Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Dominguice

Se o projecto fosse o de explicar porque é que a minha vizinha do 4º andar parou no meio do passeio e depois continuou a caminhar, qualquer vizinha do 4º andar, que se teria de fazer? De imediato, teríamos de reclamar tempo e meios para estudar o caso. Quanto tempo, quais meios? O tempo suficiente para investigar todos os meios disponíveis e a informação respectiva. Claro, começaríamos logo por interrogar a vizinha, por ouvir e registar a sua justificação para ter parado no meio do passeio. Mas se acreditássemos nessa resposta, calhando haver uma, sem a tentar confirmar, o inquérito não teria sido levado até ao fim. Na verdade, nem sequer se teria iniciado o processo de averiguação. Ficaria como um veículo da propaganda, ou da arbitrariedade irracional, da minha vizinha do 4º andar.

Se isto é assim para simpáticas e pacíficas senhoras que nunca deram problemas à vizinhança nem ao condomínio, talvez a questão seja ainda um pouquinho mais complexa para tiranos criminosos, mafiosos e assassinos montados em cima de arsenais nucleares.

Fatalismo: a Rússia tem que ser ditatorial, imperialista e religiosa e os ucranianos que se lixem

Afinal o que tem o Ocidente de bom? “Nada”, diriam os Monty Python, a não ser democracia, ciclos eleitorais pacíficos, liberdade de expressão e de associação, liberdade religiosa, incluindo liberdade de não professar qualquer religião, separação de Igreja e Estado, liberdade de mercado, acesso universal à educação, a serviços de saúde maioritariamente gratuitos, respeito pelos direitos das minorias, independência da Justiça, direitos laborais, liberdade de imprensa, etc. “Nada”, portanto. Resta-nos, pobres de nós, gozar a sorte do nada de bom que temos, mas que levou tempo, dor e muito trabalho a conseguir. Por muito sob stress que estas características da nossa sociedade possam estar permanentemente (candidatos a ditadores e arruaceiros haverá sempre), duvido que a esmagadora maioria das pessoas as queiram deitar pelo cano e prefiram a mordaça das autocracias.

 

Pois bem, o Miguel Sousa Tavares (in Estátua de Sal) que também as prefere, ultimamente anda desorientado com o sucedido para lá do Dniestre. Declarando ter sempre topado perfeitamente o Putin, acha por bem troçar do facto de muitos dirigentes ocidentais terem expressado no passado o desejo e a esperança de que a Rússia se “ocidentalizasse”, mais concretamente, penso eu, que deixasse a violência e as práticas imperialistas e permitisse o jogo democrático a nível interno. E depois terem-se sentido enganados. Haverá algo de errado nisto? A Rússia já não fez (e de certo modo ainda faz) parte do universo cultural europeu? Escritores, compositores, artistas, filósofos, cientistas dos últimos séculos eram tão europeus como quaisquer outros. As respectivas cortes interligavam-se. Alturas houve em que a violência reinava em todos os lados e as monarquias imperavam. É certo que, após a revolução russa, os caminhos divergiram (por cá, no sentido das democracias) e que o domínio soviético, que levou ainda mais longe os requintes de malvadez dos czares, a par de um soturno e radical nivelamento social, deixou marcas profundas naquela sociedade. E hábitos de alheamento político que perduram. Mas a Rússia não deixou de ser uma parte da Europa! Isso, sim, é uma fatalidade.

 

Diz ele:

«Putin sabe que a democracia e as liberdades, tal como as conhecemos no Ocidente, são coisas alheias aos russos: não lhes fazem falta. Não obstante o heroísmo de resistentes como Navalny, o poder autocrático de Putin não é uma forma de governo estranha aos russos. »

«…desde tempos imemoriais, há três coisas em que assenta o poder na Rússia: a noção de pátria, a religião e o autocrata. Durante a monarquia, a noção de pátria estava na “Mãe Rússia”, o território sagrado pelo qual cada russo daria a vida contra as ameaças dos inimigos; a religião era a Santa Igreja Ortodoxa; e o autocrata era o Czar, investido de poder divino. A partir de 1917, com a Revolução e a paz de Brest-Litovsk, Lenine cedeu território em troca de ganhar os soldados massacrados do Czar para a Revolução, substituiu a religião da Igreja pela do comunismo e a autocracia do Imperador pela do Partido.»

 

Isto é mau? Não muito, para o Miguel.

Mas, curiosamente, o termo “ocidentalizar”, significa para ele deixar o Ocidente controlar as grandes empresas russas. E por isso dá vivas a Putin por ter revertido essa afronta.

«A diferença entre os seus oligarcas e os do seu antecessor é que os seus passaram a ser controlados a partir do Kremlin e não do Texas. Depois, daí em diante, foi uma cascata: ele passou a “enganá-los” a todos. Ao contrário do esperado, não se deixou “ocidentalizar”

Não é bem isso, Miguel, mas enfim. As democracias liberais também estão abertas a capitais estrangeiros. Além disso, é mais justo fazer comércio em igualdade de circunstâncias (pensar nas nossas relações com a China, um problema).

 

«A barbárie dos russos e dos eslavos, em geral, é lendária. Todavia, a história das décadas da Guerra Fria está carregada de episódios semelhantes do nosso lado, uns conhecidos, outros não, e dificilmente se poderá sustentar que, em matéria de métodos de actuação, de invasões, de golpes de Estado, de massacres, de Guantánamos, nós fomos predominantemente os bons e eles os maus. A História é uma lavandaria onde todos entram sujos e só sai limpo o último a fechar a porta.»

 

«Claro que, para quem teve a sorte de nascer e ser educado com os valores daquilo a que chamamos “democracias liberais”, só por masoquismo experimental ou obstinação ideológica trocaríamos o nosso modo de vida pelo do país de Vladimir Putin. E, se pudéssemos, decretaríamos o mesmo, a liberdade, para todos os povos e nações do mundo. A liberdade e também a prosperidade. E também a paz — também a paz. »

 

Os nós dessa cabeça, ó Miguel.

 

Os últimos parágrafos, sobretudo, são os que revelam o maior transtorno. O Putin é sanguinário, é ex-KGB, é isto e aquilo, mas devemos querer é a paz e deixá-los lá como são. Os russos.

Miguel, não há pachorra para as pazadas de História que atiras para cima dos ocidentais só para escamotear e desculpar o simples facto de ter havido uma invasão violenta de um país soberano, aqui tão perto de nós e tão semelhante a nós, com aspirações a ser um de nós, sem incubadoras de terroristas que gritam “morte ao ocidente” enquanto brandem o Corão, apenas com intuitos imperialistas, e isto no século XXI.

Os ucranianos nesta história do Miguel são completamente irrelevantes. Se calhar, acha que são nazis e merecem perder a sua terra e morrer.

 

É fodido, pá

É fodido, pá. Isto do Galamba. Aí está ele a governar, armado em ministro. Levado ao colo pelo primeiro-ministro. Recordando, pelo simples facto de aparecer aqui e ali, mesmo que não abra a boca, que o Presidente da República é um chantagista. E que os impérios da comunicação social, todos sem excepção na mão da direita, são um antro de sectários e decadentes, bacanal de comentadores e jornalistas ferrabrases que trabalham para a estupidificação colectiva.

Fodido, pá. Ser-se tão merdoso.

Daniel Oliveira, um zoilo bloqueado

Daniel Oliveira saiu do Bloco mas o Bloco não saiu do Daniel Oliveira. Longe disso, até porque. Oiça-se, ou leia-se, este António Costa já tem um plano B?. É o enésimo exercício de um processo de intenções que começou a seguir às eleições legislativas de 2019 — após o PS não ter cedido ao BE, levando este a chumbar os Orçamentos do novo Governo — onde a sua energia comentadeira se concentra em pintar Costa como um “ambicioso” que não descansa até papar um “cargo europeu” para se encher de dinheiro à tripa-forra e passear-se frente às câmaras com o peito coberto de medalhas. A sórdida campanha atingiu o auge nas legislativas de 2022, onde este amanuense do Balsemão garantia que Costa tinha decidido acabar com o acordo que ligou PS, PCP e BE de 2015 a 2019 só para ficar livre e fugir “para a Europa”. São duas insolências embrulhadas numa infâmia: achar que se pode substituir aos pensamentos e vontade de alguém, denegrir quem aceite responsabilidades políticas de topo na União Europeia.

Por causa dos méritos genéricos que a sua prestação como comentador tem para a qualidade democrática do espaço público, Daniel Oliveira não é um pulha. Ele é um bom divulgador de opções políticas à esquerda do PS, mesmo que do que diz seja impossível elaborar um projecto de País. Mas esta pulhice do assassinato de carácter obsessivo contra Costa, nascido da raiva tribal e da soberba de comentadeiro, faz dele um zoilo. Um zoilo muito bem pago que se permite despachar cagadas odientas.

Nas muralhas da cidade

Goucha, telelixo e palmatória
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NOTA

PCP e BE são partidos populistas, no sentido em que o populismo também corresponde a uma qualquer forma de suspeita sistémica em relação ao poder democrático e ao Estado de direito. No caso dos comunistas, o seu populismo está ostensivamente presente na retórica veterotestamentária e na diabolização do capitalismo, do liberalismo político e dos americanos. No caso dos bloquistas, a retórica é moralista e a pulsão agónica desemboca no assassinato de carácter folhetinesco. Mas em nenhum destes casos se apela ao derrube das instituições pela rua nem à violência física sobre os adversários ou contra alvos sociológicos. O PCP até evoluiu para ser um dos melhores amigos do patronato, e o BE adoraria tomar de assalto Bruxelas por dentro, usufruindo de todas as benesses e prebendas inerentes pelo caminho.

É do populismo da direita que vêm os fenómenos de radicalismo revolucionário e de promoção generalizada da violência — com provas dadas no Capitólio e em Brasília. Força internacional dominadora na actualidade, dando origem a irracionalidades como o Brexit, a eleição de Trump e de Bolsonaro, e aos fenómenos de ganhos eleitorais da extrema-direita um pouco por toda a Europa. Em Portugal, muito antes do Chega, este populismo teve ensaios no próprio PSD, primeiro com Ferreira Leite e a golpada judicial em Aveiro e a Inventona de Belém, e depois com Passos a admitir abertamente que se poderiam criminalizar políticos por razões políticas, e por fim com este a ser o primeiro-ministro que alimentou a farsa do “fim da impunidade”, caldo de cultura criminosa donde nasceu a Operação Marquês nos moldes em que foi iniciada, desenvolvida e consumada. A violência nestes períodos implicou sempre ilícitos cometidos por magistrados e jornalistas, em impante e impunível cumplicidade. E foi dessa práxis que nasceu Ventura, inventado por Pedro Passos Coelho para ser exactamente o que veio a ser.

Deve-se ter tolerância zero com o Goucha, o qual usou o seu poder de influência para normalizar o ódio inerente ao populismo e à extrema-direita. Vai sem discussão. Mas, por maioria de razão, alguém também devia ter esse heroísmo de apontar aos directores e accionistas da comunicação social que querem fazer combate político usando a escória da cidade. O pior do populismo à direita nasce do editorialismo.

Quando se é muito sincero

«"Eu quero ser muito sincero: acho que havia muitos comentadores que queriam que eu dissolvesse e eu tinha a noção de que o povo não queria que eu dissolvesse, queria que eu, realmente, chamasse a atenção do Governo para dizer aquilo que disse no dia 4 [de maio]: 'olhe que, às vezes, é preciso mudar o que não está bem antes que seja, depois, muito tarde'. Foi isso que eu quis dizer, foi uma prevenção", justificou Marcelo. Marcelo disse que, nessa ocasião, o povo considerou que não ser altura para "deitar o jogo abaixo", porque "poderia ter mais custos do que vantagens".

"Eu tinha a noção do que muitos comentadores achavam: 'É agora, é aproveitar agora, se não é agora, é daqui a 15 dias, ou daqui a três semanas e tal... Deite o jogo abaixo e começa-se de novo'. E, do outro lado, diziam o seguinte: 'Não, não é só deitar o jogo abaixo, também não pode estar a chamar a atenção para aquilo que é a governação e tal'", salientou.

O Presidente da República recuou ao discurso que fez na tomada de posse do atual Governo, em março de 2022, para salientar que, na ocasião, tinha alertado que "uma maioria absoluta tem uma responsabilidade absoluta". "Por isso é mais difícil ter maioria absoluta do que não ter porque, quando não se tem maioria absoluta, há sempre várias justificações: porque o partido A não apoiou, porque o B não apoiou, porque o C não apoiou e tal... Se se tem maioria absoluta, não há essas justificações", sublinhou.

Para o chefe de Estado, quando se tem maioria absoluta, "só há uma justificação para as coisas não acontecerem: é haver problemas naqueles que exercem o poder". "Parece um presente [ter maioria absoluta], mas é um presente com muita responsabilidade. O povo, quando dá esse presente, diz 'Bom, eu agora dou-te o poder todo para fazeres o que deves fazer. Mas faz! Porque, se não fizeres, eu vou ser mais exigente do que no tempo em que tu podias dizer, 'olha, eu não pude fazer porque não me deixaram fazer'", destacou.»

Presidente da República, 9 de Junho de 2023

Estas notáveis — e inacreditáveis — declarações não geraram qualquer escândalo, sequer faladura no comentariado, muito menos no Parlamento. Ajudou terem sido feitas na véspera do 10 de Junho, mas a principal razão para o silenciamento é a conivência de toda a imprensa e sistema político para abafar a perda de capacidades políticas (ou morais, ou cognitivas, é escolher) de Marcelo. No registo oral, parte presente na notícia, a percepção de destrambelhamento é ainda mais impressiva. E o mais grave nelas não é serem excepcionais, no sentido de raras ou únicas. É o de serem ordinárias, no sentido de frequentes, vulgares, grosseiras e demagógicas.

Nunca antes, a qualquer anterior Presidente da República, tinha ocorrido a decadente ideia de equiparar um grupo de umas duas dezenas de indivíduos (se tanto) que enchem os bolsos na calhandrice e no sectarismo, a que Marcelo chamou “comentadores”, com a entidade comunitária e constitucional a que chamou “povo”. Pois aconteceu. Como se pode ler e ouvir (e ver, é procurar), o actual Presidente da República admite que os “comentadores” influenciam as suas decisões presidenciais mais importantes, sendo que quase nenhuma das que tem ao dispor é tão poderosa como a de dissolver a Assembleia. A forma como se refere aos tais “comentadores” expõe de forma obscena o seu entusiasmo com a própria gíria da irresponsabilidade suprema de que desfrutam, para quem abrir uma crise política e afundar o País nas consequências de um caos abstruso não passa de “deitar o jogo abaixo”, arbítrio enfadado ou raivoso de quem não está a gostar dos resultados do corrente “jogo”.

Foi o “povo” que conseguiu deter a força dos “comentadores”, explica com detalhe Marcelo. Como? Bom, através da divina capacidade do ex-comentador (ou nem tanto) para saber o que o “povo” quer e não quer, pensa e sente. Tendo acesso à psique colectiva da Grei, o actual inquilino de Belém fica à-vontadex para fazer e dizer o que lhe der na real gana, transformando a sua função de representante do voto popular sujeito à Constituição numa versão manhosa de um rei iluminado que pode obrigar os Governos a fazerem o que ele achar que deve ser feito. Ele “Marcelo”? Não, pá, ele o “povo”, pois apregoa estarmos perante uma hipóstase ambulante (com sérias dificuldades em ficar calada).

O apotegma “só há uma justificação para as coisas não acontecerem: é haver problemas naqueles que exercem o poder” justifica um tratado. E também tratamento contra crises agudas de populismo.

Prémio Nobel da hipocrisia

«O terceiro pressuposto é que o Ministério Público continuará a actuar como faz hoje, noticiando com grande celeridade que abriu um inquérito sobre determinada pessoa ou acção, mesmo quando sabe que não tem qualquer fundamento legal para a penalizar. No momento em que o publicita, está a lançar uma sombra de suspeição e ilegalidade sobre coisas que nunca chegam ao tribunal e que, passado o efeito pretendido, são arquivadas. Igualmente se pressupõe que o Ministério Público, sabendo que as matérias que lhe serviram de pretexto para ouvir telefonemas, controlar mensagens, fazer escutas e vigilância não chegam como prova num tribunal, continue a passar o conteúdo de inquéritos sob segredo de justiça para os programas justiceiros da comunicação social, para que haja condenação na opinião pública de comportamentos que podem ser reprováveis, mas não são ilegais. E também para vir depois dizer que não foi mais longe por “falta de meios”.»


Não só este parágrafo mas todo o texto, um hino à dissonância cognitiva

Revolution through evolution

Nine out of 10 people are biased against women, UN report finds
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Dominguice

O fanatismo é uma forma de imbecilidade. Os recursos cognitivos do fanático esgotam-se na confirmação das suas crenças e na repetição obsessiva da sua lengalenga. O fanático, porque imbecil, abomina a dúvida, foge da incerteza e é incapaz de sentir curiosidade. A sua capacidade racional não lhe serve para a construção de argumentos, só para a selecção de narrativas. Havendo quem lhe sirva as historietas que protegem a sua identidade de fanático, o imbecil alimenta-se delas vorazmente.

O melhor da civilização não foi invenção dos fanáticos imbecis. Daí os imbecis fanáticos não se identificarem com o melhor da civilização.

Vamos lá a saber

Faz sentido comparar o interesse por cinco pessoas de quem se conhece a biografia, as quais se presume estarem vivas e prestes a morrer se não forem encontradas e salvas, com o interesse por um naufrágio no Mediterrâneo que terá causado centenas de mortos, não identificados, em contexto de migração ilegal?

Quando a referência é a violência

O conceito de “imprensa de referência”, ao remeter para o cumprimento integral (ou quase, o que já seria excelente) do código deontológico do jornalista, liga-se ao modo como a democracia, a liberdade e o próprio Estado de direito se concretizam e cumprem. Daí ser tão importante, mesmo fundamental, para a salubridade democrática a existência de uma imprensa livre, independente, objectiva, rigorosa, crítica e pluralista.

Quem concordar com o parágrafo anterior igualmente concorda com esta declaração: não existe imprensa de referência em Portugal. Temos tabloidismo, chungaria e indústria da calúnia, em variadas tipologias e diferentes graus. Por consequência, a nossa democracia está menorizada e intoxicada, sujeita a um permanente processo de estupidificação ao serviço das agendas dos poderes fácticos. Claro, há jornalistas que individualmente ressaltam por darem provas de profissionalismo paradigmático mas, mesmo estes, não conseguem escapar aos ecossistemas editoriais onde são peças da engrenagem.

O melhor exemplo ilustrativo desta realidade, tal o deboche a que se chegou, é o de José Sócrates. À partida, a gravidade das suspeitas que (com toda a legitimidade judicial) recaem sobre ele justifica a obsessão da imprensa no relato, análise e reflexão sobre factos indiciadores de ilícitos. Não carece de explicação a relevância política, social e até histórica do que está em causa. Nenhum mal viria daí se a imprensa se limitasse a noticiar e a opinar dentro do quadro constitucional — portanto, respeitando os direitos de defesa do arguido, depois acusado, e ainda não julgado. Ora, muito antes de se ter iniciado a Operação Marquês já a imprensa acolhia, lançava e expandia campanhas negras contra a personalidade em causa. A ocorrência da detenção, e subsequente prisão, fez crescer desvairadamente a práxis editorial de construção da percepção de culpabilidade de Sócrates. E o modo mais insidioso, portanto mais eficaz, em que tal se inscreve nas audiências ocorre quando os jornalistas se apresentam como jornalistas para emitirem opiniões estritamente jornalísticas, distintas estatutariamente da “opinião”, e acabam a anunciar que mesmo sem ter sido julgado Sócrates é culpado de tudo e de mais alguma coisa. Agem como parceiros do Ministério Público, como xerifes demasiado impacientes para esperar pelo juiz.

Oiça-se o 2014: o ano da queda dos Donos Disto Tudo, onde a nulidade Paulo Baldaia segue o código da classe de não fazer questões que permitam a Sócrates argumentar em sua defesa, procurando apenas sacar bocas sobre política que se possam explorar com sensacionalismo. Na mesma peça, surgem três jornalistas apresentados como jornalistas para dizerem coisas jornalísticas. Tinham eles algo a dizer acerca das irregularidades, abusos e violências sobre os arguidos na Operação Marquês ou sobre o trabalho de Ivo Rosa ao desmontar a farsa da acusação? Zerinho. Foi evidente no que disseram e insinuaram que consideram Sócrates culpado de corrupção, apesar de em momento algum terem explicado onde a corrupção ocorreu e como? Sim, completamente evidente.

Se for nossa escolha que mais vale um culpado ilibado do que um inocente condenado, princípio fundador do edifício da Justiça, concluímos que a imprensa portuguesa exerce quotidianamente o projecto de substituir a democracia do bem comum por uma democracia de claques — sectária e persecutória, decadente, violentadora.

Lições do 2 de Maio

2 de Maio de 2023 pode bem ser uma data de referência para estudos académicos sobre o domínio de uma direita extremada na comunicação social portuguesa, como avançou o Pacheco, tal o espectáculo totalitário produzido editorialmente. Mas é mais relevante analisar essa data no que concerne às consequências políticas.

Por exemplo:

1. Os cães ladram, não mordem, e a caravana passa

Ou seja, a pressão mediática é uma bolha de sabão a estourar na couraça da indiferença do actual Governo. Os jornalistas, os comentadores e os políticos comentadores, a que se podem juntar os jornalistas comentadores mais os jornalistas que se armam em políticos, são uma claque especialista em pateada quando não estão os seus amigos em S. Bento.

A logomaquia furiosa a que se entregam por disso viverem, e por disso consumirem para gozo próprio, só assusta aqueles que se deixam assustar.

2. Quem tudo quer, e acha que pode chantagear, tudo perde

Isto é, Marcelo Rebelo de Sousa foi imprudente e mal-aconselhado nesse sábado do final de Abril em que acreditou que Galamba era um pato com o bico encostado ao cano da sua caçadeira. O tiro viria a sair pela culatra, e foi fatal para o atirador. Ao não aceitar a aversão de Costa a servir-lhe a cabeça do ministro na bandeja, avançou para um golpe canalha em conluio com Ricardo Costa e uma foliculária pé-de-microfone. Saiu-lhe um estadista pela frente, azar.

A partir da recusa de Costa em ceder à pressão máxima a que a direita decadente pôde chegar na situação, nesse tandem Belém-media, foi o Presidente da República que acabou desautorizado e diminuído — ou mesmo ridicularizado por sua exclusiva responsabilidade e proeza.

3. A voz do povo é a voz de Deus, já o contrário é falso

Em suma, quando um Presidente da República resolve andar meses e meses a causar alarme político, e social, agitando uma dissolução da Assembleia pelos mais avulsos, esconsos e subjectivos pretextos, ele justifica o seu despautério arrogando-se ser a voz de Deus. O deus da República, o Soberano. Ora, esse soberano não é o tal fulano em roda livre, empossado sob juramento como representante, é antes a comunidade eleitoral sob a égide da Constituição, num primeiro acto, e depois o Parlamento, em sucessivos actos decorrentes do primeiro.

A 2 de Maio, um certo representante do Soberano provou que um outro representante do mesmo tinha pés de barro e cabeça-de-alho-chocho. Deu voz à voz do povo.

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Dominguice

Se fosse possível identificar a pessoa mais inteligente, mais culta e mais informada no mundo do século XV (quiçá do XVIII), e se fosse possível ir ter com ela ao seu tempo para lhe explicar os princípios da mecânica quântica, ela seria incapaz de entender o conceito mais simples dessa teoria. Já se fosse possível conversar com um romano, grego ou egípcio nascido há mais de dois mil anos, todos da ralé, qualquer deles entenderia à primeira a nossa actual concepção do que é o direito.

Poderão surgir, nos séculos e milénios afora, teorias científicas impensáveis para as nossas actuais capacidades intelectuais. Mas jamais aceitaremos viver sem direitos.

Lapidar

«Perante cartazes que animalizaram António Costa, um primeiro-ministro racializado, que percebeu haver ali insulto racista, o Presidente da República reagiu com uma desvalorização inaceitável. Em vez de agir em defesa da Constituição que jurou defender, passando uma mensagem clara de condenação do racismo que ajudaria todas as pessoas que, jovens e adultas, sentem os seus corpos um pouco mais em risco por causa do crescimento do discurso de ódio racial entre nós, preferiu lançar um “só ofende quem pode” e, “já agora, também já fui ofendido”.

Quem espalha o ódio, quem comercializa o ódio, quem politiza o ódio, sabe que põe em risco os corpos das pessoas racializadas, dos imigrantes, das mulheres, do homossexual alvo de chacota ou da cigana desumanizada.

Quem tem responsabilidades políticas e é democrata tem de o saber também e escolher não perder uma oportunidade para deixar livre o campo da vitimização dos agressores.»


Marcelo e o ódio — não aprendemos nada?

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