É não só curial como oportuno celebrar a República recorrendo às palavras do mais alto representante da mesma, o Presidente da República. Porquê? Porque ele é o garante do regular funcionamento das instituições. Ou seja, tudo e todos dependemos dele, pois ninguém quer viver num país onde exista um irregular funcionamento dos órgãos de soberania, prelúdio do que seria um Estado falhado a curto prazo.
Pois esse senhor lembrou-se de dizer o seguinte:
«Em entrevista à TVI/CNN Portugal, na segunda-feira à noite, o primeiro-ministro, António Costa, voltou a criticar "fugas seletivas" do Conselho de Estado e manifestou a certeza de que o Presidente da República "cuidará da estrita aplicação da lei" e irá "garantir o normal funcionamento do seu órgão de consulta". Confrontado com estas declarações, o chefe de Estado contrapôs que "uma coisa é especulação, outra coisa é fuga de informação", salientando que no caso da última reunião ainda não foi aprovada a ata, que é o que "vale como verdade". Marcelo Rebelo de Sousa defendeu, por isso, que "é prematuro estar a dizer se aquilo que se chama fugas de informação foi fuga de informação ou uma mera especulação analítica no exercício da liberdade de imprensa". "Portanto, daí partir para teses acerca do regular funcionamento do Conselho de Estado é obviamente prematuro e não corresponde à realidade existente. Atenhamo-nos à realidade existe, até como forma de respeitar o órgão, e não, de forma, digamos assim, incidental, criar espaço ou supostamente criar espaço para diminuir o peso institucional do órgão", acrescentou.»
3 de Outubro
Perceberam? É o método Joana Marques Vidal, copiado de quando a ex-PGR aparecia sorridente a explicar aos jornalistas que as supostas violações do segredo de justiça não passavam, para ela, de uma fantasia. Primeiro, tinha-se de concluir as investigações, tratar da papelada, depois fazer uns inquéritos, coçar a micose, e só no fim (leia-se, daí a uns valentes anos) é que se poderia confrontar as alegadas violações do segredo de justiça com o que realmente constava do processo. Às tantas, não estava lá nada disso que na actualidade alimentava o linchamento político, social e pessoal deste e daquela na indústria da calúnia. O que, portanto, não poderia ser considerado uma violação do segredo de justiça, né? Donde, toca a circular, não há nada para ver e segue o vale tudo para os procuradores criminosos. A direita decadente adora a santa Joana por estes e outros predicados similares.
Marcelo é mais elaborado, porque tem ainda menos espaço de manobra. Daí ter de recorrer a uma chicana de vendedor de atoalhados na feira da Malveira. O seu desempenho está ao mesmíssimo nível da justificação que deu no Canadá acerca da boca ao decote da filha ao lado da mãe. No caso, substituiu o frio pela acta. E ainda conseguiu pintar Costa como o mau da fita, fulano que anda a criar problemas quando devia era comer e calar.
Ora, continuando a dar o máximo de atenção às palavras do senhor, saltemos para isto:
«O Presidente da República afirmou esta sexta-feira ter ficado ofendido com a quebra de sigilo sobre o conteúdo das reuniões do Conselho de Estado, salientando que, além da quebra, "havia uma versão que era o contrário da verdade". À margem de uma visita à Feira do Livro, no Porto, Marcelo Rebelo de Sousa foi questionado sobre as declarações do presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, que na quinta-feira considerou que fugas de informação sobre reuniões do Conselho de Estado são uma ofensa a este órgão de consulta e aos conselheiros. "Percebo que fiquem ofendidos, como eu fiquei, porque além da quebra do sigilo, havia uma versão que era o contrário da verdade em relação a mim", referiu o chefe de Estado, escusando-se a comentar novamente o tema.»
8 de Setembro
Percebem? Em Outubro estava já esquecido do que tinha dito em Setembro, altura em que para ele havia quebra do sigilo. Menos de um mês depois, a quebra do sigilo transformou-se em “mera especulação analítica no exercício da liberdade de imprensa”. Fórmula que passa a caracterizar as declarações de três conselheiros de Estado violadores do tal sigilo com o máximo impacto mediático possível: Lobo Xavier, Marques Mendes e Cavaco Silva.
O desconchavo acelerado de Marcelo Rebelo de Sousa, de que as suas palavras são prova incontornável, é uma das melhores homenagens a contrario ao ideal da república. Basta imaginá-lo como rei.