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Sobre o Linguee

O Linguee.pt é um dicionário em linha e um buscador de traduções. Em comparação a outros dicionários online existentes, o Linguee oferece a pesquisa aproximadamente a mil vezes mais material bilíngue traduzido. Ele foi fundado em dezembro de 2008 após mais de um ano de desenvolvimento por Gereon Frahling e Leonard Fink. Em Maio de 2010, a versão final foi lançada online e, em agosto do mesmo ano, foram incluídas as versões em português-inglês, espanhol-inglês e francês-inglês, todas mantendo o mesmo caráter único e a alta qualidade da versão alemã. O Linguee está entre os 100 websites mais visitados da Alemanha e é um dos dicionários online mais utilizados do mundo.

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A equipa que produz e comercializa o Linguee sabe comunicar com blogues, daí este destaque a pedido.

Fim-de-semana em cheio

Está quase a começar, finalmente, o XVIII Congresso do PS. Espera-se que seja o acontecimento que revele ao País, finalmente, quem é esse líder da oposição chamado António José Seguro – neste momento, apenas sabemos quem foi o mais calculista e eficiente opositor interno a Sócrates. Ficaremos ainda a conhecer, finalmente, a sua equipa, o calibre e tipologia dos seus principais conselheiros e camaradas de armas.

E Sócrates será uma incontornável presença neste congresso, sem carecer de lá estar em corpo. O modo como Seguro lidar com ele revelará muito do que será o seu futuro à frente do PS, quiçá do Governo. Acresce que só tem três atitudes à disposição:

Apologia de Sócrates
Seguro, ao arrepio das críticas que tinha assumido no passado, faria o elogio de Sócrates no discurso inaugural, apenas destacando o seu legado reformista e a resistência às dificuldades que enfrentou, metendo-o de vez com uma ovação fúnebre num saco de plástico a ser despejado no oceano ainda antes do congresso acabar.

Ostracismo
Seguro não faria qualquer referência especial a Sócrates, a não ser umas poucas palavras de circunstância na abertura do congresso. No discurso final, nenhuma.

Cicuta
Seguro seria coerente com as suas posições críticas e promessas eleitorais, indo para o congresso com uma verdadeira reflexão acerca do ciclo Sócrates e apelando a que os congressistas fizessem um balanço implacável dos erros cometidos nos últimos anos. Tanto o seu discurso de abertura como o de fecho fariam de Sócrates, e dos seus principais apoiantes, um contraponto ao novo ciclo que Seguro se propõe abrir na política nacional, precisamente começando pela libertação do PS da famigerada asfixia socrática.

Destes três cenários, o pior é o primeiro. Ele exporia um cinismo em último grau, fazendo de Seguro um pseudo-líder em quem não se podia, nem devia, confiar nunca mais. E o melhor que poderia acontecer ao PS, e à política nacional, está no último cenário. Seria a redenção de Seguro e o nascimento de um verdadeiro líder. Seria também neste cenário que a sua oposição interna teria as melhores condições para ir amadurecendo como alternativa e reserva intelectual.

Como Louçã também tem estado à espera de ver como param as modas no PS para descobrir o que fazer à sua vida, este vai ser um fim-de-semana cheio de ensinamentos.

A crise zen

Na entrevista desta noite, Vítor Gaspar repetiu a promessa de já em 2013 termos o sarilho resolvido. No final da legislatura, 2015, estaremos melhor do que nunca, afiança.

Bom, foi para isto que PSD, CDS, BE e PCP derrubaram o Governo PS. E foi nisto que os eleitores votaram, encarregando Passos Coelho da tarefa. Isto é a democracia a funcionar, pelo lado dos vencedores.

Parafraseando o Ministro das Finanças, podemos ficar absolutamente tranquilos. Com a prática, e muito chá, até conseguiremos levitar.

Troquem os sicofantas pelos académicos

Ferreira Fernandes pegou numa característica de Vítor Gaspar, a prosódia, e usou-a como gazua para lhe abrir a cachimónia com a sua elegante atenção ao detalhe: O ministro que falava baixinho

Não sei se FF sabe, ou já esqueceu, mas falar baixinho é uma táctica usual nas faculdades, locais onde é suposto os professores estarem duas horas de cada vez, ou mais, a palestrar para adultos. Óbvio, os novéis estudantes universitários entram na academia com a cultura do Secundário intacta, e a maior parte nunca a perderá mesmo depois do canudo. Daí não terem hábitos de disciplina adequados à nova exigência, podendo tranquilamente boicotar a autoridade docente imitando as estratégias espontâneas de prolongar a barulheira após o professor ter entrado na sala e começado a discorrer. É aqui que o truque de falar baixo é usado com alta eficácia pelos professores mais batidos, pois a reacção é a de rápido silenciamento num contágio culpado que chega a toda a sala.

Vítor Gaspar tem outros truques, mas acima de tudo tem uma inteligência aquilina e um excelente controlo emocional do protocolo, o qual usa a seu favor para dramatizar retoricamente o poder institucional que representa. Isto são manhas de puta velha das universidades, as quais começaram por serem herdeiras da cultura monástica, e têm séculos e séculos de aperfeiçoamento. O seu efeito é o de introduzir racionalidade simbólica numa situação de inevitável conflito, o que só traz vantagens. Por exemplo, de Vítor Gaspar não se espera ouvir uma difamação, muito menos uma calúnia. Ter confiança num limite ético que o adversário respeitará aumenta decisivamente a qualidade intelectual do debate.

Para defender a ideia de que devemos diminuir o peso do sector público na economia portuguesa, intento absolutamente legítimo e que resume o que o actual Ministro das Finanças tem para dizer aos cidadãos, não é preciso diabolizar e perseguir os adversários com assassinatos de carácter e conspirações mediático-judiciais. É até sensato admitir que se o PSD se tivesse preparado para fazer pedagogia à volta dessa ideia durante o período em que foi oposição à maioria socialista podia ter chegado às eleições de 2009 com uma verdadeira proposta alternativa que pudesse vencer o PS. Em vez disso, porque não acreditavam poder ganhar pelo valor das propostas, mergulharam alucinados no ódio.

Perdemos todos.

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Para a etimologia de sicofanta, recomendo esta cesta de figos.

A elite a que temos direito

Este Editorial do DN, que presumo seja invariavelmente escrito pelo director, volta a repetir uma das atoardas preferidas dos jornalistas e comentadores que pretendiam ridicularizar o Governo PS antes das eleições de Junho, a de que alguns ministros socialistas, algures no tempo, teriam declarado o fim da crise em Portugal.

Parece um assunto menor, até desprezível, mas estamos perante uma peça de uma insídia muito maior. De facto, afirmações foram feitas por Manuel Pinho, Teixeira dos Santos e Sócrates que se permitiam a um optimismo facilmente atacável e caricaturável. Contudo, o seu significado era específico de um certo contexto: elas referiam-se à Grande Recessão iniciada com a falência do Lehman Brothers, a crise que se temia viesse a desembocar numa depressão global, tendo como objectivo espalhar lúcida confiança entre os agentes económicos com vista a evitar a retracção e a estimular o investimento, como é obrigação de todos os Governos responsáveis sem excepção. E essas afirmações vinham suportadas por números validados pelos institutos nacionais e europeus. Se não fosse a crise seguinte, a dos mercados de financiamento a partir de 2010, Portugal teria saído de 2009 com boas razões para continuar a acreditar na sua capacidade de recuperação económica. Depois da crise da Grécia e da Irlanda, nenhum ministro de Sócrates, nem o próprio, referiu que essa nova crise tinha acabado, bem pelo contrário. O que se disse foi que valia a pena lutar com todas as forças para não ficar à sua mercê.

Quem volta a dizer que o Governo PS decretou o fim da crise não ignora esta destrinça. Acontece é que a vontade de continuar a pintar Sócrates como o grande mentiroso não desapareceu. Nem irá desaparecer, no que fica com uma das maiores homenagens que lhe podem fazer. Ainda há uma semana, nesse tempo de antena da direita sem qualquer contraditório nem rival, Marcelo Rebelo de Sousa repetia que Sócrates eras mentiroso, assim sem mais nada explicar, como se fosse uma evidência já pertença da cultura popular.

Num país onde os canalhas e os broncos estão igualmente distribuídos pelo espectro político, estas pulhices passarem como comentário político de referência prova exuberantemente como a nossa elite conhece bem o seu povo.

Good food for good thought

For some people, any taxes at all are unfair. The current Republican opposition to tax/revenue increases is a culmination of the determined effort spearheaded by Grover Norquist, a one-time aide to President Reagan, and his “Americans for Tax Reform” to persuade the Republicans to oppose taxes, not as a matter of sound economic policy but as a fundamental violation of our “liberty.” As Norquist himself puts it: “You are stealing money from some people and giving it to others.”

Norquist’s campaign has been hugely successful, and he has inspired the GOP to re-brand itself as the “no-tax party.” All but 6 of the 240 House Republicans and all but 7 of the GOP Senators have signed Norquist’s no-tax pledge. No wonder House Speaker Boehner is locked into an uncompromising stance, despite the extraordinary Democratic concession of offering a 3:1 ratio of spending cuts versus tax increases.

Underlying this anti-tax attitude are some truth-claims that need to be examined. One is that the wealthy pay a “disproportionate” share of our income taxes, currently at 38 percent of the total, twice their share 30 years ago, while the bottom half of income earners pay a very small portion of the taxes. Well, yes, but that is because the incomes at the top of the scale have more than doubled while the median income of the bottom half has significantly declined. (When inflation is factored in, “real incomes” among the middle class and blue-collar workers have declined even more.) Today, the top 1 percent of income earners receive 24 percent of the total and the top 10 percent take home almost half. If you use the “progressive” criterion of scaling taxes to the distribution of income, the wealthy should be paying even more than 38 percent.

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Ironia socrática

Recuperando a ideia defendida desde a campanha eleitoral de que “Portugal não pode falhar”, Passos Coelho assegurou, contudo, que “no dia em que for necessário cortar mais despesa e aumentar impostos para impedir que Portugal caia na bancarrota” ele próprio o dirá aos portugueses.

“Isso não há dúvida nenhuma que não mando dizer por ninguém, digo eu próprio e desafio qualquer um em Portugal que tem uma solução diferente para evitar que o défice orçamental não resvale no final do ano”, sublinhou.

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A ideia de que Portugal não pode falhar, começando logo por ser um tautológico cliché com séculos, é inerente à participação na União Europeia e seus condicionalismos inevitáveis e coercivos. Depois das eleições de Setembro de 2009, no contexto da crise económica internacional e da crise política nacional, Cavaco simulava apelar à concórdia entre PSD e PS precisamente referindo que o País não podia falhar a recuperação económica. Durante o teatro da viabilização do Orçamento de 2011, o Governo de então avisava que o seu chumbo levaria o País a falhar fatalmente essa recuperação. E em Março de 2011, ao se tornar evidente que o PSD queria abrir uma crise política para derrubar o Governo, Sócrates alertou para as consequências dessa irresponsabilidade: Portugal iria aumentar desvairadamente o risco de falhar os seus principais objectivos, onde se incluía a defesa do Estado Social até ao limite do possível.

Graças à decisão conjunta do Presidente da República e da oposição, estamos agora obrigados a suportar ainda mais e maiores constrangimentos, limitações, austeridade e sacrifícios do que aqueles já consequência das duas crises – a económica, causa do aumento do desemprego, e a europeia, causa do aumento dos juros da dívida soberana e arrastando a banca nacional para crescentes dificuldades de financiamento. E se este é o preço que foi infligido a Portugal só para fazer a direita regressar ao poder, está para nascer alguém que consiga entender que raio o BE e o PCP ganharam com a troca que promoveram entusiasticamente.

Estas declarações de Passos são exactamente iguais às que Sócrates fazia. Ambos descrevem uma situação de emergência e desafiam a oposição a apresentar alternativas. Sabemos que Ferreira Leite chegou ao patético de explicar que não apresentava soluções para os problemas nacionais para evitar ser imitada pelo Governo. E sabemos que Passos dizia que a solução era algo tão simples como voar de Económica ou tirar a gravata.

Mas sabemos mais, muito mais. Sabemos que o combate a Sócrates passou por assassinatos de carácter, devassa da sua privacidade, difamação da sua família e tentativas de criminalização, num conjunto de processos que foram todos demorada e profundamente investigados por dezenas de jornalistas, agentes policiais, procuradores, juízes e até autarcas. E sabemos que PSD e CDS estão ligados, por via de actuais e antigos dirigentes, aos casos BPN, submarinos e défices democrático e das contas públicas da Madeira. São casos para dizer: só sei que ainda nada sei.

Nunca se tinha visto, um Primeiro-Ministro incendiário

Passos Coelho deixou ainda um aviso a «quem se entusiasme muito com as redes sociais e com o que vêem lá fora esperando trazer o tumulto para as ruas de Portugal», muito embora tenha lembrando a existência de direitos da população.

«Em Portugal, há direito de manifestação e à greve, direitos que estão consagrados na Constituição e que têm merecido o consenso alargado em Portugal. Não confundiremos o exercício dessas liberdades com os que pensam que podem incendiar as ruas e ajudar a queimar Portugal», concluiu.

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Estas declarações são alarmantes. Alarmantes porque têm sido repetidas em diferentes ocasiões e o Governo tem apenas 10 semanas, estabelecendo um padrão. Alarmantes porque revelam uma surpreendente fobia e fragilidade no exercício da autoridade do Estado. Alarmantes porque o seu efeito é exactamente o oposto do aparente sentido da mensagem. Alarmantes porque foram proferidas pelo Primeiro-Ministro, assim escalando a sua importância e atrofiando a autoridade do Ministro da Administração Interna e seus Secretários. Alarmantes porque causam alarme social. Alarmantes porque Passos tem mais de 20 anos de actividade política constante, não podendo reclamar inexperiência.

Tirando a forte hipótese de estarmos perante mais uma prova da incompetência do indivíduo e de quem o aconselha, como vimos ao longo do processo que levou à crise política e durante a campanha eleitoral, a única explicação lógica para se estar a despejar gasolina na rua é a de que tais convulsões sejam desejadas pelo Governo. De facto, tal permitiria assustar o eleitorado da direita, oferecendo um inimigo comum que amansaria a ala Cavaquista e promoveria a unidade à volta do Governo. Nada como uns 20 ou 30 taralhoucos a partir montras na Baixa para o Governo ficar com um escudo protector para as suas políticas.

É de esperar que os imbecis mordam o isco. Eles têm sido de uma fidelidade canina aos propósitos e estratégias desta miserável direita, até entrariam em ressaca se não pudessem continuar a ajudar os seus aliados.

Impressionar no emprego, brilhar nos jantares, seduzir em festas

Fathers’ Presence Linked to Enhanced Intellect, Well-Being Among Children
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Parents’ Stress Leaves Lasting Marks On Children’s Genes, Researchers Find
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Mind-Altering Microbes: Probiotic Bacteria May Lessen Anxiety and Depression
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Heavy Chocolate Consumption May Be Linked to Heart Health, Study Suggests
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Like Mama Bears, Nursing Mothers Defend Babies With a Vengeance
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Exercise Boosts Health by Influencing Stem Cells to Become Bone, Not Fat, Researchers Find
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Social Media Expert Explores Dynamics of Online Networking
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Humans Shaped Stone Axes 1.8 Million Years Ago: Advanced Tool-Making Methods Pushed Back in Time
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‘Senior moments’ less common than perception
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People Think the ‘Typical’ Member of a Group Looks Like Them
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Time Off Work for Exercise Linked to Increased Productivity
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Chickens Eject Sperm from Males They Don’t Fancy

Uma esquerda actualmente sem ideias

O Fórum Novas Ideias para a Esquerda, onde estarão as principais figuras do Bloco e que terminará com um discurso de Louçã, coincide com o Congresso Nacional do PS. Seria uma coincidência irrelevante não fora a natureza parasitária e predatória do BE, um partido híbrido que tanto cavalga a máquina sindicalista do PCP como se imagina a dividir o palco com o PS de igual para igual.

Ninguém sabe se já houve algum debate interno a respeito da bela merda que andaram a fazer desde Setembro de 2009. Ninguém sabe se existe algum valente que seja alternativa a Louçã e que não se assuste com as rosnadelas do Fazenda. E ninguém sabe o que raio quer o Bloco para Portugal, embora se tenha vindo a saber ao longo do tempo que pretendem cortar relações com Angola e Espanha, sair da União Europeia e da Nato, nacionalizar a banca e garantir que os professores não voltem a ser avaliados dado que eles não têm condições mentais para aguentar esse tipo de pressão. E isto, que até parece muito, é menos que nada.

No final será o verbo

O comentador rapace continuou hoje uma conversa que começou em 2007 pela mão do Daniel de Sá, a qual não recebeu qualquer comentário em 2008, e que voltou a ser reactivada em 2009, 2010 e 2011. Não é caso único, claro, apenas o aproveito para realçar alguns aspectos que fazem dos blogues, neste formato tradicional como é o da blogosfera política onde existem caixas de comentários sem aprovação prévia, um formato único de livre comunicação no meio digital.

Ao contrário dos chats, Facebook, Twitter e quejandos, onde a actualidade é reduzida à sua expressão mínima e tende sempre para a efemeridade (excepção feita às imagens arquivadas e recorrentemente expostas), os fóruns e os blogues (estes, em vários aspectos, sendo como que uma 2ª geração dos fóruns) não sofrem a erosão do tempo. A actualidade é antes uma dádiva do participante, o que torna possível manter a mesma conversa durante anos e anos. As páginas electrónicas não amarelecem, os registos antigos não escapam aos motores de busca, as datas perdem a sua inércia e mofo. Quem se interessa em 2011 por algo que foi publicado em 2007, ou 1997 ao ponto de querer entrar na conversa, manifesta a crença de que alguém o irá ler assim que as suas palavras apareçam no ecrã. O espaço mantém a promessa de estar habitado pelos seres que lá deixaram pedaços de alma, esses reflexos e sombras de uma interioridade que permanecem intactos tal e qual como foram enviados. Contudo, e sendo algo que a literatura já não permite ao leitor de romances, num blogue acredita-se na possibilidade de entrar em diálogo com as personagens daquilo que muitas vezes pode ser descrito como um drama em gente. O poder de atrair uma voz, qualquer voz, nada lhe cobrando pela participação nem lhe exigindo prova de identidade, revela-se essencialmente político. É a experiência mesma de ocupar o espaço público e dizer de sua justiça.

A liberdade será inevitavelmente abusada. Neste modelo de blogue, aparecem bisonhos, caducos, doentes, malucos. Aparecem aqueles que não escolheríamos para amigos, ou cujo convívio físico nem sequer suportaríamos. E aparecem criaturas admiráveis, que encaixam perfeitamente no molde das nossas fantasias ou, ainda melhor, que nos despertam fantasias novas. Mas este encanto tem de aprender a suportar a pulsão disfuncional que o espaço aberto aceita acolher. Um só indivíduo pode enviar centenas de comentários por dia, inventando nomes e emails, assim lhe dê na mona e tenha tempo para gastar. Outros dedicam-se à perseguição de autores ou comentadores. A agressividade é frequente, resposta antropológica usual face a um ambiente desconhecido e à abstracção da comunicação apenas por palavras escritas, não se tendo a dimensão corporal da voz e do rosto para as contextualizar nos seus primeiros e últimos sentidos.

Todavia, para quem gosta de pessoas, poder contemplar com esta intimidade a natureza humana na sua mais gloriosa actividade, conversar, é um privilégio para o qual faltam palavras.

De cócoras, ó vítimas da fome

Este será, de longe, o Governo que mais rapidamente envelheceu aos olhos do público desde o 25 de Abril. Os dois meses passados parecem dois anos. E até a sua base de apoio mais fanática se mostra descrente e cansada.

Não admira. A direita portuguesa está decadente desde a traição de Barroso. Por isso, depois do vexame Santana, não tinham mais nada com que fazer oposição para além do ódio. Só que o ódio, quando é mantido por longos períodos, passa a consumir as reservas de inteligência e esperança do portador. O resultado é a subnutrição política, a fome moral e intelectual.

A felicidade da Manela

Como é óbvio, este Governo fará os tais cortes históricos na despesa que vem anunciando desde que se formou, e que o PSD promete já desde o tempo em que a Manela tinha como programa eleitoral o pára tudo. Ela não imaginava que daí a poucos meses iria rebentar a crise das dívidas soberanas e da Zona Euro, por isso apenas agitava o espantalho do endividamento das gerações futuras. Era a bandeira dos social-democratas face à política de investimento público e assistência social que tinha sido a resposta portuguesa e europeia à crise de 2008, causa do aumento dos défices em todos os países ao longo de 2009. Mas em 2011, com Passos a Primeiro-Ministro, os cortes surgem principalmente como imposição do acordo com o trio de credores.

Ora, se não tivéssemos ficado reféns deste empréstimo de emergência, os cortes na despesa continuariam a ser feitos. Era esse o sentido do PEC IV e de todas as restantes medidas que fosse necessário tomar para cumprir os compromissos para a redução do défice. Só que as condições seriam muito diferentes, não existindo a imposição de calendários e medidas estranhas aos melhores interesses nacionais. O caso das privatizações é flagrante, obrigando à venda em condições de chantagem. O mesmo para as soluções fiscais e a qualidade da prestação de serviços do Estado, onde é fácil camuflar de inevitabilidade o que é opção ideológica ou oportunista.

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Portuguesinhos valentes

Um outro aspecto, prenhe de ensinamentos, do ciclo Sócrates diz respeito à facilidade com que era atacado com a maior violência. Fizeram-se acusações alucinadas, literalmente, tendo sido comparado com Saddam, Drácula e Hitler. Mas para além deste frenesim demencial dos oligarcas, o propósito foi sempre o de insinuar, quando não caluniar e recorrendo a magistrados e jornalistas, que Sócrates era criminoso. Criminoso no presente e criminoso no passado; portanto, criminoso no futuro. Quem estivesse com ele, criminoso seria, por actos ou omissões. Esta foi a estratégia de Belém, cujo nome de código era uma jura de vingança: Política de Verdade.

Mas a violência antipolítica não foi só apanágio das figuras gradas da direita partidária, ou da extrema-esquerda que alinhou com ela, também se estendeu para dentro do próprio PS. Alegre, Carrilho, Neto, Ana Gomes, Narciso Miranda, Seguro e muitos outros, em diferentes momentos e em diferentes modos, deram igualmente expressão a este propósito de sugerir que Sócrates não se limitava a ter um projecto e valores que eles recusavam, havia mais. Havia um mal terrível, uma ameaça fatal. Sócrates era um tirano que tinha conseguido amordaçar o PS, acabando com a liberdade. A única solução era o seu derrube, não valia sequer a pena entrar em diálogo com ele.

Por fim, foi criado um ambiente de histerismo colectivo, de que as manifestações de professores são o mais paradigmático exemplo, em que a celebração do ódio não tinha qualquer reserva ou receio, antes aparecia como catarse politicamente correcta. Direita e esquerda uniam-se contra um inimigo comum, havia festa nas ruas e ânimo nas almas.

A singela conclusão é esta: quando o povo se sabe respeitado pelas instituições e protegido pelas autoridades, sente-se à-vontade para amaldiçoar os governantes num berreiro sem fim; quando o povo se sabe ameaçado pelas instituições e perseguido pelas autoridades, cala-se tremendo de medo.

Com Sócrates, registe-se para a posteridade da nossa cidadania, os portugueses foram uns valentões. Sinal de um certo tempo de plena confiança no Estado de direito.

Good food for good thought

Researchers found that respondents who felt positively toward the Tea Party movement held the following primary cultural and political dispositions more often than other voters did:

• Authoritarianism: respondents believe that obedience by children is more important than creativity, and that deference to authority is an important value.
• Libertarianism: respondents believe there should not be regulations or limitations on expressions such as clothing, television shows, and musical lyrics.
• Fear of change/ontological insecurity: respondents sense that things are changing too fast or too much.
• Nativism: respondents hold negative attitudes toward immigrants and immigration.

Study Reveals Cultural Characteristics of the Tea Party Movement

Cineterapia


Angèle et Tony_Alix Delaporte

Quando se começa um filme com uma francesa a prostituir-se com um chinês, encostada a uma parede exterior num arrabalde qualquer da Normandia, e recebendo como pagamento um boneco Action Man falsificado, para onde se pode ir a seguir? The only way is up, baby.

Estamos frente à primeira longa-metragem de Alix Dalaport, conhecida em França pelos seus trabalhos televisivos. Ela quis filmar na terra onde nasceu, quis filmar as pessoas com quem cresceu. E quis filmar um rosto.

Citando de cor Agustina Bessa-Luís, para alguns homens, o rosto de uma mulher é o seu destino. Assim com esta obra, cujo destino é a viagem ao rosto da protagonista. Rosto esse que vemos a dilatar-se, numa espiral de silêncios e iluminações, até ao ponto em que refulge em êxtase.

É, mais uma vez, a história da Bela Adormecida. Com cheiro a peixe, sabor a sal e batida pelo vento frio que vem do mar.

Os putos

Entre o fado e a política, Carlos do Carmo chama ao 25 de Abril, “uma data bonita” – “Foi um clarão que traz consigo a esperança de ver resgatar a dignidade de um povo e de acreditar que juntos íamos fazer qualquer coisa”. Mas a realidade desiludiu-o: “Foi essa a esperança que tive e na qual acreditei durante alguns anos, até ver que a política é uma coisa muito delicada”.

Tanto que hoje não se revê no País. E explica: “Vou tão somente falar de uma pessoa: Aníbal Cavaco Silva. Que foi primeiro-ministro deste país quando entraram vagões de dinheiro e nunca o ouvi dizer ‘Este dinheiro tem que ser pago’! Quando era primeiro-ministro, a nossa agricultura foi vendida a pataco, as nossas pescas foram vendidas a pataco, a nossa indústria quase desapareceu (…) É tão fácil bater em Guterres, em Santana Lopes, em Durão Barroso ou em Sócrates. Não quero centrar-me numa pessoa e dizer ‘Eis aqui o bode expiatório disto tudo’, pretendo é alertar os portugueses que têm esta tendência para ter um paizinho, só que precisamos é de ter um paizinho sério. E merecemos mais do que este homem, que foi primeiro-ministro e que é Presidente da República!”

Fonte

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Para além da soberba hipocrisia e deboche constitucional, que marcam a passagem de Cavaco por Belém, um dos aspectos mais extraordinários ligado à sua figura é o apoio que tem recebido do PCP e BE. Vejamos.

Aquando da comissão de inquérito parlamentar ao caso BPN, os deputados bloquistas e comunistas tentaram superar os deputados social-democratas e centristas na fúria com que apontaram todas as armas contra o Banco de Portugal. Porquê? Porque estava lá um socialista. Fazer de Constâncio o culpado moral da roubalheira de milhares de milhões, assim alinhando com a sórdida estratégia da direita, era tudo o que os imbecis pretendiam. Portugal que se fodesse.

Aquando da Inventona de Belém, na prática a tentativa de um golpe de Estado através da comunicação social, os esquerdalhos ficaram entre o entusiasmados e o divertidos. Para eles, acontecesse o que acontecesse, havia sempre ganho. Em especial, estavam muito agradados com a possibilidade de sacarem ainda mais votos ao PS. Portugal que se fodesse.

Aquando da moção de censura de Cavaco no discurso da tomada de posse, algo que nenhum presidente anterior teria tido estômago para fazer e não se acredita que algum no futuro volte a repetir, PCP e BE comportaram-se como se tivessem metido Marx na gaveta e de seguida pegassem fogo à casa toda. Só assim se explica a cumplicidade activa com um plano que dependia da sua cegueira para interromper a legislatura e entregar o Governo ao PSD e CDS. A verdade era que os comunas preferiam mil vezes a direita conspiradora e anti-patriótica no poder ao PS. Portugal que se fodesse.

Contudo, há alguma beleza poética nisto de ver uma figura tão política e intelectualmente miserável como Cavaco papar ao pequeno-almoço os rubros proprietários do povo e da História. São como os putos cantados pelo Carlos do Carmo, sentadinhos ao colo do pai, mas com a fatal diferença de não ser com este que aprendem a ser homens.