À série


The Wire_David Simon_2002-03-04-06-08

«I think it’s one of the greatest not just television shows, but pieces of art, in the last couple of decades.»

Obama

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Premissa: a ficção televisiva não pode superar o cinema mas pode igualá-lo se conseguir o milagre de se transformar em cinema televisivo. Esse milagre aconteceu, tem nome e data. Quando, a 10 de Janeiro de 1999, David Chase apresentou Tony Soprano e sua famiglia aos telespectadores, estes descobriram que a vida atribulada, sofrida, do Tony era genuinamente cosa nostra. Cada episódio foi pensado como um filme, não fazendo qualquer concessão ao modelo publicitário das televisões nem à psicologia imatura e fragmentada dos seus públicos típicos. O realismo pretendido, e alcançado, não era o dos efeitos especiais e sua fanfarra irrelevante, antes o da profundidade e verdade das personagens à procura de si mesmas. Como nós, se estivermos lúcidos.

Salto para 2008. Chase passa a tocha a Vince Gilligan. Este trouxe-nos Walter White e o seu mundo. Um mundo onde só dá para entrar, de onde nunca mais se pode sair. E a prova chama-se “Better Call Saul”, a genial prequela que é também uma sequela. Há muitas aparentes tragédias nas salas de cinema e nos ecrãs de televisão que não passam de involuntárias, desmioladas ou reles comédias. Gilligan serve-nos altíssima comédia como entrada para o seu prato principal, nacos de tragédia clássica com molho narrativo e especiarias estéticas apurados à perfeição.

No entretanto, “The Wire”. O meu panteão do cinema televisivo tem estas 3 (que são 4) séries como objectos supremos de adoração. E o feito de David Simon – que não teria sido possível sem a sua tarimba jornalística e peculiar equipa; em especial, Ed Burns – acaba de atingir o zénite da actualidade com a execução pública e filmada de George Floyd. Quem ainda não viu pode correr para a HBO ou para um DVD perto de si e passar a abrir a boca de espanto várias vezes por episódio. Não há bons nem maus, não há caricaturas, não há simplismos. Há estruturas, sistemas, economia, natureza humana, geografia. E daí ser corrente considerar-se estarmos perante um olhar documental dada a detalhada e rigorosa verosimilhança dos enredos em “The Wire”, mas o segredo é outro. Sem o poder artístico da escrita, ao mais alto nível da tradição cinematográfica, não poderíamos desfrutar da companhia daquelas personagens e aprender com o tanto que têm para nos ensinar.

Ouvir o autor a falar da América é uma eulogia do que mais importa para o momento que a civilização atravessa, e que a eleição de Trump e de Bolsonaro, mais a vitória do Brexit, tornaram crítico. Esses fenómenos políticos foram e são acompanhados por disfunções e perversões sociais como o racismo e a xenofobia, o pasto dos instigadores e manipuladores dos medos e dos ódios correspondentes – enquanto à volta a crise climática e a catástrofe ecológica nos levam para consequências absolutamente desconhecidas na história da Humanidade.

Simon resiste a celebrar e promover o seu trabalho como artista, preferindo a interpelação cultural e cívica, e isso só nos faz amar ainda mais a sua arte. Aqui ficam exemplos do favor que nos está a fazer ao discursar na cidade para o bem da cidade:

2019 – Imperdível relato do que levou à sua expulsão do Twitter

2014 – Apaixonada, urgente, visão política

2016 – Presciência e frontalidade crítica preciosas

2 thoughts on “À série”

  1. Não poderia concordar mais contigo, primo. Mas eu acho mesmo que o Better Call Saul é a melhor série que vi até hoje.

    E menção honrosa para Tremé.

  2. Primão, compreendo-te. E simpatizo com entusiasmo. Mas recordo o efeito de proximidade, o qual favorece o que é mais recente e apaga chamas passadas.

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