Balada do coletinho

Toma lá colchetes de ouro

Aperta o teu coletinho

O teu peito é um tesouro

Envolvido em carinho

No coletinho vermelho

Que te defende do frio

É que eu vejo ao espelho

A luz em reflexo do rio

Há nos colchetes dourados

Do teu coletinho vestido

Um calor com dois lados

Que faz o frio um vencido

Não me canso na procura

Duma razão ou verdade

Num colete de ternura

Dou o teu nome à cidade

Num bulício de afazeres

E numa intensa corrida

Nas janelas das mulheres

É que a cidade tem vida

São janelas, são sorrisos

E portas do mundo aberto

Todos os sonhos precisos

Vão no teu passo ou perto

Entre as ruas e desgraças

Onde ninguém vai sozinho

Morre o frio quando passas

Dentro do teu coletinho

Quando chega o fim do dia

O teu colete é imagem

Nos colchetes de alegria

Faz a luz da carruagem

Da cidade ao regresso

Nos minutos do caminho

Ouve bem o que te peço

Aperta o teu coletinho

Cineterapia


The Curious Case of Benjamin Button_David Fincher

Quero que vejas O Estranho Caso de Benjamin Button. E que digas que vais da minha parte. Não sofras com a ignorância feita onda sonora O quê? Da parte de quem? Hã?, nem esperes descontos. A tua primeira missão estará cumprida, dando a quem te ouvir um pequeno sobressalto, uma pequena surpresa, uma grande pista daquilo que mais importa (sim, funcionará exactamente da mesma maneira se disseres que vais da tua parte, até é capaz de funcionar melhor). Logo depois, engana-os. Troca dinheiro por luz. E entra na escuridão. Vais ver um filme imperfeito que se sabe e quer imperfeito. Ai dele se fosse perfeito, nada teria para revelar. É do David Fincher, um bacano que nos deu algum do cinema mais pop dos 90. Aqui assina um melodrama. E os melodramas são fodidos; como o amor; e como as histórias de amor. Só se salvam os acrobatas do arame, mas daqueles que fazem malabarismos sem rede. Caindo.

As categorias dos Óscares estão obsoletas desde o seu início. Falta, por exemplo, o Óscar para o filme mais popular. Para, por exemplo, o entregar ao Benjamin Button. O critério pelo qual um filme é popular não remete para a bilheteira, antes para o bilhete. Resulta numa alteração de consciência que sai connosco ao sairmos da sala, como se o real exterior fosse agora uma ficção, ecrã tridimensional onde a matéria se liquefez, é de brincadeira. Esse estado assinala o percurso da nossa alma, por metempsicose trasladada para o lado de lá do brilho. Nesse espaço há outro tempo, claro, claro, nem passado, nem futuro, nem presente. É antes um tempo do agora e nunca, universo paralelo onde a nossa sombra conseguiu livrar-se de nós, segue por outro caminho.

O conto de Scott Fitzgerald, donde veio o título e parte da ideia, em boa hora foi para o galheiro. É cínico e desesperado. O argumentista do filme preferiu tirar um lirismo branco e felpudo da cartola, ao qual Fincher acrescentou auto-ironia. Com mais olhos que barriga – a fita é bem longa e consegue acabar bem cedo demais –, segredos do princípio do mundo são servidos ao espectador com generosidade e paciência. 2009 é o ano ideal para ver este filme, tão admirável nisso de conseguir fazer as pazes com o Katrina como nisso de nos recordar que o furacão vem aí. Vem sempre aí. Por isso deves realizar os teus sonhos, ou dançar ao luar, ou contar a tua história àqueles que amas. É só para te ajudar, afinal, que o furacão vem aí.

Falta de homem

Pedro Duarte ainda não tinha 1 ano de idade aquando do 25 de Abril. É possível que esta circunstância permita vê-lo como um representante da juventude social-democrata, ele que até foi presidente da JSD.

O episódio com o seu Twitter é delicioso. E não vale a pena perder tempo com o caso, apenas o suficiente para registar: o maior problema do PSD é esse mesmo da falta de homem.

Vinte Linhas 322

O esplendor da ignorância no Diário de Notícias a propósito do derby

O recente Sporting-Benfica do passado dia 14 deu origem a um trabalho jornalístico no Diário de Notícias (páginas 2 e 3 do suplemento desportivo desse dia) e sobre essa publicação o menos que se pode dizer é que ela espelha o esplendor da ignorância dos seus autores. Começa pelas fotografias: apesar de o título referir que se trata de «derbies em casa verde» a fotografia maior das duas páginas é (como não podia deixar de ser…) do estádio da Luz. E não é preciso muita perspicácia para ver a diferença pois os dois estádios sempre foram diferentes – basta ver as escadas de acesso às bancadas. Portanto o erro não está na legenda e os minutos que Eusébio (ex-jogador do Sporting de Lourenço Marques) precisou para marcar um golo ao Sporting Clube de Portugal mas sim a foto em si – aquele é o estádio da Luz. Para além do mais, aquele que é de longe o mais famoso resultado dos derbies em Alvalade (o dos sete a um) tem direito a uma foto pequenina, tipo passe, enquanto a tal foto errada com Eusébio ao lado de Manuel Poeira, árbitro que em 1962 ainda não o era, tem direito a foto gigante. O segundo erro crasso diz respeito ao falso primeiro derby que não foi (nem poderia ter sido) em 23-2-1908 porque o Sport Lisboa e Benfica nasceu em Setembro de 1908. Tendo sido fundado em 13 de Setembro não podia disputar o jogo em Fevereiro. Um clube (em 1908) para existir tinha que ter estatutos entregues no Governo Civil, corpos gerentes eleitos, bandeira e emblema. O Sport Lisboa e Benfica foi fundado em Setembro de 1908; antes havia outros clubes que se juntaram nessa data e cada um tinha o seu emblema, os seus corpos gerentes, a sua bandeira e os seus estatutos. Não perceber isto é não perceber nada.

Saber perder

Saber perder é um dom. Porque liberta. Esta mal-amada sabedoria não consiste numa passividade, numa resignação face ao desaire ou infortúnio. Isso não seria mais do que atrofiamento, e nova derrota para cima dos derrotados. Nadinha de nada disso. Saber perder é, antes, um movimento de abertura. Começa pelos olhos. Uns olhos que tudo querem ver, olhos desavergonhados, luciferinos. Depois vai para a inteligência, atiça-a à realidade. E ela agarra-se à crina, não a larga. Por mais pinotes e coices que dê, a inteligência acompanha a realidade desembestada até aos confins do mundo ou até aceitar ser montada. Por fim, saber perder é conseguir abrir os portões do coração. E lá dentro fazer um banquete. Estão convidados os que não têm a boa sorte de se saberem vencidos da vida. Os únicos que merecem compaixão.

Sonho com uma época em que os estádios aplaudam os adversários à entrada e à saída, sejam eles quem forem e seja qual for o resultado. Sonho com adeptos que saibam que o desporto não é um divertimento, mas uma alegria, uma iniciação aos mistérios. Sonho com equipas onde todos os jogadores tenham a sorte de amar a camisola. Enquanto isso não acontece, consolava-me que não existissem treinadores nesta galáxia (nem na galáxia de Andrómeda, a qual irá marrar de cornos com a nossa não tarda) que deixassem um jogador como Vukcevic no banco. E por esta singela razão: é que os deuses também gostam de ir à bola, e quando se deparam com imbecilidades desse calibre ficam chateados, com toda a razão, podendo-lhes dar para castigos de 5-0 e cenas foleiras dessas assim.

Vinte Linhas 321

O horizonte que flutua em frente ao banco de Marta

Há um som de marcha brasileira no pôr-do-sol em frente à última falésia e na linha de espuma na onda repetida, frente ao banco de Marta, com o hotel à esquerda e o oceano em frente. Atrás do grupo das tarolas e dos bombos, surge o músico da trompete e a rapariga do saxofone. São eles que, a partir da pauta em fotocópia, dão a força inicial das melodias. Mais atrás seguem as meninas que tocam clarinete. Há também uma requinta. E pandeiretas que nunca mais acabam.

Vejo o teu cabelo na onda que sobe e enche de espuma a pedra negra de onde todos os pescadores fugiram recolhendo apetrechos e botas oleadas. Vejo, ou julgo que vejo, porque não posso ter a certeza, entre a luz do sol e a breve neblina que se forma nas pedras depois das ondas terem batido a sua fúria.

No pôr-do-sol daqui é o teu olhar que ficou na sexta-feira desenhado nas ruas da cidade a deixar o limite da luz azul e a marcar o horizonte que flutua em frente ao banco de Marta.

São as máscaras que chegam da memória de Veneza no som do Carnaval da marcha das crianças e fazem com que a paisagem se transforme para, de repente, ter o teu cabelo no cimo das ondas.

Já não há por aqui alfândega nem mercadorias para pagarem direitos conforme a pauta aduaneira. Neste lugar passa o som da marcha, passam as imagens e as máscaras do desfile e o ponto alto das ondas acaba por ser, de sete em sete, o recorte do teu penteado que ficou na sexta-feira à tarde em Lisboa. E sobre essa memória nada nem ninguém pode cobrar imposto, taxa ou comissão aduaneira.

Um livro por semana 108

«Histórias de amor» de José Cardoso Pires

Mais do que um livro trata-se aqui de uma lição de história da literatura. Estamos no ano de 1952: Victor Palla e Aurélio Cruz na editora Gleba criam a colecção «os livros das três abelhas» e publicam em Julho estas «Histórias de amor» que em Agosto os serviços da Censura retiram do mercado. José Cardoso Pires, então com 27 anos, escreve uma carta ao director dos serviços de Censura reclamando contra o abuso mas nada consegue. Ficou a história de proveito e exemplo para hoje: é possível pelo sombreado verificar no texto as palavras e expressões cortadas pela Censura: «dor de corno», «filhos da mãe», «saliva de beijos», lábios húmidos», «não me beije», «sua tonta» ou «conversa do catano». Sem esquecer que também cortou nomes de autores como Maiakowski, Eluard, Gide, Pessoa e Debussy. Além dos contos e da novela, este livro inclui as críticas de Óscar Lopes, Mário Dionísio e Luís de Sousa Rebelo – o único a quem, por viver em Londres, foi permitido denunciar o facto de a Censura ter retirado este livro do mercado.

Lido em 2009, há neste livro de 1952 o vigor dum jovem escritor que queria dar o seu recado ao Mundo ao descrever a «rapariga dos fósforos»: «Deixei-a é certo, sozinha e a trincar fósforos. Mas que poderá uma pessoa, unicamente por si, quando se lhe depara uma rapariga tão jovem e com o corpo traçado pela boca esfaimada duma velha, uma rapariga que nada sabe do mundo nem nunca beijou um homem? A menos que um vento sagrado de justiça venha dignificar as razões ultrajadas, os gestos, o olhar.»

(De notar na referência biográfica de JCP a rasura de Vila de Rei; passando da freguesia ao distrito e esquecendo o concelho)

(Edições Nelson de Matos, Capa: Paulo Condez, Ilustração: Sónia Oliveira, Contracapa: Júlio Pomar)

Vinte Linhas 320

Brito Camacho ou Memórias felizes na A.P.E. com Óscar Lopes, Fausto e Seizette

Fui feliz a partir do momento em que recebi o prémio de poesia da A.P.E. em 1981: fiquei amigo de Raul Marques (o outro premiado), de Armando Silva Carvalho, Fernando J.B. Martinho e Pedro Támen (júri) e de José Correia Tavares e Urbano Tavares Rodrigues que assinaram a filiação na Casa. Depois David Mourão Ferreira e Orlando da Costa receberam-me como um igual sem cuidarem se eu era «licenciado». Acaba de chegar à minha mão o livro «Quadros Alentejanos» de Brito Camacho e, num relâmpago, recordo os nossos fins de tarde na A.P.E. com Óscar Lopes a falar dos grandes clássicos esquecidos que era urgente reeditar. Eu e Fausto Lopo de Carvalho éramos ouvintes atentos. Bebíamos as palavras do nosso querido professor mas bebíamos às vezes um vinho licoroso de Carcavelos que o Fausto trazia do seu escritório na Rua do Comércio. Atenta e simpática, Seizette, a eterna secretária, adiantava a bolachinha. Eram aulas grátis do professor Óscar Lopes. Este «Quadros Alentejanos» figura ao lado dos grandes livros do Alentejo: entre a poesia do Conde de Monsaraz («Musa alentejana») e a prosa de Manuel da Fonseca («O fogo e as cinzas»), entre os ceifeiros e carreiros de Francisco Bugalho e os feitores e negociantes de gado de Mário Ventura em «Vida e Morte dos Santiagos». Sei que a Seizette vais ser homenageada num jantar no Martinho e como não posso estar presente quero ir à A.P.E. levar este livro para nos lembrarmos melhor dos fins de tarde com Óscar Lopes e Fausto Lopo de Carvalho. Há nesta prosa a força da alma das pessoas da infância de Brito Camacho – «Vive-se tanto a recordar!». É bilhete para um certo tempo português em Portugal e em Aljustrel de 1862 a 1943.

Vinte Linhas 319

Recado a António Rebordão Navarro (ainda a tempo)

Soube pela Revista da Sociedade Portuguesa de Autores que o seu próximo livro tem o título de «As ruas presas às rodas» embora apareça por lapso «As luas presas às rodas». Quando fiz parte do júri de um prémio literário não sabia (obviamente) quem era o autor daquele texto e houve um lapso por parte da secretária do vereador da cultura que na listagem escreveu o nome do seu original como «As ruas presas às rosas» e deu-lhe o número «28» quando na verdade era o original nº 38. Como vê o nome do livro está e continua embruxado.

Todos nós gostamos de ter razão e somos felizes naqueles breves instantes em que temos razão no momento próprio. Ter razão fora do tempo já não é a mesma coisa. O seu livro agradou-me de tal modo que escrevi nas notas «Bom +++» mas na vida, tal como no futebol, há três resultados possíveis: vitória, derrota ou empate. Eu perdi, fui derrotado, porque o seu livro não ganhou mas agora que a publicação está anunciada, meu caro António Rebordão Navarro, permito-me enviar-lhe um recado: não se esqueça que há uma troca de linhas entre as páginas 127 e 129 do original. Uma pessoa com jeito para mexer em informática facilmente «recorta e cola» essa meia dúzia de linhas passando-as da 127 para a 129 com uma perna às costas. Não recorra a um «sem-abrigo informático» (assim como eu) que só piora as coisas.

Como vê continuo a ter uma memória razoável. Não é para todos ter estas referências tanto tempo passado sobre o concurso literário. O seu livro merece ser feliz mas não se esqueça da troca de palavras entre as páginas 127 e 129. Isso é «fundamental».

Um livro por semana 107

Os «Narcóticos – volume 2» de Camilo Castelo Branco

O espírito e o humor de Camilo iluminam estas páginas: «O leitor não se assuste. Pelo facto de chamar-se Narcóticos o meu livro, abstenha-se V. Exa. da pretensão egoísta de abrir a boca logo que abrir o livro e estirar-se de papo acima numa regalada modorra cheia de roncos assobiados em cromática infernal pelas trompas nasais. Não pretendo ser mais opiado e calmante que outro qualquer livro nacional. Estimo que adormeçam mas devagar, com os espreguiçamentos usuais nas duas Câmaras e etiquetados com frascos na grande farmácia do Diário das Cortes».

Camilo comenta o problema dos direitos de autor, discorda de Alexandre Herculano e afirma: «A literatura-mercadoria, a literatura-agiotagem tem na verdade progredido espantosamente». Mais à frente, sobre a poesia, proclama: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». As eleições de 1879 originam esta observação: «O Governo progressista de 1879 fez retroceder a liberdade do sufrágio a 1845, com a diferença que antepôs à violência da paulada o suborno das consciências com mais suaves pressões, exceptuando os dorsos que as sentiram duras». A suspensão do «Boletim da Bibliografia Portuguesa», dirigida por Fernandes Tomás, merece a Camilo este reparo: «A suspensão deste periódico é um dos sintomas da podridão que nos vai relaxando e acanalhando a um raso de desprezo das letras que não tem semelhante em parte do Mundo, onde, alguma hora, houvesse livros e civilização».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Don Duarte nos Infernos

Cheguei à hora pontual, as batidas vasculares superando os toques dos sinos da Igreja de São Francisco. O encontro fora um desastre.
Ela. Na imobilidade do fóssil, no grito silencioso, no alto da sua maturidade, filmava-me em câmara lenta, perscrutinando detalhes ofensivos, pormenores insultuosos. Ele. Imóvel, protegido por óculos sombrios, aguardava. As portas do Inferno abriram de par em par.
Ambos bebericavam um café sumido, desviando olhares, empedernidos na ignorância duma presença absurda. Agressiva e determinada, pedi um sumo de laranja, um pão com manteiga e um pingo.
Observei-lhe a cara de emplastro, caiada como um claustro na Primavera, as mãos ressequidas, o olho baço, os lábios insuficientes para o bâton, o corpo magro, apagado, sem atractivos, a lividez de um Outono latente, prenunciando o desgaste final.
A verdade, inimiga da máscara libertina, dançava sobre o tampo da mesa, rindo-se do desconforto de Don Duarte. A verdade queimava o ar de enxofre, prendendo Don Duarte em estalidos de mentira, na clareza e evidência dos crimes disseminados, na procura da mulher inconcebível.
Descortinei-lhe os olhos infernais, na combustão pesada do ódio contido, e a frieza dos gestos mortais nas mãos enlameadas de um húmus perdido. Os significantes convergiram no alcance da verdade e Don Duarte prostrou por terra, fugindo do espelho oferecido.

Cláudia

Lusco-fusco

Grande português, o nosso Maltez. É de uma outra estirpe, cada vez mais rara. E só a miséria anti-franciscana da actual direita explica a reduzida influência da tradição que ele representa e exprime. Claro, é também um romântico, para além de erudito, o que devia ser visto como vantagem; escusado será dizer.

ESTACA, não faço ideia se és cliente deste senhor, mas ele é uma leitura que tem o que é preciso para te deixar a babar para cima do teclado, todo o santo dia.

Um livro por semana 106

«Efeito borboleta e outras histórias» de José Mário Silva

Este é um conjunto de histórias muito breves cujo ponto de partida é a definição de efeito borboleta: «se uma borboleta bater as asas, algures na Amazónia, pode provocar um tornado no Texas». Aqui se percebe que o amor é difícil: «Meu amor, Esta é provavelmente a última carta que te escrevo. Os meus netos venderão os móveis, deitarão fora o espelho e lerão, talvez com a indiferença de quem nada compreende, estas centenas de cartas que nunca te enviei.» Aqui se percebe que a morte é inevitável: «São sete da tarde. Alberto está na sua área, agitando o braço em semicírculo enquanto espera que algum automobilista se decida a estacionar. Depois de pedir ajuda a uma velhinha num 2CV preto vem a resposta com três notas de 50 euros – Meu filho, toma lá isto mas olha que nunca mais te quero ver nesta vida que levas, ouviste? – mas olhando melhor Alberto descobre uma gadanha no banco traseiro do 2CV. Aqui se aprende que nem sempre a literatura nos salva: «Quando A. M. Sousa publicou o seu primeiro romance aos 31 anos em 2014, a literatura portuguesa levou, nas palavras do crítico José Maurício Palhavã, um choque eléctrico fulminante. Ninguém esperava aquilo. Depois deu-se o previsível colapso. Cenas lamentáveis num talk show. O internamento numa clínica psiquiátrica. A longa travessia do deserto. O culto do silêncio. A vida austera num quarto sem nada. A pose do eremita.» Aqui se descobre o espanto de quem quer escrever um conto e leva com um tsunami em directo no ecran da televisão: «Alguém ligou a TV. Era domingo, manhã radiosa. E no outro lado do mundo uma onda erguia-se muito acima da ficção.»

(Editora: Oficina do Livro, Capa: Neusa Dias, Revisão: Manuel Dias)

Aviso à navegação

De vez em quando, mas raramente, acontecem acidentes aos comentários que, por diferentes razões, ficam retidos para aprovação. O mais frequente é ficarem retidos por terem links, mas pode ser também por qualquer outra razão que o sistema anti-spam tenha como critério.

Acaba de perder-se um, salvo erro do Salão Ramalho, apenas por distracção da minha parte. As minhas desculpas, espero que repitas o envio.

Epílogo: problema resolvido, comentário recuperado.

Homogeneidade

O debate, ontem, no Prós e Contras foi um belo momento político, cívico e cultural. Os que se opõem ao casamento homossexual (ou entre pessoas do mesmo sexo, satisfazendo o preciosismo jurídico) entraram vencidos e saíram derrotados. Nem de outra forma poderia ser; tanto pela profundidade e complexidade da questão, que não dominavam, como pelo ar do tempo, que os domina. As declarações finais, de Isabel Moreira e de Miguel Vale de Almeida, foram particularmente felizes e complementares, num composto de intencionalidade emocional e assertividade intelectual – e até taxativas nisso de apelarem àquele mínimo de bom senso que suporta a existência mesma de uma dada comunidade. Posto que a homossexualidade não é crime nem doença, como o século XX ocidental acabou por estabelecer, decorre que a igualdade antropológica obriga à igualdade de direitos.

Não há nenhuma clivagem na sociedade a este respeito. O individualismo tem feito o seu caminho e não podem ser os mais fragilizados pela ignorância, ou pela decadência mental, a moldar o futuro. É por isso que o argumento de a questão não se justificar face à premência de outros problemas, ou que ela não passa de manobra de diversão do Governo por pérfidas razões, é especialmente velhaco e canalha. Quem foi por aí passou um atestado de imbecilidade a si mesmo ou assumiu que não é pessoa de bem. A verdade irrompe simetricamente oposta: é por existirem outros problemas que não sabemos ainda como resolver, ou que exigem maior esforço e colaboração, que temos de tratar daqueles que já só esperam uma decisão política, uma instituição legal. Porque tudo está ligado, tudo tem uma origem comum, como sabe qualquer amante da sabedoria ou mero leitor de Darwin. E contribuir para nos acolhermos nas nossas diferenças foi sempre apanágio do melhor que a Humanidade criou nos seus 150.000 anos de crescimento em direcção ao infinito.

Vinte Linhas 318

Ler e publicar na era da abundância

Gabriel Zaid escreveu em 1995 o livro «Los demasiados libros» que em português deu «Livros de mais» na tradução de Miguel Graça Moura e na edição da «Temas e Debates». O ponto de partida deste livro é o passado («Graças aos livros sabemos que Sócrates desconfiava dos livros») para chegar ao presente: «Se a nossa paixão pela escrita não for controlada, num futuro próximo haverá mais gente a escrever livros do que a lê-los».

Um dos problemas é a rapidez de fabrico: «Os livros publicam-se a tal velocidade que nos tornam cada dia mais incultos. Se uma pessoa lesse um livro por dia estaria a deixar de ler outros quatro mil publicados no mesmo dia».

Surge a inevitável pergunta – «Ler para quê? E escrever para quê? – e a resposta do autor: «a medida da leitura não deve ser o número de livros lidos mas o estado em que eles nos deixaram». Isto porque há livros que não são para ler: «dicionários, enciclopédias, atlas, livros de arte, de cozinha, de consulta, bibliográficos, antologias, obras completas». E também há livros bons e maus: já Plínio (o Antigo) fazia um resumo de tudo o que lia porque pensava que não havia livro, por mau que fosse, que não contivesse algo de bom…

Lembra Gabriel Zaid que «depois de Gutenberg já apareceram a grande imprensa, o cinema, a televisão, a informática, os satélites, a Internet. E, de cada vez, profetizou-se o fim do livro; e no entanto, cada vez se publica mais e com maior facilidade». E por fim conclui: «as pessoas verdadeiramente cultas são capazes de ter em casa milhares de livros que não leram, sem perderem a compostura nem deixarem de continuar a comprar mais».