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Dominguice

Pessoas que são capazes de errar em tudo o que de essencial diga respeito a quem vive com elas debaixo do mesmo tecto, pessoas que não conseguiriam verbalizar o que as levou a ser como são e não como gostariam de ter sido, pessoas que não fazem sequer ideia do que se passa com a vizinha do 4º andar, esta multidão considera-se habilitada para explicar, com detalhe e prognose, o que querem e não querem Putin, Biden e Xi Jinping.

O espectáculo da estupidez consegue ser mais desesperante do que o da guerra.

Outrora agora

«O leitor deve estar certo de que, por aquele tempo, monopolizavam a curiosidade pública as variadas peripécias da Guerra da Crimeia.

Cecília era obrigada a ler aquelas descrições de carnificina que todos os dias enchiam as colunas dos periódicos; isto o fazia ela sempre com a cara contraída de desgosto.

Manuel Quintino era pelos aliados, José Fortunato esposava a causa dos russos — um e outro sem saberem bem porquê. Cecília era só pelos mortos e feridos.

Um dia, parou no meio da descrição de um dos mais sanguinolentos encontros dos dois exércitos, para interpelar o pai sobre a causa desta guerra implacável.

A pergunta embaraçou consideravelmente Manuel Quintino, que olhou para o Sr. José Fortunato, como a ver se lhe vinha auxílio dali; o Sr. Fortunato o mais que pôde dizer foi: — «Que a guerra era lá por causa de umas coisas.»

Cecília também não exigiu saber mais.

— «Os russos. — leu ela naquele serão — fazem fogo durante a noite sobre o campo dos aliados; estes abstêm-se de responder.»

— Têm medo — comentou logo o Sr. José Fortunato, com um sorriso.

— Isso é plano! — acudiu Manuel Quintino, com ares de quem entrava no mistério.

— «Os atiradores aliados respondem, porém, de dia com proveito» — continuava Cecília.

— Então? Era ou não era plano? Eu logo vi — exclamou Manuel Quintino, exultando.

— Balas perdidas — replicava o outro, encolhendo os ombros com desdém.

— «Os soldados — prosseguiu Cecília — pedem com entusiasmo ao general em chefe que dê a batalha» — e, acabando de ler isto, fez um gesto de aversão.

— Pois vão para lá! — respondia o Sr. José Fortunato, como homem que conhecia a preceito os recursos de defesa da praça.

— «Em Sebastopol há 2000 bocas-de-fogo» — lia ainda Cecília.

José Fortunato olhou para o seu amigo, com gesto provocador e triunfante; parecia que o convidara a atacar, propondo-se ele a defender com aqueles auxiliares.

Em seguida Cecília leu que Vassif-Pachá acabava de tomar o comando do exército da Ásia.

Foi a vez de Manuel Quintino pagar o gesto do outro, como se depositasse grande confiança no Vassif e nas operações campais do exército da Ásia. Mas o gesto de triunfo foi maior ainda quando ouviu que, a 30 de Janeiro, partira para a Crimeia Ulrich, que ele não sabia quem era, com a guarda imperial francesa; José Fortunato só teve, a compensar-lhe o receio desta acometida, a notícia de que estavam 6000 russos em Pruth.»


Uma Família Inglesa_Júlio Dinis

PCP-LSD

Dos mesmos que produziram, realizaram e trouxeram até nós o “Chumbámos o Orçamento porque Costa queria eleições e a maioria absoluta”, chega agora o “Putin invadiu a Ucrânia porque os americanos querem matar os ucranianos”. Aguarda-se em breve o lançamento do “Reduzimos para metade o grupo parlamentar porque o povo e os trabalhadores só queriam ter meia dúzia de deputados”.

Todos cobardes

Ivo Rosa, alvo de uma campanha de assassinato de carácter e de coacção em vários órgãos de comunicação social desde que foi escolhido por sorteio para dirigir a fase de instrução da Operação Marquês, surgiu referido numa escuta a suspeitos de tráfico de haxixe. Luís Agostinho, em telefonema à namorada, disse o seguinte: ““Olha, amor, aponta aí o nome do juiz Ivo Rosa e dá à minha mãe esse nome que ela precisa para mandar para o meu irmão (…). Aponta esse nome que é o nome do juiz para ele mandar lá para cima para fazer um trabalhinho. (…) É para dar 1.000 euros para ele fazer lá o que tem de fazer.” Em consequência, os procuradores desse processo de tráfico de droga enviaram a escuta que referia Ivo Rosa para o Tribunal da Relação e abriu-se um inquérito relativo à suspeita de corrupção do juiz.

Interessante, né? Mas a coisa é ainda mais interessante. Este Luís Agostinho fez o tal telefonema a partir do Estabelecimento Prisional de Lisboa, onde estava à espera de ir para prisão domiciliária. A 15 de Outubro de 2021 fora interrogado por Ivo Rosa, o qual negara ao Ministério Público o pedido de prisão preventiva e decidiu pela prisão em casa com pulseira electrónica. Enquanto os equipamentos de vigilância eram instalados na sua habitação, ele aproveitou para oferecer ao Ministério Público e à Justiça portuguesa um registo de voz onde se ficava a pensar que, às tantas, o tal Ivo Rosa é um bandalho que se vende por mil euros aos pilha-galinhas que lhe aparecem no tribunal.

Mas a cena é ainda mais interessante. Isto porque a Cofina, em cima das eleições legislativas (a 27 de Janeiro), lançou esta capa. Repare-se que o canto inferior direito também fica sumamente adequado à quadra eleitoral. A matéria do juiz odiado pela pulharia é anunciada como um “exclusivo” da revista. Quer dizer que algum agente da Justiça vendeu ou ofereceu à Cofina a informação para tão edificante e relevante capa. E mais quer dizer que termos uma escuta a referir Ivo Rosa num caso sórdido, a qual cai na Cofina em cima de um acto eleitoral, e isto no auge do conflito entre esse juiz e Carlos Alexandre, é uma série de coincidências de arrebimbomalho. Faz lembrar o Valentim Loureiro e a sorte que ele teve com a lotaria, a qual ganhou umas três ou mais vezes, sortudo dum cabrão.

Pois onde se atinge o interesse máximo neste episódio é na paisagem mediática à volta do mesmo. Silêncio absoluto nos editoriais e no comentariado. O mesmo silêncio absoluto que se decretou a respeito das razões para a constituição de Carlos Alexandre como arguido por suspeita de crime na forma como a Operação Marquês lhe foi parar às mãos.

Todos a assistir calados, todos cúmplices, todos cobardes.

Monumento semiótico

No dia 17 de Fevereiro de 2022, foi tornado público que o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu aceitar o requerimento de abertura de instrução apresentado por José Sócrates no âmbito do caso da distribuição manual da Operação Marquês em 2014, distribuição essa que deu a Carlos Alexandre o processo. Em consequência, o juiz Carlos Alexandre e a escrivã Teresa Santos foram constituídos arguidos. Se mais nada soubermos do que está aqui em causa, o facto, por si só, é manchete obrigatória em qualquer meio de comunicação social que se conceba como parte da imprensa.

No dia seguinte, o jornal diário que é líder de mercado em Portugal, Correio da Manhã, omitiu da sua capa essa notícia que tinha sido destacada noutros jornais, rádios e televisões. Qual a razão, ou razões, para tal? Seja o que for, necessariamente não diz respeito ao estrito cumprimento da função jornalística. Não existem critérios profissionais, sociais, lógicos inerentes à missão de informar o público que justifiquem essa omissão. A causalidade para o que fica como um acto de autocensura é outra, portanto. Qual?

Os (raríssimos) interessados na compreensão do fenómeno dividem-se em dois grupos: aqueles para quem a agenda política da Cofina é evidente; aqueles para quem não é sequer evidente que a Cofina tenha uma agenda política. Para estes últimos, segue breviário da situação:

– A Cofina utiliza crimes cometidos por magistrados para cometer crimes nos seus órgãos de comunicação.
– A Cofina, editorialmente, trata o PS como um partido de corruptos, pondo em letra o caudal de calúnias que a direita tem despejado desde 2004 contra as principais figuras socialistas.
– A Cofina faz propaganda aos elementos do Ministério Público que tenham processos de investigação a figuras do PS ou ligadas de alguma forma ao PS.
– A Cofina faz propaganda ao juiz Carlos Alexandre, o qual aparece sistematicamente tratado como “superjuiz” e herói da caça aos “corruptos” do PS.
– A Cofina, sistemática e ostensivamente, persegue e ataca o juiz Ivo Rosa.
– Carlos Alexandre foi alvo de queixa de Ivo Rosa relativa a atrasos no processo BES e, por sua vez, fez uma gravíssima acusação a Ivo Rosa, dizendo que coloca em perigo a vida de inspectores da Judiciária.
– O Ministério Público arquivou o inquérito que Ivo Rosa tinha solicitado ao extrair uma certidão relativa a “factos com relevância criminal” relacionados com a “distribuição manual” no TCIC que deu o processo a Carlos Alexandre.
– O Conselho Superior da Magistratura admitiu que o caso foi distribuído “diversamente do legalmente estabelecido”, apresentando “irregularidades procedimentais”, pois a distribuição não foi electrónica como deveria e podia ter sido no Citius no dia 9 de setembro de 2014.

Só o que em poucas linhas se pode reunir chega, e escandalosamente sobra, para sabermos que as incontornáveis dúvidas a respeito da entrega da Operação Marquês a Carlos Alexandre estão umbilicalmente ligadas com as peripécias e decisões que fizeram da detenção e prisão de um ex-primeiro-ministro suspeito de corrupção, em simultâneo, o caso mais importante da Justiça portuguesa e aquilo que Francisco Proença de Carvalho carimbou como “autêntico fiasco”. É um caso onde o Ministério Público teve o tempo que quis à disposição, começou a devassar a privacidade dos alvos irregularmente antes de existir um inquérito formal, gastou não se sabe quantos recursos humanos e financeiros, alimentou o julgamento e o linchamento na praça pública, conseguiu prender Sócrates durante 10 meses, e chegou à acusação pendurado numa miserável negociata com o probo Hélder Bataglia pois todas as pistas exploradas nunca conseguiram sequer identificar os supostos actos corruptos que validassem as certezas repetidas durante anos. Quando o processo foi parar às mãos de Ivo Rosa, só aí se tornou possível contemplar a dimensão do logro que os procuradores responsáveis, mancomunados com o juiz Carlos Alexandre, andaram a esconder – e o qual jamais teria sido exposto se este juiz justiceiro especializado em socialistas tivesse continuado com ele.

No célebre acórdão de Março de 2015 onde os desembargadores Agostinho Torres e João Carrola recorreram ao anexim “Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vêm” para ilustrar a sua recusa em terminar a prisão preventiva de Sócrates, entre outras gozações que lá deixaram felizes e ufanos, foi ampliada pelos jornalistas e comentadores a sua intenção de mostrar que se estavam a guiar pelas “regras da experiência comum”, acessíveis à generalidade dos cidadãos na sua universalidade empírica. Assim, não lhes parecia crível que Santos Silva fosse capaz de disponibilizar tanto dinheiro do seu a um amigo, acharam que tal não podia acontecer neste mundo, teria de haver marosca. E assim pensam milhões com eles. Ora, se também aplicarmos essas famigeradas regras da experiência comum ao que vemos acontecer no Ministério Público, na Cofina e com o juiz Carlos Alexandre, a que conclusões chegaremos?

Eu chego a esta: a Justiça portuguesa está, ipso facto, dominada por criminosos. Se a suspeita de ter existido um primeiro-ministro corrupto exigia a mais rigorosa e exaustiva investigação, mas ao mesmo tempo a mais prudente e implacável práxis para impedir explorações sensacionalistas e políticas, esta realidade quotidiana de termos órgãos de comunicação social como instrumentos de caça política e punição personalizada em conluio com magistrados criminosos é infinitamente pior. Porque o ex-primeiro-ministro suspeito nada pôde fazer para impedir que se capturasse a sua privacidade, até a sua intimidade, na feérica procura das provas dos alegados crimes. Mas quem domina os instrumentos da sindicância policial, quem tem o poder de utilizá-los arbitrariamente, quem é a autoridade da interpretação dos materiais capturados e registados, quem determina as consequências penais das inferências acusatórias, esses estão num plano de inatacável impunidade – a qual ainda mais se blinda ao dominarem o espaço mediático sem vagido de indignação, sequer contraditório.

O desaparecimento de Carlos Alexandre da capa do esgoto a céu aberto, escondendo dos borregos que o seu adorado carrasco ostenta agora ao peito a estrela amarela de “arguido”, é o grande monumento semiótico ao desaparecimento da coragem na comunidade que somos.

Ou não

A democracia permite que se desenvolvam as mais complexas e dinâmicas sociedades possíveis. Só a democracia o permite, por ter na liberdade e na Lei o simbiótico fundamento da comunidade. Mas com esta abertura à inteligência e à acção vem um obstáculo para muitos, potencialmente todos caso aconteça estar-se intelectualmente fragilizado: a complexidade causa fadiga cognitiva, e esta pode gerar confusão e fuga para reducionismos e simplismos – ao limite, a complexidade assusta quando não conseguimos agir nela.

Tente-se explicar o que é o Estado de direito democrático a uma criança. A partir de que idade tal devia acontecer? Só na adolescência? Algures nas vésperas de poderem tirar a carta e ir votar? Agora tente-se explicar o mesmo conceito aos adultos. Qual será a percentagem dos que não precisam de explicações e qual será a percentagem dos que, mesmo com os melhores explicadores, jamais vão conseguir entender o que está em causa numa noção fulcral do regime onde queremos viver? Neste devaneio, imagino que a quantidade de cidadãos que estão em condições de fazer uma exposição sobre as características e benefícios do Estado de direito democrático quando comparado com uma qualquer ditadura seja 100 vezes inferior à quantidade de cidadãos que se consideram habilitados para discorrer fluentemente acerca da “corrupção em Portugal”.

Trump, Bolsonaro, Putin e quejandos atraem aqueles para quem a democracia é fonte imparável de sofrimentos cognitivos. Os tiranos e tiranetes prometem resolver todos os problemas dessas pessoas baralhadas com o excesso de informação e com a abundância de opções recorrendo aos seus folclóricos poderes mágicos e à violência de quem lhes obedece. E espalha-se um conforto imediato nessa promessa, que é alívio da complexidade, descanso da democracia. O sonho infantil de ter quem decida por nós.

E depois, acorda-se. Ou não.

Revolution through evolution

Study shows differences between brains of girls, boys with autism
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Mental speed hardly changes over a lifespan
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Eating prunes may help protect against bone loss in older women
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Study reveals likely link between mitochondrial dysfunction and age-dependent cognitive disorders
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Impatient and risk-tolerant people more often become criminals, study finds
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The time a person spends on different smartphone apps is enough to identify them
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Can a planet have a mind of its own? Thought experiment
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Dominguice

O que há antes da identidade? O mundo. Primeiro, é o mundo; o suporte e dinâmica dos sentidos e da consciência. Só muito depois, o verbo. E o verbo se fez identidade. Esquecida do mundo, a identidade transforma-se no inferno do subjectivismo, do narcisismo, do egoísmo e seu imparável cortejo de ilusões.

Há que crucificar a identidade no X. Na interrogação. Só a curiosidade, essa mãe celeste, garante a alegria eterna.

Assuntos que não interessam a ninguém

Na constituição de Carlos Alexandre como arguido com a suspeita de crimes de abuso de poder, falsificação de funcionário e denegação de justiça, qual a razão, ou razões, para o desembargador Jorge Antunes ter recusado ouvir sete oficiais de justiça, a juíza Amélia Reis Catarino e a funcionária judicial Anabela Ferreira (afastada para dar lugar a Teresa Santos), tal como o ex-primeiro ministro pretendia, e ainda se recusando a juntar ao processo as entrevistas dadas por Carlos Alexandre?

A Justiça é volúvel

«A divulgação da detenção do jovem de 18 anos que estaria a planear um ataque na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa foi “precipitada” e “anormal”, no entender de Cândida Almeida, ex-directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), que considera que a comunicação “pode levar a que outros tentem a mesma coisa por simpatia” e fomenta o “pânico e o terror nas pessoas”.

Mas nem todos pensam o mesmo. A procuradora jubilada Maria José Morgado vê vantagens na divulgação de factos que, no seu entender, mais cedo ou mais tarde viriam a ser conhecidos, uma vez que um inquérito judicial passa necessariamente por muitas mãos. “Para repor a paz social e a verdade dos factos”, explica, sublinhando que isso mesmo é permitido no Código do Processo Penal.»

Fonte

Cândida Almeida e Maria José Morgado têm em comum muita e muita coisa, da formação especializada à longa carreira, do género à celebridade. Mas aqui estão elas a discordar radicalmente a respeito do mesmo assunto. Quem tem razão? Porquê? Quantos cidadãos portugueses conseguiriam explicar o que está em causa na divergência?

Trago esta notícia para ilustrar a irredutível e indelével ambiguidade inscrita no âmago das matérias judiciais – particularmente quando se prestam a ser exploradas pela comunicação social, cujo efeito é sempre pernicioso porque reina o sensacionalismo e a indústria da calúnia em vez da deontologia. Neste caso, a diferença de opiniões não aquece nem arrefece a assistência, sendo sociologicamente irrelevante e só interessando a investigadores e maluquinhos. Mas noutros casos, aqueles onde há políticos como alvos de procuradores e jornaleiros, este tipo de diferenças pode manifestar se vigora o Estado de direito ou o Estado ao serviço da direita.

O jornalismo como interpretação de realidades a ocorrer num futuro próximo

A SIC violou o artigo 69.º da Lei da Televisão quando recusou emitir o direito de resposta suscitado por João Pedro Matos Fernandes, na qualidade de Ministro do Ambiente e da Ação Climática, e João Saldanha de Azevedo Galamba, na qualidade de Secretário de Estado Adjunto e da Energia, deliberou a ERC. Que consequências terá este episódio, além da satisfação dos queixosos e da irritação dos talibãs capitaneados pelo mano Costa? Aparentemente, nenhumas de nenhumas. É assunto que não interessa a mais ninguém para lá dos directamente envolvidos. Porém, a ocorrência fica como mais um monumento à decadência da direita portuguesa, neste caso revelando a prepotência de que os órgãos de comunicação social, e seus directores e jornalistas engajados, desfrutam no relacionamento com os políticos, em geral, e com os governantes socialistas, em especial.

A emissão em causa é de 15 de Dezembro de 2021, a seis semanas de umas eleições legislativas. Nela, José Gomes Ferreira fez o que José Gomes Ferreira faz há décadas: mentiu, deturpou, lançou difamações e suspeições gravíssimas contra personalidades ligadas ao PS. Isto, portanto, carece de novidade. O que é novo é termos acesso aos critérios deontológicos de Ricardo Costa lavrados em acta. Eis o que o estupendo, genial, Übermensch, director de informação da SIC chutou para a ERC:

6. Sustenta a Recorrida que o jornalista «fez repetidos convites públicos, em direto, no próprio programa, para que os governantes viessem à SIC Notícias explicar o porquê» das suas opções energéticas, mas «[n]unca os próprios nem os seus assessores responderam positivamente a esses convites».

7. Refere que «[n]unca o jornalista disse que os Recorrentes são suspeitos de corrupção, mas sim que grandes leilões, concursos e concessões ocorridos nas duas últimas décadas em Portugal, estão envoltos em suspeitas de corrupção [...]», sendo opinião do jornalista «[...] que nos próximos anos os alvos das novas investigações judiciais sobre negócios da energia deverão certamente incidir sobre os atuais novos concursos, leilões e concessões».

8. Sustenta, ainda que «[o] mesmo sentido e alcance [...] é também aplicável à utilização da expressão “dar negócios a amigos”, não se podendo dela extrair, por si só, que são os Recorrentes os autores desse tipo de atividade».

9. Mais referindo que «[n]unca o jornalista questionou a legitimidade do Governo para tomar as iniciativas em causa, mas sim a oportunidade política para o fazer».

10. Entende, portanto, que se trata de crítica legítima do jornalista, «que a ela tem direito [...]», em particular porque, sustenta, é «um exercício legítimo de interpretação sobre uma realidade a ocorrer num futuro próximo».

11. Conclui, reiterando o entendimento quanto à “não justificação” do exercício do direito de resposta, «muito menos como reação a uma opinião crítica de um jornalista da SIC/SIC Notícias, visando exclusivamente o escrutínio público das questões supra».

Lemos isto e é inevitável imaginarmos o mano Costa a gargalhar, a babar-se e a peidar-se alarvemente enquanto teclava, ou via teclar, o “vão-se foder” que acima está citado. Parece então que a ideia da SIC era a de conseguir ter em estúdio um ministro e um secretário de Estado para o Zé Gomes continuar a desenvolver a sua “interpretação sobre uma realidade a ocorrer num futuro próximo“. E como eles se cortaram a participar no espectáculo, assim frustrando a legítima curiosidade da audiência a respeito desses “amigos” a quem estão a ser dados “negócios”, o mano Costa cortou-lhes o direito de resposta em retaliação.

No país onde gostaria de viver não seria preciso dizer mais nada após se tomar conhecimento do nível a que chegou o “jornalismo de referência” pago pelo Balsemão. A coisa vinha a público e haveria demissões no Grupo Impresa no dia seguinte. Simples, lógico, decente. Mas não é nesse país que habito. Pelo que colhe recordar o que o mesmíssimo José Gomes Ferreira lançou no espaço público em Outubro de 2020, quando acusou António Costa e Francisca Van Dunem de prepararem o controlo da Judiciária com a finalidade de conseguirem dar “negócios aos amigos”. E lembrar que a sociedade não protestou contra esta calúnia demente. Lembrar que a sociedade, o regime, a comunidade são cúmplices de um pseudo-jornalismo que, em comparação, faz das tabernas escolas de virtudes.

Revolution through evolution

Exercise post-vaccine bumps up antibodies, new study finds
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Changing your diet could add up to a decade to life expectancy, study finds
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Calorie restriction trial reveals key factors in extending human health
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Context-dependent behavior can make cooperation flourish
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Online Parenting Communities Pulled Closer to Extreme Groups Spreading Misinformation During COVID-19 Pandemic
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Hungry for love: Gut molecule discovered that flips the feeding-to-mating switch
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Research Demonstrates Importance of Consistent Branding in Political Television Ads
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Dominguice

Bento XVI, quando era arcebispo de Munique, foi cúmplice por encobrimento de abusos sexuais de crianças ao cuidado de sacerdotes católicos, de acordo com uma investigação independente alemã. O Vaticano reagiu dizendo que não há provas, embora admita que Joseph Ratzinger mentiu a respeito da sua presença numa reunião onde se debateu um desses casos. Porém, os homens do Vaticano consideram que essa mentira foi benigna, um lapso de memória que será irrelevante pois na tal reunião não se informou o futuro papa do que estava na origem da transferência do sacerdote em causa, apenas se disse que ele precisava de “fazer terapia” e pronto, assunto arrumado.

Felizmente, o deus dos católicos é omnisciente e omnipotente. Caso contrário, iria levar muito mais tempo a expulsar os demónios de batina e crucifixo ao peito que comem crianças e trocam os olhinhos aos papas.

Votaste no centrão e já sabias

Será possível encontrar matéria política onde PCP, BE e IL estejam perfeitamente de acordo? Sim, no que toca ao “centrão”. O centrão é uma entidade inorgânica e fantasmática que permite acusar PS e PSD de fazerem acordos debaixo da mesa para dirigirem e dividirem entre si os recursos do Estado. Visto da esquerda, o centrão está ao serviço do “grande capital”, servindo para explorar os trabalhadores e oferecer negociatas e carreiras à rapaziada partidária. Visto da direita, o centrão está ao serviço do “socialismo”, servindo para oprimir os empresários e oferecer negociatas e carreiras à rapaziada partidária.

Nesta verrina nada se prova, nada se justifica, tudo se difama e calunia. O facto é que os resultados eleitorais têm levado PS e PSD a alternarem-se na governação do País ao longo das décadas, tendo até chegado a governar juntos. Há nisto algum problema que tenha de ser evitado? A haver, a solução passará por acabar com as eleições, posto que são os eleitores quem tem considerado socialistas e sociais-democratas como as melhores escolhas para a produção de legislação e preenchimento dos cargos ministeriáveis. Os eleitores, livre e soberanamente, não têm acreditado que valha sequer a pena experimentar ideias políticas totalmente geradas e executadas para lá deste centro.

Aos restantes partidos, que acham não poder concorrer no mesmo mercado eleitoral, resta a diabolização da realidade. Se estão no poleiro outros tipos que não eu e os meus amigos, colegas, familiares, sócios, conhecidos, vizinhos, então é porque esses tipos não prestam e nada do que fizeram ou venham a fazer presta. Eis a singela e ctónica lógica a alimentar o chorrilho de bacoradas que largam embriagados de cagança e estupidez. Eles não fazem a mínima ideia do que aconteceria se as políticas alternativas que propõem fossem concretizadas, nem precisam de fazer. Caso se apanhassem com maioria no Parlamento e S. Bento à disposição, haveria muito tempo e boa disposição para adaptar as promessas ao que fosse adequado à nova situação: terem eles a faca e o queijo na mão.

Daí ser hilariante a intenção da IL de sentar o seu grupo de deputados no centro do Parlamento, precisamente entre o PS e o PSD. O sentido é o de se anunciarem como o verdadeiro “centro”, equidistantes da direita e da esquerda e, por inerência, à esquerda do PSD. Ou melhor, acima da direita e da esquerda, num Olimpo libertário. Pouco importa que o seu radicalismo económico e social seja literalmente de extrema-direita; agora que se fantasiam a apanhar o PSD, ou mesmo a ultrapassá-lo, de imediato querem iniciar a propaganda de serem percepcionados como o “novo centrão”.

Surpresa? Nenhuma, a começar por quem votou neles.

Assim fala um comunista

«Lê-se e não se acredita. Falo do comunicado do comité central do PCP, do passado dia 1, sobre a “análise” dos resultados eleitorais do partido e dos seus aliados da CDU, nas eleições legislativas antecipadas, de 30 de Janeiro de 2022.

No emaranhado das justificações, distingue-se a acusação de que “o PS, ambicionando a maioria absoluta, em convergência com o Presidente da República, precipitou a realização de eleições”.

O que o comité central não explica são as razões de fundo que levaram o PCP a chumbar o Orçamento, que não era pior do que outros que tinha viabilizado, provocando um sobressalto na vida do país. Mesmo que houvesse, como diz, uma conspiração na cúpula do Estado, por que razão cedeu à vontade de Costa e Marcelo, dando-lhes a deixa para a dissolução da Assembleia da República, que o Presidente da República repetidamente anunciara, caso o Orçamento não passasse? Que espécie de análise fez então a direcção do PCP para um acto de vastas repercussões, como estão à vista, incluindo as que se voltaram contra o próprio partido? Foi enganada? Foi atraída pelo abismo, como diz por aí? Na situação criada, o PS explorou, é claro, defensiva e ofensivamente, o erro crasso e a grave leviandade sectária do PCP.

[...]

A campanha eleitoral do PCP, centrada no furioso ataque ao PS, quase esquecendo a direita e até a extrema-direita, foi a continuação e agravamento do erro. Não está em causa a crítica mais que justa às insuficiências da governação do PS, a sua excessiva moderação e cedências à pressão do patronato. O erro foi o exagero de “deitar abaixo” essa governação, em coro com a direita, ocultando os seus lados positivos, como o combate à pandemia, que o país reconhece, a tentativa de identificar o PS com a direita, em que o povo não acredita, em suma, tratar o PS como inimigo principal.»


Carlos Brito