Vinte Linhas 253

Dinis Machado na mais velha estação de comboios do Mundo

A fotografia belíssima da estação do Rossio que Fernando Venâncio colocou no «aspirinab» levou-me a recordar algumas memórias. Um dia na Veiga Beirão fui com Dinis Machado falar numa turma de Português. A pedido do professor escrevi estas palavras: «Qualquer maneira de começar é uma boa maneira de começar: estamos no largo do Carmo, perto da mais velha estação de comboios do Mundo, chama-se Rossio, podia chamar-se memória, particular ou colectiva. Afinal todos nós ficámos uma vez de nariz espetado no vidro, afogados em malas, recados e solidão. Todos nós já fomos ao país dos tios, gente de poucas palavras, calos nas mãos e um amor silencioso e sábio, só para nós. Todos nós tivemos uma tia Henriqueta, a despedir-se com sacos da nossa comida com lágrimas no rosto e mãos engelhadas, vestida de preto, numa noite sem luz. Dinis Machado andou por aqui ouvindo a banda da Guarda Nacional Republicana (que foi feito do palanque?) em concertos dominicais, um jovem muito jovem ao pé dos mais velhos que já falavam de empregos, de negócios, de futebol, de fazendas da Covilhã e da reforma quando ele sentia o fato apertado, respirava o ar puro das manhãs e metia ao dedos debaixo do colarinho da camisa para dar uma folga ao pescoço. Dinis Machado atravessou este largo com livros da livraria «Barateira», em circulação no seu grupo de amigos, resmungando a uma pergunta («O livro do Malraux é da Barateira?») com uma resposta irónica – «Donde é que querias que fosse? Da Universidade de Coimbra?». Mais tarde, no café, há-de rematar um desejo dum companheiro («Gostava de ler um livro leve!») com uma frase sábia: «Mão há livros leves. Todos pesam toneladas.»

7 thoughts on “Vinte Linhas 253”

  1. essa historia com o denis macshade tem grac,a e lembra umas coisas. as novas gerac,oes ja’ nao passam temporadas com tios, ou porque nao ha’ tios, ou porque estes nao tem disponibilidade, ou porque os pais apegados nao lhos confiam.
    a mao no fim, que suponho gralha, tem a sua pertinencia. a mao, o livro, o peso e a condensac,ao.

  2. Susana: é mesmo gralha pois é bem «Não» há livros leves. Foi lapso da emoção de estar a recordar aquela tarde na Veiga Beirão que por acaso foi a Escola onde tirei os preparatórios para o Instituto Comercial de Lisboa. Só não erra que nada faz mas foi erro meu, afrse é «Não há livros leves»…

  3. Gostei muito de ler… e recordei algumas tardes, passadas na rua Ancheta, com esse grande Senhor do mundo das palavras, que é Dinis Machado… que preferiu ficar na história, com um único livro, “O Que Diz Molero”, por não gostar de cópias, muito menos de imitações…

  4. jcf, percebe-se que com “afrse” declare oficialmente aberta a temporada de caça à gralha, mas já não se entende que diabo o leva a chamar palanque a um digníssimo coreto.
    luis eme, também apreciei outros livros de Denis McShade.

  5. Parece que há aqui quem tenha optado por concentrar-se em arbustos espontaneamente gerados em vez de olhar para o belo bosque de palavras. Eu preferi as sombras e a luz deste. E gostei de lá estar.

  6. É óbvio que «palanque» é palavra de Dinis Machado não minha e (julgo eu)refere-se a concertos dominicais durante o tempo de Verão, logo num espaço efémero de madeira. Tudo são expressões do Dinis uma vez que o meu texto apenas procurava retratá-lo perante os alunos daquela turma.

  7. Colegas, venho pedir um momento de reflexão e se possível um momento de união. Como já deve ser do vosso conhecimento a reunião de 2ª Feira (24 de Março) entre a OE e o Ministro Mariano Gago não correu NADA BEM, pelo contrário (1º Ciclo).
    Penso ser um momento de bater o pé, falarmos todos a mesma linguagem, ou seja, 2º CICLO JÁ. Se as educadoras de infância entre outros têm o 2º ciclo, porque devemos ficar satisfeitos com muito menos. Mais, será que a enfermagem em Portugal não está no patamar de 2º Ciclo. É fulcral, agora e não depois, conversarmos e debatermos o futuro da enfermagem. Era bom o tema e ordem do dia ser processo de Bolonha 2º Ciclo para os enfermeiros.
    Falemos do assunto nas escolas, nos sindicatos, na ordem, nos hospitais, nos centros de saúde, lares, clínicas, ou seja, no café, na cama, em todo o lado. Informem, procurem informar, procurem informação, não podemos parar de falar nisto até conseguirmos.
    OS ENFERMEIROS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS
    É altura de todos, Directores, Supervisores, Chefes, Enfermeiros Especialistas e Enfermeiros de todas as áreas unirem esforços. Temos de fazer pressão. Não vamos, nem podemos esperar por alguém e/ou por entidades, cada um tem de falar e mostrar a sua indignação, frustração e revolta. CHEGOU O MOMENTO ou é agora, ou nunca mais será. Vamos falar e obrigar a falar.

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