Tendo o PS conquistado uma maioria absoluta, automaticamente se formou o coro da oposição conluiada, que entoa vigorosos cânticos de indignação partilhada a cada medida tomada pelo Governo, a cada resposta a reivindicações, muitas vezes provocatórias, de sinal partidário e intenções disfarçadas, a cada conclusão de comissão de inquérito (CPI), aberta por tudo e por nada. O coro conta com os poderosos megafones da comunicação social e comentadores amigos.
Saiu o relatório preliminar da CPI à TAP. À TAP, repito. À alegada interferência política na administração da TAP, a propósito da indemnização paga a Alexandra Reis pela sua saída. “Relatório fofinho”, ouvi eu hoje na rádio Radar, que citava o Expresso. Estava dado o mote para a indignação do dia. O relatório era uma vigarice.
Segundo a oposição, o que se devia ter apurado na dita comissão? Ora, que foi o Governo, na figura de Pedro Nuno Santos, que deu ordem não só para o pagamento da indemnização considerada escandalosa, como até pelo despedimento da senhora (de quem durante meses a mesma oposição – amplificada por jornalistas e comentadores amigos – disse cobras e lagartos, troçando das suas competências, aparência e guarda-roupa). Como não se apurou nada disso e quer Alexandra Reis, quer Pedro Nuno, quer o seu secretário de Estado Hugo Mendes se mostraram à altura e responderam dignamente e com verdade às perguntas dos deputados, deixando-os vazios de acusações, mas cheios de tristes figuras, agora o relatório é uma lástima, foi ditado pelo Governo e não passa de uma ficção. Esta oposição está mesmo onde devia estar: na oposição. A continuar assim, é onde vai estar por muitos anos.
Que interessa todos termos ouvido a ex-CEO da TAP declarar que foi sua a decisão de despedir Alexandra Reis e que foi a equipa de advogados convocada de acordo com as regras que chegou àquele valor? Nada, não interessa nada. E que não agradou ao ministro a saída da engenheira? E que interessa que o secretário de Estado tenha dito que, ao ter conhecimento do elevado montante, comunicou ao ministro ter sido impossível baixá-lo (inicialmente seria muito mais elevado)? Nada, não interessa nada, até porque, para a oposição, tudo era já mentira antes de ter sido dito por qualquer dos inquiridos, excepto Frederico Pinheiro. O relatório, escrito por eles, dispensava a comissão de inquérito! A ex-CEO ter sido despedida passar de exigência das oposições a decisão reprovável do Governo também diz muito dos nós em que se metem as oposições e que ficam visíveis nas CPI. Um circo, foi a ideia que ficou.
Muito rasteira anda também a comunicação social pelo facto de o episódio do roubo numa situação inédita, e da recuperação posterior do computador de Frederico Pinheiro, assessor de Galamba, não ter sido mencionado no relatório. Esquecem, mas sem surpresa, porque é intencional, as razões por que não o foi: o caso, como todos sabem, está a ser objecto de investigação pela Procuradoria, além de que não tem nada que ver com o objecto do inquérito. Mas, meu deus, como tolerará a oposição que o ministro Galamba não tenha sido enxovalhado no relatório, como não o foi na CPI? Como tolerará o Bloco de Esquerda que o seu camarada Frederico não tenha sido descrito como um herói, na pior das hipóteses como uma vítima? Não tenha sequer sido mencionada a importância do seu acto?
Da próxima vez, os senhores deputados da oposição podem dispensar-se de ouvir seja quem for do Governo. Reúnem-se e elaboram o relatório das suas teorias e conclusões. E o Governo demite-se. Então não era?