Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep8)

Os deputados têm direito ao uso e porte de arma, entre outros direitos especiais considerados adequados à função. Porém, não me lembro de ter ouvido ou lido justificação para esta permissão estabelecida no Estatuto dos Deputados. Será assunto tabu? Virá, ao contrário, do mais evidente senso comum? Será uma herança de tempos quentes e perigosos há décadas desaparecidos que permanece por inércia? Que se espera que um deputado defenda ao tiro ou à facada, quiçá sachada? Apenas o corpinho ou mais algum valor inerente ao seu estatuto? Enquanto a dúvida não se resolve, o outro espectáculo de vermos deputados armados em parvos é, infelizmente, de uma banalidade vexante.

Também não me lembro de algum político dos partidos da direita, ou que fosse um independente nesse território ideológico, que seja identificável pela paixão com que defende sonhos, ideias ou projectos políticos. Sonhos colectivos, ideias desenvolvidas com honestidade intelectual e projectos concretos para o País, para a comunidade, para os portugueses enquanto cidadãos e pessoas, defendidos por quem possamos apontar como representante da direita portuguesa, para onde olhar? Podemos esquecer aquele fulano que mentiu a estudantes menores, com a ironia sórdida de tê-lo feito no 1 de Abril de 2011, garantindo não ir subir impostos nem cortar pensões e que tinha o fetiche do “ir além da troika”. Impossível lembrar-me de um singelo exemplo construtivo e honroso pois não se encontra nem a sombra disso. A direita portuguesa, depois da fuga de Barroso – que anunciou ao povo laranja ir imitar o estilo de Cavaco, e que jurou querer ser primeiro-ministro como realização suprema de vida, e que rapidamente trocou o voto dos portugueses pela carreira privada – afundou-se na decadência. Primeiro com Santana Lopes, depois com a luta de vida ou morte face ao duplo pânico causado pelo poder político de Sócrates e sua equipa governativa, por um lado, e pelo terramoto financeiro que destruiu baluartes bancários da oligarquia, pelo outro. De lá para cá, as paixões políticas e cívicas desta direita decadente apenas se canalizam no ressentimento, no ódio, na caçada. Não lhes interessa qualquer tipo de actividade intelectual onde aceitem dialogar com os adversários e expor perante os eleitores algo racionalmente analisável e comparável, estão reduzidos à barricada do desgaste e do boicote. São perdedores assanhados, feridos. Rio prometeu, na campanha para presidente do PSD, conseguir fugir desse círculo vicioso e recuperar a decência, a inteligência e a coragem para a direita portuguesa mas a campanha que fez nas legislativas de 2019 foi mais do mesmo que temos visto aos pulhas. Ao lado, o CDS desapareceu e Ventura é neste momento o activo mais valioso da direita parlamentar porque em crescimento. Marcelo? Anda a apanhar bonés na Marginal.

Ignoro se João Paulo Correia alguma vez na sua vida disparou uma arma de fogo, talvez até nem nunca tenha posto a existência de uma mosca em risco. Todavia, no preenchimento da segunda ronda de perguntas a Vara (Ep7) constata-se como o vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS usou os seus privilégios de deputado para deixar uma imitação da direita decadente. Não fez uma única pergunta para a qual tivesse interesse na resposta, pois ele já tinha as conclusões que lhe interessavam, e a solitária finalidade do seu questionamento foi a de deixar registado que o zangado e bem nutrido João Paulo apertou com o Vara e disse-lhe das boas. O teor difamatório dos seus comentários, o tom sobranceiro e arrogante e – antes e acima de tudo – o seu silêncio perante o relato cru e ofuscante da golpada que foi o “Face Oculta” pelas martirizadas palavras da sua mais importante vítima, eis o retrato de um deputado traidor. Não seguramente traidor para o seu grupo parlamentar que combinou a estratégia hipócrita e vil para se protegerem da contaminação, a prova de que o PS de Costa é cobarde em matérias de Justiça, mas traidor em pleno face à missão e glória de ser um representante do Soberano.

Obviamente, tratar como traidor uma personagem tão séria e profissional, tão dedicada e rigorosa, é um estupendo exagero que só diz de mim e deste pardieiro para onde teclo. Seja como for, o cidadão que sou, apaixonado pela Assembleia da República como sede primeira da liberdade e da democracia, teria preferido que este deputado socialista e valentão tivesse optado por ter levado uma pistola para a comissão e gastasse o seu tempo a fazer pontaria a Vara em silêncio. Seria preferível à cena torpe de vê-lo armado em parvo por cagufa da pulharia.

10 thoughts on “Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep8)”

  1. Estás carregado de razão Valupi. Atrevo-me a avançar com uma modesta proposta, a única, aliás, que me parece poder redimir a injustiça feita. E o que proponho é que, desde já, a AR delibere que logo que falecido, não antes claro, o Armando Vara vá também para o Panteão.

  2. Face ao texto pensava ir ver de novo o anafado Paulo do PS contra Vara e afinal o vídeo é de novo, sim, mas da xica-esperta bloqueta Mortágua.
    Realmente que diferença faz ouvir novamente a Mortágua ou o João Paulo ou qualquer que seja uma vez, duas vezes ou cem vezes? Que acrescentam estas audições ao caso se se limitam a repetir e repetir as mesmas questões sem que tenham um novo dado, um qualquer novo elemento que introduza uma dúvida com lógica além da pergunta insinuosa carregada de um preconceito em toda assumpção plena da palavra como significado daquilo que é pré-concebido?
    O que impressiona nestas inquirições é a paciência e esforço de Vara em tentar responder com seriedade a perguntas insidiosas e repugnantes como as que Mortágua faz ao estilo de uma representação teatral de rancor e ódio em pleno palco tal qual o dos medonhos inquisidores medievais.
    Tudo é encenação de peça já concebida, estudada e julgada à priori que agora, sem nada de nada para acrescentar, é preciso ficcionar de novo e sobretudo dramatizar para simular um facto de crime provado.
    No fundo, estes senhores não defendem minimamente a liberdade e os direitos do cidadão e do homem, mas sim o seu poder de julgar e a pesporrenta auto-suficiência de condenar um adversário político.

  3. Neves, a repetição tem por objectivo tentar encontrar contradições ( já assistiu a algum julgamento ? Quantas vezes um advogado questiona uma testemunha sobre a mesma questão, tentando “apanhá-lo em contradição”, até enerva um observador ) e através da chamada de inquiridos novos, cruzar os depoimentos de uns e de outros .
    Não há fatos novos ?
    Talvez, mas não queira você talhar agora um fato de 100 pura lã virgem socialista para a o Armando Vara. O inquirido no final da audição, o Teixeira dos Santos, disse “falhamos todos” .
    Os fatos eram de várias proveniências, ora 20% lã – 80% poliéster, 50% lá, 50% cá ( quando dividiam os patacos entre eles ) e vá lá, ou vá lã, 25% mohair, no caso da Cardona, – que raio perfil e habilitações teria a Cardona, para administradora bancária?
    O mesmo diria para Maldonado Gonelha . Um comissário sindical . E tantos outros que por lá passaram .
    Difícil é nomear um que tenha gerido bem .
    E já agora, também você não acrescenta fatos novos ao texto original de Valupi, apenas exagera ( desce bainhas e põe as mangas mais compridas ).

  4. Não, nunca assisti a um julgamento e nem tenho vontade alguma de assistir: só o facto de ver videos como estes destes senhores e senhorinhas sem vida pessoal e completamente a leste do que é dirigir uma empresa e, para mais em tempo de crise universal, me arrepia o pensamento.
    Não assisti a julgamento algum mas posso fazer-lhe uma resenha familiar empresarial: O meu avô foi empreiteio de estradas ainda no Séc.XIX e depois de uma carreira normal de muitos anos acabou falido e, depois, como pequeno proprietário salvou o que restou; o filho, meu pai, que aprendeu como capataz com o pai dele e meu avô foi também empreiteiro de estradas durante anos e acabou quase falido, depois fez-se comerciante de mercearias e padaria e, novamente acabou em aflição e safou-o as pequenas propriedades que herdara; o meu irmão mais velho que começou a trabalhar com o avô aos 10 anos nas estradas chegou ser o maior empreiteiro de estradas do Algarve e aos sessenta anos faliu e ainda recuperou e acabou salvando o resto da vida; eu próprio com mais dois colegas fui fundador e sócio-gerente de PME e, depois de um crescimento constante apesar de várias crises prtrolíferas e outras em meados de 95 estávamos falidos e não fora as obras de última hora da Expo’98 e tínhamos estoirado.
    Já disse aqui que essa gente sem vida pessoal não sabe o que é gerir uma empresa donde tenham de retirar o pão do dia a dia, e pior, pensa que gerir é uma coisa matemática, uma equação género F(x)= x+2x que basta aplicar uns valores previsíveis à incógnita e pronto, o resultado é limpinho.
    Gerir uma empresa, um negócio qualquer que seja é sempre do domínio do contingente, do pragmátido, é uma caminhada pelo caminho do risco permanente, sob previsões arriscadas e definidas num futuro sempre incerto.
    Fazer inquéritos hoje sobre maus resultados empresariais após uma derrocada financeiro-económica geral europeia e ligando os fracassos das empresas a factores de corrupção onde não há prova material dela é uma falsidade e demonstração pura de que tudo não passa de assassinato de carácter dos adversários políticos.
    É, se quiser, fazer o mesmo que se está fazendo hoje com o julgamento actual da história ás avessas.
    Diz que que as repetições são para encontrar contradições. Mas se o homem já foi investigado e interrogado vezes sem conta por procuradores e juízes e acabou condenado sem prova material de crime mas por indícios, qual a intenção e o fim destas chamadas ao parlamento perante gente desclassificada face à justiça e nem sequer qualificada éticamente.
    Claro, se nem os incontáveis inquiridores magistrados e deputados encontram factos novos como quer que os encontre eu e é, precisamente, porque não há factos novos que tais inquéritos parlamentares se tornam politicamente uma farsa isuportável.
    E também o Snr. Florêncio Cacete não apresenta qualquer facto, nem novo nem velho, contudo permite-se insinuar que todos eram maus gestores e todos falharam; e falhar é crime ou corrupção?
    É caso para dizer, ora porra, que floreado do cacete!

  5. Agora já não, agora é virtuoso é abrir falência e logo após, abrir nova empresa ao lado.
    Como poderiam os deputados apresentar factos novos, se até certa altura, nem sequer actas havia, e documentos que foram pedidos à CGD, foram recusados com o escudo do sigilo bancário, e nem após intimação judicial foram apresentados?
    Portanto, os credores ( sejam os bancos, sejam os trabalhadores), que se lixem, os contribuintes, pagam o prejuízo ( sejam os empresários que gerem bem os seus negócios, nomeadamente com prudência, sejam os contribuintes em geral ) . Todos pagam, através dos impostos, os desmandos, as imprudências e em alguns casos, puras leviandades, que v. designa por falhanços, dos outros . Constitui isto algum crime ?
    Também não.
    Vivemos num mundo ideal, em que não há crimes económicos. Opera a lei das compensações.
    Daí que v. se aflija tanto, por, no mundo ideal de pernas para o ar, que tão bem encaixa na sua maneira de ver as coisas, alguns indivíduos serem expostos em público, por aquilo que de mal fizeram na sua actividade profissional .

  6. Caro Cacete,
    Antes de mais, para uma discussão séria, é preciso ter conceitos bem apreendidos e precisos para podermos falar das mesmas coisas.
    Não podemos falar à balda e dizer contradições como “no mundo ideal de pernas para o ar” porque num mundo ideal não é concebível que tal mundo esteja de pernas para o ar ou então não é um “mundo ideal”.
    Falar dessa maneira pressupõe à partida que discute qualquer assunto ao estilo de “à mulher de César não basta ser séria, tem de parecê-lo” o que lhe dá uma aparência de verdade e razão como remate de qualquer conversa vulgar.
    Mas isso é uma falácia de um juízo errado, uma mentira com aparência de verdade para conversa de café, não obstante ser corrente no jornalismo e até na literatura rasca.
    Se se é realmente honesto e sério porquê e para quê ter de parecê-lo? Só faz sentido na linguagem e nos métodos sofísticos de conversa fiada e, infelizmente, também usada por procuradores, juízes e deputados manhosos que à falta de factos de prova (muitas vezes falta de trabalho de rabo fora da cadeira do gabinete ou restaurante) servem-se da prova abstracta, metafísica, do parecer; «se não foi parece mesmo» ou o célebre “se não foi, pôs-se a jeito”.
    Mas, caro, num Estado de Direito regulado por Leis de justiça o “parece” não faz nem pode fazer parte da Lei nem se deve condenar ninguém por “sendo” o que é lhe faltar o “parecer”.
    O macrocosmos da Natureza e o microcosmos do homem regem-se por leis sujeitos ao princípio da realidade e não sob qualquer princípio de “aparências”.
    É, precisamente, o mundo de aparências que inverte o tal mundo real (ideal) de que fala.
    Essa inversão começou com a ideia de Deus que tudo regulava, ordenava e decidia lá do alto. Perante a actual ideia da morte de Deus muitos homens a quem atribuíram poderes intocáveis e inescrutináveis, sentem-se tentados a substituir os deuses por cá baseados, não já na fé, mas em falsos aforismos como esse da mulher de César a quem se exige que pareça ser para ser; isto é, que pregue uma mentira para ser verdade.

  7. O provérbio correcto é, “a mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita” e não como erradamente disse ( aliás, muita gente incorre no mesmo erro ).
    Portanto, o grau de exigência é até muito maior, e não há lugar a lucubrações como as que enumerou, indevida e infelizmente, utilizadas por alguns agentes judiciais e de comunicação social.
    Aplica-se, tout court, a demissões de, por exemplo, detentores de cargos públicos de relevo, em casos de escândalos, para não alimentar polémicas.
    Mas não e nunca em direito penal, e a meu ver nem devia aplicar-se a nenhum ramo de direito.
    Quanto ao que é e ao que parece ser, por favor leia, entre outros, sobretudo o Kant .
    Peço desculpa mas não tenho tempo para estar a alimentar longas querelas, servindo brigadeiro de colher . Não sou de todo, pessoa com manias de superioridade nem snobismo, simplesmente, em certos casos, é inútil prosseguir, às pinguinhas, quando os oponentes fazem finca pé e não arredam das posições irredutíveis em que se posicionam .
    E por favor, pare de armar-se em vítima, deixe-se de fazer figura de Calimero, eu já suspeitava que a “simpatia com a causa mor deste blog” tinha a ver com afinidade, – porventura já passou pelo calvário dos tribunais do comércio, – lamento os seus problemas ( que aliás não tinha obrigação de vir expor aqui em público ).
    Desculpe mas a sua argumentação é pobre, o conhecimento do assunto é escasso e só pode advir da comunicação social ( que conforme as conveniências, aqui, ora é apodada de vil, ora é de boa confiança) a repetição até à exaustão de chavões, é manifestamente exagerada, oca de substância, e ainda por cima, é réplica dos mesmos chavões que outros já utilizaram, e persistem em continuar a utilizar . Desculpe mas assim não dá, já cansa .
    Cordiais .

  8. O senhor Cacete foi à net e nem conseguiu discernir o que lá se diz o qual uma coisa é a resposta de César que cita e outra o provérbio a que deu origem e que eu cito para lha chamar a atenção para o que é e o que parece, entre o mundo real e o mundo da aparência.
    Todo o seu texto é um enredo confuso de explicações ad hoc que dá a perceber que não entendeu nada do que escrevi e provavelmente tem muita dificuldade em interpretar qualquer texto fora da vulgata.
    E por isso vem, com tiros para o ar como; “eu já suspeitava que a “simpatia com a causa mor deste blog” tinha a ver com afinidade” ou “porventura já passou pelo calvário dos tribunais do comércio” ou “lamento os seus problemas ( que aliás não tinha obrigação de vir expor aqui em público )”.
    Isto é, deita-se a adivinhar para insinuar um retrato psicológico da minha pessoa que me diminua.
    E cita Kant mas, alguma vez o Cacete, que não entende um simples comentário crítico num blog consegue ler e entender o dificílimo e rebarbativo Kant e as suas Críticas!

  9. Faz um livro, “Como falir, como quase falir, como falir e deixar de falir, e falir já está nos genes” que eu depois compro para aprender a ler.
    Mas faz aos quadradinhos .

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