Dia do Caluniador Profissional

Graças à inventividade gaiata de Marcelo Rebelo de Sousa, o 10 de Junho acrescentou ao seu frontispício simbólico de Dia de Portugal, de Camões, das Comunidades Portuguesas e do Anjo Custódio de Portugal o ficar também pelos pátrios séculos afora como Dia do Caluniador Profissional. Atento ao que foi o perfil dos anteriores presidentes da comissão organizadora das comemorações, sem excepção figuras de extensa e consagrada dedicação a trabalho com relevância cultural e comunitária, o actual Presidente da República pensou, idealizou, maturou, ouviu o sábio conselho dos sábios que o aconselham e numa iluminação súbita telefonou ao João Miguel Tavares. Foi ali algures no começo de 2019, ainda havia restos da consoada de Natal nas arcas frigoríficas da sua casa em Cascais, Marcelo despachou meia travessa de arroz-doce enquanto combinou com o fabuloso portalegrense a Operação Plebeu.

2019, ano eleitoral e de “Operação Marquês” numa das suas fases judiciais decisivas, como resistir? Tendo repetido amiúde que o seu papel é de nadador-salvador e veterinário da direita decadente, Marcelo decidiu transformar o 10 de Junho num comício. Para tal, foi buscar um fulano que estava num momento difícil da sua carreira pois já se estava a tornar insuportável até para os colegas de calúnias dado só ter um reportório: a obsessão consigo próprio e a disponibilidade mercenária para ser pulha. Ora, não há dinheiro para pulhas à esquerda, por falta de capital e vocação. O mercado da pulhice só tem uma cor e um cheiro, e são poucas as vagas para os operacionais estrelas. JMT dava provas de ser um homem para todo o serviço desde que lhe garantissem que ia continuar a ter os bolsos cheios a perseguir a sinistra esquerda e a poder aparecer na TV ao lado do Ricardo Araújo Pereira. Era o perfil ideal, repetia entre colheradas na travessa o ilustre cascalense. Agora, restava só pôr a cereja na coisa para o gozo ser completo, isso de mandar o Expresso, o Público e o Observador começar a espalhar que a surpreendente escolha presidencial tinha como finalidade defender o jornalismo. Gargalhadas homéricas atravessaram as redacções da nossa “imprensa de referência” enquanto alinhavam na marcelice.

Como estamos bem lembrados, o presidente da comissão do 10 de Junho de 2019 fez o melhor discurso de sempre e para sempre na ocasião. Segundos depois de ter terminado, as redes sociais explodiram de entusiasmo, os mais sérios políticos e as mais airosas vedetas juntaram-se à festa, e os restantes jornalistas celebraram o sucesso do seu admirado e invejado companheiro de tantas investigações e triunfos para a causa da verdade e da justiça para os mais fracos. Tomar conhecimento dos nomes de terras e pessoas relacionadas com o orador, e ficar com uma grande antipatia contra as malvadas das elites, foi teluricamente comovente para uma audiência saturada dos enfadonhos paleios dos intelectuais de esquerda e explica o fenómeno popular só comparável à reacção de transe espírita nas prédicas do saudoso Dr. Sousa Martins. Confronte-se com o que acabamos de ver ao longo do dia de hoje, uma apagada e vil tristeza como resposta ao discurso de Tolentino de Mendonça. Marcelo estará naturalmente arrependido de ter convidado alguém que não foi capaz de listar os nomes dos seus filhos ou de revelar por onde andou a passear em calções de banho. Uma desilusão armada em poeta, a citar pessoas esquisitas com frases que ninguém percebe, e que nem sequer deu um calduço aos porcos dos políticos para alegria do bom povo.

João Miguel Tavares é um cidadão com uma ideia clara, simples, já cristalizada na sua cachimónia, para Portugal. Consiste em afastar a esquerda da governação para que finalmente se consiga diminuir a presença do Estado tirânico e instituir-se um modelo meritocrático que passará a ser o critério para as esferas públicas e privadas. Como é que se aplicaria o conceito na economia, na saúde, na educação e etc., e com que efeitos imediatos e de longo prazo, isso é algo que ainda não foi publicitado pelo senhor Tavares; talvez por falta de tempo pois tem andado a tentar vender a edição impressa do tal discurso do 10 de Junho. Esta ideia do mérito, sem qualquer dúvida, é simples. Não espanta que muita gente sinta de imediato uma completa identificação pois não oferece a mínima dificuldade cognitiva; e, sejamos francos, se há quem mereça tudo e mais alguma coisa é cada um de nós, não falha. Só esquerdalhos e socráticos é que não a aceitam porque têm um pacto com o Diabo. Por aqui, Marcelo fez muito bem em ter oferecido o 10 de Junho a este visionário.

Acontece que João Miguel Tavares é igualmente um cidadão com outra ideia clara, simples, já cristalizada na sua mioleira, sobre Portugal. Consiste em acusar publicamente todos os políticos com representação parlamentar no regime democrático de fazerem leis cuja finalidade suprema, ou paralela, é a de permitirem que outros políticos, governantes e administradores públicos cometam sistémicos crimes de corrupção que ficarão impunes. Em que provas se fundamenta o senhor Tavares para fazer essas denúncias não sabemos nem sabemos quando as irá revelar, mas talvez a demora se deva apenas à falta de tempo pois vender várias edições do seu magnífico discurso do 10 de Junho não é pêra doce num país infestado de marxismo cultural. O que sabemos é que Marcelo Rebelo de Sousa – assim como todos os ex-Presidentes da República, todo os actuais e ex-deputados, todos os actuais e ex-governantes, todos os actuais e ex-magistrados que tenham exercido desde o 25 de Abril – é um dos tais ladrões arrastados para o pelourinho da indústria da calúnia pelo meritocrático Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em 2019.

Quod erat demonstrandum.

3 thoughts on “Dia do Caluniador Profissional”

  1. O personagem e o discurso do ano passado foram uma desgraça. Este ano foi como deve ser. Deslumbrante. Conteúdo e forma.

  2. Depois de ceder à tentação, enxovalhando a memória de Camões, só mesmo um Cardeal para ajudar Marcelo nos necessários actos de contrição e redenção.
    Piadolas à parte, o discurso deste ano foi um exercício de reflexão inteligente, erudito, digno e até emocionante. Por isso mesmo, a C.S. o ignorou.
    Só interessa o que faz “sangue”!

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