Freitas perguntou, Louçã calou

3) Se o BE entende não adoptar nenhum modelo de socialismo já experimentado (talvez porque todos falharam…), e por isso propõe – tal como o MFA em 1975 – uma «via original para um socialismo português», que via é essa? Em que consiste? O que é que tem de original? Para quem já o ouviu defender a nacionalização da Energia (electricidade, gás natural, petróleo), o que pensa da nacionalização da Banca? E dos Seguros? E dos transportes colectivos? Em que difere, aqui, do PCP?

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Freitas do Amaral, na Visão de 21 de Maio de 2009, fez sete perguntas a Francisco Louçã. Se alguém souber onde se encontram as respostas, é favor avisar.

As mãos de meu avô José Almeida

Caiu o telhado. Não sei se imaginas

Como tudo agora é sombrio e triste

A casa onde vivemos está em ruínas

O quarto onde se nascia já não existe

As pedras e os barrotes são só entulho

Ficou tudo acumulado no rés-do-chão

Há um silêncio onde antes era barulho

Que era um sinal de vida em profusão

Fosse na casa, no quintal, no palheiro

Onde também se fazia o nosso lagar

As tuas mãos à luz do velho candeeiro

Trabalhavam na noite fora sem parar

E aos domingos a trompete tão diferente

Faiscava entre a luz do sol na procissão

As tuas mãos, o chumbo e a água quente

Faziam na trompete um som de perfeição

Esmiúça os Sufrágios – Ferreira Leite

A Manela esteve irrepreensível. E as questões cumpriram o papel de provocar sem provocação. Foi particularmente feliz na última pergunta, pois teve a oportunidade de desmontar o episódio da sua declaração relativa à suspensão da democracia. Entretanto, o fanatismo e o ridículo disparam sempre que a Manela consegue passar meia-hora sem dizer uma asneira. É assustador.

Esta descontracção simpática, a generosidade de expor-se obedecendo a outros códigos retóricos, com que a Manela nos brindou é particularmente relevante para a compreensão do que faz quando não está a participar em programas de entretenimento, como disse o meu primo. Significa que é um ser moral, consciente das implicações políticas e éticas do que diz ou deixa por dizer. Ela reconhece diferenças, adapta-se às situações, representa. Tal como qualquer pessoa imputável, responsabilizável. Assim, quando aprovou a campanha de insídias contra Sócrates e o Governo, quando deturpa a opinião pública com o tema da asfixia democrática ou quando mente sem uma hesitação em relação à Madeira, a senhora sabe muito bem o que está a fazer, como lembrou o Francisco Clamote cá na casa. Acontece-lhe é preferir esse caminho, caindo numa armadilha, já muito investigada na psicologia, onde indivíduos que se consideram moralmente superiores permitem-se cometer imoralidades precisamente por se julgarem com direitos especiais.

Uma palavra final para os Gato Fedorento: contratem, urgentemente, alguém que saiba escrever comédia política. E se é para continuarem a ajudar a oposição, comparando o incomparável a propósito do caso TVI e assim reforçando o dano a Sócrates e ao PS, coloquem o símbolo do Bloco na esquerda baixa.

Vinte Linhas 411

Alpiarça: Depois de uma adiafa no Patacão nasceu o Fórum Ribatejo

Apesar de fazer parte do emblema de Alpiarça, o barco avieiro parece estar perdido nos alçapões do esquecimento. Almoçar na sombra dos salgueiros do Patacão uma magnífica caldeirada feita pelo avieiro Fernando Saboga, foi uma espécie de adiafa sentimental. Os 16 convivas (amigos, antropólogos, músicos, investigadores, jornalistas) homenagearam a memória de Álvaro Brasileiro na presença do seu filho. Alguns desandaram dali pois não suportam ver a aldeia abandonada e em total degradação, outros talvez mais resistentes ao esplendor das ruínas, andaram pelo interior das casas dos avieiros que ainda não caíram de todo. Há ali ainda um frémito de vida. Roupas, facturas, papéis diversos. Um relatório de 1972 sobre um «RX» dum avieiro no Cartaxo, quatro páginas da bateria de análises feita em 1971 a uma avieira em Alpiarça. O forno comunitário e a respectiva barraca de apoio (onde ficou esquecida uma garrafa de Rical) são o contraponto do lado de cá ao abandono das casas do lado de lá do dique onde algumas árvores cresceram e derrubaram os telhados. A secura e a aridez da areia completam a desolação das casas. Horas depois a sala da Junta de Freguesia, local onde se realiza a Assembleia Municipal, recebe os 16 agentes culturais com uma mentira na parede – um quadro que anuncia a recuperação do Patacão. Mas o processo dos avieiros não pára; ainda agora um grupo de investigadores foi recebido no Ministério da Cultura (parece que existe…) e um Blog vai nascer para contactos activos dos agentes culturais do Ribatejo que nele queiram participar. É tudo uma questão de coração. Afinal Alves Redol escreveu «Avieiros» quando descobriu que a sua avó de Tomar era neta, filha, irmã e viúva de avieiros.

Balada da Praça da Fruta

(a Carlos Querido)

João Cristo, sua cocheira

Onde o meu avô sabia

Que a burra trabalhadeira

Era a dez tostões por dia

Ficava ela a descansar

Nas cocheiras da cidade

Desconfiada do lugar

E moscas em quantidade

Minha tia Francelina

Nascida no Zambujal

Vinha vender obra fina

Os bichos do seu quintal

Numa carroça pequena

É que o seu mundo cabia

Sempre calma e serena

Dava-me um beijo e sorria

Exame era uma guerra

Bebemos uma gasosa

O grupo da minha terra

Não levou uma raposa

Nos armazéns do Chiado

Pronto-a-vestir é um fato

Nunca tinha reparado

Neste novo artesanato

Meu exame da terceira

Foi feito sem companhia

Em Abril, segunda-feira

Já não me lembro o dia

Chamado para a inspecção

Sou dado como capaz

Dentro duma contradição

Não sou guerra mas paz

Minha prima Deolinda

Professora de crianças

Na doçura que não finda

Dava-me muitas esperanças

Suas torradas matinais

A caminho do regimento

Davam-me forças especiais

Para marcha e movimento

Fosse das suas orações

Ou fosse da entrevista

Eu passei sem ralações

E fiquei em contabilista

Com três filhos crescidos

E acrescentado um neto

Compro beijinhos pedidos

E cavacas no Gato Preto

Praça da Fruta eterna

Onde o mundo nunca pára

És tão antiga e moderna

Porque és uma praça rara

Povoada por mil paixões

Todos nós mesmo distantes

Trouxemos nos corações

A força dos teus instantes

E mesmo na chuva londrina

Tomas, meu neto à escuta

Recorda Santa Catarina

E lembra a Praça da Fruta

Não voto PS, mas

Não voto PS, mas espero que o PS ganhe, de preferência com maioria parlamentar. Seria a melhor situação para Portugal, na minha humilde e nada modesta opinião. Mas não voto PS porque o PS é um partido, não uma pessoa ou um Governo. Fundado em 1973, o PS é o mais importante partido da democracia portuguesa, tanto pelo papel de Mário Soares nos anos 70 e 80 como pela influência decisiva dos seus quadros na qualificação do regime até ao presente. Isso quer dizer que é aquele partido ao qual devemos pedir maior responsabilidade. E não há área mais carente de responsabilização do que a da Justiça. Embora o PS seja o partido onde melhor se concretiza o ideal de liberdade que associamos à democracia, até pela diversidade sociológica e política que congrega, mas também pelo fundo ético onde se enraíza a sua cultura, o seu Programa para estas eleições não satisfaz o ideal platónico (no seu duplo sentido) onde me cumpro cidadão.

Continuar a lerNão voto PS, mas

Freitas perguntou, Louçã calou

1) Qual é a ideologia do BE? É marxista ou não? Se é marxista, é-o apenas no sentido de adoptar a crítica de Marx ao capitalismo, ou é-o integralmente, e portanto preconiza a «revolução comunista» e a primeira fase necessária desta, a da «ditadura do proletariado»?

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Freitas do Amaral, na Visão de 21 de Maio de 2009, fez sete perguntas a Francisco Louçã. Se alguém souber onde se encontram as respostas, é favor avisar.

Intermitência

 

 

 

 

“O Dioguinho disse-me que te viu enfiar o teu pénis enorme dentro de uma mulher que ele nunca tinha visto antes”, diz-me, tortura e tormento, C. “É verdade? É”, pergunta-me, desesperada. “Sim, é verdade”, confesso. “O meu pénis é, de facto, enorme”, concluo, orgulhoso, antes de, com um brilho nos olhos, o afagar carinhosamente.

Vinte Linhas 410

Príncipe Real – A perversão dos ecologistas

Nada tenho contra os ecologistas. Fui ecologista nos anos 70 e 80 quando escrevi sobre o assunto e li todos os livros de Sicco Mansholt (1908-1995), o holandês que lutou contra os pesticidas e produtos químicos (em geral) que obrigavam os agricultores da Ardenas a beberem água engarrafada. A dos poços já não de podia beber. Sicco Mansholt foi presidente da Comissão Executiva da CEE depois de ter sido o vice entre 1967 e 1972.

Aqui no Príncipe Real tivemos um terramoto ecologista: vieram rebentar com a bomba de gasolina que havia no jardim. Depois de há alguns anos terem feito desaparecer a bomba que existia no Pátio do Tijolo, numa garagem de recolhas, vieram acabar com esta nossa bomba de gasolina. Um vereador recusou a prorrogação da licença com o argumento de que o espaço era para um silo de automóveis. O vereador saiu mas a licença nunca foi prorrogada; agora acabaram com a nossa bomba de gasolina. Digo nossa porque a vida na cidade só faz sentido se for organizada a favor das pessoas. A nossa bomba permitia um atendimento personalizado. Parece que não mas é importante. Já houve quatro pessoas de idade que venderam os seus automóveis pois não podem abastecer-se com um olho no burro outro no cigano. Além do mais na bomba comprava-se gás e gelo. Ela apareceu nas crónicas do Alçada Baptista. Não estava dentro de nenhum prédio. Foi sacrificada por uma perversão do espírito ecologista. A Câmara deixou-se ir a reboque de alucinados com a ideia de trocarem a vida verdadeira por uma vida falsificada feita de saladas em vez de carne, de animais em vez de pessoas, de bicicletas em vez de automóveis, de produtos ditos biológicos em vez de alimentos naturais. Uns trambolhos, enfim.

Crivos de prova e contra-prova

10. Para o PÚBLICO este não é um episódio encerrado e muito menos um sillygate, razão pela qual os nossos jornalistas continuam a trabalhar para reunirem a documentação e/ou os testemunhos que nos faltam para sustentar as outras informações que possuímos mas que ainda não estão em condições de serem reveladas pois não passaram por todos os crivos da prova e contra-prova.

Joaquim Vieira, finalmente, começou a pronunciar-se acerca da inventona que une a Presidência da República e o jornal de Belmiro de Azevedo. É uma leitura que fica como dever de cidadania, e a qual expõe a pulhice do Zé Manel e dos jornalistas que o servem. Espantosamente, como se pode ler supra, o director do Público, um jornal transformado em arma de vingança contra Sócrates por este ter ousado afrontar um empresário poderoso, diz que tem mais informações relativas às supostas escutas em Belém e espionagem do Governo sobre Cavaco e Casa Civil. Faltarão só uns certos crivos de prova e contra-prova. Se forem os mesmos usados para a notícia das escutas e do agente no Funchal, em Agosto, por certo nada impedirá que a mais acéfala conspiração do regime conheça novos capítulos nas próximas duas semanas, sem falta.

Sporting, a invenção do mau futebol

Pode ser uma razão para ir ao estádio. Ver uma equipa que treina para apresentar mau futebol. Uma equipa que não sabe como chegar à baliza adversária. Uma equipa que não consegue passar a bola a meio-campo de modo a criar oportunidade de remate, desmarcação ou sofrer falta. Que insiste em pôr a jogar o Miguel Veloso, medíocre futebolista e péssimo atleta. Que insiste em pôr a jogar o Moutinho, um jogador de banco. Que insiste em pôr a jogar o Djaló, que só devia fazer as segundas partes das segundas partes. Uma equipa que não aproveita o génio do Vukcevic, que o utiliza longe da baliza. Se é para ser assim, então assumam, digam aos adeptos que o objectivo é o mau futebol, a estupidez em calções. Se não conseguem ser reis da selva, ao menos que dêem espectáculos de circo. As crianças gostam e garante-se um Natal com a casa cheia.

Disputatio – X

O mais fanático dos escribas no Jamais, Carlos Botelho, atingiu o zénite na asfixia da inteligência com esta descida ao fundamentalismo:

[…]
De um lado, alguém que parece não pensar, que, na verdade, não conversa nem discute – não argumenta: limita-se a sacar de chavões, estribilhos, frases de outdoor, que fala como num comício e sempre com uma fluência de autómato. Parece ter um catálogo de expressões decoradas que vai disparando respectivamente para os temas A, B, C… Pior do que isso: tenta deturpar e descontextualizar o que os outros dizem (já resultou noutro debate, neste não).

Do outro lado, alguém que podemos ver a pensar à nossa frente. Não repete nem reproduz frases. Produ-las. Procura falar dos problemas sem recusar toda a sua superfície angulosa e áspera – assume-a no discurso e no argumento. Transporta para o seu discurso a própria dificuldade das coisas. Nesse sentido, as pessoas vêem ali um discurso verdadeiro.
[…]

Primeiro, diz que a competência discursiva de um orador, Sócrates no caso, resulta de não pensar. A seguir, diz que a incompetência discursiva de um orador, Ferreira Leite no caso, resulta de pensar. Para o Botelho, o pensamento é uma construção penosa, lenta, produzida a custo. Quão mais verdadeiro, mais um pensamento exibirá as marcas da sua elaboração no acto mesmo da sua expressão oral, afiança o iluminado apoiante do PSD. Esta matriz de produção permite vislumbrar as condições artesanais, o labor manual, que serão apanágio do pensamento da Manela, o tal pensamento que produz discursos verdadeiros. De cada vez que fala, pensa, e de cada vez que pensa, produz algo novo, uma verdade sempre nova, fresca, sem repetições, acabadinha de sair do confronto com a realidade e respectiva dificuldade das coisas. É por isso que lhe é permitido dizer tudo e o seu contrário, pois este sistema de produção de verdades leva a que não se repitam nem reproduzam frases, explica o genial Botelho. Para quê perder tempo com uma verdade passada se já vem outra a caminho, mais recente?

Esta distorção é notável, para mais vinda de uma figura que se socorreu de Goebbels para defender o PSD e atacar portugueses. Temos aqui consagrada a definição de verdade como aletheia, desvelamento, e o que fica à mostra é patético e sinistro. A Manela não mente, urram estes alucinados do fundo da toca onde se escondem da honestidade intelectual. É uma senhora séria, pura, cuja seriedade merece a recompensa suprema do País: ganhar as eleições. Para quê? Ora, para continuar a fazer o que fazem todas as pessoas que nos querem impor a sua seriedade: a produção sofrida de verdades convenientes.