Há uma cronista do Público, uma pessoa que eu diria “pipi”, mas que milita, inconsciente do humor que suscita, pela causa comunista em 2023, que estagnou de tal modo na visão direita-esquerda do mundo que é capaz de aplicar esses conceitos rígidos e cada vez mais desajustados ao conflito israelo-árabe e, mais ridículo ainda, ao conflito Rússia-Ucrânia, a bem dizer a tudo o que acontece. Assim, ser de esquerda é estar contra os Estados Unidos sempre e em qualquer circunstância, mesmo que haja milhões de americanos susceptíveis de se enquadrarem na dita esquerda, alguns deles no Governo. Aliás, corrijo, nos Estados Unidos, é impossível, por força do capitalismo, haver alguém de esquerda. Os americanos, ao contrário dos russos e chineses (ah, espera), têm demasiados interesses em demasiadas partes do mundo… A sua catalogação é do mais fácil que há. Kennedy, Ford, Obama, Clinton, Biden? Não prestam.
O Hamas, se calhar, é de esquerda, já que luta contra Israel, um aliado e amigo dos Estados Unidos. Mas, oh diabo, a Catarina Martins diz que é de extrema-direita. E não saem disto, mesmo que decidissem concordar em qual extremo o colocariam.
Já a Rússia, a pátria da experimentação máxima da ditadura do proletariado, será para todo o sempre de esquerda, ainda que governada por um fascista e facínora, plutocrata entre plutocratas, imperialista puro, como outros no Ocidente e mais além já foram, embora já há algum tempo, que não admite adversários políticos e os manda sistematicamente eliminar. A Rússia é, pois, de esquerda (ainda que, para os jornais, se diga que não) e, como ditadura, muito aceitável, vá lá, muito “ignorável”. Porquê? Porque é contra os Estados Unidos. A Ucrânia, por sua vez, não passa de um antro de nazis, pois é o que diz o Putin, o ex-KGB inconformado, e, apesar de ter sido cruelmente invadida depois de convenientemente “desnuclearizada”, não devia receber ajuda militar para se defender, porque, lá está, a ajuda vem dos Estados Unidos e da Europa capitalista – tudo gente de direita, que são por definição contra os trabalhadores e só pensam em ser imperialistas e exploradores (não no sentido da Royal Geographic Society, claro está, mas, nem nos falem desses, que colonialistas insuportáveis). E não querem a paz, esses ucranianos, no fundo mais americanos que eu sei lá, porque não sei quê as fábricas de armamento. Não havendo armas haveria paz e assim os nossos “assets” putinistas poderiam descansar vitoriosos, silenciados os tais nazis por falta de combustível para resistir e retaliar.
No âmbito desta visão, a Carmo Afonso, porque é dela que se trata, dá-se agora ao trabalho de acusar o Rui Tavares de dizer, a propósito dos últimos acontecimentos em Israel, “coisas que agradam à direita”, como, por exemplo, que o Hamas é uma organização terrorista. Não pode, não é? Devia ter dito que os seus militantes são a resistência armada dos palestinos, quiçá um bocadinho violentos, mas quem não degolaria pessoas a eito para “libertar” o povo que oprime? Quem não massacraria jovens foliões pacíficos para impor um regime islâmico, teocrático e opressor, não é? Quem? O Rui Tavares é um traidor, pulou a cerca e não devia, pôs em causa o consenso do esquerdismo, e ela perde o pé e as estribeiras se alguém se atreve a deixar a ortodoxia assim desta maneira. Não se faz e a amizade dos dois está ameaçada. Oh, céus.
Não tenho mais palavras para tanta mediocridade. A esquerda da Carmo Afonso já teve melhores dias. Agora é a indigência e a desorientação totais.