A 10 de Junho de 2019, com os mais importantes representantes do Estado e dos cidadãos soberanos hieraticamente perfilados ao redor da estrela convidada para comemorar Portugal, Camões e as comunidades portuguesas, ouvimos um discurso cuja palavra inicial, depois dos cumprimentos da praxe, foi “Eu”. Este pronome pessoal aparece 11 vezes no texto. Os pronomes possessivos “meu”, “meus” e “minha” aparecem mais 18 vezes. Trata-se do cimento lexical necessário para erguer e desenvolver uma narrativa heróica acerca de um certo portalegrense com uma história de vida impressionante. Tendo vivido e crescido ao cimo da Avenida Frei Amador Arrais, teve de sair da sua cidade para realizar o sonho de obter uma licenciatura. Um sonho nascido num jovem que foi obrigado pelo destino madrasto a ter de passar pelo desafio de ser filho de dois funcionários públicos, e de fazer o ensino básico e secundário numa escola pública, acabando fatalmente por se licenciar numa universidade pública. Apesar dessas adversidades, apesar das quatro horas de autocarro de Portalegre a Lisboa (duração igual para o regresso; ou seja, penalização a dobrar), e de a essa distância física corresponder uma ainda maior distância cultural pois os livros eram poucos e vendiam-se nas papelarias (incrível, não é?), apesar de o cinema só funcionar ao fim-de-semana (horror indescritível) e de as bandas que este jovem e amigos de rua e escola queriam ouvir não passarem por Portalegre (indescritível horror), ele foi subindo aos poucos na vida e chegou ali. Ali, ao palco de onde agora falava ao Povo. Ora, tal tem uma explicação, que o próprio magnanimamente se encarregou de nos oferecer. É que, no meio dos obstáculos todos que teve de vencer até chegar lá, ao ali, deu-se a felicidade de ter tido pais que investiram parte do salário a comprar livros e enciclopédias que chegavam pelo correio, a prestações. Quantos livros, quais? Quantas enciclopédias, e ficaram completas ou ainda há uns volumes a faltar nas estantes? Interrogações inevitáveis, imediatas, e mesmo lancinantes, que ficaram sem resposta na ocasião solene. Porém, desiluda-se quem pense que a audiência saiu de mãos a abanar quanto ao segredo do sucesso do orador. O próprio revelou que os seus pais tinham um plano para ele, o tal filho que estava ali no paleio de costas para um Presidente da República e outros tipos. Esse plano parental correspondia ao algoritmo “objectivo claro” + “um caminho para trilhar na sociedade portuguesa“, desdobrando-se nas seguintes etapas: lutar pela liberdade em 1974, lutar pela democracia em 1975, lutar pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80 e lutar pela entrada na moeda única durante a década de 90. Se vitoriosos de tantas lutas, o seu amado filho não teria de se limitar a 15 dias de férias em Albufeira, era a ambição que motivava os progenitores planificadores e lhes dava ânimo inesgotável. Pelo que o próprio João Miguel Tavares tem publicitado a respeito das suas férias recentes, podemos já com confiança declarar que os seus pais triunfaram plenamente.
Em 10 de Junho de 2020, abraçado pelos Jerónimos, vibrou no ar um discurso cuja palavra inicial, depois dos cumprimentos da praxe, foi “Agradeço”. Ainda no seu primeiro parágrafo, a primeira citação – «como pesa na água (…) a raiz de uma ilha», de Herberto Helder. Seguiu-se uma reflexão onde se cruzou o legado camoniano – literal e simbolicamente, a mátria lusitana – com o desvelamento da actualidade para atender ao que mais importa numa comunidade, a cidade de pessoas para pessoas. No último parágrafo, a última citação – «rasto do fulgor», de Maria Gabriela Llansol. A meio do texto, uma suposta citação de Margaret Mead, a anedota do fémur quebrado e cicatrizado. Anedota no sentido de historieta, mas anedota também para aqueles que se tenham sorrido, ou mesmo rido, com a profundidade interpretativa dessa micronarrativa. Súbito, dezenas de milhares de anos de criação e construção civilizacional ficam inscritos nas marcas de um fémur humano que teve tempo para sarar. Não é na biologia e fisiologia desse acontecimento que a nossa inteligência encontra a surpresa, o sentido e o encantamento. É no factor estritamente humano que com compaixão, generosidade e invenção introduziu na Natureza a novidade de ajudar e proteger quem está próximo e em grave carência. Este momento antropológico do discurso mostra, quanto à eficácia pedagógica, que estamos a testemunhar uma lição. E mais prova que a etimologia de lectio como apanha, colheita, tem em Tolentino de Mendonça um exímio artista. Deixou-nos em desenho uma linha que vem das raízes na água, passa pelas pernas no chão, e acaba com o olhar apontado ao fulgor do mistério de tudo e de todos. A linha de uma ave a levantar voo nesse preciso momento impossível em que está entre a terra e o céu.
✂
O 10 de Junho de 2019 serviu para que se promovesse um apelo à sedição de fantochada a partir de um palanque do regime. Para tal, a retórica e economia textual usadas tiveram de montar um circo demagógico e populista onde se apagou tudo o que foi e é positivo na comparação entre o regime democrático e o regime anterior. O que restou depois de se excluir o que nos liga na República é um mundo cão onde apenas o individualismo glutão conta, apenas se aponta ao que corre mal aqui ou ali, apenas se valoriza o que não se tem. Donde, cantarolou o profeta do regresso de Passos Coelho, a causa da minha situação infeliz, a culpa para a minha insatisfação insaciável, assim corre o mecanismo propagandístico, está nos que se distinguem por uma qualquer aparente superioridade ou percebida vantagem face a mim. Se eles têm sucesso, ou que seja só notoriedade, então tal só é possível porque eu não tenho sucesso, porque não há holofotes da fama apontados ao meu canto. As elites, os corruptos, os políticos (passe a tautologia) estão a roubar-nos, e tu, se quiseres ser como eu e chegar onde eu cheguei (olha para isto, pá, olha como “eles” me vêm comer à mão), tens de continuar a garantir que eu saco o meu ao fim do mês; ou seja, tens de continuar a papar o que te sirvo na manjedoura da indústria da calúnia, esse hino à impotência colectiva para proveito e gozo dos que enchem a boca com “verdades” ao gosto popular acabadinhas de grelhar. Aqui está a mensagem suprema da partida que Marcelo pregou aos portugueses – com a finalidade de interferir no ciclo eleitoral e de alimentar o linchamento de Sócrates e respectiva coacção da Justiça a seu respeito – quando enfiou João Miguel Tavares na lista dos que tiveram oportunidade para honrar a data e o que ela representa; algo comparável em imaginação exótica à partida dos “árabes” no Tavares Rico em 1971, só que no ano passado foi a sério, foi real, teve o selo do regime, mesmo que continue a parecer uma alucinação distópica.
O 10 de Junho de 2020 serviu para outras coisas bem diversas, deslocámos a atenção para o essencial da vida em comunidade, sentimos a passagem de um espírito são; mas numa coisa foi análogo ao ano anterior: permitiu que ficássemos a saber ter Ana Gomes gostado muitíssimo mais do penúltimo 10 de Junho. Essa normalização e defesa da pulhice, de que o seu apoio a um discurso soez e indigno de Abril é uma manifestação exuberante, acaba por produzir a mais harmoniosa das afinidades. De facto, no ano passado, a única personalidade a que o presidente das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas fez referência para além de si próprio e da sua família mais chegada (grupo onde se incluem os sogros e três mulheres que criaram a sua mulher, não esquecer) foi precisamente Camões. A única abébia que deu à elite, talvez por imposição exterior, consistiu em identificar uma das figuras que era dever protocolar comemorar no seu discurso. E só concedeu em nomeá-lo, sem o citar, porque tinha um conselho para deixar a professores e doutores: que se leia menos os Lusíadas pois já farta de tanta “exaltação patriótica”, se é para perder tempo com o zarolho que tragam os seus poemas giros com escravas boazudas. É disto que o povo gosta, vai sem discussão, pelo que estamos em condições de antecipar o futuro. Quando Ana Gomes for a presidenta, depois de pulverizar os corruptos com o seu fácies de imaculada furibunda, já sabemos a quem irá entregar o 10 de Junho para um encore. Não, padreco armado em poeta, tu vai lá para a tua Vitalina Varela da tanga e deixa-te de ilusões beatas. A regra da civilização não é a do fémur cicatrizado, essa foi a excepção. A regra é a da selva, onde os mais fortes comem os mais fracos, e onde os menos burros enganam os muito burros. Aprende com a gente séria, Tolentino, e tem cuidadinho com as más companhias.