Vinte linhas 252

«Não é uma boa prosa que ambiciono» (Miguel Torga)

Isto de escrever em público e para o público, tem que se lhe diga. Não é fácil, não é como nos «Morangos com açúcar» onde acontece tudo e ninguém paga nada, desde a prancha de surf ao copo de água tónica. Outro dia falando com o director-geral de um jornal sobre as suas crónicas e lendo alguns dos meus textos e dos outros participantes deste Blog lembrei-me logo das palavras de Miguel Torga. Aqui vai a transcrição: «Não é uma boa prosa que ambiciono mas sim uma claridade gráfica. Gostaria de restituir às palavras a alma que lhes roubaram e que a língua tivesse, nas minhas mãos, além da graça possível, uma dignidade insofismável. Que cada frase, em vez dum habilidoso disfarce, fosse uma sedução e um acto. Uma sedução sem condescendências. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades, na porfiada esperança de que a sua claridade se veja e se entenda ao mesmo tempo. E a vejam e a entendam, sobretudo, os que não são profissionais da literatura. Muito mais do que o juízo da crítica encartada interessa-me principalmente a opinião do leitor comum.»
O texto é de Fevereiro de 1958 mas continua válido e actual.

2 thoughts on “Vinte linhas 252”

  1. Pois é, meu Caro JCF, o Torga era certeiro a escrever quanto a pensar. Esta é, sem sombra de dúvida, uma boa, uma boníssima prosa. E tanto é verdade que os críticos “oficiais” pouco lhe importavam que, como se sabe, negada a publicação do seu primeiro livro, editou-o ele e editou todos os outros até ao fim da vida.

  2. Pois, Torga sabia-se dono e detentor de uma prosa excelente, daí o ar de o dizer como quem não quer a coisa. Uma certa facilidade económica também deu um geitão quanto à possibilidade de independência relativamente ao meio, qualquer meio. Atrevo-me a lembrar, aqui, de Torga (A Criação do Mundo, Vol.I) essas frases soberbas:”Todos nós criamos o mundo à nossa medida. O mundo longo dos longevos e o curto dos que partem prematuramente. O mundo simples dos simples e o complexo dos complicados. Criamo-lo na consciência, dando a cada acidente, facto ou comportamento a significação intelectual ou afectiva que a nossa mente ou a nossa sensibilidade consentem. E o certo é que há tantos mundos como criaturas. Luminosos uns, brumosos outros, e todos singulares. O meu tinha de ser como é, uma torrente de emoções, volições, paixões e intelecções a correr desde a infância à velhice (…)”. Interrompo, para não abusar do espaço e tempo, consciente de que as frases seguintes são igualmente belas, intemporais e, apesar de autobiogáficas, do agrado de tantos.

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