Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep6)

A corrupção, entendida penalmente como crime cometido no exercício de funções públicas, parece ter tudo para ser uma das mais populares causas da esquerda. Neste entendimento abstracto, o PCP, muito mais do que o PS posto que muito mais estatista, dispôs desde o 25 de Abril dos quadros técnicos e recursos operacionais para montar um observatório da corrupção em Portugal que contribuísse para o combate a este tipo de crime e para a sua profilaxia social. A lógica é cristalina: roubar ao Estado é roubar aos trabalhadores, roubar ao povo, e não há quem defenda tanto o povo e os trabalhadores como o pessoal fixe que frequenta a Soeiro Pereira Gomes. Assim pensava eu quando era um bocadinho mais ingénuo do que sou actualmente.

Não só o PCP não criou essa entidade especializada em matéria tão patriótica e tão de esquerda como nunca fez da exploração dos casos de corrupção bandeiras legislativas ou retóricas, sequer comicieiras. Na verdade, não temos qualquer órgão de comunicação social que se possa identificar como tendo uma linha editorial de esquerda e, em simultâneo, onde se faça tabloidismo e sensacionalismo com conteúdos relativos à corrupção. Sejamos ainda mais exactos: em Portugal as suspeitas de corrupção, fundadas ou infundadas, legítimas ou ilegítimas, são uma arma de arremesso da direita – e há várias razões para tal ao dispor dos curiosos em ciência política. Basta recordar o Cavaquistão, uma época onde os meios na letra da Lei e nas tecnologias de detecção e punição eram um milionésimo dos que no presente são aplicados, e constatar que foi a direita a usar a corrupção para atacar a direita. Foi no tempo em que um certo jovem e brilhante jornalista jurava jamais vir a ceder à tentação de entrar na política, essa porqueira de corruptos. Ele era e seria sempre “independente”.

Como sabe quem tenha lido um editorial do Avante! (basta um), o PCP não gasta calorias com a suposta negociata que deu milhares ao secretário de Estado nem com os parangonados envelopes castanhos que encheram de milhões o ministro. E por duas principais razões. A primeira, por já haver quem esteja a fazer esse trabalho sujo, podendo os comunistas recostar-se e rir folgadamente ao ver os socialistas a serem assados no quotidiano parlamentar e nas perseguições dos impérios de comunicação da direita. A segunda, e fundamental, porque para o PCP é o próprio regime que é corrupto logo a partir da Constituição – leia-se: o 25 de Novembro assinala a data em que o processo contra-revolucionário começou a enterrar o Abril vermelho. Donde, todas as alterações ao texto constitucional que entretanto foram aprovadas no parlamento estão feridas de morte por serem contrárias ao projecto comunista tal como ele existia na mente de Álvaro Cunhal e respectivo Comité Central em 1974. Isto significa, senhores ouvintes, que no íntimo de cada vero comunista há a convicção de ser a Assembleia da República mais um instrumento do imperialismo capitalista. Naturalmente, quem quiser encontrar um defensor do Estado de direito democrático perderá o seu rico tempo a procurá-lo num qualquer recanto da Festa do Avante. Se os ideais liberais fossem coisa boa, Marx teria escrito isso ou parecido nem que fosse numa folha de couve, né?

A primeira intervenção do afável Paulo Sá (Ep5) é um espectáculo caricatural deste atrofio ideológico. O homem consegue gastar os dez minutos iniciais com uma pergunta sobre a legitimidade da CGD, um banco comercial, para fazer empréstimos a quem pretende investir em acções. A exorbitância da questão é tal que Vara começa por não perceber patavina do que realmente estava em causa no bestunto do interrogador, tendo optado por responder como se a intenção tivesse alguma coisa a ver com ele, o prisioneiro em Évora chamado ao Parlamento para, constava, prestar declarações no âmbito das suas passadas responsabilidades de administrador bancário. Seria de esperar que dedicar um terço do tempo disponível a problemática tão abstrusa naquele contexto obrigasse o deputado a justificar ao Zé Povinho donde vinha e para onde queria ir a sua linha de inquérito, só que não. Paulo Sá limita-se a ficar impaciente e amuado, nem sequer aceitando que os lucros assim obtidos pela Caixa nos empréstimos comerciais pudessem ser moralmente resgatados com a política institucional de ter um balcão da CGD em cada concelho do País, mesmo quando tal correspondia a operações com prejuízo local.

Enquanto Vara aproveitava as oportunidades para continuar a introduzir factos e argumentos nos registos da comissão, tentando relevar o óbvio e o implícito na defesa da sua honra e bom nome, o valente Sá reconhecia que as suas restantes, e agora convencionais, perguntas eram imitação de outras já feitas. Como se ele sentisse a obrigação de copiar um conjunto de perguntas que provassem estar o grupo parlamentar do PCP a “combater a corrupção”, tanto e tão bem que as suas interrogações foram também aquelas que os outros grupos faziam à vez – indiferentes às respostas iguais que iam obtendo. Estranho? Estúpido? Humilhante para quem assiste e é repúblicano e democrata? Sim, claro, mas não para quem se concebe como fazendo parte de uma tribo exilada no Egipto dos burgueses adoradores de falsos deuses e ídolos com pés de barro. Uma tribo com o Mar Vermelho ali ao lado, prontinho para o Moisés que o irá rasgar e permitir a passagem para a terra prometida onde a banca pública tem horror aos investimentos bolsistas.

5 thoughts on “Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep6)”

  1. o armando vara é um escroque , um espertalhão , um pato bravo , um saloio , ninguém o tramou. foi ele que achou que era um cisne negro , não era , era mesmo só um pato. ele e o amigo , o zézito , dois patos , cisnes ? nerón. tadinhos , os do ego inflado com hélio , que desaparece num instantinho na estratosfera.

  2. Valupi, o enredo deste filme, na minha opinião, é mau, o único episódio verdadeiramente divertido, foi o do Joe Berardo .
    E não foram as comissões de inquérito que tramaram Vara, quando ele foi chamado, já cumpria pena em Évora.
    O que, a meu ver, tramou verdadeiramente Vara, foi a opção partidária do próprio PS, que optou – a meu ver, mal – por se deixar enredar numa armadilha : destacar pessoal político seu, para uma área que, se politicamente bem orientado, não lhe deveria dizer respeito .
    Caso tivesse optado por uma linha política, genuinamente de centro-esquerda, deixaria a treta dos bancos, para a direita, para o PPD e para o CDS . O pessoal de direita, que gerisse.
    E, desse modo, estaria fora dessa polémica .
    Mas como as coisas ( o Mundo ), não são como são, mas sim, como as fazemos, ou como as vamos fazendo, o “jobs for the boys” e a trampa da porta-giratória, deu no que deu .

    Não resisto a contar aqui uma piada sobre o circuito do crédito, e a sua relação com a escassez do dinheiro ( o dinheiro real existente e em circulação é bem menor do que muitos de nós pensamos ) .
    Um sujeito entra num hotel, modesto, e manifesta ao rececionista a sua intenção de reservar um quarto para estadia. Este, esclarece-o que terá que fazer uma caução antecipada, em dinheiro . Coisa que ele faz . O dono do hotel, que estava de passagem, convida o hospede para uma visita guiada para ficar a conhecer melhor o hotel .
    Entretanto, uma pessoa que devia dinheiro ao merceeiro, decidiu ir pagar . O merceeiro, que devia dinheiro ao farmacêutico, utilizou o mesmo dinheiro, para ir pagar na farmácia . O farmacêutico, decidiu recorrer aos serviços de uma prostituta, e com a mesma massa, pagou .
    A prostituta, que devia dinheiro no hotel ( por motivo óbvio, um quarto ) foi ao hotel, e pagou o que devia .
    Por essa altura, a visita guiada tinha terminado, e, o hóspede decidiu que, afinal, não queria ficar naquele hotel, pelo que pediu a restituição da caução.
    O gerente, pegou no dinheiro com que a prostituta tinha saldado a dívida, e deu-o ao arrependido cliente .
    Moral da história : Caso aquela não tivesse pago o quarto, o hoteleiro não teria dinheiro para devolver a caução .
    Eis o circuito do crédito .

    A segurança social e o “princípio da solidarieda geracional”, são algo parecido : baseiam-se no esquema de Ponzi : os mais antigos – os pensionistas e os reformados – são pagos com o dinheiro (dos descontos) dos mais recentes, que são os trabalhadores no activo .

    A corrupção é uma coisa difícil de combater, desde logo por a sua investigação ser difícil, e pela sua punição se inserir no direito penal, que exige prova rigorosa .

  3. Há uma coisa que me chateia em Armando Vara: é demasiado educado. Aqueles canastrões ou canastronas não estão ali para esclarecer nada, mas apenas preocupados em criar sound bytes que os promovam, num qualquer ecrã perto de si, a heróis ou heroínas do dia. As perguntas não visam obter respostas, cada pergunta contém em si a resposta, acintosamente insinuada em tom de gozo, para gáudio bovino da manada, entretida a ruminar tremoços enquanto vai bebericando umas bejecas.

    Caros e caras, baratos e baratas (que também por aqui há, vide 23.41), respeito a opção educada de Armando Vara, a sua vontade de esclarecimento e a sua preocupação pedagógica, mas prefiro mil vezes a ‘truculência’ de José Sócrates, que sabe bem para que serve aquela missa, responde em espécie e não dá um tostão para o peditório.

  4. Também eu Camacho acho que com gente daquele calibre que não respeita nem atende às explicações mais que lógicas que lhes são dadas e onde bastava o cataclismo com origem na própria banca a qual levou a banca mundial à falência (salvou-a disso os Estados), se não compreendem uma tão evidente explicação que só por si explica praticamente que todas as previsões de negócios tivessem sido invertidas ou subvertidas então o que pretendem para além ridicularizar e humilhar mais uma vez alguém que já destruíram na ética da fogueira da praça pública e que por isso se tornaram gente desprezível sem merecimento que lhes dirijam uma palavra.
    De outra massa é feito Sócrates a quem tentam levar segundo a mesma ética perversa dos idiotas incompetentes que usam a ridicularização das respostas para obterem ganho político através da falsa opinião publicada.
    A propósito; porque será que Sócrates nunca foi chamado à superior investigação dos senhores juízes deputados da nação?
    Nem os Vidal, nem os Alexandre & Teixeira, nem o Pacheco (o flagrante falhado político que sem saber o que dizer ou perguntar acerca pede explicações, explicações e mais explicações), nem o Cavaco, nem os do eixo-do-mal ou os fedorentos do governo sombra nem, calculem, o “cm” do Dâmaso & Laranjo ainda o conseguiram destruir como indivíduo e personalidade como se sairiam frente a Sócrates aquelas tristes figuras a lerem e repetirem sempre os mesmos papelinhos com as mesmas perguntas idiotas de que, sem assunto para mais, elas próprias se riem alarvemente fingindo ter razão.
    Vara revela nobreza ao tentar fazer alguma luz naquelas cabeças tão cheias de preconceitos estilo chefe da PJ que diz “os corruptos levam muito tempo a ser julgados” cagando a sentença antes da prova de corrupção e respectivo julgamento.
    Mas revela inocência política e debilidade de convicção humana pois tendo sido acusado e condenado sem provas reais devia escusar-se ir a mais tribunais e responder à chamada dos senhores deputados que tendo sido condenado queria pagar todos os dias de prisão sem ficar em dívida um único dia sequer à meretíssima justiça que o condenou; pois que se o condenaram exemplarmente também queria cumprir exemplarmente.

  5. *** e condenado sem provas reais devia escusar-se ir a mais tribunais e responder à chamada dos senhores deputados que tendo sido condenado queria pagar todos os dias de prisão sem ficar em dívida um único dia sequer à meretíssima justiça que o condenou; pois que se o condenaram exemplarmente também queria cumprir exemplarmente. ***

    Apenas acresço que, devia, também, e tal com Eanes decretou, “e quando lá chegarmos, entregamos o ventilador para outro “ .
    Quando um blogger escrevinhou atacando Costa por causa dos políticos não constarem dos presos a libertar por causa da pandemia, Valupi “injectou” o tema para aqui, é por ser adepto do LIFO, Last in-first out, os últimos a entrar, são os primeiros a sair .
    O vírus, esse é adepto do critério FIFO, first in-first out, os primeiros a entrar, são os primeiros a sair, donde, a mortandade dos velhotes .
    Agora está a discutir filosofia com o vocalista dos Clash .
    Música erudicta, é outra coisa .

    Cordiais

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