Em parte incerta

Gostei muito deste bocadinho. Garanto que gostei. Tive mesmo momentos de entusiasmo, daqueles em que o Mundo, contra todas as chances, bateu certo.

Mas outro momento chegou. O da partida. Sem dramas nem estados de alma, deixo o Aspirina. Desejo-lhe longos dias. Longos e cheios.

Cá o Degas ficará onde sempre esteve, onde é o seu lugar, e onde estará sempre melhor. Em parte incerta.

Fitna

O filme Fitna, de Geert Wilders, deve ser visto. O seu registo amador, enquanto peça de comunicação, está dirigido ao contexto social e político da Holanda. Por aí, ignoro a sua relevância, impacto e eventuais consequências. Mas sei da necessidade em falar do terror islamita. Precisamos que sejam os próprios crentes islâmicos a espalhar a sua voz e sanidade mental. O objectivo principal é o de os crentes se comprometerem com os valores tradicionais que suscitem laços humanitários, passando a ajudar as vítimas dos manipuladores islamitas e a desmontar os estratagemas religiosos que sejam fonte de destruição e injustiça.

Entretanto, para começar, temos de conseguir falar entre nós. O trauma do 11 de Setembro, acrescido com os ataques em Londres e Madrid, levou-nos para um silêncio patológico. É um silêncio que corresponde, somente, a um estado de desorientação de quem se sabe vítima de uma ameaça que não compreende nem tem como evitar. Mas a ausência da nossa palavra, da nossa Razão, não é boa, antes vai alimentando a loucura por ser entendida como derrota. Então, esta obra de um bizarro político holandês, que para alguns já está condenado à morte, é muito bem-vinda; pois serve — já que foi publicada, não por ser a melhor ou a que cada um faria se alguma coisa fizesse — para discutir o que está em causa num nível de crescente confiança e segurança: a confiança e segurança da nossa acção como seres humanos seculares e humanistas. Nesse civilizacional estatuto, temos muito para defender dos ataques islamitas, e muito para dizer aos nossos amigos islâmicos.

A avaliação dos professores já começou

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Na foto, professor mostra conhecer bem a História de França

Desde o ajuntamento dos 100 mil indignados, para o carnavalesco passeio em direcção ao Tejo, que a avaliação da classe docente está em curso. Não se trata de atacar, sim de reconhecer: estes são os professores que temos. Mas, estes, quem? Números, sindicatos, associações e Governo não são fontes de informação fidedigna. Os encarregados de educação também não, testemunhas demasiado ausentes e deformadas. Restam os alunos — e os próprios professores, pois claro. As cenas contempladas nas entrevistas e declarações, ao longo do rebuliço, chegam para conclusão empírica: os professores em Portugal são iguais aos restantes habitantes de diferente profissão e mesma entidade recolectora de impostos. Mas reconhecer-se a harmonia e nivelamento sociológico desta corporação, onde convivem heróis, santos e donas-de-escola, não é necessariamente uma boa notícia. Afinal, dava jeito que fossem um bocadinho à frente de um país com séculos de atraso, e em tantos domínios. Ou que pairassem um bocadinho acima de um povo tão carente de instrução e ensino, talvez mesmo de educação. Um bocadinho, um niquinho, já chegava.

Só que não. Quem vai na vanguarda cultural, social e tecnológica são os alunos, e são estes que saltam por cima do marasmo segundo as eternas leis da renovação geracional. Havendo telemóveis que captam imagens, tendo acesso à Internet e crescendo com redes digitais de socialização, os alunos fazem o que se espera deles: aprendem no mais curto espaço de tempo a utilizar com máxima eficácia os recursos. Inevitavelmente, terão de filmar o seu quotidiano e de o publicar, pois é esse o sentido, é essa a descoberta e a liberdade, do tempo que vivem. E o mais importante nem está a acontecer no plano tecnológico, esse apenas o imediatamente tangível. As escolas, os professores e, portanto, os pais, não fazem a menor ideia do que as crianças vão aprendendo nos currículos secretos: rua, meios de comunicação, espírito da época. Os alunos são seres ainda mais lógicos e previsíveis do que os adultos, apesar do que os maus professores pensam e dizem, e a coisa é universalmente simples: um jovem quer deixar de ser jovem, tudo fazendo para o conseguir, a começar pelos disparates e desafios às autoridades. Quem não entende estes processos e dinâmicas, não devia ter licença para entrar numa escola e tentar (ou fingir) transmitir fosse o que fosse a quem fosse.

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Vinte Linhas 254

Uma livraria com livros e muita música

Na passada quinta-feira (27 de Março) aconteceu música nova numa jovem livraria (Trama) na Rua S. Filipe Nery ao pé dos CTT do Rato. Estava frio e sair de casa não é fácil pois tudo nos envolve na chamada «cultura de apartamento». As pessoas são convidadas a comprar filmes e CDs evitando assim idas ao cinema e aos concertos. Mas foi bom, foi positivo ter decidido sair às 21h 30m de casa para ouvir a música do novo grupo, tão novo que deu na quinta-feira a sua primeira audição pública. O nome do grupo é «Bruno Pernadas Emsemble» e integra os seguintes elementos: Ricardo Ribeiro (clarinete baixo, clarinete soprano e sax alto), Pedro Pinto (contrabaixo), João Correia (bateria e percussões) e Bruno Pernadas (piano, guitarra, ukelele e samples). O concerto constou de oito peças musicais e um encore. Oscilando entre o registo do jazz e da música experimental com passagens pelo tipo de música conhecida por «Indie» mas cuja definição é um pouco difícil, foi um ponto de encontro feliz numa livraria onde em vez das palavras nos serviram notas musicais articuladas de modo a percebermos que só pode improvisar quem tem uma boa cultura musical de base. Os músicos todos eles surgiram a interpretar ora melodias com princípio, meio e fim ora discursos musicais integrando outros sons como por exemplo um boletim meteorológico. Lembrei-me logo dos Simon & Garfunkel que uma vez colocaram a voz do locutor de noticiários da NBC sobre a guerra no Vietname em sobreposição com a célebre canção «Silent Night». Não se trata de comparar mas apenas de perguntar: teremos assistido ao nascimento de um grupo musical com muita música a fazer no futuro? Espero muito sinceramente que sim.

Mais uma ironia socrática

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Se é óbvio que Sócrates é o chefe que o PSD adoraria ter, situação em que seria endeusado pelos mesmos que não lhe largam as canelas há dois anos, não menos óbvia deveria ser a solução para a crise social-democrata: ter o chefe que o PS adorasse ter.

Se existe esse ser, é neste momento um ilustre desconhecido.

Vinte Linhas 253

Dinis Machado na mais velha estação de comboios do Mundo

A fotografia belíssima da estação do Rossio que Fernando Venâncio colocou no «aspirinab» levou-me a recordar algumas memórias. Um dia na Veiga Beirão fui com Dinis Machado falar numa turma de Português. A pedido do professor escrevi estas palavras: «Qualquer maneira de começar é uma boa maneira de começar: estamos no largo do Carmo, perto da mais velha estação de comboios do Mundo, chama-se Rossio, podia chamar-se memória, particular ou colectiva. Afinal todos nós ficámos uma vez de nariz espetado no vidro, afogados em malas, recados e solidão. Todos nós já fomos ao país dos tios, gente de poucas palavras, calos nas mãos e um amor silencioso e sábio, só para nós. Todos nós tivemos uma tia Henriqueta, a despedir-se com sacos da nossa comida com lágrimas no rosto e mãos engelhadas, vestida de preto, numa noite sem luz. Dinis Machado andou por aqui ouvindo a banda da Guarda Nacional Republicana (que foi feito do palanque?) em concertos dominicais, um jovem muito jovem ao pé dos mais velhos que já falavam de empregos, de negócios, de futebol, de fazendas da Covilhã e da reforma quando ele sentia o fato apertado, respirava o ar puro das manhãs e metia ao dedos debaixo do colarinho da camisa para dar uma folga ao pescoço. Dinis Machado atravessou este largo com livros da livraria «Barateira», em circulação no seu grupo de amigos, resmungando a uma pergunta («O livro do Malraux é da Barateira?») com uma resposta irónica – «Donde é que querias que fosse? Da Universidade de Coimbra?». Mais tarde, no café, há-de rematar um desejo dum companheiro («Gostava de ler um livro leve!») com uma frase sábia: «Mão há livros leves. Todos pesam toneladas.»

Vinte linhas 252

«Não é uma boa prosa que ambiciono» (Miguel Torga)

Isto de escrever em público e para o público, tem que se lhe diga. Não é fácil, não é como nos «Morangos com açúcar» onde acontece tudo e ninguém paga nada, desde a prancha de surf ao copo de água tónica. Outro dia falando com o director-geral de um jornal sobre as suas crónicas e lendo alguns dos meus textos e dos outros participantes deste Blog lembrei-me logo das palavras de Miguel Torga. Aqui vai a transcrição: «Não é uma boa prosa que ambiciono mas sim uma claridade gráfica. Gostaria de restituir às palavras a alma que lhes roubaram e que a língua tivesse, nas minhas mãos, além da graça possível, uma dignidade insofismável. Que cada frase, em vez dum habilidoso disfarce, fosse uma sedução e um acto. Uma sedução sem condescendências. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades, na porfiada esperança de que a sua claridade se veja e se entenda ao mesmo tempo. E a vejam e a entendam, sobretudo, os que não são profissionais da literatura. Muito mais do que o juízo da crítica encartada interessa-me principalmente a opinião do leitor comum.»
O texto é de Fevereiro de 1958 mas continua válido e actual.

Carolina Michaëlis e a Questão Coimbrã

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Eis o mais recente teste à disposição do português para detectar se um outro português é imbecil, lunático ou, simplesmente, falho de bom senso e bom gosto: basta pedir ou detectar opinião quanto à notícia de uma bulha entre professora e aluna, a qual foi registada em vídeo para proveito comunitário. Se vier relação com o Ministério da Educação, o Estatuto do Aluno ou a Maria de Lurdes, estaremos perante um retinto imbecil. Se o discurso aparecer em forma de lamento pela decadência do ensino, da moral, da autoridade e da família, estaremos face a um lunático. Se surgirem tiradas reflexivas sobre o que deva ser a educação e a escola, estaremos frente a carências variadas, algumas simpáticas.

Aquilo que se vê é uma situação de incapacidade profissional, tão-só, e nem importando diagnosticar a causa. Ora, há incapazes em todo o santo lado. Os piores nem são os que estão nas Escolas Secundárias, pois os seus defeitos ficam diluídos na mediania do professorado. Grave é falhar profissionalmente na Justiça, Saúde, Administração Pública, Polícias e Forças Armadas. Seria estupendo reunir vídeos de médicos a errarem diagnósticos por desleixo, juízes a decidir com base em preconceitos moralistas, polícias violentos porque brutos e impunes, autarcas a deixarem que se destrua paisagem natural a troco de um Mercedes ou coisa ainda mais reles. Neste raríssimo caso de documentação pura de conduta docente, temos uma senhora que não sabe lidar nem com alunos, nem com adolescentes, nem com raparigas, nem com cidadãos na posse de telemóvel próprio. É muita incompetência junta, mas só tem um responsável: o adulto na sala.

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Balada da Ericeira

Um Tê Zero na Ericeira
Pôr-do-sol de encantar
Vou logo à segunda-feira
Mais tempo a ver-o-mar

Livro feito por Fernanda
Mistério, Ilha Terceira
Uma aventura comanda
Estas tardes da Ericeira

Alto da Forca, moinho
Não faz farinha, é ruína
Num escritório vizinho
As traduções de Regina

Na Brincosa, Anabela
Com aulas e o mestrado
Não pode estar à janela
Tem o seu tempo ocupado

Loja da Berta, enxoval
Lençóis, camisas, toalhas
É o mapa de Portugal
Num desenho sem falhas

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Sapere Aude

Onde se prova que os preconceitos mais animalescos não resistem a uma básica investigação. Temática bem actual para a sociologia nacional.

Já que a palavra bullying (que rogo se traduza, sem pestanejar, por bulha) entra na moda, não a deixemos apenas na escola.

Afinal, também há chavalas com cabeça.

Os pretos que se armam em pretos têm um futuro negro.

A emoção artificial e o Second Life, uma ligação naturalmente inteligente. E isso de termos as emoções a nu. Ou a quererem entrar no tribunal.

A Internet, essa maluca das revoluções.

Instrumentos para apanhar políticos dados ao spin.

Quem tem medo da educação sexual?

O cristianismo celta existe, pois claro que existe.

Os alunos não precisam de melhores professores, precisam é de lições de capitalismo.

Embora a presente oposição em Portugal não contribua para a validação desta tese, ela é válida.

Millennials, já ouviste falar? Somos nós.

Ver a distância

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O interesse que a morte acrescenta à vida de Maria Gabriela Llansol cruza-se com o interesse em promover o programa Câmara Clara, da autoria de Paula Moura Pinheiro. Vai para 2 anos que esta revista, este magazine, proporciona encontros audiovisuais com os desprezados televisivos da cultura portuguesa, precisamente aqueles que a criam, alimentam e protegem. No caso do programa deste 16 de Março, temos a suave e apetitosa presença de Pedro Tamen e João Barrento. Dos dois, é Barrento quem mais valoriza a ocasião. Por um lado, faz em segundos uma iniciação à obra e figura de Llansol só possível a quem for especialista e amigo. Por outro lado, este intelectual tem ainda maior importância na oralidade do que aquela exibida na escrita, pois aqui é complexo e lento e ali é directo e entusiasmante — sim, num fundo e alto sentido, a essência da cultura é o entusiasmo/ἐνθουσιασμός.

E a Paula? Tem o mérito de gostar do que faz. O amor é fonte de inteligência, como se sabia noutros tempos.

O túnel do Rossio já não cheira a fumo

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*

Uma das nostalgias da minha meninice é o cheiro a fumo do túnel do Rossio. Nostalgias, e entendam-se não aquelas que nos chegam depois, mas as que não esperam e logo nos dão na altura. Eu passava meses lembrando-me do cheiro desse fumo bem real, o que a máquina ia lançando lá à frente, e penetrava pela menor frincha. Suspirava por Sintra, pelo outro comboio, que levava à Praia das Maçãs.

Hoje, o túnel está iluminado – e mais respirável. Aspiro fundo, e nada. Nem uma lembrança, nem uma impressão. A minha infância está, ali, agora iluminada. Se mais respirável, não sei.

Shemah, Israel!

Como um pastor que esquece os nomes das suas ovelhas
e não reconhece os balidos dos seus cordeiros,
O Senhor fechou os olhos ao sangue dos holocaustos.
A Terra inteira deitou-se com as dores do parto
mas, quando a aurora chegou,
viu que o berço se tornara em ataúde,
que os animais domésticos eram como feras selvagens,
que a enxada se transformara em espada,
e com os arados haviam feito armas devastadoras.
Levantou-se povo contra povo e nação contra nação.
O irmão não reconheceu o seu irmão,
o pai tratou o primogénito como se fosse filho da escrava estrangeira,
e a mãe secou os seios para não amamentar o recém-nascido.
Até Caim cegou os próprios olhos para não ver o sangue derramado,
Nabucodonosor tapou os ouvidos com pez fervente
para não ouvir os gemidos dos cativos,
e Jesabel deu glória a Deus pela hora da sua morte.
A desolação esteve durante o dia nas nossas casas
e deitou-se, à noite, nas nossas camas.
O calor do fogo era como gelo para os nossos corpos,
e o mel mais amargo do que o fel nas nossas bocas.
Não desejávamos o dia, durante a noite,
porque todos os dias eram dias de sofrimento.
Temíamos o entardecer
porque cada noite era a noite do nosso pavor.

Ouve, Israel,
quando vires o Filho do Homem
erguido sobre a terra da desolação,
contarás um a um os seus gemidos
e uma a uma as gotas do seu sangue.
Saberás então que o Senhor habita contigo para sempre,
que aquele é o preço por que serás libertado.
Ele tomará sobre Si as tuas culpas.
O Senhor veio a ti de mãos vazias,
e lavará os pés, antes de serem trespassados,
para que nem sequer o pó dos teus caminhos
receba a afronta dos cravos do sacrifício.

Não compre este livro! (para já…)

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*

O livro tem algum interesse, isso garanto-lho eu. Simplesmente, a edição já disponibilizada, numa livraria perto de si, vai ser retirada do mercado. Não é por nada, mas não está tecnicamente apresentável. A editora, a perfeccionista Assírio & Alvim, vai muito em breve repor a obra. Perfeitíssima. Como é seu timbre.
 
Agora a boa notícia. É que Último Minuete em Lisboa será apresentado na terça-feira 1 de Abril, pelas 19.00 horas, na Casa do Alentejo (Rua das Portas de Santo Antão, ao Coliseu), em Lisboa. A apresentação será feita por Francisco José Viegas.
 
E, como uma alegria nunca vem só, na mesma ocasião serão apresentados os Bilhetes de Colares, de José Cutileiro,  recentemente saídos na mesma editora, e que o autor do primeiro livro organizou. O apresentador será, aqui, Henrique Granadeiro.

Uma cama em Bruges

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*

Morreu ontem o escritor belga Hugo Claus. Nascido em 1929, era romancista e poeta. Está em português o seu espectacular romance «O Desgosto da Bélgica». Era,  a par do holandês Harry Mulisch, um eterno nobelizável de língua neerlandesa. Um dos seus mais célebres poemas, «Een bed in Brugge», vai aqui, em tradução publicada em 1997.

Uma cama em Bruges

«Sou empregado dos Produits Chimiques, meu caro senhor,
empregado na morte lenta.
Ao fim de dez anos pode ter-se a reforma
por causa do gás no bandulho.
Estou lá há catorze já, meu caro senhor,
há dois deles como motorista.
E nesses dois não precisei de vomitar nem uma vez,
por causa do ar fresco.

Nós, belgas, somos os melhores condutores da Europa inteira,
e eu já estive em todo o lado.
Porque somos perigosos a guiar.
E assim temos mais em conta os outros
que também são perigosos a guiar, mas sem quererem sabê-lo.

E sabe a coisa mais linda que estes olhos já viram?
E repare que estive na Capela Sixtina,
e que vi o rabo da Gisela do Mocambo ─
bom, foi numa loja de Bruges,
uma cama carmesim. Em Empire. Ou seria Luís XV?

Aí deitado, com a Gisela, havia de esquecer os meus três filhos
e o calendário inteiro.
O amor, caro senhor, tem de ser de cetim.
E a morte, caro senhor, é o que se sente no estômago
quando se sabe que nunca poderá comprar-se uma cama dessas.»

tradução do neerlandês
Fernando Venâncio

Tempos de guerra

No tempo da guerra é que foi mesmo de mandar carouço. Uma pessoa nem sequer podia chamar seu àquilo que era seu, que vinham fiscais ver o que cada um tinha de trigo e de milho, e ficava um tanto para os donos e outro tanto para o governo, para levar para quem não tinha. Até para levar a farinha dum concelho para outro era preciso autorizo. O José Pimentel, que era carroceiro, foi um dia apanhado por um polícia, vinha da cidade com um carregamento de farinha, o polícia quis ver a licença, ele não tinha, aquilo era farinha para matar a fome a muita gente cá na Maia, o José, que era um rapaz forte, pegou no polícia a aboiou-o para dentro dum tanque de água e veio-se embora depressa, antes que o polícia lhe desse na cabeça de vir atrás dele mesmo todo molhado.
Uma vez foram a casa do Manuel Bispo, que era bom homem, um dia foi à terra e viu um velhote com um espeto a puxar umas batatinhas por um buraco da porta do barraco, e sabe o que é que ele fez? Escondeu-se entre as canas para o velhote não ver que tinha sido apanhado a roubar. E o filho, o Adelino, fez coisa parecida, que um dia chegou à terra e viu uma mulherzinha a rapar com os dedos para desenterrar umas batatinhas, também se escondeu entre as canas para a mulher não saber que tinha sido vista. Pois os fiscais foram a casa do Manuel Bispo, que já mal se levantava da cama e estava meio tarouco, os fiscais queriam ver o trigo que eles tinham, a mulher, que era muito mais nova, e os filhos tinham escondido umas sacas no barraco, eles contaram as sacas que viram e fizeram os quinhões, mas o Manuel Bispo lá da cama começou a dizer que havia as outras no barraco. Era uma casa de família, precisavam daquele trigo para si, a senhora Maria dos Anjos lá se desenrascou disfarçando com o pouco juízo do marido.
A luz era uma aflição, não havia petróleo, era um maldito dum azeite de gata, da gordura dum peixe que chamam peixe-gata, enjoava que revirava a casa toda e embrulhava as tripas, e mesmo assim era preciso tapar as janelas com papéis para não se ver a luz, por causa dos submarinos alemães, os soldados faziam a ronda na freguesia e, se viam uma greta de luz nalguma janela, batiam à porta e diziam muito delicados que era preciso tapar melhor. Foi com uma luz dessas que o meu Carlos, que é da sua idade, nasceu numa noite de temporal medonho.
Os soldados de Lisboa eram gente boa, não há muitas razões de queixa, mas alguns fizeram patifarias que Deus lhes perdoe. A pobre da Isabel da Luísa, que era uma rapariga bonita mas com pouco tarelo, foi enganada por um, que se foi embora sem se importar com o que lhe tinha feito, ela teve o filho no regato da cama, no quarto havia três camas, uma era do pai e da mãe, outra dos irmãos e outra das irmãs, e ela pariu mesmo ali, calada como um nabo, ninguém deu por nada, foi só a irmã que a ajudou.
Há gente que parece que pensa que a gente eram todos tolos naquele tempo, então como é que se passava fome com tanto que Nosso Senhor dá, pois é, mas às vezes não dava, ou tirava o que parecia que ia dar com algum temporal que estraçalhava o milho, as batatas ou as favas, ou com aguaria que nunca mais parava que até o trigo grelava nas terras. E não havia os adubos que há agora, a gente botava nas terras limos que vinham depois das tempestades no mar, já se sabia quando é que eles iam dar à costa, o pessoal ia logo de manhãzinha para o calhau, faziam os seus quinhões o mais que podiam, e depois era acartá-los escorrendo pelas costas abaixo. A gente até juntava pelo caminho as porcarias que os animais faziam, e, já se sabe, não se desperdiçava uma pinga de urina, para as couves. Mas havia alguns que nem sequer eram donos do seu mijo, desculpe-me a palavra, tinham de o guardar num talhão, e depois o senhor Bastião mandava buscar nuns bidões numa carroça, para pôr nas bananeiras. Eram trabalhadores dele, e se queriam ter trabalho tinham que lhe dar não era só o suor, era o mijo também.

Mon cher Antoine

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*

O seu carro descontrola-se, e você atropela o seu escritor favorito, digamos José Rodrigues dos Santos? Em legítima defesa, você dispara um laser paralisante, e atinge, por estúpida coincidência, o seu cantor favorito, digamos Mickael Carreira? Chato, muito chato. Foi o que sucedeu a um piloto de guerra alemão, que abateu – sem sabê-lo – o escritor que mais o deleitava: Antoine de Saint-Exupéry. O nome soa-lhe familiar, mas não o liga a nada? Pense n’O Principezinho, e está lá.

Pois foi. Num voo de patrulha, na costa sul de França, a 31 de Julho de 1944, Antoine, com 44 anos, pilotava um Lockheed P38 Lightning (na imagem). Terá visto um Messerschmidt Me109, que andava perto, colocar-se atrás dele. O que sentiu depois – «c’est ça, la fin» – já não pôde contar-no-lo, ele que em Vol de Nuit descrevera angústias de arrepiar.

Não se suicidou, como se chegou a pensar. Matou-o Horst Rippert, piloto da Luftwaffe, que, hoje com 88 anos, revelou o caso. Passou sessenta e quatro deles, consciente dia e noite de que, sem sabê-lo, pusera fim à vida de alguém que tanto adorava ler.

Por nós, havemos de saber tudo em Saint-Exupéry, l’ultime secret, um livro a aparecer brevemente.