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Dominguice

A que se deve a prevalência da intriga e da calúnia na disputa pelo poder político, logo desde o nascimento da democracia na Grécia e sem parar ao longo das monarquias e repúblicas? Por que motivos essa competição não ocorre apenas através da apresentação de ideias e pela exibição de competências? Das inúmeras, imediatas, inequívocas explicações ao dispor, prefiro destacar a estupidez e a cobardia. O estúpido tem sempre a inteligência suficiente para perceber que iria perder pela fraca qualidade das suas ideias. Donde, gasta o seu tempo a boicotar e maldizer as ideias dos outros. O cobarde tem sempre a habilidade suficiente para ser insinuante e sonso, a que se junta a compulsão para o cinismo e a crueldade. Donde, gasta o seu tempo a tentar destruir o prestígio e honorabilidade dos adversários.

Quando ao estúpido acontece ser também cobarde, e ao cobarde ser estúpido, é altamente provável que acabem jornalistas na secção de política dum pasquim de referência e ainda comentadeiros televisivos encartados.

Crónicas da Belenzada

«"Eu quero ser muito sincero: acho que havia muitos comentadores que queriam que eu dissolvesse e eu tinha a noção de que o povo não queria que eu dissolvesse, queria que eu, realmente, chamasse a atenção do Governo para dizer aquilo que disse no dia 4 [de maio]: 'olhe que, às vezes, é preciso mudar o que não está bem antes que seja, depois, muito tarde'. Foi isso que eu quis dizer, foi uma prevenção", justificou Marcelo.

Momentos depois, em declarações à RTP3, Marcelo Rebelo de Sousa referiu que "há situações em que a responsabilidade política objetiva tem que ser assumida", o que não aconteceu no caso de João Galamba, considera. "No caso concreto, não foi assumida. Se fosse assumida, um membro do Governo já não o era", reiterou.»

Fonte

Dominguice

O populismo pode ser tudo mais o proverbial par de botas. Inclusive, pode ser algo bom, realizador da democracia (é estudar). Ou ser algo inevitável, inerente à democracia (é pensar). Mas na versão em que actualmente está associado à direita radical, dita nacionalista e autoritária, xenófoba e racista, antissistema (seja lá o que isto queira dizer), o populismo é essencialmente um tipo de estupidez. Vive de impressões imediatistas (leia-se, alarmismos e sensacionalismos). É incapaz de lidar com a complexidade, alimentado-se de reducionismos e simplismos, basicidades, (maus) instintos. Daí implicar fatalmente uma identidade tribal maximizada, um maniqueísmo. Aí chegado, o populismo consuma-se na pura alucinação. Pode ser a vitória de Trump em 2020 ou os nazis na Ucrânia, a ideia de que os deputados portugueses (todos juntos!) fazem leis para proteger os corruptos ou que estamos a ser invadidos por fulanos estrangeiros, escurinhos e de telemóvel (último modelo) na mão ao arribarem às praias dos Algarves.

O populista é um poço sem fundo de palavras dos outros, de propaganda. Tem alergia à inteligência (isto é, à incerteza).

Crónicas da Belenzada

O que o Presidente não deve fazer (36): O poder desestabilizador

O que o Presidente não deve fazer (37) : Teoria da (ir)responsabilidade política

NOTA

Em cima da crise causada pela chantagem de Marcelo sobre Costa, ouvi num canal qualquer Miguel Prata Roque deixar uma ponderação que só tem ganhado acutilância e peso desde esse início de Maio. Disse ele que o comportamento de Marcelo punha em causa para o futuro a política do PS em relação às presidenciais. Aquando da recandidatura do actual Presidente da República, o PS deu liberdade de voto aos seus militantes e simpatizantes, não oferecendo apoio institucional a qualquer candidatura. Para além desta posição ter despertado o rancor mais desvairado em Ana Gomes, todas as interpretações foram unânimes em vê-la como um apoio oficioso a Marcelo. Ora, aquele que recolheu votos dessa “neutralidade” do PS estava agora a ser um factor de crise gravíssima para a governação socialista apesar da existência de uma maioria absoluta ainda no início da sua legislatura. Conclusão do Roque: o PS deixava de poder confiar num candidato da direita, mesmo que o seu primeiro mandato fosse de exemplar sentido de Estado e serviço ao interesse nacional e ao bem comum — teria de passar a apostar sempre num candidato próprio, da sua área política.

Este é um aspecto profundamente relevante da coisa mas ainda mais valiosa é a denúncia de Vital Moreira, finalmente pondo preto no branco a palavra “desestabilizador”. Marcelo não está apenas a destruir o prestígio e influência da sua palavra e da sua marca, ele transformou-se no mais imprevisível e esdrúxulo factor de instabilidade política em Portugal. O texto de Pedro Sousa Carvalho, citado por Vital na primeira ligação, expõe a evidência disso mesmo e faz as contas ao potencial (em parte, já actual) calamitoso prejuízo para a economia que está em causa na brincadeira.

Ou seja, seria fácil reunir factos e argumentos para sustentar a tese de que Marcelo Rebelo de Sousa está a exercer uma presidência antipatriota.

Abjecção Democrática

Como se pode ouvir e ver nesta entrevista, a partir do quarto minuto, um líder de um partido fundador da Constituição que não consegue assumir se aceita ou recusa o apoio do Chega para formar Governo está a anunciar que a sua palavra vale o mesmo do que a de Ventura. Nivela-se por ele, pelo mesmo oportunismo sociológico, pelo mesmo abuso do regime, pela mesmo apelo à violência política. Daí não querer inviabilizar um cenário onde dependerá de protofascistas para alcançar o poder. Aí chegado, inventará uma fórmula em que o Chega fique pintado como o perfeito simétrico do PCP e do BE. Pelo que a culpa de o PSD levar racistas, xenófobos, saudosistas de Salazar e retintos broncos para S. Bento será dos socialistas, não tivessem estes feito o que fizeram em 2015 ao Passos e ao Cavaco.

Há um abismo entre Montenegro (ou qualquer outro alegado “social-democrata” que aceite usar o Chega) e a direita que esteve na fundação e consolidação da democracia, e que foi a votos até à primeira metade dos anos 80 ou pouco mais. Essa gente, na sua melhor parte, teria seguido o exemplo de Freitas do Amaral e Basílio Horta; num outro sentido também o exemplo de Adriano Moreira e até Narana Coissoró, entre tantos outros, que preservaram admiravelmente a dignidade e foram paladinos do bem comum, dentro e fora da política activa.

Sá Carneiro e Lucas Pires, se hoje vivos, sentiriam, pensariam e diriam que a actual direita é abjecta.

2 de Maio vezes 3 142

Durante este mês de crise política, balizado pelos discursos do 25 de Abril na Assembleia da República e o actual panorama de Portugal estar em cada vez melhores condições económicas, Pacheco Pereira escreveu dois textos que ofereceram consolo aos socialistas e provocaram azia e maus fígados nos direitolas, A crise do Governo, a crise do Presidente e a crise do jornalismo e Intoxicação da opinião pública. Escolho uma citação de cada, para ilustrar o acerto e relevância das suas palavras:

«No dia 2 de Maio, o dia da crise, em vários órgãos de comunicação o estilo e o tom político dominante foi todo o dia igual ao das manhãs do Observador, muitas vezes com o efeito repetidor das mesmas pessoas em vários órgãos de informação. Há um precedente a este efeito, o papel d'OIndependente que preparou a entrada de Paulo Portas na política, acabou com o CDS "centrista", e contribuiu para o fim do "cavaquismo". Na verdade, ninguém como a direita radical sabe fazer melhor este papel [...]»

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«Na ausência de qualquer trabalho jornalístico, que incluía, por exemplo, ter preparado citações, e imagens, com as versões anteriores dos acontecimentos e mostrando contradições e mentiras, ou ter construído uma cronologia com o que se sabia, o que daria uma base muito mais sólida do que usar interpretações capciosas dos comentadores e jornalistas na base de impressões, ou apresentar como "novidades" coisas que de há muito eram conhecidas, o papel de imediatamente "interpretar" o que estava a suceder foi entregue a comentadores e jornalistas-comentadores esmagadoramente de direita, com relevo para a brigada do Observador, agora também à noite na CNN. Repetiu-se o que aconteceu no dia da crise, a 2 de Maio, uma fúria incontrolada que, insisto, nada tem que ver com o jornalismo. Quando um diz mata, o outro diz esfola e, por fim, outro diz esquarteje-se.»

O Pacheco não é apenas um ex-político do PSD com altas responsabilidades durante o cavaquismo e depois no consulado de Ferreira Leite, nem apenas um dos comentadores mais famosos e caudalosos há décadas, nem apenas um historiador com relevante obra de investigação na área política, ele é também um autointitulado especialista em comunicação social e jornalismo. Da soma destes predicados, a que acresce o seu papel de perseguidor apaixonado de Sócrates, resulta uma coisa muito parecida com autoridade. Autoridade na matéria, nesta: o monopólio da direita no espaço mediático desde os anos 90.

A mesma, mesmíssima, direita que provocou uma crise política que teve o seu clímax (mas ainda não o seu epílogo) numa certa terça-feira. Um dia em que essa tal direita dominante — ubíqua na imprensa, das direcções às redações, dos comentadores fixos aos volantes — foi toureada por um primeiro-ministro que optou por não se deixar chantagear. O espectáculo foi tão imprevisto, tão impressionante, que no primeiro texto o Pacheco chega a exclamar “não sei se daqui a dez anos haverá uma escola ou um curso académico de Comunicação que estude o dia 2 de Maio de 2023, nas rádios e na televisão, e os dias subsequentes. De manhã à noite não encontrará jornalismo.

Só que há nas suas descritivas palavras grossa chatice. Resulta de ele ter dois pesos e duas medidas, o que deixa indelével nódoa de bosta no que pretende seja a sua imaculada honestidade intelectual. Ir até aos tempos do Independente para encontrar um precedente para o “2 de Maio” é falso seja qual for o ângulo da comparação. Então, essas capas geravam animação noticiosa nos telejornais mas não correspondiam a um domínio sistemático sobre todo — todo! — o editorialismo e comentariado em períodos contínuos de 24 sobre 24 horas, juntando-se o cabo e as redes sociais. Se a intenção fosse, realmente, a de encontrar um precedente outra data teria de ser convocada: 21 de Novembro de 2014, pelas 10 da noite.

A detenção de Sócrates foi planeada para ser um dos mais poderosos espectáculos mediáticos alguma vez registados em Portugal. Foi distribuído horas ou dias antes a certos jornalistas o argumentário que o Ministério Público iria apresentar ao juiz Carlos Alexandre, o que eles publicaram, comentaram e divulgaram em cima do acontecimento. Equipas de televisão foram avisadas para se apanhar o bandido a ser transportado para o calabouço. O comentariado entrou em êxtase, bacanal de vingança e ódio. Um político do PSD, amigo do juiz, usou o Facebook para agradecer a Deus. O resultado foi um misto de blitzkrieg com shock and awe, onde se pretendeu impor o julgamento instantâneo de um certo cidadão. Julgamento político para efeitos de linchamento social e condenação criminal. Julgamento criminal para efeitos de linchamento social e condenação política. Nessa noite, nos dias seguintes, nas semanas seguintes, nos meses seguintes, nos anos seguintes, que fez o jornalismo?

Que fez e faz o jornalismo a respeito das evidências de não fazer sentido deter, muito menos para efeitos da instigação de culpabilidade e destruição de direitos de personalidade, quem está a entrar no País? Ou de as suspeitas nessa data apresentadas como justificação para a sua detenção não passarem de hipóteses agora dadas como infundadas? Ou de a data para a sua detenção e prisão parecer ter sido escolhida não por algum motivo atinente à investigação mas antes ao calendário político das eleições de 2015, ocorrendo um dia antes de António Costa iniciar o mandato de secretário-geral do PS? Ou de não existir objectividade racional e legitimidade moral para a prisão preventiva em estabelecimento prisional, tendo sido um arbítrio do juiz a pedido do MP? Ou de toda a comunicação social ter sido conivente com os crimes cometidos por magistrados na violação do segredo de justiça, e os ter explorado política e comercialmente? Ou de se ter iniciado uma caçada judicial e mediática a terceiros com relações pessoais ou profissionais a Sócrates? Ou de nunca se ter provado qualquer acto corrupto, apesar da completa devassa feita aos registos públicos e privados onde apareceu o nome José Sócrates? Ou de o juiz Ivo Rosa ter desmontado, e publicamente explicitado, o que não passou do maior e mais obsceno embuste na história da Justiça portuguesa em democracia? Que opinião tem o Pacheco a respeito do trabalho jornalístico neste caso e suas avassaladoras questões para qualquer defensor do Estado de direito e da civilização onde queremos viver?

Nunca o saberemos. Ou melhor, sabemos. Acha bem. Se tem a ver com Sócrates, os métodos da direita radical são um refresco que o Pacheco saboreia deliciado. Já se contam 3 142 dias em que o jornalismo se transformou em auxiliar do Ministério Público por actos e omissões. Ao lado deste fenómeno, o 2 de Maio é pateticamente risível.

Pois. Mas o Frederico Pinheiro…

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Dominguice

O primeiro, o mais decisivo, poder do tirano está na sua pessoa individual. Ele começa por querer ser tirano, na ausência desta condição não temos tirano. Mas sozinho não conseguiria tiranizar, precisa de ajuda. Então encontra aqueles que estão dispostos a servirem o tirano, recebendo benefícios da tirania imposta. Porque o plano do tirano não é nunca abdicar do poder sobre os outros que alcançou, ele recorre a qualquer tipo de violência disponível para se manter a tiranizar. Os círculos que o servem, e que se servem da tirania ou a tal ambicionam, concretizam a violência exigida pelo tirano. Sem a violência máxima à disposição, mesmo que só aplique parte dela consoante as circunstâncias, nenhum tirano o chegaria a ser, ou apenas efemeramente assim se conseguiria manter.

Ou seja, pela violência os conhecereis, aos tiranos e candidatos a.