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A indústria da calúnia é muito mais do que um negócio

«Portugal é um dos países onde os juízes mais consideram estar sujeitos às pressões externas, como a comunicação social ou as redes sociais. 40% dos juízes portugueses pensa que já ocorreram decisões em que foram influenciados pela comunicação social.»

Fonte

Ilações:

Se 40% dos juízes portugueses que responderam ao inquérito assumem haver colegas, ou terem sido os próprios, a decidir judicialmente por influência da comunicação social, tal permite extrapolar que outros 40% pensam o mesmo mas não o admitiram por cumplicidade com a prática, e que os restantes 20% não têm a certeza, ou têm vergonha de o reconhecer, daí não o confirmarem.

Se há uma maioria provável de juízes a decidirem judicialmente por influência da comunicação social, quem controla a comunicação social está a controlar os juízes.

Para descobrir quais os casos onde com elevadíssima probabilidade a comunicação social influenciou as decisões judiciais dos juízes basta fazer uma correlação entre a extensão e selvajaria da cobertura mediática de certos casos com as decisões processuais e sentenças respectivas pelos tribunais.

Se isto se passa assim, e assim confirmam os juízes que se passa, a ideia de que vigora o Estado de direito democrático em Portugal é uma balela.

Se os constitucional, política e socialmente protegidíssimos juízes pervertem a sua formação, a sua deontologia e a sua consciência por influência da comunicação social, que farão os procuradores, os polícias e os jornalistas?

Na imprensa dos brandos costumes, quando o alvo é da direita

O editorialismo e o comentariado, na sua quase totalidade, abafaram a análise e interpretação das cenas pícaras de Marcelo no Canadá para lá do mínimo inevitável. Por falta de interesse ou oportunidade? Não, ao contrário: por serem assombrosamente graves. Por não terem defesa possível, alguma que fosse. A sua gravidade não está na temática sexual ultrajante ou no estilo rasca exibidos, o que em si já é grave naquele nível de representação política, está na evidência de estarmos perante uma conduta anómala que põe em causa as competências cognitivas para as responsabilidades do indivíduo em causa. Se ele não tem noção do efeito que provocou, de que terá noção? Se tem noção, onde está o seu arrependimento? Se não se arrepende, quem poderá confiar na sua pessoa?

Incrivelmente, é preciso ir até à Renascença para encontrar uma denúncia conforme à realidade do caso: Marcelo e o decote: “O Presidente tem que se controlar”. Sintomaticamente, quem a faz não é português. Olivier Bonamici aponta a duas características do episódio que explicam a censura dos espaços da opinião profissional a respeito do mesmo: (i) o carácter chocante da atitude de Marcelo para o espectador comum da cena; (ii) a certeza de que alguma coisa parecida em Espanha ou França teria causado um escândalo homérico. Tal quer dizer que os jornalistas e comentadores portugueses que preferiram o silêncio são política e moralmente cobardes. Com as devidas excepções, surpresa nenhuma.

Mas houve quem não se pudesse conter, uns fogachos de indignação. A incrível Ângela Silva fez uma súmula dessa reacção — “We are bacalhau”? He is Marcelo — aproveitando para repetir uma informação que, essa sim, justificaria um Conselho de Estado de emergência: isso de Marcelo não “ouvir” ninguém. Já o tinha dito há perto de um ano, noutro dos momentos baixíssimos de Marcelo. É a fotografia de um louco à solta, pois a loucura é sempre a perda da capacidade de acolher os outros, o deslaçamento da relação à comunidade.

O Governo e o PS não retiram qualquer vantagem de terem um Presidente da República não só politicamente enfraquecido como eticamente desautorizado e ainda balhelhas. Nem a oposição. Vamos com um ano de instabilidade política nascida exclusivamente do irregular funcionamento da instituição Presidência da República. Um jornalismo que enche a boca com a liberdade da imprensa e a defesa da democracia quando quer difamar e caluniar à-vontade, e depois não consegue dizer que o Presidente vai nu e cego, é uma causa essencialíssima deste espectáculo vexante.

A gravidade disto

Esta peça de Victor Moura-Pinto — Um decote marcou a semana política — denuncia como hipócritas tudo e todos. De acordo com o autor, que junta gravações para o ilustrar e provar, o episódio no Canadá não foi a excepção no comportamento de Marcelo, é a regra. O actual Presidente da República não só é ostensivo na sexualização das mulheres através do verbo insinuante como roça (e se roça) no abuso corporal com a sua exigência de beijinhos, toques e abraços. No pleno das fêmeas? Moura-Pinto detalha que Marcelo prefere as mais novinhas, embora também despache as que lhe parecem fora de prazo com carimbos como “Há 10 anos era de perder a cabeça”.

É fácil fazer uma montagem que crie a percepção errada sobre a relevância desta objectificação do feminino. Porém, contudo, todavia, aposto os 10 euros que tenho no bolso como nesta peça ele está a tentar fazer verdadeiro jornalismo. Isto é, divulga informação com interesse público ignorada por muitos, seguramente por mim: a de que Marcelo Rebelo de Sousa, ocupando o mais alto cargo da Nação, tem uma conduta indigna das suas responsabilidades também nisto da condição feminina — ou seja, na condição humana e no mero respeito por pessoas e suas famílias. E que essa disfunção não começou em Setembro de 2023, tem anos. E que tal é sabido por quem o acompanha e faz a cobertura noticiosa ou meramente calha estar presente para o testemunhar, seus moralistas merdosos.

Dias depois desta peça vi outra, que infelizmente perdi e não consigo reencontrar. Nela, uma jornalista explicava que a polémica no rectângulo com o decote não tinha chegado ao Canadá. E lá aparecia Marcelo a fazer das suas. Viu-se uma adolescente, ou jovem adulta, a ir ter com ele para uma foto com o seu telemóvel. Ao abraço efusivo seguiu-me uma pantomima em que Marcelo segurava o telemóvel e o usou para demonstrar o seu entusiasmo com o corpo e aparência da rapariga, baixando-o e levantando-o para apanhar a chicha completa enquanto soltava exclamações lúbricas.

Não devia ser necessário explicar mas Portugal assim o exige: a gravidade disto ultrapassa drasticamente a gravidade disto.

Dominguice

O que fomos e o que seremos são intangíveis. A consciência do presente uma alucinação dilacerante ou extasiante. E o resto todo à volta fragmentário, confuso, ignorado.

Apesar disso, esbanjamos infinitos.

Lapidar

O garnisé

Ontem, no noticiário das 20 horas, a RTP fingiu uma entrevista ao ministro da Educação. O que se passou não foi comunicação, foi oposição pura e dura. A indignação do dono do microfone tornou-se num espetáculo triste, incompatível, creio eu, com as regras deontológicas do jornalismo.

direitos outros

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NOTA

A RTP, apesar do dever de serviço público, é um órgão de comunicação social politicamente agendado. Isso não nasceu em 2015 com António José Teixeira, ano em que se tornou director adjunto de informação da RTP, já o era desde o cavaquismo. Porém, este Teixeira trouxe da SIC exactamente o mesmo editorialismo que lá praticava ao serviço de Balsemão. O resultado é uma cultura de oposição assanhada (quando não persecutória) aos socialistas que é uma violação tanto das responsabilidades da estação pública como das responsabilidades individuais dos jornalistas.

O PS, por sua vez, não parece preocupado com a situação. Talvez por ser uma área armadilhada, onde qualquer laivo de protesto é imediatamente explorado como tentativa de controlo e censura. Perdemos todos, até porque a decadência do jornalismo de agenda direitola não é a panaceia para a decadência da direita.

Ângela Silva, placa de Petri

Sou fã da Ângela Silva. Porque ela é como uma placa de Petri da decadência da imprensa portuguesa. Tendo a função de ligar o Grupo Impresa à Presidência da República Portuguesa, assistimos semanalmente ao reverso: a Presidência a ligar à Ângela para ela espalhar os recados trapaceiros e ressabiados dos homens do Presidente. O cúmulo desta farsa, onde a suposta jornalista se comporta como assessora, ocorreu na chantagem via Expresso que podia ter causado uma gravíssima crise política, em Maio, quando Marcelo mergulhou de cabeça no irregular funcionamento das instituições.

Claro, ela não poderia ser isto sem a aprovação de Ricardo Costa. E o mano Costa não o poderia aprovar sem a autorização última ou primeira de Balsemão. Daí a senhora ser uma placa, não o ecossistema. Ela está apenas a fazer pela vida, ganhando do bom, num ambiente que lhe pede o que a assalariada tenta dar da melhor maneira que consegue.

O que nos leva para esta coisa: 2007: Tinha sido tão “Porreiro, Pá!”. Conceptualmente, é uma rubrica que promete resenhas sobre a história portuguesa recente. Na prática, este episódio não passa de mais um linchamento de Sócrates, o bilionésimo. Em 2007 a licenciatura de Sócrates ainda não tinha sido considerada irregular, pelo que a polémica se restringia ao confronto de diferentes versões sobre as muitas facetas do caso. Daí, ao tempo, esse episódio não ter tido qualquer impacto significativo no eleitorado, muito menos em 2009, ano de eleições legislativas. Pois Ângela Silva centra-se nessa história, de relevância relativa, para apontar ao carácter de Sócrates. Ao mesmo tempo, diminui e enxovalha o Tratado de Lisboa, de relevância absoluta, um dos grandes sucessos da governação socialista e de Portugal como país organizador. É isto jornalismo? Não, pá, é sectarismo e diabolização.

Sendo esta cultura tóxica o alimento do editorialismo do Expresso e da SIC, nada mais previsível do que esta outra coisa: Ângela Silva analisa o estado da relação Costa-Marcelo: “A montanha não pariu um rato, pariu um elefante”. Quem é cúmplice de Marcelo fingindo fazer jornalismo político trata a disfuncionalidade do actual ocupante de Belém como um conflito institucional onde há dois protagonistas voluntários e igualmente responsáveis pelas peripécias. Este falso nivelamento tem como objectivo envolver Costa na sua causalidade, para logo depois o carimbar como culpado pelo confronto, por actos e/ou omissões. A Ângela, com a nulidade Baldaia a servir de ponto, continua aqui a explorar o uso do Conselho de Estado como arma de arremesso, chafurdando risonha e gaiata na violação do sigilo do órgão e na restante boataria desonrosa. O cristalino propósito é o de pintar Costa como o mau da fita, Marcelo como o sofrido herói que tenta salvar a gente boa (leia-se: a direita oligárquica).

Num momento delicioso de involuntária hilaridade, saiu-se com uma pérola: “O Presidente está numa altura em que tem de pesar muito bem a palavra, tem que reflectir muito bem como é que vai gerir os lances do outro lado.” Isto foi publicado a 7 de Setembro. Nos dias seguintes, o tal Presidente fez-lhe a vontade. Cadeiras, decotes, Selecção, fado, bacalhau, Cristiano Ronaldo. A palavra do Presidente não poderia ter sido mais eloquente a gerir os lances do outro lado.

A cadeira aguenta com o decote?

Quando me mandaram o vídeo de Marcelo a gozar com o decote, a minha primeira reacção consistiu em duvidar que fosse verdadeiro. Era um vídeo solto, sem logótipo de qualquer canal televisivo, pelo que fui à procura de marcas de truncagem onde se tivesse falsificado a locução. Só ao ver o mesmo registo em meios de informação profissional é que me rendi. E me espantei.

Imaginemos que Marcelo, desde 30 de Março de 2022, se tinha comportado com sentido de Estado, prudência, inteligência política, patriotismo e módico bom senso até ao passado dia 14 de Setembro. Sublinhe-se: essas características em nada o limitariam na actividade de fiscalizador do Governo, podendo com toda a legitimidade discordar politicamente das opções do Executivo, como é seu apanágio constitucional. A ter sido assim, o episódio do decote apenas justificaria a curiosidade de se discutir o eventual mau gosto da graçola. Nada de grave seria assinalado e tudo se varreria para debaixo do tapete da sua inveterada chinela popularucha. Ora, a real situação é radicalmente oposta.

Na ocasião mesma da tomada de posse do Governo com maioria absoluta começou um ciclo inacreditável, previamente inconcebível, de disfuncionamento da pessoa Presidente da República: nessa cerimónia, resolveu atacar o carácter de António Costa. Tal ficou finalmente evidente na forma como se deixou percepcionar na figura de cúmplice do abafamento e desvalorização das suspeitas de crimes de abuso sexual na Igreja Católica em Portugal. Tal ficou igualmente evidente na irracionalidade de ameaçar dissolver a Assembleia da República, ainda o Governo maioritário estava recém-empossado de meses, e no insano de repetir a ameaça quase a um ritmo semanal. Esta dinâmica de anormalidade presidencial conduziu a uma gravíssima crise onde Marcelo perdeu a noção das consequências dos seus actos, tendo usado o Expresso para fazer uma chantagem ao Governo. Igual anormalidade na saga do Conselho de Estado repartido e na decadência a que se entregou alimentando a perversão desse órgão, a violação do sigilo e a chicana da sua guarda pretoriana. Mas lendo retrospectivamente a partir do decote o seu comportamento, até a cena gaga em que atacou Ana Abrunhosa, nos idos de Novembro de 2022, era já manifestação do seu indisfarçável destrambelhamento.

O que me espantou nisto no Canadá foi ter ocorrido poucos dias depois do número da cadeira em que achincalhou uma mulher perante terceiros, grupo onde se incluía um primeiro-ministro e jornalistas a gravarem a humilhação. Tal significa que ele está em perda drástica de controlo sobre as suas emoções e a sua responsabilidade institucional — ou que fosse o mero cuidado em não magoar outrem ou chocar a comunidade. Atendendo à sua linguagem corporal nessas duas situações e às justificações inanes e infantiloides a que se agarrou, encontra-se matéria para nos interrogarmos sobre a sua saúde mental. O que leva à inevitável questão: quem não se sabe comportar em público com critérios adequados à função que exerce, saberá comportar-se em privado à altura do interesse nacional e do bem comum? Resposta: em privado, o caso é ainda pior. E basta acompanhar as notícias para o constatar. A sua actuação nem ao PSD serve, tem sido apenas absurda e degradante.

Com raras excepções, o comentariado censurou o decote. Das vedetas, apenas o Pacheco ousou fazer uma alusão lateral para atacar a Isabel Moreira sem a nomear. Esse silêncio é mais pesado do que a galáxia de Andrómeda. A cadeira já está a rachar.

Revolution through evolution

Sleep Plays a Major Role in Neurological Disorders – Getting Good Sleep May Help Reduce Risk
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New evidence indicates patients recall death experiences after cardiac arrest
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Antidepressants may reduce negative memories while improving overall memory
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Hobbies linked to lower depression levels among older people
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Healthy lifestyle can help prevent depression – and new research may explain why
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Large amounts of sedentary time linked with higher risk of dementia in older adults, study shows
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All work and no play will really make a dull life
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Continuar a lerRevolution through evolution

Dominguice

O estigma relativo à doença mental continua a existir, apesar de se estarem a esbater os preconceitos. A sua origem está no cristianismo, por um lado, e no iluminismo, pelo outro. Da religião veio uma literal demonização do doente mental, os seus sintomas vistos como obra de forças malignas. Este pensamento mágico onde entidades ou energias sobrenaturais causavam a perdição dos humanos, por sua vez, era já ancestral, primevo. Pela ideologia do iluminismo veio um reducionismo da realidade psíquica às faculdades lógicas, estabelecendo-se culturalmente um fundamentalismo racionalista onde a doença mental aparecia como degenerescência. De ambas as causalidades nascia um comum moralismo no qual o doente mental era visto como infra-humano, fosse por ter perdido a protecção divina ou por ter perdido a essência racional. O estigma, neste contexto, vem da ameaça à identidade do paciente por via da alteração das relações com íntimos, próximos e até distantes.

Na verdade, não só estamos quotidianamente rodeados por doentes mentais, em qualquer tipologia e grau, como a própria complexidade ignota da condição humana implica não podermos ter definições simplistas, unívocas, do que seja a saúde mental. Melhor será assumirmos que todos, sem excepção, ignoramos se precisamos de ajuda nessa dimensão da nossa existência. E se nos disserem que precisamos, pode ser que tenham razão.

Na prática, estes conselheiros são uns pulhas

Assinando por baixo as palavras da Penélope a respeito de Lobo Xavier, acrescento que foi penoso ver os seus parceiros de programa (onde se inclui um suposto jornalista) a não terem coragem moral, ou então decência cívica, ou que fosse a mera noção de respeito próprio, para denunciar a sua violação do sigilo a que está obrigado como membro do Conselho de Estado. Pacheco Pereira ensaiou sugerir que ele estava a vender banha da cobra pois a “mentira” que Lobo Xavier atestava não ter encontrado nos relatos sobre o episódio pode assumir várias modalidades, mas não o confrontou com a obscenidade cúmplice de estar a validar publicamente os boatos lançados para atacar Costa. Alexandra Leitão foi inane, nem sequer simulando ter algo a apontar ao que tinha ouvido de Lobo Xavier e refugiando-se em banalidades sobre a questão que beneficiam o infractor.

Quanto a Marques Mendes, no mesmo domingo de bombardeamento marcelista, a pulhice foi igual e ainda mais sórdida, pois aquele seu espaço de propaganda é sempre mais sórdido. Nele, a suposta jornalista com que faz parelha não gasta uma caloria a fingir que representa algum interesse público ou vago ideal relativo à carteira que lhe dá o estatuto profissional. Ela está ali para ser ponto do artista, e o artista usa aquela meia hora semanal para ser a voz da direita oligárquica, ao mesmo tempo que fantasia vir a continuar a sua carreira de comentador laranja em Belém.

Vale a pena ouvir a sequência de sofismas chungosos a que se entregam para amplificarem a utilização do Conselho de Estado como arma de arremesso político cujo fim é manchar Costa e desgastar o Governo. Vale a pena porque estas pessoas têm muito poder sociológico em Portugal. Começa com uma canalhice de manual: “Todos sabemos que Luís Marques Mendes é conselheiro de Estado, tem o dever de reserva em relação ao que se passa lá dentro, mas há aqui uma situação que podemos dizer que pode ser analisada em teoria: é que se é ou não normal que um primeiro-ministro, ou conselheiro de Estado, fique em silêncio?” Segue-se a “teorização” do tal conselheiro de Estado muito respeitador do dever de reserva em relação a um dos órgãos mais selectos e protegidos pelo sigilo em toda a República. Menos de 20 segundos depois, a “jornalista” passa da teoria à prática vocalizando “Tanto pode que ficou”, referindo-se ao primeiro-ministro num aparte que recebeu um “Exactamente” pelo tal conselheiro de Estado teorizador e exímio respeitador da deontologia, da ética, dos princípios e das normas que assumiu por inerência do seu distintíssimo cargo.

Portanto, Marques Mendes igualmente validou, e explorou, o comportamento degradante que transformou o Conselho de Estado numa câmara baixa do regime. Chegou ao ponto de argumentar que o silêncio era criticável porque os conselheiros estavam lá para aconselhar o Presidente, o que parece fazer algum sentido. Mas, por ter mais em que pensar, esqueceu-se de referir que o Presidente em causa já tinha previamente anunciado que dispensava conselhos pois o seu plano era o de montar uma moção de censura belenense.

Temos conselheiros de Estado que se acham no direito de espalhar boatos e difamações a partir do privilégio que a Constituição lhes concede para darem ideias ao Presidente da República. Seria um grave problema se esse Presidente não os tivesse escolhido precisamente para esse papel. Assim, fica apenas como mais uma protérvia da direita portuguesa.

À semelhança de Marcelo, António Lobo Xavier também sabe fazer figuras ridículas

Ouvi-o no Domingo, no programa da noite da CNN, “O Princípio da Incerteza”, sobre o “caso” do Conselho de Estado. Argumentação mais disparatada em defesa do seu estatuto e contra António Costa era impossível. Por um lado, declarou que, uma vez que Marcelo tinha mudado a natureza daquele órgão consultivo ao abri-lo a personalidades estrangeiras, por exemplo, não havia problema algum em que fosse agora um órgão mais aberto e informal, ou seja sobre o qual se pode vir falar cá para fora (deduzi eu como ouvinte); por outro lado, assumiu o papel de pessoa muito indignada e ofendida por o Primeiro-Ministro declarar que alguém estava exorbitar as suas funções e dar a entender que algum dos conselheiros presentes divulgou o que não podia ter divulgado, e ao que consta, de forma truncada ou mentirosa mesmo.

Ora, ele próprio, uma das tais pessoas respeitáveis, dignas e totalmente respeitadoras das regras que têm assento no dito Conselho, decidiu confirmar que o que outros disseram era verdade. E estar calado, não teria sido melhor opção? É que assim torna-se demasiado óbvio que só fala por ser ele um dos escolhidos por Marcelo e, evidentemente, em defesa deste. Como se António Costa não estivesse cheio de razão ao decidir não ter nada a dizer numa reunião cujas conclusões já estavam tiradas e escritas à partida. Pior prestação só mesmo a de Marcelo a tentar passar-se por extremamente amigo de António Costa depois do desplante daquele putativo “comício”.

 

Mais uma vez de acordo com Vital Moreira, de quem muitas vezes discordo, deixo aqui a sua opinião sobre este assunto:

Assim, não (6): O mal e a caramunha

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