Shemah, Israel!

Como um pastor que esquece os nomes das suas ovelhas
e não reconhece os balidos dos seus cordeiros,
O Senhor fechou os olhos ao sangue dos holocaustos.
A Terra inteira deitou-se com as dores do parto
mas, quando a aurora chegou,
viu que o berço se tornara em ataúde,
que os animais domésticos eram como feras selvagens,
que a enxada se transformara em espada,
e com os arados haviam feito armas devastadoras.
Levantou-se povo contra povo e nação contra nação.
O irmão não reconheceu o seu irmão,
o pai tratou o primogénito como se fosse filho da escrava estrangeira,
e a mãe secou os seios para não amamentar o recém-nascido.
Até Caim cegou os próprios olhos para não ver o sangue derramado,
Nabucodonosor tapou os ouvidos com pez fervente
para não ouvir os gemidos dos cativos,
e Jesabel deu glória a Deus pela hora da sua morte.
A desolação esteve durante o dia nas nossas casas
e deitou-se, à noite, nas nossas camas.
O calor do fogo era como gelo para os nossos corpos,
e o mel mais amargo do que o fel nas nossas bocas.
Não desejávamos o dia, durante a noite,
porque todos os dias eram dias de sofrimento.
Temíamos o entardecer
porque cada noite era a noite do nosso pavor.

Ouve, Israel,
quando vires o Filho do Homem
erguido sobre a terra da desolação,
contarás um a um os seus gemidos
e uma a uma as gotas do seu sangue.
Saberás então que o Senhor habita contigo para sempre,
que aquele é o preço por que serás libertado.
Ele tomará sobre Si as tuas culpas.
O Senhor veio a ti de mãos vazias,
e lavará os pés, antes de serem trespassados,
para que nem sequer o pó dos teus caminhos
receba a afronta dos cravos do sacrifício.

38 thoughts on “Shemah, Israel!”

  1. Este poema/salmo bíblico é mesmo do Melhor que eu li até hoje! Gostei de o saborear, num tom de plangência ao som do “Messias” de George F.Handel.Cada verso obriga a uma meditação séria,virada para dentro de nós mesmos, como um espécie de”mea culpa”que a humanidade toda deveria fazer para ganhar um momento de paz. Um momento de paz, um só momento intenso que nos redimisse das culpas de todos nós, porque todos homens. ” A terra inteira deitou-se com as dores do parto”.´
    Há versos que valem um literatura.Gostei muito! Mais uma vez.E já vão três vezes.

  2. ««Jesus foi à casa de homens ricos como Zaqueu, Mateus e Simão. Este ofereceu-lhe um jantar fabuloso. Foi à casa de pobretões como Marta, Pedro e outros. Jesus se aproveitaria dos espaços oferecidos para interagir. Iria ao Congresso Nacional, ao Maracanã. Onde Ele pudesse conversar com o povo, ser ouvido, Ele iria», assegurou o religioso, perguntado sobre se Cristo aceitaria um convite para um churrasco.»

    M. V. Ferreira

    era um bon vivant

  3. Email enviado á Direcção do Jornal de Noticias SA
    Cara Direcção do Jornal de Noticias SA

    Tem sido constatado que frequentemente os coment á rios enviados para a secção “Desabafe Connosco” por parte de emigrantes portugueses residentes nos EUA tem sido bloqueados.

    Embora não possa responder pelo conteúdo das mensagens dos restantes participantes que se têm queixado, posso afirmar que nenhuma das mensagens que tentei enviar iriam contra as normas presentes no referido fórum .

    Ali á s as mensagens enviadas e não publicadas podem ser observadas no seguinte local: http :/ luso-americano.blogs.sapo.pt /

    Como podem verificar não são mensagens que contenham insultos ou palavrões susceptíveis de ferir susceptibilidades.

    Em contra partida vê-se constantemente a publicação de mensagens que promovem um outro local que esse sim é useiro e abuseiro no insulto, difamação de parte dos participantes. E muitas de outras são igualmente insultuosas para certos participantes, mas mesmo assim publicadas.

    As perguntas que coloco são as seguintes.

    1º – Que conceito editorial e de publicação têm os elementos que controlam as publicações no referido espaço?

    2ª – Que poderão achar todos os elementos que vêem os seus comentários negados, sem justificação para tal?

    3ª – Ser á o JN um órgão de comunicação Social que baseia a sua conduta na censura dos seus participantes?

    4º – Ser á que o JN vê os emigrantes portugueses como direitos inferiores aos restantes portugueses?

    5º – Porque razão é acentuadamente mais difícil durante o Fim de Semana que os emigrantes portugueses vejam os seus textos publicados.

    6º – É ou não o JN um órgão de comunicação Social isento e que fornece igualdade de tratamento a todos os que o visitam desde que não vão contra as normas publicadas no referido espaço?

    Aguardo o mais breve possível um esclarecimento,

    entretanto este texto ser á publicado na integra em outros locais, incluindo o acima referido de forma a que seja do conhecimento geral o tratamento diferenciado que o JN fornece aos seus leitores e participantes.

  4. Lia, creio que Z tem prioridade. Desculpa não te dizer nada em especial. Apenas desejar-te a Páscoa que mereces.
    Z
    Tens razão, há tipos assim, chanfrados, palermas. Como Nelson Mandela, por exemplo. Então o atoleimado confrontou os boers, e que é que esperava? Sabia bem que iria ser preso e não por pouco tempo. Ter pena dele?… Que se lixassse, porque se lixou porque quis. E depois, quando se apanhou com o poder, que é que deveria ter feito? Ter dado no canastro a todos os boers e, logo a seguir, aos portugueses, que eram o segundo grupo mais racista na RAS. O tolo perdoou a todos, e até admitiu alguns no governo. Um asno.
    O outro, o da Galileia, também sabia bem as consequências do que fazia. Não há que culpar os Judeus, porque a Lei foi cumprida naquela 6ª-feira. Foi bem feito que o tenham abandonado todos os amigos, menos João, porque era amigo do sumo sacerdote. E vê lá a ironia: só tentaram impedir a sua morte Pilatos, que o condenou, e Judas, que o entregou.
    RVN, como não sabes o que é que nos desejas de bom, nada te agradeço. Mas sempre te digo que admiro muito, mas muito mesmo, loucos como o Mandela e esse tal Cristo.

  5. ESte belíssimo poema tem uma vantagem sobre outros poemas e livros de Daniel Sampaio: não pode ser alterado no seu título em nenhuma feira do livro… Um abraço do leitor grato

  6. Z, obrigado aí pelo link para o Humoral. Já agora, o concurso “Dê Voz ao Cartoon” está aberto a todos os que queiram participar. Fico à espera…

  7. eu gosto desses chanfrados, Daniel, felizmente o Mandela saiu bem, em vez de se agarrar ao poleiro e vingar-se, deu um jeito para a redenção e bazou para curtir o resto da vida, camisas de seda, pézinho de dança, mulheres e netos. Viva o man!

    mas quanto ao Cristo tenho que ajudar a que o representem ressuscitado, afinal é aí que estaria a redenção. Não me perguntes se eu acredito na ressureição que nem sei, num certo sentido ressuscitou dentro de nós, isso é facto – logo eu que não sou baptizado. Crucificou-se um inconveniente, um revolucionário, um desestabilizador da lei e dos costumes, da ordem social e da hierarquia, como se fora um ladrão, para dar um exemplo: não ousem!, e ao perpetuar a adoração na cruz subliminarmente continua-se a legitimar o gesto, com ‘lágrimas de prazer a rolar no coração e um ‘grande ledisse’, como deu ao nosso primeiro em Ourique.

    o Senhor Santo Cristo aí de S. Miguel tem uma expressão facial que já dá muito que pensar, não precisa estar na cruz

    uma vez apanhei um ressuscitado num museu de Tavira, mas estava de dedo em riste a dar sermão e achei que era melhor esperar por outra reencarnação

    diz-me uma coisa se quiseres: noutro dia li que só há 4 patriarcas: Lisboa, Roma, Veneza e Jerusalem. Isto sempre foi assim ou ia mudando? eu sei que D. João V comprou o título para o bispo de Lisboa, junto com o de ‘majestade fidelíssima’ para ele, mas só pode haver 4?

  8. Rodrigo: tu és muita giro pá!, fartei-me de rir ao ver uma data de tiras tuas, ontem

    que sejas muito feliz é o que desejo

    claro que pensei numa frasezinha para lá temível, como podes imaginar, mas depois corei e lembrei-me que era 6ª feira santa etc. e tal e que era melhor estar quieto

    mas depois vi que tem um grande prazo

    (Daniel et al.: têm um ovo de páscoa feito cubo salvado, secret)

  9. Amigo Peço desculpa troquei o nome, ainda não tinha bebido o café de hoje àquela hora. Pareço um pobre-diabo que num encontro de poesia anunciou Joaquim Pessoa e José Jorge Letria como Joaquim Letria e Fernando Pessoa. No melhor pano da amizade cai a nódoa da distracção

  10. Z, assim ja estamos de acordo.
    Quanto aos patriarcas, não sei quantos são, mas posso investigar. Pelo menos o bispo de Goa era patriarca também, e um deles foi D. José Vieira Alvernaz, da ilha do Pico. Mas os patriarcados não são muitos mais do que os que disseste e este que refiro.
    JCF
    Deu para entender perfeitamente, meu caro amigo.

  11. hum, essa coisa dos patriarcados deve fazer um mapa espaço-temporal revelador dos bastiões … Pois, se te apetecer vamos falando disso, sou um bocado ignorante de certas coisas (falta de catequese) mas tenho curiosidade turbo

    agora deu para aparecer uma data de S. Jerónimos nos meus caminhos, tenho de ver o que aquelas barbas me andam a querer dizer

    bem, vou dar uma volta, e se conseguir aproveito e tiro já um cravo da cruz, que dei comigo a rosnar baixinho

  12. daniel,
    meu cordeiro engraçadinho, quem te disse tal aleivosia? eu sei bem o que desejei, faltou-te o ‘para cada um’ para dar sentido ao ‘seja lá o que isso for’?
    mas fazes bem em nada me agradecer, faltaria uma razão para tanto, fosse como fosse.
    (razão teve o jcf em chamar-te Sampaio, mais parecias o tal, ‘dando lições do abismo’ com ‘tudo o que temos cá dentro’. Ou seria ‘a arte da fuga’?)
    :)))))

  13. Z
    Desculpa a pressa de há pouco. Resumo o essencial. A figura de patriarca é inspirada nos patriarcas bíblicos, que foram os principais transmissores da fé. Por isso se criaram patriarcas nas dioceses que tinham grande responsabilidade na evengelização. Obviamente a começar por Roma, pelo que o Papa é o patriarca da Igreja Ocidental. Havia os de Jerusalém e (espero não errar) Constantinopla, Alexandria e Antioquia. Depois foi criado o patriarcado das Índias Ocidentais (embora posto em Toledo com residência do titular em Madrid) e o das Índias Orientais (o tal de que falei, com sede em Goa.)
    A questão do patriarcado de Lisboa é uma das muitas manias da grandeza do pateta do D. João V. Que, não sei se sabes, também conseguiu dividir Lisboa em duas dioceses, a oriental, com sede na velha Sé, e a ocidental, patriarcal, com sede na capela real. (O oiro do Brasil dava para tudo.)
    RVN
    Bem bom que puseste aquele riso de orelha a orelha. Caso contrário, pensaria que me levaras a sério.
    Feliz Páscoa também para ti.

  14. obrigado Daniel, isso dos patriarcados é engraçado,

    olha que li, que mesmo no tempo do ouro do Brasil os pagamentos da Coroa às pessoas, sobretudo aos funcionários coloniais, andava também tudo atrasado e só a muito custo é que lá se conseguia, isto é um problema congénito parece

  15. aproveitei e fui ver na internet, o Santo Cristo daí é um Ecce Homo. Também já vi aí uns tantos ‘dos Passos’, no ano passado estava um grandão na matriz do Faial, no Verão

    portanto: há a caminho da cruz, na cruz, mas falta depois da cruz

    felizmente estamos no novo milénio e anda tudo muito criativo, passo a bola às gerações mais novas prá ressuscitação

  16. Z
    D. João V gastou o dinheiro do Brasil com obras de prestígio, e cobrou impostos para o Aqueduto das Águas Livres, por exemplo. Aliás pagava-se o “real de água” para a ter nos chafarizes. E, como talvez saibas, a maior parte do oiro do Brasil foi parar a mãos de ingleses. Os comerciantes estrangeiros pagavam 36% de impostos sobre os produtos do Brasil, os portugueses 16% e os ingleses 15%. Isso foi assim durante algum tempo, depois os ingleses passaram a pagar igual aos nossos, que reclamaram da situação.
    A Sé de Angra é dedicada ao Santíssimo Salvador, portanto em honra de Jesus ressuscitado. E, incluída na Ribeira Grande desde que esta foi elevada a cidade, a igreja da Ribeirinha tem o mesmo patrono. A minha paróquia é dedicada ao Espírito Santo, tal como várias igrejas do Alentejo e do Ribatejo, e este é um culto voltado para a alegria da vida.
    Quanto ao Santo Cristo, nome dado normalmente em memória desse momento da Paixão do “Ecce Homo”, há vários lugares que o comemoram, como S. Mateus, no Pico, ou Santa Cruz, na Graciosa.
    Já agora, deixo-te com a introdução a um texto que escrevi para um DVD sobre o Santo Cristo e a sua festa.
    “Que mãos terão esculpido este rosto?… Que espírito concebeu assim o olhar humano de Deus?… Que umas vezes parece triste, dramaticamente triste, outras vezes apenas resignado…
    Houve um artista que foi encarregado de substituir estes olhos por outros, de vidro. Com o cinzel pronto para o primeiro golpe, sentiu chegar-lhe à alma aquele estranho olhar. Reteve o gesto, e disse: “Não posso.”
    Por isso os olhos do Senhor Santo Cristo dos Milagres continuam a ser os mesmos de sempre.”

  17. eh pá ainda bem que esse artista foi sensato, há alturas em que o único gesto digno desse nome é não fazer. Mesmo assim, conservando essas imagens todas, e a sua memória, não achas que podiam semear para aí uns ressuscitados, uns Jesus sorridentes?

    mesmo aqui ao meu lado, numa igreja moderna, tenho um enorme de bronze pregado na cruz o ano todo, na fachada exterior da igreja …

    não desisto até dar um jeito

    repara que o meu problema é com Ele, e com ele dentro de nós, sei de experiência própria que todos os bichos quando estão a morrer escondem-se do mundo, portanto matar alguém em exposição pública é uma humilhação brutal, e perpetuar essa adoração é prolongar a agonia, isso apesar das boas intenções de muita gente. Infelizmente consigo dissecar isso psicanaliticamente até à perfídia extrema, mas não acredito que as pessoas estejam conscientes disso, nem vou cobrar-lhes essa desumanidade, agora aos líderes sim

    não sabia disso dos ingleses não, que vergonha pagarem menos impostos que os nacionais, sempre se cobraram bem do tratado foi o que foi, até já ouvi dizer que a baixela de ouro do Buckingham era feita com ouro português, ou brasileiro se preferes. E também foi às custas das reservas de Portugal que eles recuperaram o padrão-ouro para o esterlino, no início dos anos vinte do século passado, depois da Grande Guerra, levando a I Republica à falência e à emergência do Salazar, depois da retaliação Alves Reis

  18. Z
    Dá gosto conversar contigo, porque pões questões interessantes, por vezes difíceis, e não escondes o interesse de saber coisas novas. Deves pertencer àquele grupo de pessoas que gostam de aprender pelo menos uma em cada dia. Como já percebeste, com certeza, uma das minhas paixões é a História. E a da cruz faz parte de quase dois mil anos de Cristianismo. A tua dúvida é comum a muitos outros que não percebem o significado da presença da cruz na Igreja Católica, e mesmo no protestantismo. Faz uma busca na Net, em imagens, sobre Caspar Friedrich, e vê que tratamento poético ele deu ao tema. É que o que se exalta não é a cruz e aquele martírio atroz, um dos mais horríveis de sempre, provavelmente inventado pelos sírios, e que os Romanos utilizaram de modo absolutamente bárbaro. Só Quintílio Varo, governador da Síria, mandou crucificar dois mil judeus de uma vez, expondo-os por todas as colinas da Judeia, para reprimir uma revolta quando Jesus era criança ainda. E Tito, durante o cerco de Jerusalém, chegou a mandar crucificar quinhentos por dia, no que gastou, juntamente com o estrago de madeira para as rampas de acesso à cidade, todas as árvores em seu redor, vinhas incluídas. Ora obviamente que a cruz não exalta esse tormento horroroso, mas o Homem que, sabendo que estava sujeito a tal suplício, não recuou na sua pregação. E aqui não importa considerar se Cristo era ou não Filho de Deus. Inteligente como era, não podia, ainda que fosse apenas humano, desconhecer ao que se expunha. Por isso, meu caro, ainda que eu deixasse de acreditar em Cristo como Messias, Ele continuaria a ser a minha figura maior de referência. Outros antes dele foram mortos por se dizerem o Messias. E um dos problemas dos sacerdotes e fariseus era precisamente o temor de que Ele fosse mesmo tomado como Messias, e os Judeus deixassem de esperar outro. É que Cristo era o contrário do que eles esperavam.
    Como sabes, certamente, uma das provas de que um acontecimento é histórico são as discrepâncias que possa haver entre os vários que o relatam. Por isso a falta de sintonia entre os evangelistas é uma prova de que falam de alguém que de facto existiu e de algo que aconteceu. O aparentemente ilógico pode ser outra prova da historicidade de um documento. Dou-te só um exemplo. Nenhum judeu no seu juízo perfeito e consciente das leis e costumes do seu povo seria capaz de inventar a cena da samaritana. É que Jesus quebra uma série de tabus com aquele encontro e aquela conversa. Primeiro, os homens não deveriam falar com uma mulher que estivesse sozinha; segundo, os Judeus não falavam com os Samaritanos (questão do primado do Templo de Jerusalém, que os Samaritanos negavam); terceiro, um judeu só deveria beber água viva (não estagnada) e em vasos de barro judeu e fabricado por oleiros judeus, e Jesus pede-a à samaritana. (Claro que, fora da Judeia, tinham de conformar-se com a que houvesse…) Quarto, é àquela mulher, pecadora, que Jesus revela pela primeira vez a sua condição de Messias. Demasiado, meu caro, para ser inventado.
    Já escrevi de mais. Desculpa, mas puxas-me pelas palavras… e a Lia também.
    Um abraço a ambos.

  19. Ora, gosto é ler-te! Sim, gosto de aprender. Amanhã digo algo que agora já estou ko, mas repara eu não ponho em causa nada disso, acho que o exemplo de Cristo de se levar a sacrificar em nome duma melhor conviviabilidade entre os homens e as mulheres do seu tempo é História e não mito, e gosto do homem pois claro. Aliás é por isso que intervenho.

    Agora acho que era mais saudável para quem tem fé na ressureição não parar aí e apresentá-lo ressurecto por ali e por aqui… E se Ele está algures difuso entre nós, e isso está, quanto mais não seja em pensamento e motivação, creio que gostaria mais de ser louvado noutras poses do que na vergonha da Cruz a que foi obrigado, e onde sossobrou na dúvida: “Pai, porque me abandonaste?”.

    Mas repara que não quero impôr nada, sou a favor do culto livre, agora também é verdade que me obrigam a conviver com esse e portanto vou ladrando pelo caminho.

    Creio que é em A Criação de Gore Vidal que é apresentado o relato de uma batalha entre reis indianos, no sec. V a. C., em que o vencedor manda empalar e castrar milhares de vencidos em estacas erguidas ao longo de quilómetros, para o que abateu uma floresta. As mulheres do reino do vencedor usavam porta-moedas feito dos escrotos dos castrados. A barbárie sempre foi prolixa e obscena. Ainda hoje. Enfim, tristezas da condição sapiens porque os outros bichos não fazem isso uns aos outros, dentro da mesma espécie. Abraço e amanhã lá ressuscitamos todos.

  20. a idéia de que Jesus aceitou ou até se induziu a morrer na cruz, pela salvação dos homens, é válida aqui na Terra, nem é preciso invocar o transcendente. Basta atentar no ‘amai-vos uns aos outros como a vós próprios’, e no ‘quem não tiver pecado que atire a primeira pedra’ que ficaram connosco e por certo que salvaram já muita gente

  21. Z
    O modo como encaras a cruz não me parece uma maneira de ver mas uma maneira de sentir. Respeito muito as maneiras de ver e mais ainda as maneiras de sentir.
    Não conheço essa história dos empalamentos em série, mas há um empalado que eu admiro pela forma como encarou a tortura. Trata-se de um capitão de Pedro, o Grande, que o czar suspeitava de ter aventuras amorosas com a mulher. O homem esteve no pau cerca de 24 horas, e o czar andou horas e horas na sua frente a tentar que ele confessasse. Negou sempre e escarneceu de Pedro. Creio mesmo que lhe cuspiu na cara.
    Mas ponhamos as torturas de parte, tanto mais que a Igreja preza tanto a Ressurreição que tornou o Domingo o dia santificado da semana. E concordo contigo, claro. A humanidade deve muito a Cristo e a gente inspirada por Ele.
    Continuação de bom Domingo de Páscoa.

  22. andei a pensar, também é verdade que se Ele ressuscita dentro de nós o problema fica resolvido, ou pelo menos indecidível, embora eu não desista de que haja por aí uns Cristos pós-cruz em imagens e estátuas, afinal estamos no terceiro milénio, tem que se inovar alguma coisa

    outros tratam disso, parece, que também temos de saber descansar

    meu caro: andei para aqui num cogitatio intenso (com ó) a propósito do valor do bem – se podemos definir o valor de algo como o seu conjunto de valências, é claro que o valor do bem é enorme, para não entrar nos infinitos, porque se relaciona com tudo, ou muito, já que o princípio do bem é o da conformidade, enquanto que o valor do mal é muito baixo, porque o princípio do mal é o bloqueio, a desconformidade

    achei que esta estava bem engerocada como ovo de páscoa

  23. bem, eles faziam os cálculos com pedrinhas, e daí o nome de cálculo, e só usavam os numerais romanos para representar os resultados, é a versão corrente

    mas de facto fizeram pontes que duram dois mil anos

    (não era para mim mas uma kpk é ultima ratio)

  24. Z e Chico
    Vocês querem pôr-me a cabeça a andar à roda! Bem pensada a questão do bem, que tem dado muito que fazer ao longo dos séculos. E aquela “esperadanca” tem muito que se lhe diga. Vou guardar o endereço para reler tudo com mais calma. Mas, ó Z, decerto saberás que tal como cálculo é isso mesmo (é óptimo quando não é renal), “salário” deriva de “sal”, em que muitos dos tais legionários das coortes recebiam o pagamento. Mas há uma questão ali que julgo confundir a falta do símbolo com a falta da sua noção. É certo que um símbolo para o zero só surgiu nos primórdios já da nossa era, mas até então era representado por um espaço vazio ou um traço. Se não houvesse maneira de resolver essas questões, como é que os pitagóricos teriam alcançado tal perfeição numérica? E os Hebreus, que usavam também letras, não se safavam nada mal a fazer contas. Nem monumentos!
    A questão das séries de datas simétricas merece mais atenção. Embora isso das datas seja tão óbvio como no exemplo da morte de Shakespeare e Cervantes. Experimentem vocês procurar a data em que morreu um e outro. Quase de certeza que encontram 23 de Abril de 1616 para ambos. Pois eu digo que o William morreu onze dias antes do Miguel. Só para me “vingar” do trabalho mental a que o Chico me obrigou, deixo como jogo histórico a vossa justificação para a discrepância.

  25. parece que o zero como número demorou muitos séculos a internalizar-se Daniel, porque é interpretado como o símbolo do nada, mais propriamente o cardinal do conjunto vazio, e havia o postulado de que a Natureza tinha horror ao vazio, bem enraizado. Que eu saiba como conceito veio dos hindús e foi internalizado no sistema de numeração árabe muito depois, agora como algarismo posicional já era usado pelos maias e talvez por outros.

    a provocação ‘vai-te multiplicar por zero’ só faz sentido há pouco tempo, e até o chamam de elemento absorvente…

    no entanto confesso que os únicos esboços de matemática antiga que vi eram caldeus, com símbolos cuneiformes em tabuinhas de argila num sistema sexagesimal. mais tarde vi uns gatafunhos dos maias mas não pesquei quase nada

    em princípio a geometria de Euclides dispensava o zero, porque incidia sobre o que tinha forma, portanto existência virtual e representação icónica – o Michel Serres diz que a amior invenção grega, que subtende tantas outras, é o conceito de proporção, que tem a sua expressão mais operacional no Teorema de Tales: em triangulos semelhantes, a angulos iguais opoem-se lados proporcionais

    essa do salário e do sal já sabia, mas fizeste bem recordar-me, até porque mais uma vez, e voltando ao conceito de valor, o sal tinha muitas valências: temperar, conservar os alimentos, combater a desidratação, portabilidade, homogeneidade e compactação, e outras – mas com uma inundação lá se ia o valor…

  26. Z, creio que essa do “horror ao vazio” se refere apenas ao vácuo, que se enchia sem que as pessoas entendessem que forças “empurravam” o ar para dentro do recipiente onde se gerasse vácuo. Daí a célebre experiência de Otto von Guericke, com os “anéis de Magdeburgo”, que a gente aprendia no nosso tempo, embora nos poupassem ao nome do homem.
    Sobre Euclides, gostei de ler o que escreveste. Recordei umas coisas, aprendi outras. Por isso te poupo a teres de explicar a diferença real de onze dias entre a morte de Shakespeare e a de Cervantes, que aperecem como tendo morrido no mesmo dia. O que até dá um certo tom dramático à maneira como teriam acabado os dois geniais criadores. Siplesmente o que aconteceu foi que a Inglaterra não tinha adoptado ainda o calendáro gregoriano. E foi pela mudança de calendário que Santa Teresa de Ávila, que morreu no dia 4 de Outubro de 1582, foi enterrada no dia 15… que foi, afinal, o dia seguinte.
    Obrigado ela tua paciência.

  27. Bom dia Daniel, pois eu já estava à espera que fosse um problema de calendários. Quanto ao ‘horror ao vazio’ creio que tinha um significado anímico mais profundo, como negação de que não existe nada para lá da morte. Os hindús, como têm aquele ciclo indeterminado de reencarnações pela frente, conceberam o seu término através do nada (nós em português podemos aproveitar para dar um mergulho). Para os budistas, que eu saiba, não há definição positiva de Nirvana, e mesmo a definição negativa não é suficiente para comportar toda a vacuidade da coisa. Mas também nisso sou estudante.

    Bom é que está Sol.

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