«Nós estamos muito confortáveis com aquilo que a Constituição prevê de uma economia mista.»
«Nos últimos 20 anos, não tivemos nenhuns anos de crescimento económico como os anos entre 2015 a 2019. Nos últimos 20 anos nunca houve crescimento económico como houve naqueles anos!»
Quem tenha alguma vez lido o Avante!, uma só vez que seja, fica com a informação de ser o PCP um partido que se especializou na defesa dos “interesses” dos “trabalhadores” e do “povo”. De que interesses se fala, que tipo de trabalhadores são estes e quem faz parte do povo, essas são questões que uma singular leitura deste hebdomadário igualmente fornece sem carência de mais fontes: os interesses dizem respeito ao aumento da quantidade e qualidade de serviços públicos gratuitos e ao aumento das remunerações para os trabalhadores que recebam o salário mínimo ou lá perto (e ainda para os trabalhadores que pertençam a sindicatos ligados ao PCP, ganhem quanto ganharem), tudo embrulhado no aumento das pensões e subsídios, de forma a que esta riqueza despejada na base da pirâmide económica (pobres em baixo, ricos em cima) consiga acabar com a “desigualdade” (leia-se, acabar com os tais ricos e similares). Se tal ambição fosse alcançada, no dia seguinte o PCP fecharia as portas na Soeiro Pereira Gomes e começaria a reconverter o Centro de Trabalho Vitória num hotel para os tais trabalhadores e o tal povo, finalmente em condições de desfrutarem das comodidades burguesas.
Ora, o João Oliveira apareceu frente a Rui Rio com uma boa nova de fazer tremer os pilares do templo. Essa de um comunista estar muito confortável com o conceito de “economia mista” equivale a um crente em Deus estar muito confortável com o ateísmo. É que a passagem da Constituição a que alude, o Artigo 80.º, reza assim: “Liberdade de iniciativa e de organização empresarial no âmbito de uma economia mista.” Implica este princípio fundamental da organização económica do nosso regime que os cidadãos têm direito a não quererem ser “trabalhadores” e preferirem ser “empresários”. E que se forem empresários, então terão o direito de agir dentro da legalidade constitucional como empresários, situação que suscita variegados comportamentos inerentes à lógica de se ser empresário e não trabalhador. Por exemplo, é suposto que o empresário consiga pagar salários caso ache boa ideia ter trabalhadores ao serviço da sua empresa. Para o conseguir, tem de ter a arte e o engenho de ir buscar esse dinheiro à riqueza própria e/ou ao mercado onde vende qualquer coisa. Não custa muito a perceber, mesmo para marxistas ferrenhos, que as preocupações, os “interesses”, diferem substantivamente entre quem for trabalhador e quem for empresário. E este diferendo só tem uma forma de ser anulado: acabar de vez com o capitalismo.
Pois no Avante! não há simpatias para os empresários. Precisamente ao contrário, existe racismo contra esse outro “povo”, o povo que procura o “lucro”, pois o lucro é sempre imoral quando nasce das “mais-valias” e elas não acabam no bolso dos “trabalhadores”. Esta é uma evidência em tudo o que seja discurso do PCP, daí ser com espanto que ouvi João Oliveira a declarar-se muito confortável com o capitalismo – posto que só no capitalismo, exclusivamente no capitalismo, podemos ter modelos de economia mista. E se tal configuração da economia nacional o deixa confortável, alguém devia perguntar a este senhor como é que a bota diz com a perdigota. Podiam começar pelo salário mínimo, o qual o PCP queria ver nos 850 euros em 2022, e deixar esta interrogação: “Porquê só 850 euros? Porque não 3000, ou que fossem 1600?”. A partir da resposta, que não imagino qual seja, podia-se prosseguir no inquérito acerca da relação dos comunistas com a realidade, guiados por essa curiosidade de saber se o PCP admite que os empresários tenham problemas para pagar salários ou se acham que estamos perante uma corja de ladrões que um dia, num amanhã que não será já para amanhã, levarão com uma nacionalização em cima.
O indisfarçável orgulho com que o João Oliveira reclamou a sua parte no crescimento económico entre 2015 e 2019 ilumina o paradoxo de se querer integrar uma economia capitalista como comunista. Calhando a CDU ter obtido a maioria absoluta em 2015, e assim podendo governar sem qualquer entrave dos aliados e títeres do grande capital, era inevitável que o período económico dos 4 anos seguintes fosse um dos piores dos últimos 40 anos. O grau de instabilidade e disfunção institucional de um país integrante da União Europeia e da NATO que passasse a ter um Governo que considerasse essas entidades como inimigas é algo que nem um supercomputador consegue calcular. Donde, das duas uma: ou o PCP, afinal, é só comunista para manutenção do negócio eleitoral ou o PCP é veramente comunista e o João Oliveira tem de passar a ler o Avante!.