigo,

    Só falta enumerar as estrelas de esquerda. A mandatária do PS para a juventude não vale!
    Mas tirando essa vejo também um deserto de estrelas à esquerda.

    Uma pergunta, Quem precisa de estrelas? O que nos faz falta não são estrelas, são carregadores de pianos, alguém que de facto queira arregaçar as mangas e trabalhar. Disso não tenho visto na politica nos últimos, digamos, 100 anos.

    Ao que parece estamos na era da governança (que alguns autores definem de forma bem curiosa em PT, mas que assenta que nem uma luva aos nosso políticos).

    Este teu texto estaria próximo da perfeição se não usasse de uma dicotomia, primária e que não consegues justificar. Infelizmente não encontramos talentos em nenhuma das alas, situação que se agudiza à medida que avançamos para o miolo. Aí os possíveis talentos são trucidados pelos aparelhos.
    Mas como dizia o outro, temos os políticos que merecemos, quer à esquerda quer ao centro quer a estibordo. Mas tu, na tua maledicência, desonestidade e cegueira queres convencer os outros que acreditas mesmo no que escreveste.

    A tua escrita faz-me lembrar a Agostina a descrever o Sebastião José, enfim…………

  5. A tua constância é estonteante há dias dizias que não se votava em pessoas e tal e coisa … em listas e mais não sei o quê, e hoje escreves isto “Qualquer dia ainda anuncias que vais votar no Engenheiro” Afinal em que ficamos.

    Só uma correcção o PM não é engenheiro, é licenciado em engenharia. Fica a correcção por questões de rigor!

    Ah estou à espera do teu argumento mais inteligente ;-)

  6. eu estou com o Ibn. aonde é que estão as estrelas brilhantes filhos do marocas? uns reizinhos sem reino , a viver à sombra do 25 de abril e do esforço dos outros. ao menos na direita é à custa do papá , não é minha. e nem os tenho de aturar , pelos vistos , já que dizes que não há.

  7. MF,

    Então os filhos dos banqueiros ladrões e de todos os que medraram ilegitimamente, defraudando o Estado e a sociedade, não vivem à nossa custa?
    Quantos milhões roubaram de impostos?

  8. A minha filha mais nova já começou a pagar os «mínimos» mesmo tendo começado a trabalhar em Outubro. Sacanas…

  9. M da Mata , se roubam é porque os deixam roubar. quem e por que não sei…. é crime o que fazem , nè? o que é feito da fatia de impostos dedicada ao constãncio , às polícias e aos tribunais ? é que se essas instituições são para enfeitar , melhor comprarmos um gigante buda ou qualquer coisa assim , sempre sai mais barato e o efeito é o mesmo.

  10. Na esquerda, Louçã, Vitorino, António Costa, António José Seguro, Daniel Oliveira, Rui Tavares e Bernardino são estrelas. Paulo Pedroso e Pedro Adão e Silva também poderão vir a ser.

  11. credo , isso são tudo estrelas ( de) cadentes à excepção de uma , o Tó Zé. que não é bem uma estrela , graças a zeus , é assim tipo planeta acolhedor. pena que lhe tenham partido as pernas.

  12. Já agora são estrelas em que sentido? no Sentido da esquerda imbecil?
    Ou são estrelas tipo Hollywood?

    vejo que cotas muito bem o “fantástico” Benardino e o inefável Daniel.
    Quanto ao seguro, bom, se tirarmos o ar wealthy resta tão pouco.
    O Costa é um homem do aparelho que tem pouco de star, está mais interessado em ser wealthy.

    O vitinho está para a esquerda como o borges está para a direita, ou seja, muita parra e pouca uva.

    do Louça não me ocorre nada, a não ser o teu epíteto de prior.

    O Adão, nunca será o primeiro, demasiado lambe botas.

    Se estas são as tuas stars, pois bem, estamos conversados.

    E gente de trabalho, bons mesmo, há?

  13. Desde já agradeço o elogio, mas temo desapontar-te.
    Tenho consciência de não ser assim tão bom, Mas de uma coisa me orgulho, olhar de frente, e tu? Muita dessa gente tão depressa são estrelas como esquerda imbecil, dependo do argumento que te der mais jeito. E da encomenda que te for feita.
    Enfim, homem de princípios.

  14. MF,

    Só porque a auto-estrada não está toda policiada é legítimo percorrê-la a trezentos quilómetros à hora?
    Só porque se sabe que não está um polícia ao fundo da rua, poder-se-á assaltar o banco?
    Resumindo, desde que não haja um polícia ou um fiscal por perto, todos os comportamentos ilícitos são aceitáveis?

  15. não , eu não disse isso , M da Mata. digo que se não fosse a crise financeira nada disto se teria sabido. ora , a banca estava fora de operações auto stop porque? juraram que nunca ultrapassariam os 120 e a malta acreditou?

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