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João Miguel Tavares e André Ventura, unidos à nascença

João Miguel Tavares e André Ventura são dois casos miméticos de sucesso meteórico e retumbante na sociedade portuguesa.

O primeiro, até Sócrates o ter processado em 2009 por causa do artigo “José Sócrates, o Cristo da política portuguesa”, era um banal e irrelevante colunista sem conotação ideológica definida. Depois desse episódio, extremado por Sócrates que esgotou todos os meios judiciais na procura de uma reparação, este Tavares tornou-se numa super-vedeta da indústria da calúnia e do laranjal. Rapidamente, saltou do DN para o esgoto a céu aberto. Os 10 anos seguintes foram de crescente, sistemática e maníaca exploração do filão. A um ponto tal que, chegados ao início de 2019, ele já era uma anedota desvairada no seio da própria direita, a começar a perder a paciência para a sua obsessão disfuncional por ser agora fétida canalhice que se ia voltando contra os direitolas que não o coroassem como magno herói das Grandes Guerras Socráticas. Foi nessa fase de esgotamento da fórmula que lhe caiu na vaidade, ex machina, uma das mais altas honras da República: presidir à comissão das comemorações do 10 de Junho. À esquerda ouviram-se raríssimos e abafados protestos de indignação pela degradante afronta. À direita não se conseguiu esconder o espanto com o atrevimento burlesco de Marcelo e soltaram-se alarves gargalhadas com a justificação dada pela Presidência para a escolha, isso de ser uma homenagem ao “jornalismo”. O regime, portanto, validou e celebrou um caluniador profissional apenas e só por ser um caluniador profissional ao serviço do assassinato de carácter de Sócrates e do maior número de personalidades socialistas, e afins, que conseguisse apanhar na sua linha de tiro mediática.

O segundo, até Passos Coelho lhe ter oferecido o PSD como plataforma política, não passava de um comentador chunga que aparecia num canal por cabo chunga a falar de futebol com outros chungas. Qual o seu o currículo, à data, para Passos o escolher como cabeça de cartaz na importantíssima Loures? Uma simples publicação no Facebook em 2016, onde atacava os muçulmanos na Europa no contexto de um atentado em Nice, juntamente com as técnicas de emporcalhamento afinadas na CMTV, fizeram de Ventura o espécimen ideal para uma experiência inovadora em Portugal: testar junto de um eleitorado onde existissem conflitos sociais, insegurança e racismo larvar um discurso securitário e de xenofobia populista sob a chancela de um dos partidos fundadores da democracia. A obscena intenção foi tão descarada que o CDS-PP, honra lhe seja, decidiu romper a coligação com o PSD para essa autarquia. Nada que perturbasse o vale tudo de Passos e seus tenentes, bêbados de rancor por causa de 2015, que subiram para o palco com Ventura e lá ficaram a chocar o ovo. Depois Passos recolheu-se em Massamá à espera de uma manhã de nevoeiro e Ventura saiu do PSD para ir a Fátima aprender a fazer milagres. 5 anos mais tarde, o Chega é a terceira força política no Parlamento e a normalização de quem despreza os direitos humanos, de quem ameaça destruir os pilares constitucionais e de quem pretende instituir uma ditadura policial vai de vento em popa na “imprensa de referência” e no consulado de Rui Rio à frente do PSD.

João Miguel Tavares e André Ventura cultivam com fanatismo babado e asinino a imagem de Passos Coelho. Pintam-no como chefe mítico de uma direita triunfante, imperial. Uma direita capaz de correr os piegas a pontapé para além-fronteiras e de prender os adversários políticos por razões políticas. Daí a sinergia de agendas, o trabalho de influência que o Público e a TVI/SIC (até ao ano passado também a TSF) exercem ao darem ao caluniador profissional um prestígio máximo como moralista da Grei. Acham que o podem controlar, por não passar de um videirinho, e que entretanto a chicana contra o PS justifica os métodos mais sórdidos.

Enquanto o linchamento de Sócrates for mais importante do que o Estado de direito democrático para a comunidade que somos, o Chega continuará a crescer pois não passa da evolução lógica do que a oligarquia ordenou que o PSD fizesse a partir de 20 de Junho de 2008. Há um ecossistema político e mediático cristalizado onde se pratica o ódio político e se despreza a coragem constitucional. João Miguel Tavares e André Ventura enchem os bolsos à conta dessa decadência, dessa desonra colectiva.

Revolution through evolution

Wisdom engendered: Study finds men and women have different strengths
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Men with sex addiction may have elevated levels of the “love hormone”
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New research shows when and why people divulge other people’s secrets
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Brains of older people are not slower but rather wiser than young brains
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Brain function boosted by daily physical activity in middle-aged, older adults
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Healthcare Workers to Patients: Please Be Nice
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Brain shortcuts may be partially to blame for vaccine and mask non-compliance
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Do abraço do urso à figura de urso

Um dos clichés mais usados para atacar o inaudito acordo parlamentar que PS, PCP e BE fizeram em 2015 – pela primeira vez, desde o 25 de Abril, permitindo que um Governo socialista minoritário tivesse viabilidade à sua esquerda – é o do “abraço do urso”. A expressão sugere que bloquistas e comunistas teriam grandes prejuízos ao apoiarem um Governo socialista, enquanto o PS ficaria incólume e a desfrutar da situação. Logo no começo da XIV legislatura, o BE decidiu livrar-se desse abraço, passando para a oposição. Em 2021, o PCP igualmente se escapuliu, levando a que o urso caísse desamparado por falta de apoio.

Nesta imagem repetida à exaustão na campanha do Bloco desde 2019, o PS aparece como usurpador, causando danos a quem só lhe queria bem. No infantilismo do argumento, bloquistas e comunistas chegam a repetir que António Costa só foi primeiro-ministro em 2015 porque eles o permitiram. Donde, o PS está em dívida e devia fazer-lhes as vontades. Como se recusou, eles fartaram-se de tanto engano, tanta frustração, e castigaram-no com o chumbo do Orçamento e eleições num dos picos da pandemia. Para ele deixar de ser arrogante, manhoso. Para aprender a ceder à esquerda pura e verdadeira.

Mas poderiam comunistas e bloquistas ter recusado o convite de Costa para um acordo parlamentar em 2015? Seria tal concebível, voltarem a ser aliados de Passos Coelho depois do chumbo do PEC IV e da Troika ter aterrado na Portela, a que se seguiu uma governação de austeridade fanática? Obviamente, tal cenário talvez levasse a motins nas suas sedes partidárias, seria o fim do mundo em cuecas tamanha a revolta de militantes e simpatizantes. Pelo que a solução de acordo parlamentar encontrada não foi um favor ao PS e a António Costa como a sua patética demagogia apregoa, foi antes uma urgente adaptação de sobrevivência depois da irresponsabilidade trágica de Março de 2011.

Para lá de BE e PCP anunciarem que se estão a marimbar para o tal “povo” de que se consideram proprietários, preferindo interromper a legislatura e voltar a colocar o poder à disposição da direita, o resultado das eleições levou aqueles que fizeram hipócrita, sistemática e cínica campanha contra o abraço do urso a terem de arrastar agora a sua macambúzia figura de urso. Fica como pequeno consolo.

Completely SICk

«António Costa escreveu o manual "Como não fazer campanha eleitoral - Erros a não cometer". Conseguiu cometê-los todos. Ele pode estar a milímetros de acabar ingloriamente a sua carreira política. Não há cargos europeus para quem perde eleições neste cenário.»
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«António Costa partiu com aquela soberba que lhe é peculiar e acabou a fazer uma espécie de discurso de caixeiro-viajante à porta a vender escovas e sabões.»
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«Rui Rio foi mais claro desde o início. Disse "Eu não me importo, se perder as eleições, de viabilizar um Governo do Partido Socialista". Acho que os portugueses gostaram desta clareza.»
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«Há um cansaço imenso dos eleitores socialistas. António Costa, que tinha propósitos de maioria absoluta (que era evidentemente uma miragem), disse que "Eu vou governar à Guterres, com o PAN". O PAN! Como o Luís Pedro já disse duas ou três vezes, o campo quando ouviu esta maravilhosa ideia de ter o PAN a condicionar o Governo, o campo, quer dizer, soltou os bois, não é? Evidente.»
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«António Costa foi errático e isto dá uma aparência de desonestidade intelectual. E isso é muito grave.»
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«António Costa que era o conde de Lisboa, o homem das pontes, o homem da negociação, o homem que eu achava que podia ser enviado para o Médio Oriente... Olha, se nós enviávamos o Costa para o Médio Oriente era alcatrão e penas!»
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«Ele não é capaz de negociar consigo mesmo. Lá naquela bazófia, ele está visivelmente nervoso e sua de pânico porque sabe que pode estar a muito pouco de perder, e de perder tudo. E de rematar uma longuíssima carreira da pior maneira. Rui Rio está contente, evidentemente.»
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«O que António Costa ainda não percebeu é que há uma parte do eleitorado socialista que está cansada, e eu assisto com muita gente que conheço que sempre votou PS, e que diz "Estou farto do Costa", "O Costa foi um desapontamento". As coisas que António Costa fez mal, os episódios Cabrita, a má gestão da pandemia, Tancos, Pedrógão, essas coisas foram acumulando, aquilo que os budistas chamam o carma.»
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«E, portanto, há muita gente que diz "Bom, tudo se resume a uma coisa: devemos ou não dar (e é isso que vai no pensamento dos portugueses) uma oportunidade a Rui Rio de demonstrar que pode e é capaz de ser primeiro-ministro?"»
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«É evidente que tendo António Costa queimado a ponte ao dizer "Não preciso do PSD para nada" cometeu o erro político da vida dele. Se ele ainda não percebeu isto...»
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«António Costa devia ter vergonha, porque aquilo que ele devia ter feito - e provavelmente isso tinha-lhe trazido votos! - era ter dito "Eu negociarei e viabilizarei".»
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"A mim interessa-me particularmente o terceiro lugar. Será que a CDU mantém o terceiro lugar?!"

Clara Ferreira Alves – 27 de Janeiro de 2022

As sondagens funcionam?

A uma semana das eleições, num jantar onde estavam 5 eleitores, ouvi a 2 deles que tinham por hábito responder erradamente nas sondagens. Estamos, portanto, a falar de 40% de trapaceiros na minha amostra. A única divergência era que um se recusava a dizer que votaria no Chega mesmo que fosse para tourear os crânios que elaboram e interpretam sondagens. Realço que a ausência de informação em relação aos 3 restantes (grupo onde me incluo) não permite aferir qual o seu comportamento em situações análogas.

Donde, constata-se existir um relevante prazer perverso em ocultar as preferências políticas, e outras, e mandar para o ar quando somos interrogados profissionalmente o inverso da escolha real ou o que a aleatoriedade do momento gerar. Diferente será a sondagem à boca da urna pois aí tem-se o conhecimento de essa sondagem já não ir influenciar o resultado.

Moral da história: há uma complexa literacia acerca das sondagens entre o eleitorado, com efeitos dinâmicos em todos os jogadores durante a pré-campanha e campanha – tanto podendo ganhar entusiasmo nas hostes por aparecerem à frente e isso causar desânimo e abandono no campo dos adversários; como essa vantagem ou crescimento nas sondagens levar a perdas nos resultados, por igualmente causarem absentismo por excesso de confiança ou indiferença na sua base ou, talvez também o caso nestas legislativas, provocarem alarmismo nas bases dos adversários.

Quer isto dizer que as sondagens não funcionam? Pelo contrário, elas funcionam bem demais.

Começa a semana com isto

«Acho que o doutor António Costa está efectivamente na iminência de perder as eleições. E acho que ele, por aquilo que fez na política ao longo de toda a sua vida, que tem uma carreira política muito longa, podia perdê-las com dignidade. Espero que ele aproveite os últimos dias para, no caso de as perder, que é bem provável, que perca com dignidade.»

«Muita gente me conta que determinada pessoa votava no PS e vai votar no PSD, determinada pessoa não costumava votar e agora vai votar no PSD, determinada pessoa estava a pensar votar no Chega e afinal vai votar no PSD para tirar o doutor António Costa. Isto é que é, entre aspas, uma sondagem.»

«Eu procurei até dar um certo tom de humor, aqui, acolá. Aquilo que eu pretendo é brincar. Não têm sentido de humor? Têm de ter sentido de humor.»

«Ich habe auf Portugiesisch gesagt

Excertos do pensamento político de Rui Rio

Revolution through evolution

Late-life exercise shows rejuvenating effects on cellular level
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Players needed to solve puzzles and help advance cancer research
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How to ruin the taste of a cookie with just two words
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Look who’s talking now: The fishes!
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Song sparrows shuffle and repeat to keep their audience listening
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Trump’s Tweets: Telling Truth From Fiction From the Words He Used
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The Word On Wordle
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Aspirina marada

A partir da meia-noite de sexta-feira, os utilizadores deste blogue passaram a ter um aviso à porta, alertando para perigos vários. Tal resultou de não se ter renovado em tempo útil o certificado de segurança anual, operação que consiste em enviar 10 euros para os camones. Apesar de logo no começo da madrugada a situação ter sido financeiramente regularizada, os avisos continuaram ao longo de quase todo o sábado por razões que ignoro ou talvez por terem um computador a vapor a tratar dos refractários.

Aproveito para esclarecer que o alarmismo do aviso, relativo ao roubo de informações, não se aplica a este blogue pois nele não se fazem transacções que envolvam pilim (o e-commerce). O único roubo a que se sujeitam os incautos que passam por cá é relativo ao seu rico tempo. Porém, o aviso é genérico e bondoso no seu sensacionalismo. Quanto ao certificado de segurança em causa, a única garantia que dá é a de se estar no único, oficial, verdadeiro Aspirina B. Não que este pardieiro suscite imitações mas por 10 euros ao ano dá para fantasiar que esse registo tem importância.

Quanto a comentários que vão parar ao “spam”, algo que acontece de quando em quando, essa é uma selecção automática do sistema de defesa contra o lixo (excluindo uma eventual lista de critérios para exclusão de utilizadores específicos). Escapa-me a lógica que leva utilizadores frequentes a terem os seus comentários retidos, especialmente quando estes não incluem nenhuma ligação (os “links”, típicos do “spam”). Mas pode acontecer a qualquer um. Se for o caso, deixem um aviso pois ninguém me/nos paga para estar 24 horas por dia com a cabeça enfiada na lixeira.

Dominguice

É preciso ser-se completamente ignorante para achar que se sabe tudo. Esta noção não é nova, faz parte da tradição sapiencial, tem milhares de anos. Mas há milhares de anos, quando isto já se sabia de bem saber, a informação disponível para os neurónios falantes de outrora talvez fosse um trilionésimo, ou menos, da que se vai acumulando instante a instante na civilização científica e tecnológica onde vivemos. Aqui e agora, cada vez sabemos menos por estarmos sempre a precisar de conhecer mais e mais. E precisar de conhecer mais implica estabelecer relações de comunicação e parceria com os outros que conhecem mais do que nós alguma vez viremos a conhecer. Então, actualizando a sentença, é-se sábio quando se acha que precisamos completamente da parcial ignorância dos outros.

Um político exibe a sua ignorância perigosa na relação directa em que manifesta o seu sectarismo. Essa alucinação de achar que se sabe tudo, de só contar com aqueles que lhe alimentam e protegem a profunda estupidez.

Bute reflectir nisto

A eficácia fascista

Antes de 1974, quando todas as polícias eram políticas, os polícias eram eficazes. Antes de 1974, quando todos os tribunais eram políticos, os juízes eram eficazes. Trabalhei com polícias e juízes que tinham a nostalgia dessa eficácia, dessa felicidade cinzenta em que se respeitava a autoridade e todo o contraditório era subversivo. A eficácia fascista foi um exercício de controlo social e político que não pode, não deve, servir para aferir a eficácia democrática.


A.R.

Acerca do voto útil

Se a escolha dos governantes fosse uma competição racional, aferindo as suas competências para garantir segurança e liberdade ao maior número de cidadãos, o PS recolheria 99% dos votos daqui a 48 horas. É o único partido, actualmente, que reúne o ideário e os recursos humanos para desempenhar com o máximo de eficiência e de eficácia possível uma actividade – o governo de um país pertencente à União Europeia na conjuntura internacional de 2022 e anos seguintes – onde a gestão da sempre crescente complexidade exige menos “verdade” e mais “prudência”, menos “sectarismo” e mais “miscigenação”, menos “revolução” e mais “evolução”.

Uma vitória do PS é preferível à vitória do PSD em qualquer cenário. Com maioria absoluta, a governação ganharia qualidade e rapidez (continuando a ser discutível o acerto das políticas, óbvia e inevitavelmente). Com BE e PCP a garantirem maioria parlamentar, a governação manteria o registo de centro-esquerda que nasceu em 2015. Com o PSD a viabilizar um Executivo socialista, a governação seria mais ao centro, não permitindo que o pior da direita tivesse consequências governativas. Se o PSD ganhar, qualquer cenário é prejudicial para o interesse nacional. Se governar com acordo do PS, ficaremos na mesma estrada mas passaremos de cavalo para burro. Se governar com CDS e IL, entraremos numa outra estrada que não se sabe onde vai dar, guiados por quem mostrou não ser confiável na sua palavra, nem nos seus princípios, nem na sua inteligência política. Se governar com CDS, IL e um qualquer tipo de acordo com o Chega, saltaremos para fora da estrada e poderemos dar por nós a cair num abismo onde tudo o que Ventura mostrou ser capaz de dizer e ameaçar fazer fica validado e destinado a crescer.

Dito isto, não irei votar PS. As razões são as mesmas que me levaram a não votar PS, para as legislativas, em 2019, 2015, 2009, 2005 e o mais que a memória alcance. Votei em 2011 para defesa da Assembleia da República e da democracia portuguesa, esse risco não se põe nestas eleições. Pura e simplesmente – dada a responsabilidade do PS no regime desde o 25 de Abril e a abundância de quadros e simpatizantes altamente qualificados em todas as áreas do saber – acho inamissível que este partido não resolva, ou sequer diga como se podem resolver, os problemas da Justiça. E se na dimensão da Justiça penal vivemos uma crise que factualmente está a pôr em causa o Estado de direito, no campo da Justiça administrativa vive-se um outro tipo de crise igualmente devastador para a economia, as finanças e a saúde mental dos portugueses. Constate-se o que foi acontecendo ao longo da campanha, onde suspeitas de gravíssima actividade criminosa de magistrados e seus colaboradores na indústria da calúnia foram expostas sem que sequer o tema da Justiça tenha entrado no debate dos candidatos à sua tutela. E conclua-se que essa anomia, se não for cobardia, irá continuar sem que o meu voto me tinja de cumplicidade.

Nenhum partido capta a minha adesão pois nenhum fez da defesa do Estado de direito democrático a sua bandeira, ou que fosse tão-só uma das suas bandeiras. Calhando aparecer esse partido à esquerda, centro ou direita (inclusive se fosse o PAN, o PPM ou o Partido Unido dos Reformados e Pensionistas) teria o meu voto. Neste deserto, opto por votar Livre, fazendo dessa opção um autêntico voto útil. Isto é, espero que Rui Tavares seja eleito, pelo menos ele, e que a sua presença no Parlamento seja útil – para que a racionalidade do bem comum tenha mais uma voz, e a irracionalidade do sectarismo e do ódio ganhe mais um implacável adversário.

Louçã também vai a votos neste domingo

Na direita, Cocó, Ranheta e Facada já anunciaram que continuarão ao leme dos seus partidos, seja qual for o resultado eleitoral, sendo que as sondagens têm permitido que andem a sonhar com um acordo a 4 (mais a IL) para ocuparem S. Bento e meterem os portugueses na ordem. Na esquerda, ao contrário, há a certeza de termos alterações na liderança e a possibilidade de elas atingirem PCP, PS e BE ao mesmo tempo. Seguramente que estas foram as últimas eleições para Jerónimo de Sousa como secretário-geral do PCP, António Costa abandonará a mesma função no seu partido se os socialistas não forem os mais votados, e aos bloquistas coloca-se a questão do sentido de terem Catarina Martins a repetir a estratégia de Louçã para o futuro do Bloco.

Quem tiver menos de 30 anos, quiçá menos de 40, não conheceu o entusiasmo que as eleições de 1991 trouxeram aos que então já se angustiavam com o bloqueio partidário à esquerda. Tudo por causa do candidato do PSR, um certo Anacleto de 35 primaveras, que ficou a 200 votos de ser eleito para o Parlamento. Resvés Dona Maria, a localidade em Sintra que tinha boicotado o acto eleitoral por falta de água canalizada e saneamento básico, e que foi transformada no centro nacional para levar esse esquerdista inteligentíssimo, arejado e moderno para junto da maioria absoluta de Cavaco. Com esse objectivo, os eleitores grevistas da Dona Maria só teriam de dar os votos necessários ao rapaz, assim se vingando do laranjal que os desprezava. O candidato foi lá e tentou convencer a malta a meter o pauzinho na engrenagem. O próprio António Costa, que liderava o PS em Lisboa, deslocou-se à Rua da Palma, onde estava a sede do PSR, para manifestar o interesse do PS na eleição dessa grande esperança da política nacional. A sua eleição não aconteceu nesse ano, pois Dona Maria não quis mesmo ir a votos nem para dar tal satisfação à esquerda e irritar a direita. Francisco Louçã conseguiu entrar no Parlamento 8 anos mais tarde e, como recorda Fernanda Câncio, «ainda há no Bloco quem se lembre de que este foi apresentado, em 1999, na sua criação, como o novo partido à esquerda do PS que, ao contrário do monolítico e inamovível PCP, estava disposto a fazer pontes, a puxar o PS para a esquerda e até, talvez, a governar. O BE que surgia, com o seu grupo parlamentar paritário e sem gravata, as suas causas igualitárias, feministas, ambientalistas, como a lufada de ar fresco de que a esquerda portuguesa tanto precisava, um possível “desempatador” de um panorama parlamentar em que a direita conseguia fazer maiorias compostas e a esquerda nunca.»

Salto para a madrugada de 28 de Setembro de 2009. Louçã apareceu eufórico, tinha destruído a maioria absoluta do PS e ficado pela primeira vez à frente da CDU, com a entrada no pódio a menos de 1 ponto percentual. A exploração da crise dos professores correra excelentemente bem aos bloquistas, tendo recebido 200 mil votos dessa classe e seus familiares que se queriam vingar da tal “bruxa”, como lhe chamaram em cartazes ostentados sem a mínima vergonha, que teve a ousadia de propor uma real avaliação dos docentes. O êxtase com que discursou nesse momento, dando o verbo à alucinação de uma “esquerda grande” de que ele se considerava o Napoleão, é o evento inaugural da entrada da Troika em Portugal menos de 2 anos depois, e é também o que explica o chumbo do Orçamento e consequente queda do Governo socialista 12 anos mais tarde. Isto porque, logo em 2009, vendo-se com poder para tal, Louçã revelou que não queria negociar com o PS, teria de ser o PS a negociar com o BE – isto é, os socialistas teriam de capitular, arrependerem-se, converterem-se à esquerda verdadeira. Jamais Louçã, depois da fulgurante ascensão, iria perder a possibilidade de tentar realizar o que a sua megalomania delirava. Caso os socialistas não lhe depusessem as armas capitalistas aos pés, pagariam o preço de serem derrotados as vezes que fossem precisas. E assim foi, em 2011 Louçã preferiu oferecer a Passos, Relvas e Portas a oportunidade para brincarem à reengenharia social enquanto vendiam mais empresas públicas. E, em 2021, Catarina Martins preferiu meter o País em eleições no meio de uma pandemia alegando que o Orçamento mais à esquerda de sempre não era de esquerda o suficiente – e com essa hipócrita e abstrusa opção garantindo que a extrema-direita vai crescer na Assembleia da República, quiçá ficando com força suficiente para levar a direita a governar.

A questão que gostaria de colocar a quem vai votar em 2022 no BE é a seguinte: “É mais do mesmo que querem para o vosso partido, e para Portugal, nos próximos 10, 20 e 30 anos?”. É que os bloquistas não estavam obrigados a chumbar o Orçamento para manifestarem o seu desacordo. Podiam abster-se e dizer porquê, permanecendo a lutar pelas suas ideias e propostas durante a legislatura. Não estavam, especialmente, obrigados a chumbar o Orçamento de Estado sem sequer permitir que fosse discutido na especialidade, assim também permitindo que as negociações continuassem e permanecendo com o poder de chumbar o documento na votação final. Ao votarem contra, repetindo o voto contra que tinham decidido para o Orçamento anterior, o único sentido que essa acção tem é a de revelar que a sua oposição à governação socialista, apesar de esta incluir medidas que o BE e o PCP tinham proposto, é absoluta. Preferem o risco e prejuízos da interrupção da legislatura a aceitarem negociar de forma a viabilizar o que fosse melhor para o conjunto mais alargado dos portugueses.

Donde, esta votação igualmente irá aferir quantos votos recolhe a soberba de um homem para quem a terra queimada e a aliança com a direita decadente é preferível ao bem comum.

Assassinar sabe bem e resulta

A palavra “propaganda” é geralmente usada de forma pejorativa, com o sentido de “manipulação”, e tendo como fatal herança a figura de Goebbels. Mas ela é, originalmente, neutra, com significações relativas à agricultura e à difusão de informações. Igualmente se pode reconhecer nesse termo uma aplicabilidade positiva, tomando-o como “persuasão” em contexto político. Idealmente, na ágora de todas as democracias, cada candidato a governar não só pode como deve expor as suas intenções, as suas razões, o seu plano, o programa para o mandato. Nesse sentido, tudo no seu discurso é uma diligência de persuasão para obter a preferência, o voto, da assembleia eleitoral. A democracia, portanto, favorece quem melhor persuada os concidadãos – sendo essa a essência mesma de se considerar o regime onde a liberdade de cada um e da comunidade melhor se pode realizar.

Precisamente por causa da vantagem que a democracia dá, aprioristicamente, aos mais competentes, os menos competentes, e ainda mais os incompetentes, optam por não concorrer com os primeiros no mesmo plano discursivo; pois sabem que, com grande probabilidade, ou até certeza, iriam perder. Em vez disso, concentram-se no ataque à competência e no boicote às mensagens dos competentes. É daqui que vem a negatividade associada à propaganda, posto que a enormíssima maioria dos candidatos é menos competente, e grande parte é retintamente incompetente, para chegar ao poder só através da persuasão. Então, de acordo com os meios que tiverem à disposição, recorrem a várias tácticas para deturpar a relação da assembleia eleitoral com os candidatos, maculando os adversários e fantasiando os candidatos próprios. As forças que assim se estimulam nos públicos-alvo deixam de ser as racionais e intelectuais e passam a ser as emocionais e afectivas.

Uma das tácticas (e técnica) da propaganda com uso generalizado é o “assassinato de carácter”. Trata-se de uma pulsão animal que transportamos como destino evolutivo, tendo gasto em qualquer dimensão da nossa vida onde haja conflitos, inclusive com família, amigos, colegas e, claro, (ex)parceiros amorosos. Ver um adversário político a ser envolvido num processo judicial, por exemplo, é uma das mais eficazes formas de assassinato de carácter independentemente do desfecho do processo, pois o facto em si e a duração da fragilidade reputacional causam danos irreparáveis e indeléveis. Mas mesmo quando não se pode ter essa vantagem tal não interrompe o uso desta técnica. Nesta semana, vimos Rui Rio a queixar-se disso mesmo, por causa de mensagens públicas onde se agitava o seu autoritarismo. A ironia do episódio é que este mesmo Rui Rio passa a vida a fazer assassinatos de carácter e nem sequer concebe a política de outra forma.

Trago este paleio para registar como é que António Costa foi e é alvo da técnica. Não sendo possível envolvê-lo em qualquer berbicacho judicial, não existindo qualquer influência do PS num órgão de comunicação social, e estando o actual secretário-geral socialista associado a resultados extraordinariamente positivos na governação, inclusive em pandemia, primeiro começou por se dizer que era “habilidoso”, eufemismo de “manhoso, ardiloso, falso” lançado pela direita. Isto durou 4 anos. Depois o BE chumbou o Orçamento de Estado para 2021, e dessa área começou a dizer-se que ele “queria a maioria absoluta”. A seguir, a direita veio com o “cansado”, por ser evidente que uma pandemia, às tantas, tem o seu preço em quem governa. Depois o BE e o PCP chumbaram o Orçamento para 2022, e juntos desataram num berreiro contra Costa e a sua malvada ambição da maioria absoluta. A campanha eleitoral do BE e do PCP foi um contínuo assassinato de carácter e um apelo ao medo.

Nisto tudo está a táctica de fazer uma caricatura do adversário para desviar a atenção dos eleitores do que mais importa e levá-los a ficar obcecados com o que nem sequer existe. E resulta, há milhares de anos que resulta.