Cavaco convida Costa a demitir-se num discurso arrasador para os socialistas: são "mentirosos" e "incompetentes"
Cavaco Silva arrasa Governo e projecta um futuro com Montenegro
Cavaco Silva sempre foi crítico do atual Governo, mas nunca como ontem: o ex-presidente acusou o Executivo de incompetência, de hipocrisia, de mentir, de usar a propaganda para "desinformar" os portugueses.
Cavaco acusa Governo de ser "especialista na mentira" e de falta de ética no caso TAP
Ex-Presidente da República lançou o mais intenso e violento ataque de sempre de um antigo presidente a um primeiro-ministro e Governo
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O que restou destes e doutros títulos e cabeçalhos ditirâmbicos, passadas apenas 48 horas, foram gélidas cinzas. Na segunda-feira, o discurso de Cavaco continuava a ser arrasador mas a direcção do arraso tinha mudado — do Governo para Montenegro, agora ainda mais desautorizado após os elogios paternalistas do tutor. Marcelo assassinou o mensageiro, o escorpião a picar a víbora. E a mensagem, nas partes melhores, só alcançava ser insultuosa. Pifiamente insultuosa. Inane.
Num texto com 3531 palavras, não se encontra uma singela frase onde se prove, sequer se indique, que o Governo mente. Que alguém no Governo mente ou mentiu, algures. Injúrias, sim, em barda. Honestidade intelectual, decência, racionalidade, módica argumentação, népias. O registo foi sermonário, na intenção uma descompostura, mas a retórica foi adaptada ao ambiente de taberna onde bastava dizer que os outros gajos não prestavam para nada, eram a ralé do bairro, para garantir urros e boinas no ar dos bêbados presentes.
Mentalmente, Cavaco cristalizou-se no ano de 2008, quando planeou derrotar Sócrates através de Ferreira Leite. Daí voltar a aparecer neste seu discurso em 2023 a fórmula do “falar verdade aos portugueses” que sintetizava a estratégia do tandem PSD-Presidência para as eleições legislativas de 2009. A lógica é a de que a “verdade” é uma cena que ele tem lá em casa, uma coisa muito dele. Donde, se a tem, os outros não a podem ter, né? A cognição para se chegar à posse da “verdade” é primária, resultando que os efeitos pretendidos na sua proclamação são igual e inevitavelmente primários. Cavaco ignora o fracasso da sua estratégia, o impacto do além-Troika passista, a invenção dos protofascistas do Chega no âmago do PSD. Despreza, e ofende, a entrega ao serviço público de tantos cidadãos com responsabilidades governativas e parlamentares durante a pandemia e na guerra da Rússia na Europa. Por conseguinte, não consegue oferecer à audiência uma qualquer ideia que se relacione com a comunidade ou o futuro — ou que fosse com a realidade.
Tratar os socialistas por “mentirosos e incompetentes” nem numa juventude partidária se aconselha caso alguém tenha pretensões a fazer carreira política. Porque é uma exibição de estupidez. É garantia de derrota política. Vindo da figura historicamente mais importante da direita portuguesa, com obrigações institucionais no plano do decoro e do sentido de Estado por inerência dos cargos ocupados, fica como monumento à sua falta de empatia. Só nesse estado, onde é incapaz de valorizar a alteridade, onde está destituído de interesse pela própria humanidade, se compreende a sua preferência pela caricatura infantilóide e pela diabolização tribal.
Ora, a falta de empatia do Cavaco desperta a minha empatia. Gostei de o ver, admirei o esforço que fez para aparecer como general pronto para a batalha. Tinha folhas nas mãos cheias de banalidades e misérias para vocalizar, e levou a tarefa até ao fim com dedicação e brio. Fiquei contente por ele, a imaginar os elogios exaltados que recebeu nesse dia, no dia seguinte. Aposto que se sentiu vinte anos mais novo. Quarenta. E que sorriu de sorriso rasgado ao se apanhar sozinho. Nostálgico e ovante.
