“Sim, é certo que a minha perna é rija, forte e musculada. Mas também é certo que esse sítio onde tens a mão não é, de todo, a minha perna.”

Estamos dentro da maior crise na democracia desde o 25 de Novembro. Com esta notícia do CM, a não ser urgente e cabalmente desmentida, torna-se oficial que a Presidência não confia no Governo nem na Procuradoria. Ou seja, não confia no Parlamento nem na Justiça. Confia apenas nos militares. Bateu-se no fundo, resta só saber quem se vai enterrar.
O Presidente da República não tem condições políticas para continuar a exercer o cargo, traiu o juramento que fez aos portugueses. E há boas razões para pensar que também não tem condições mentais, acumulam-se os sinais psicóticos. Esta sucessão de acontecimentos, onde é Belém que desestabiliza o regime e causa alarme social, tem de acabar. O modo desvairado como Cavaco tenta destruir Sócrates e favorecer o PSD não é apenas ultrajante escândalo, é uma ameaça à segurança nacional.
Cavaco está a brincar com a tropa. Mas enganou-se no século e no povo.
José Manuel Fernandes foi à SIC Notícias contar tudo e mais alguma coisa. A fazer fé nas suas revelações, estamos perante um caso simples e cristalino. Algures no tempo, a Presidência da República Portuguesa, oficiosamente, entregou ao jornal Público informação relativa a um indivíduo suspeito de espionagem a mando do Governo. Estamos em Abril de 2008. O jornal tem dúvidas e decide investigar antes de publicar a notícia. Passados 17 meses, o próprio Presidente da República, agastado com algumas declarações de 2 dirigentes do PS, os quais comentavam o conhecido envolvimento da Casa Civil na elaboração do Programa do PSD, ordenou ao Público que publicasse a notícia das escutas. O caso era agora oficial, o jornal obedeceu. Foi isto, e exactamente isto, que o Zé Manel disse à Ana Lourenço, essa carinha laroca.
Jerónimo engoliu a patranha do Zé Manel e declarou a governamentalização dos serviços de informação. Quer-se dizer, foi ainda mais longe na calúnia do que tinham ido os próprios caluniadores.
Ó Jerónimo, isto ainda não é a União Soviética, Cuba ou a Coreia do Norte. Tem calma.
Suspeita-se que a canção dos Xutos que o Público transformou em manifesto contra Sócrates esteja quase, quase, quase a fazer-se ouvir na campanha.
5) Como é que o BE fundamenta, em termos de Economia Politica, o lema de que «quem tem lucros não pode despedir trabalhadores»? E então a Quimonda, que tinha lucros e deixou de os ter, porque o seu único produto deixou de ter compradores no mercado mundial? Nacionalizava-a? Mas para a pôr a produzir o quê? Como combateria o desemprego se fosse Governo?
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Freitas do Amaral, na Visão de 21 de Maio de 2009, fez sete perguntas a Francisco Louçã. Se alguém souber onde se encontram as respostas, é favor avisar.
O Zé Manel acusou o SIS de lhe ter ido ao correio. São duas calúnias numa: que o SIS fez, que o SIS faz. Sob as ordens de Sócrates, frisou. Entretanto, o SIS desmentiu. Mas para quê? Quando o director de um jornal, até há dois anos prestigiado pela sua independência ou respeito pelos mínimos deontológicos, se permite anunciar ao mundo que Portugal tem condições para um golpe de Estado, então o vale tudo acaba de ganhar um novo e desvairado capítulo. Maneiras que é assim: o Zé Manel encarregou-se de confirmar que Sócrates utiliza o SIS para espiar o Presidente da República, a Casa Civil e o jornal Público, embora não necessariamente por esta ordem. Quais são as provas? São duas: (i) alguém se sentou onde não devia num passeio à Madeira; (ii) o Zé Manel está convencido de que a única forma para fazer chegar um email do ponto A ao ponto B é através da Internet e respectivos servidores ou, em alternativa, do SIS. Compreendido. E prepara-te para receber muitas pens pelo Natal, algumas com a marca DN impressa no plástico.
Mas o golpe atingiu o osso, porque Belmiro saltou para a arena de moca na mão, e confirmou o que já todos sabiam desde o princípio: a campanha contra Sócrates é vingança de empresário. Belmiro diz para os jornalistas não se deixarem assustar pelos governantes, o que só pode querer dizer, posto que os seus jornalistas não têm feito outra coisa senão perseguir e assustar os governantes, que a SONAE está pronta para financiar a golpada.
Há aqui um abalo SIStémico. Ou mesmo um abalozinho, como diria a Manecas se tivesse ouvido falar desta história.
Cheira a Collor de Melo em Belém. A notícia dos emails no Público não permite qualquer fuga, Cavaco tem de falar. E para dizer o quê? A sequência dos acontecimentos, transparente das intenções dos mandantes da conspiração, aponta numa única direcção: a sua demissão. Não sendo isso, pode também dizer que as escutas existem, e que ele tem provas. Ou que existem, e ele não tem provas. Nestes dois cenários, claro, a sua demissão continuaria a ser o desfecho mais lógico.
É a sujidade que dá fama ao champanhe. O pó no copo fornece os núcleos de condensação para o dióxido de carbono dissolvido. Nascem as bolhinhas. E folias gasosas. Na democracia, as sujeiras condensam o cinismo dissolvido. Nascem ingénuos. Mas maus, retendo apenas a casca da ingenuidade. Por dentro, estão ocos. São ingénuos nesse sentido de ignorarem que algo lhes falta. E logo o principal, a semente.
As sujeiras compensam, explica a psicologia cognitiva e a evolutiva. Para resolver um diferendo entre Descartes e Spinoza, em que o primeiro defendia o primado da crítica e o segundo o da crença, observou-se que a cognição humana acredita no que lhe põem à frente. Uma mentira começa sempre por ser uma verdade, não há outra forma de ser assimilada mentalmente. Só depois, se calhar, pode a alquimia da inteligência transformar o ouro em merda. A pulhice é tóxica, os assassinatos de carácter funcionam. Não? Acaso consegues resistir à má-língua no emprego, no bairro, nas amizades, na família? Serás um dos que conheciam o médico do Santa Maria que tratou a Laura Diogo após o Reinaldo a ter lesionado com uma entrada de rompante na pequena-área?
4) O BE, como movimento urbano e suburbano que é, pouco fala de agricultura: é ou não a favor de uma nova Reforma Agrária? De que tipo? Diferente da de 1975?
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Freitas do Amaral, na Visão de 21 de Maio de 2009, fez sete perguntas a Francisco Louçã. Se alguém souber onde se encontram as respostas, é favor avisar.
Avieiros – A Leandra de Loureiro Botas chegou em 1938
No texto anterior que dava conta da reunião de um grupo de 16 carolas em Alpiarça para arrancar um Fórum Ribatejo (ou coisa parecida) pois o Tejo está em perigo e a causa dos avieiros é um bom pretexto, cometi um erro crasso por omissão. Referi-me ao livro «Avieiros» de Alves Redol de 1942 mas esqueci-me que José Loureiro Botas tinha publicado em 1940 o seu célebre «Litoral a Oeste» com capa de Manuel Ribeiro de Pavia. Nesse livro de contos (Prémio Fialho de Almeida em 1940) um deles («A Leandra») foi escrito em 1938 e ganhou o prémio literário desse ano do Ateneu Comercial de Lisboa. Loureiro Botas nasceu na Vieira de Leiria, viveu em Lisboa e conheceu bem as histórias dos avieiros como a Leandra. Vamos ao conto.
A Leandra quase naufragou uma noite no Tejo e por isso «sabia rir de tudo, sem ligar importância aos pequeninos nadas». Um dia foi pelo Tejo acima com o seu marido (o Joaquim) e os dois filhos mais pequenos (os outros três ficaram com a mais velha em casa) mas de repente apareceu um temporal e ficou escuro como «a ferrugem da chaminé» mas o pior foi que começou a chover muito e veio uma trovoada. No meio do medo e da confusão aperceberam-se da chegada de uma barca grande com o António Milhafre, pescador conhecido a quem pediram ajuda. A resposta do outro foi «arranjem-se como puderem, levo o barco a abarrotar de peixe e não o vou perder por causa de vocês». Horas depois rompeu o dia e apareceu um barco grande que os ajudou num reboque gratuito. Do António Milhafre nunca mais ninguém soube. Do seu barco só bocados «tábua aqui, tábua acolá». A Leandra nunca mais quis nada com tristezas.
A entrevista de Flor Pedroso a Sócrates é mais um daqueles documentos onde se cava o fosso entre a sua frontalidade e a hipocrisia reinante na concorrência. Ele respeita a jornalista como 4º poder, por isso confronta-a com a sua responsabilidade, combate pela qualidade do acontecimento. Sócrates não quer ser amiguinho dos jornalistas, nem precisa que eles gostem de si. Santa impaciência que o faz tão transparente.
É raro. E é por aí que há caminho.
Os intelectuais portugueses demitem-se quando pactuam em novas formas de obscurantismo e se tornam cúmplices activos ou passivos da adoração dos novos bezerros de ouro que vieram substituir os ídolos demolidos; o aventureirismo golpista mascarado de razão da História, o dogmatismo inculcado por novas cartilhas pretensamente científicas; a sacralização da força das armas em nome de uma revolução sem rumo e sem bússola; a utilização das mass-media como instrumento de ilusão organizada, de repressão da inteligência e como caixa de ressonância de slogans primários e selvagens; os apelos e manobras para a formação de uma nova polícia política; a justificação doutrinária de novas censuras; a restauração do processo inquisitorial, com testemunhas secretas, a pretexto do “saneamento”; o uso da ameaça, da chantagem e de uma discursata confusionista como meios para conservar no poder, contra a vontade popular, novas castas dominantes que a si próprias se apelidam de vanguardas.
Alexandre O’Neill e João Palma-Ferreira in «Nota de Abertura», Setembro de 1975
Nemátodo
s. m. pl. (fr. Nématodes; ing. Nematoda). Ordem de vermes cilíndricos providos de tubo digestivo completo e cujos sexos se encontram separados. A maioria destes vermes são parasitas dos vertebrados e alguns deles do homem.
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Ricardo Salgado acusou Filipe Pinhal de cinismo, hipocrisia e cobardia. Tratando-se da banca, e do Ricardo, a mais aristocrática e discreta das suas altas figuras, o equivalente a esta denúncia é um espancamento à bengalada no Chiado, seguido de tareia com pau de marmeleiro na Rua do Carmo e acabando em sessão de biqueiro nos Restauradores. Pinhal confirmou o estado comatoso em que se encontra, dizendo que não entra em polémicas e que o que está escrito, está escrito. Mas que fez este Pinhal offshórico? Nada de especial. Limitou-se a deixar no ar uma insinuação que ofende a honra de terceiros. Ou seja, limitou-se a fazer o que vê fazer à sua volta, a todo o momento, contra Sócrates, o Governo e o PS.
No PSD, o mais frenético e notável produtor de ofensas é o Pacheco Pereira. Como outros, assisto meio incrédulo ao esboroamento de um qualquer sentido de respeito pela dignidade de terceiros nesta figura grada da opinião social-democrata. As suas catilinárias contra o situacionismo e a suposta manipulação da comunicação social pelo Governo, vertidas em todos os meios onde bota palavra, são exemplos acabados de calúnias cínicas, hipócritas e cobardes. Pacheco nunca prova nada, nunca identifica ninguém, e o máximo a que consegue chegar na matéria objectiva remete para a secundagem do Jornal da Tarde da RTP 1. O resto é hermenêutica, democracia e liberdade. O seu terrorismo opinativo é não só absurdo e confrangedor, é também asqueroso, perverso. Alimenta a suspeição, mas não a quer esclarecer. Serve-se dela para manter o protagonismo mediático.