Sermão da Guarda

Há um discurso do 10 de Junho que arrisca ser considerado definitivo, o de Jorge de Sena em 1977. Provavelmente, já só académicos, intelectuais da velha guarda e eruditos, à mistura com curiosos como aqui o pilas, estão em condições de perfilhar essa valoração. Jorge de Sena não é propriamente um nome que apareça com frequência no Facebook, desconfio, e o Twitter só se alvoroça com discursos do 10 de Junho quando eles são encomendados a caluniadores profissionais, aposto.

Para se conseguir compreender essas palavras lidas na Guarda há 43 anos é necessário ter diferentes e complementares conhecimentos acerca da História de Portugal, dos Lusíadas e do próprio Jorge de Sena. Tendo-os, não se concebe quem melhor pudesse comemorar numa reflexão de síntese oratória o programa completo do feriado em causa: nove séculos de perene pobreza, fugazes ilusões de grandeza e continuada diáspora; excepcionalidade de uma obra histórico-poética que ficou como bastião e fonte da identidade pátria para gerações de exilados em corpo ou alma; trajecto de resistência política e culto da liberdade vividos existencialmente por um especialista camoniano em vésperas de morrer – 12 meses depois, os seus pedaços repartiram-se no mundo pela última vez.

O texto oferece espelhos onde nos continuamos a rever. E há passagens de uma actualidade política e cívica fulgurante, inquietante, deslumbrante. Aqui ficam uns exemplos:

«Há quem diga e quem pense que celebrações como esta – de Camões ou das comunidades – são uma compensação para a perda ou derrocada do Império oferecida ao sentimento popular, e que isso das comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral.»

«Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos os que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu. Isto é, condenamos a vera ideia de “Resistência” que, modernamente, fomos dos primeiros povos da Europa a tristemente conhecer e corajosamente praticar. E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido e abatido.»

«Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para bem e para mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África. Momento decisivo dessa história do mundo, como eminentes historiadores insuspeitos de simpatias portuguesas ou imperialistas o têm proclamado e reconhecido. E, na verdade, esse encontro (e esse Império que, no tempo de Camões, com todos os erros e crimes, não era os impérios coloniais inventados pela Europa do século XIX, nem socio-moralmente inferior à desordem política existente então, como hoje, em toda a parte) simboliza aquilo mesmo que, mais tarde, nos nossos dias, veio a verificar-se. Porque as ideias de independência política e de justiça social pelas quais lutaram e ainda lutam os povos da Ásia e da África, e às quais se renderam os povos das Américas ao separar-se da velha Europa, não são as tradições tribais originárias por respeitáveis que sejam: são aquelas mesmas ideias que, geradas na Europa, da Europa se difundiram, tal como as naus do Gama partiram de Lisboa para uma das mais gloriosas viagens de todos os tempos.»

«Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião.»

5 thoughts on “Sermão da Guarda”

  1. Jorge de Sena, grande homem, escritor e pensador.
    Se o regime antigo lhe fez a vida negra, obrigando-o a exilar-se no estrangeiro, o regime saído do 25 de Abril quis usá-lo como exemplo de emigrante ilustre, como que representante dos emigrantes portugueses que continuaram a enviar para Portugal largas somas em divisas, resultantes das suas poupanças obtidas de vidas de sacrifícios no estrangeiro. Divisas essas que os governos saídos da revolução lambuzavam e se encarregavam de desbaratar no país endoidado. Creio que Jorge de Sena, homem amargo pelas duras circunstâncias da sua vida, sentiu essa manipulação, concretizada na abertura de palco para as comemorações do 10 de Junho. Propósito esse que rejeitou, afirmando ser escritor a residir no estrangeiro e não emigrante, mas aproveitando a ocasião para, tal como Camões muitos anos antes fizera com os “Os Lusíadas”, apresentar a sua esclarecida visão sobre este povo, texto esse que Valupi agora em boa hora divulga ou relembra aos mais esquecidos. Isto sim, Serviço Público.
    Em boa verdade penso que o novo poder não apreciava muito Sena, pois este não era homem que se deixasse domar em benefício de objectivos inconfessáveis dos novos senhores da guerra. Se não tivesse morrido logo em 1978 penso que rapidamente se incompatibilizaria com a maltosa então reinante, dada a sua mediocridade.

  2. resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos

    Pois, resistir a tudo o que pretende confinar-nos, incluindo o atual governo.

  3. Mais uma vez venho agradecer a possibilidade que nos dá de revisitar magníficos momentos do passado recente, post 25 de Abril , e em que a ideia de “recomeçar de novo e com oportunidade para todos ” ainda alimentava o nosso imaginário colectivo….

    O Discurso de Jorge de Sena é “majestático” !… e é de lê-lo todo …. no jornal “O Interior” , jornal da Guarda…
    …E em que também apareceu outro nome maior da nossa literatura, Virgílio Ferreira …. Anotar as diferenças com as recentes “comemorações”….

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