«The third realm, finally, in which we move and live together with other people — the realm of privacy — is ruled neither by equality nor by discrimination, but by exclusiveness. Here we choose those with whom we wish to spend our lives, personal friends and those we love; and our choice is guided not by likeness or qualities shared by a group of people — it is not guided, indeed, by any objective standards or rules — but strikes, inexplicably and unerringly, at one person in his uniqueness, his unlikeness to all other people we know. The rules of uniqueness and exclusiveness are, and always will be, in conflict with the standards of society precisely because social discrimination violates the principle, and lacks validity for the conduct, of private life.»
Hannah Arendt
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Pertenço àquele grupo de malucos que não acha reprovável viver com dinheiro emprestado. Sei disso porque não acharia reprovável que um amigo, ou mais do que um, vivesse à custa do dinheiro que eu pudesse emprestar – sendo que já recorri a amigos por carência financeira em várias ocasiões. Sou até capaz de apostar 10 euros em como essa será uma prática usual entre amigos desde a invenção do dinheiro, os empréstimos. E mesmo sem o vil metal na equação, há muita outra coisa que dá para emprestar entre amigos; honi soit qui mal y pense. A parte do ser maluco está em assumir essa ideia no discurso público, e a parte do grupo tem a ver com o Arons de Carvalho, pois com ele já somos dois.
Os ditos empréstimos de Carlos Santos Silva a Sócrates são justamente alvo de censura moral colectiva, do meu ponto de vista, apenas e só por estarem a gerar uma dúvida legítima quanto à sua licitude. Essa dúvida decorre da racionalidade e toma inevitavelmente a forma de uma suspeita a obrigar a investigação judicial. E o processo respectivo, pelo simples facto de existir, é danoso em diferentes planos da avaliação da responsabilidade de Sócrates. Aqui só lidamos com a dimensão moral.
Os mesmos supostos empréstimos causaram problemas éticos a um conjunto indeterminado de pessoas que, também com plena razão, se sentiram traídas por Sócrates não ter partilhado com elas essa situação. Como não o fez, elas não puderam escolher afastar-se dele ou protegerem-se calhando reprovarem esses actos ou temerem pela sua segurança (devassa da privacidade, calúnias). Trata-se de uma questão ética por implicar uma proximidade vivencial que nasce da liberdade de cada um e onde se estabelecem responsabilidades mútuas nessa esfera, mas não tem de se relacionar com nenhum conceito moral.
Finalmente, a publicitação da existência desses alegados empréstimos despertou uma imparável exploração política desde o início do processo, a qual tomou proporções avassaladoras desde a semana passada com as declarações de altos responsáveis do PS a respeito dos problemas de consciência que a “Operação Marquês” causa ao partido. A política em causa é a partidária e tribal, onde o sectarismo e as dinâmicas do ódio enchem de energia a retórica inflamatória e castigadora usada. Porém, há lógica militar no alarido, pois o que se pretende é fragilizar o PS. Derrubada uma muralha, o silêncio institucional do PS sobre o caso antes de ele ter um desfecho judicial, agora o próximo objectivo é a caça ao escol socialista na tentativa de substituir a boa moeda pela má. Se conseguirem provocar o afastamento de algum “socrático”, é menos um recurso de qualidade que terão de enfrentar. Se os alvos resistirem, farão pontaria a Costa por estar a manter “corruptos” nos seus Governos e equipas partidárias. Em qualquer dos casos, é só vantagens para a direita decadente. Ficaremos a conhecer tudo acerca de Rio neste contexto – porque não haverá uma terceira via: ou alinha com os pulhas ou lhes fará frente, os mornos serão vomitados.
Provavelmente (sei lá), mais de 90% dos estudantes universitários seria incapaz de distinguir a esfera moral da dimensão ética, a começar logo pelo facto de ser uma distinção teoricamente questionável onde a semântica se mescla. Na destrinça que aqui faço, a moral corresponde ao domínio social e seu conjunto de normas, explícitas e implícitas, que identificam e regulam o comportamento aceitável e inaceitável numa dada comunidade. Quem nasce, se nascer humano, nascerá concomitantemente nalgum contexto cultural que inclui uma qualquer codificação moral mais ou menos cristalizada, mais ou menos plástica, e sempre mutável no espaço e no tempo. A ética pertence ao reino das relações privadas, nas quais a liberdade é a única lei. Ora, quando a política não passa da luta do poder pelo poder, as categorias morais e éticas são usadas como armas de arremesso. Os fins passam a justificar os meios e os assassinatos de carácter aparecem como a mais recorrente táctica de ataque político. Porquê? Porque é cognitivamente económica (fácil e rápida) e porque é fonte de recompensas hormonais (testosterona, dopamina e serotonina). Tentar destruir a reputação do adversário é um automatismo que define a baixa política. Esta práxis reduz-se à produção de insultos e calúnias, e o político reduz-se ao animal.
A problemática do dinheiro usado por Sócrates vindo de Carlos Santos Silva não é uma questão política antes da decisão judicial final sobre o caso. Se estivermos perante um caso de corrupção, essa descoberta levantará um problema político inaudito no regime. Se estivermos perante um caso de abuso da Justiça, a qual terá inventado uma acusação sem provas, essa descoberta igualmente levantará um problema político inaudito no regime. Constatar que Sócrates mentiu na esfera moral e na esfera ética não equivale a declarar que mentiu na esfera política – mesmo que haja consequências políticas das mentiras nos planos moral e ético. O máximo a que se pode chegar é à constatação de haver uma perturbação cívica a carecer de reparo judicial.
O que neste momento há para dizer sobre a responsabilidade política de Sócrates na temática da corrupção é isto: ao seu Governo se deve o reforço de instrumentos, legais e materiais, que permitiram essa muito maior capacidade de investigação da corrupção que o Ministério Público exibe nestes últimos anos. Tão eficaz foi essa produção legislativa que o próprio responsável político máximo por ela nela foi apanhado e logo metido no chilindró.